O Mercado Persa

Em algum lugar que, dependendo do ponto de vista de quem observa, ora é considerado como sendo os Bálcãs, a Ásia Menor ou Oriente Médio, um enorme galpão recebe o prosaico nome de Mercado Persa, onde embaixadores, diplomatas, presidentes, governadores e reis podem comprar livremente armas, veículos, munição e efetivos. Com uma extensão de área igual a dez estádios de futebol, o Mercado Persa é muito grande para não ser visto, mas curiosamente você não o encontrará no Google Maps. O Mercado Persa é completamente invisível até aos satélites que monitoram nosso planeta do espaço, existem muitos governos e empresas envolvidas na lucrativa Indústria da Guerra e estes grupos são praticamente os donos de tudo.

Mabel fica de olho arregalado, encantada e espantada com tanto espaço e mercadoria disponível. Uma pessoa normal teria torcicolo ou teria quebrado o pescoço há algum tempo. Gorgo conhece o Mercado Persa há muitos anos e conhece muitos dos fornecedores que ali expõem. Ele sabe qual mercadoria é boa, qual é lixo.

– Veja só, princesa. Um B-52. Excelente avião de guerra. Está em excelente estado, ainda com todos os equipamentos. Eu posso facilmente trocar, acrescentar ou adaptar qualquer tipo de armamento nesse bebê. A munição também é algo simples de trocar e adaptar. Você gostou?

– Sim, chefe, eu gostei muito, mas é grande demais para nós dois.

– Nesse caso, nós vamos adquirir uma tripulação e eu sei exatamente com quem falar.

Gorgo seguia pelos corredores e Mabel se deleitava vendo pequenos mimos, como uniformes em kevlar, botas ultrarresistentes, bastões elétricos, luvas que dispensam soco inglês e uma diversidade enorme de facas de comando. Ela memorizou o numero dos quiosques e certamente vai levar a bela pistola semiautomática em aço inox.

– Iury, meu velho, que bom te ver mais uma vez.

– Gorgo? Por Geórgia, Gorgo, é você mesmo? Meu velho amigo, eu pensei que nos veríamos novamente apenas do outro lado! Eu lamento pela perda de sua torre.

– A torre pode ser reconstruída, Iury… mas o doutor não pode ser substituído. Talvez seus contatos possam me dar alguma pista de onde o doutor está, se ele tiver sobrevivido.

– Eu vou fazer uma pesquisa. Eu também tenho uma dívida com o doutor. Mas o que eu posso fazer por você hoje, Gorgo?

– Eu e minha associada precisamos de tripulantes para nosso B-52. Quem você tem para nos recomendar?

– Sua associada mmm? Gorgo, seu safado, eu achava que você era contra misturar negócios com prazer. Quantos anos ela tem?

– Não seja indelicado, Iury. Meu negócio é o meu prazer. Nós, que vivemos como guerreiros, sabemos que as paixões, os amores e os prazeres carnais são meras necessidades, algo que deve ser naturalmente saciado, mas que não deve ser nossa prioridade. Quanto a minha associada, você deveria estar mais interessado em quantos ela matou, não com essas ridículas limitações etárias. Não se engane, meu velho, ela pode te decapitar sem que você sequer se dê conta.

– Disso eu não duvido, velho amigo, mas te ver elogiando assim faz com que eu desconfie que tenha algo mais entre vocês. Se bem que eu não tenho coisa alguma com isso… deve ser apenas inveja… bem que eu gostaria de ter uma presença feminina ao meu lado.

– Deixe de bobagem, Iury. Você é o maior e melhor fornecedor de efetivo para os exércitos de diversos países. Você deve ter “conferido” a mercadoria de diversas oficiais.

– Há! Você agora me pegou. Muito bem, eu tenho vinte e um fuzileiros que estão procurando um time para trabalhar. Eu vou te indicar para eles, Gorgo. Cabe a eles aceitarem ou não.

– Eles aceitarão. Disso eu não tenho dúvida. Vamos andando, “tenente”.

Gorgo segue o roteiro, indo para a seção de munição. Mabel ainda faz uma cara zangada para Iury, que acena com um sorriso. Ela nem perde muito tempo em considera-lo um acréscimo em sua lista, sua mente rapidamente o esquece assim que ela começa a apreciar as munições.

