Desenlaces e reencontros

Você, leitor, esteve em uma situação onde, com seus familiares ou amigos, embora todos pareçam estar desinibidos, todos tentam evitar falar do “elefante na sala”. Mabel tentava falar e agir como estava acostumada, mas estava difícil com tanta atenção. Geralmente ela não dava a mínima para o que as pessoas “normais” falavam ou quando a ficavam encarando, mas a atenção estava insuportável com a presença de Fortuna e Destino.

As pessoas “normais” consideravam Gorgo seu pai ou tio, então a “relação” entre eles era fácil de administrar, mas as pessoas acabavam “assumindo” outras coisas quando viam ela acompanhada de Fortuna e Destino. As pessoas “normais” ou achavam que Fortuna era sua irmã ou achavam que era sua mãe. Curiosamente, as pessoas “normais” comentavam com ela o que elas pensavam de Fortuna.

– Puxa, você é uma garota bem comportada e educada. Bem diferente de sua irmã mais velha. Ela devia usar roupas mais adequadas.

A coisa piorava se Mabel dissesse que elas não eram parentes. Ela queria falar que Fortuna era uma entidade, mas isso seria catastrófico. Destino, ao contrário de Fortuna, teve o bom senso de manifestar sua aparência com roupas “normais” para a época, mas arruinava o disfarce quando dizia para as pessoas o que realmente aconteceria em suas vidas. As pessoas preferem e querem imaginar um futuro rosado e adocicado, então vem o Destino e seu pragmatismo para estragar tudo.

– Meu senhor! Como assim, meu casamento é um casamento de conveniência? Como o senhor pode dizer que eu serei constantemente traída? Como o senhor pode dizer que meu chefe está apenas querendo abusar de mim e não vai me promover?

O leitor pode ver como ciganas, cartomantes e videntes sempre descortinam um futuro lindo e maravilhoso para seus “clientes”. Destino mostrava o que inevitavelmente aconteceria, a despeito do empenho, crença ou espiritualidade que a pessoa possuía ou consumia como se fosse uma barrinha de cereal.

– Pessoal, se vocês querem nos acompanhar e observar como é a vida de um mortal, vocês poderiam, ao menos, disfarçarem e se comportarem como mortais.

– Você diz como, viver sem sentido, sem propósito, preso com cadeias e correntes, fingindo ser o que não é ou fazendo o contrário do que acredita? Indiferença, escravidão e hipocrisia. Isso não é vida. Vocês quem deveriam ser como nós. Por exemplo, você e seu tutor. Eu sei o que você quer fazer. No seu lugar eu simplesmente faria. Eu chego, pego o meu irmãozinho e o ataco. Simples assim.

– Acredite, senhora Fortuna, ela serviu-se de meu corpo como bem quis. Ela percebeu que o sexo é superestimado. Existem fontes mais interessantes e mais intensas de desejo, prazer, excitação e satisfação. Por exemplo, eu estou me divertindo muito com Destino e seus vaticínios.

– Oho! Viu só, Destino? Esses mortais são mais interessantes e mais sábios do que você.

– Evidente, senão eu não os estaria observando. Este homem riu diversas vezes diante do meu rosto e isto me intriga. Esta garota demonstra ter um potencial impressionante ainda a ser descoberto. Eu quero descobrir de onde vieram tais espíritos.

– Mmmm… talvez sejam o resultado de nossa… atividade, irmãozinho.

– Olha, eu entendi a parte que vocês são seres que vivem na quinta dimensão, mas como nós podemos ser resultado hoje do que vocês fizeram?

– Então… Mabel, certo? Eu vou dizer por que eu gostei de você e nós temos muito em comum. Aqui onde vocês habitam o tempo é dividido e organizado em uma sequência linear. Para nós, o tempo é mais como um lago. Uma coisa líquida, moldável. Nós podemos nos transpor livremente para qualquer parte desse “lago”. Passado, presente e futuro são pontos onde podemos estar. Este momento presente é tão “real” e “concreto” para nós como o ontem e o amanhã. Esse cosmo onde se situa Gaia pode ser resultado de um evento que nós, Deuses, provocamos. O aparecimento da humanidade e especificamente o de vocês pode ter um motivo, um propósito. Diga, Mabel, quais são as chances de você ter conhecido o homem de sua vida exatamente no pior momento de sua vida?

– Eu não sei… mas… e o livre-arbítrio?

– Isso é mais complicado do que aparenta, Mabel. Você está tendo a incrível oportunidade de conhecer entidades aparentemente distintas: Fortuna e Destino. No entanto, eu sou a irmã mais velha. Não se deixe enganar, Destino é apenas um garotinho debaixo dessa barba branca cerrada e dessas roupas pesadas e formais.

– Fortuna! Pare de me envergonhar! Eu não sou um garotinho! Você é apenas alguns minutos [em termos humanos] mais velha do que eu!

– Eu estou ficando com nó na cabeça. Mesmo na quinta dimensão existe o tempo? Vocês são filha e filho de outros Deuses? Então existe sexo, desejo, prazer e êxtase na quinta dimensão?