– Olha só, chefe! Cinturão de calibre 50! Pentes e mais pentes, com capacidade até duzentas balas calibre 40! Granadas de mão, granadas para escopetas, granadas com temporizador! Projéteis de bazucas, de lançadores ar-terra e teleguiados!

– Sim, princesa. Essa é a nossa “loja de doces”. Que tal colocarmos um canhão de calibre 60? Eu acho que tem uma pessoa que vai adorar disparar esse brinquedo. Dê só uma olhada nesses projéteis de 60 milímetros. São tão novos que eu consigo me ver no reflexo.

– Ohmeudeus… chefe… você vai me dar esse presente?

– Claro que sim, princesa. Você merece.

– Ai chefe, chefinho, meu amor… se não fosse por estarmos em publico, eu te comia agora mesmo.

– Eu sei que você gostou de estar por cima, mas por favor princesa, não se apegue nem se apaixone. Você evitou falar no assunto, mas o que sentiu quando passamos dos Tigres Amarelos para os Panteras Vermelhas? Eu quero ouvir sua opinião sincera.

– Chefe, eu tive tempo para pensar nisso. Ainda que não tenha sido incômodo para mim quando o fizemos, na minha outra vida talvez isso seria inaceitável. Quando eu era jovem e ingênua, eu acreditava nesses conceitos de valores, normas, morais, éticas… conceitos que me eram empurrados como verdades, mas que frequentemente eram violados pelas mesmas pessoas que os incutiam em mim. Aquele porco do Kahua, por exemplo. Diante da sociedade, ele mostrava uma máscara, mas eu sei bem o que ele via naquele computador, no escritório dele. Eu conheci muitos homens iguais a ele… como o Rabelais… falam em moral e bons costumes, mas secretamente mantém uma vida regada a saciar seus fetiches.

– Nós depois falamos sobre isso, antes que você definhe sua “pequena arma”. Vamos direto ao assunto. O que fizemos é chamado de traição. O homem tem uma peculiar aversão diante de atitudes que são contrárias a coisas como honra, confiança, acordo. Quem volta atrás em uma palavra dada, não é digna de confiança. Em situações reais, isso pode nos levar a dilemas terríveis e insolvíveis. Nós trocamos de lado. Se isso não a incomodou, como você se coloca diante da fidelidade que você jura ter por mim?

– Chefe, nós somos profissionais. Nós somos donos de nós mesmos. Somos nós quem escolhe a direção e o objetivo. Nosso trabalho é a guerra, não nos cabe essas questões ínfimas e limitadas que as pessoas comuns possuem. O entendimento do ser humano ordinário do que é bem ou mal é extremamente subjetivo. Um herói somente se torna herói depois do ato e do fato, depois da vitória. O mesmo herói torna-se vilão se derrotado. Nossa escolha deve ser lógica, racional e objetiva. Então foi para um “bem maior” que nós fizemos aquela escolha. Nós escolhemos e seguimos nossa decisão, tornando-se irrelevante o que as pessoas possam achar ou julgar nosso ato. Nós fomos fiéis a nós mesmos.

– Muito bom, princesa. Você deu uma bela pirueta, mas com o tempo isso ficará claro como cristal. Aquilo que você é, que você faz, você decide o que é importante. Apenas a sua opinião que importa. Eu espero que isso jamais aconteça, mas se for inevitável, você deve se manter livre e fiel a si mesma, mesmo que isso signifique se voltar contra mim. Consegue fazer isso?

– Eu não sei, chefe. Eu não sei se eu irei aguentar se eu ficar nessa encruzilhada. Eu sei que o senhor não sente atração por mim, mas depois que eu “experimentei” o seu sabor, eu acho que fiquei viciada.

– Nesse caso, a primeira coisa que deveremos treinar é o seu controle e domínio sobre essa sua “pequena arma”. Eu ficaria muito contrariado se você desperdiçar um trunfo tão espetacular e maravilhoso quanto este.

– Isso significa que o senhor vai me dar uma surra de bimba?

– Minha princesa, quando você souber como e quando usar sua “pequena arma”, eu é que serei surrado.

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