– Oh, sim! Cronos é nosso irmão mais velho. Nós somos primos de Gaia e Urano. Nós somos uma grande família. Papai e mamãe geraram muitos de nós… então sim, sexo, desejo, prazer e êxtase são dádivas de nosso pai e mãe. Eu fico intrigada como sua gente pode acreditar em uma entidade e uma religião que condenam estas coisas.

– Talvez por que, titanesa, estes homens tenham confundido autodisciplina com proibição.

– Aummm… faz tempo que um homem não me chama de “titanesa”. Você me emprestaria um pouco seu homem, Mabel? Brincadeira. De certa forma você está certo, Gorgo. Sexo é superestimado exatamente porque o homem tem uma vida sexual muito pobre. Talvez por culpa do Destino, o homem tenha adquirido trauma em relação ao seu corpo e tudo que é carnal e mundano, quando começaram a acreditar que o divino é adverso a este mundo, que o divino é transcendente. Não deve ser novidade alguma falar que sexo não é apenas penetração e nudez não devia ser sinônimo de pornografia.

Os quatro estavam tão entretidos com a conversa que não perceberam a aproximação de um grupo de pessoas. Com expressões carregadas, estas pessoas carregavam cartazes com palavras de ordem. Algumas empunhavam um livro ou seguravam um estandarte com uma flâmula contendo a imagem de um morcego dourado. Uma garota, que parecia ser a líder deles, começou a interpela-los.

– Aqui estão, povo de Deus, os hereges infiéis! Nós precisamos convertê-los para a Verdade e a Vida! Nós precisamos trazê-los para nossa Igreja!

O grupo em massa apenas profere as palavras “Ogon Bato”. A garotinha continuava a fazer sua pregação moralista e teológica. Fortuna ria profusamente enquanto Destino ficava amuado. Mabel praguejava por não ter uma arma sequer em mãos. Gorgo estava pálido e de olho arregalado. Ali, na sua frente, estava Marie Miller, a filha do doutor Miller e protegida daquele esqueleto justiceiro.

Por algum motivo, depois da queda da torre e o desaparecimento do doutor Erich Nozo, Marie tornara-se uma fanática religiosa e fundadora de sua própria Igreja: Ogon Bato. Portando o Livro da Atlântida, ela rapidamente congregou vários seguidores que acreditavam que aquele livro continha a Verdade. Quem a contestasse ou a desafiasse recebia a visita do esqueleto justiceiro, que havia se tornado um mero fantoche dela.

Mabel percebeu que Gorgo estava perturbado com Marie. Mabel tinha motivos de sobra para desprezar a Marie pelo que ela falava. Pior, a garota era tão sem noção que falava em Deus mesmo diante de outros Deuses. Mabel vasculha seu bolso e encontra seu inseparável canivete. Sem hesitar, o tira do bolso e aciona a mola, armando a lâmina, que descreve um belo arco no ar até esguichar um lindo filete de sangue. Marie se cala e cai no chão, empapada no próprio sague. Evidente que a turba se desfez rapidamente assim que Marie deu seu ultimo suspiro.

– Mabel… você… por que? Você sabe o que fez?

– Ela fez em alguns minutos o que não conseguimos fazer em anos, Gorgo.

Gorgo e Mabel notam que ficaram mais duas pessoas. Uma pessoa vestida como profissional de enfermagem, conduzia outra pessoa em uma cadeira de rodas. A “enfermeira” tinha um tapa olho e carregava uma katana nas costas. O “inválido” tinha parte do tronco e apenas um dos braços, aparentava ser velho ou tinha alguma coisa cobrindo seu rosto. Mabel quer saber quem são estas pessoas enquanto Gorgo estremece.

– Do… doutor?

– Demorou para me reconhecer, Gorgo? Você está amolecendo, Gorgo. Nem percebeu minha presença… quem são seus amigos?

– Doutor… mil perdões… eu pensei…

– Todos pensaram, Gorgo. Mas você sobreviveu, meu bom amigo. Em seu lugar, eu pensaria o mesmo. Não seja tão rigoroso consigo mesmo. Eu também estou surpreso por ainda estar vivo. Bom, para ser educado, eu tenho que me apresentar. Muito prazer, eu sou o doutor Erich Nozo.

– Muito prazer, doutor. Eu sou Mabel. Eu sou… aluna… de Gorgo.

– O prazer é todo meu, Mabel, mas você está se subestimando… você é muito mais do que aluna de Gorgo, certo, meu bom amigo?

– Doutor… eu pensei… o senhor… eu…

– Eu vejo que você está irremediavelmente apaixonado, Gorgo e isso é bom. Eu creio que deva isso à interferência de Fortuna… certo, Deusa?

– Digamos que eu coloquei as peças no tabuleiro… mas cabe ao meu irmãozinho Destino o desenlace dos eventos.

– Como esperado de meus tios. Eu lhes rogo que cuidem do esqueleto justiceiro. Eu irei tomar conta deles por vocês.

Destino fica todo envergonhado enquanto Fortuna dá uma piscadela e ambos voltam para a quinta dimensão. Gorgo está embasbacado e Mabel desistiu de entender o que estava acontecendo.

– Eu sei que vocês estão confusos. Venham comigo. Na minha nova base, eu darei todas as explicações necessárias.

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