Filosofia de caserna

Passado o dia, a batalha terminada, enquanto a Força Pacificadora da ONU recolhia refugiados e sobreviventes, Gorgo estava concluindo a divisão do botim entre os veteranos. Os poucos novatos que restaram ganharam experiência necessária para suas próximas batalhas. Isso não é pessoal, nem entra qualquer questão moral, essa é a vida do guerreiro, poucos chegam a ser veteranos. Só se adquire experiência em batalha. E o campo de batalha é uma peneira na qual nem os veteranos estão isentos. Há apenas uma taxa relativa, algo entre 4 por 100. Quatro novatos entre cem prosseguem na carreira e um veterano tem quatro por cento de chances de acabar a carreira.

Os veteranos pegam a parte que lhe cabem, acenam e vão embora. Gorgo então procura por Mabel, para ver se ainda tinha sua aluna. Muitos feridos, civis e militares, entulham o hospital militar, mas Mabel não está ali. O necrotério tem muito mais corpos do que o hospital, mas Mabel não é encontrada. O problema das batalhas é que nem todo ferido é resgatado, nem todo corpo recebe exéquias. Uma batalha deixa muitos feridos e corpos incógnitos. Dependendo do local e extensão do dano, um ferido encontrado mais tarde vai engrossar o numero de casualidades. Demora mais tempo para encontrar corpos, se considerarmos as covas coletivas que são feitas durante a batalha e esquecidas após a vitória.

Gorgo achou peculiar a presença da Força Pacificadora da ONU aonde estava o quartel general dos Tigres Amarelos. Não fazia muito sentido a presença da ONU ali. Só restavam corpos e tendas vazias. Mesmo assim, Gorgo vasculhou as tendas.

Mabel acordou dentro da tenda de Rabelais por causa da movimentação de veículos. Sua barriga grunhiu, anunciando que estava com fome. Ela se levantou do chão onde adormecera para, pela última vez, ver sua obra prima. Ela ficou a noite inteira esculpindo o corpo de Rabelais, que está silente, seus olhos estão virados, seus lábios estão cianóticos e sua tez está pálida. Mabel sorri feliz com o resultado, embora seu uniforme esteja todo empapado com o sangue de Rabelais e com o gozo dela. Mas ela sabe que não pode permanecer ali e nem poderá mostrar sua arte publicamente. Isso a chateia, ela gostaria de ao menos mostrar para seu professor. Ela percebe alguém se aproximando de onde ela está, um vulto parece que vai entrar e ela fica pronta para acrescentar mais um em sua lista.

– Ah, você está aí, princesa. Eu sabia que você estava bem, em algum lugar. Então, o que é isto em cima dessa mesa? Eu não consigo identificar, mas imagino que isso seja o que restou de Rabelais. Eu estou orgulhoso de você. Isso é uma obra prima. Eu não faria melhor.

– Ch… chefe! Gorgo! Chefe! Ohmeudeus! Chefe, chefinho, meu amor!

Mabel está tão alegre que não se contem. Gorgo até tenta acalma-la, mas sem sucesso. Ela queria muito isso, alguém que aprecia, alguém que entende. Ela vai para cima de Gorgo, o abraça, o beija, arranca as roupas e praticamente o estupra. Gorgo não tem muito o que fazer, senão deixar que ela se sirva dele como quiser. Em poucos dias, sua aluna havia crescido e amadurecido muito mais do que o esperado. Mabel somente sossega depois de sentir Gorgo espirrar um grosso jato de sua essência dentro dela.

– Acabou? Olha, eu sei que hoje é um dia especial para você, mas nós temos que sair daqui. A ONU está vasculhando essa região e vão te encontrar, junto com sua… arte.

– Ohmeudeus… chefe, me desculpe.

– Está tudo bem. Você precisava disso, eu entendo. Mas eu duvido que tenha tido alguma satisfação ou prazer. Eu quero que você lembre bem do que sente agora, para que compreenda porque é necessário dominarmos nossas paixões, sentimentos e sensações.

– Chefe, eu não vou mentir. Eu tive algum prazer porque eu abusei do senhor, mas no fundo eu me sinto vazia, insatisfeita, incompleta.

– Está tudo bem. Ainda que de forma descontrolada, você despertou o potencial de sua “pequena arma”. Mas ainda não sabe como ou quando usá-la. Saia de cima de mim, vista-se e vamos embora. Você vai me auxiliar a “pagar minha dívida” com os nativos de Kalau.

Rapidamente Mabel se levantou e, ignorando o filete de um líquido cremoso esbranquiçado que escorria de dentro dela, vestiu seu uniforme, pegou suas coisas e iniciou com Gorgo a escapada, daquela região e de Myanmar. Facilmente como entraram no país, saíram dele, embarcando em qualquer dos cargueiros que funcionam 24 horas por dia, sete dias da semana, atendendo à incansável Indústria da Guerra.

– Chefe, quanto dinheiro nós temos?

– O suficiente para comprarmos uma cidade, por que?

– Como o senhor vai pagar sua dívida com os nativos de Kalau?

– Ah, isso… isso vai ser barato. Nós vamos dar uma passada em um mercado de armas. Nós vamos comprar uma aeronave de guerra, tripulação armamento e munição. Considere a ilha como um treino para nosso pequeno exército, princesa.

– O senhor vai comprar tudo isso e despejar tudo em uma ilha?

– Isso mesmo, até o ultimo projétil.

– Qual o objetivo, chefe?

– Pessoalmente? Estes nativos tiveram a péssima escolha de terem me aborrecido com suas bobagens. Isto a incomoda? Ou por acaso você ficou mais perturbada quando “trocamos de lado” e atacamos os Tigres Amarelos?

– Esse é o caminho do guerreiro, chefe? Essa é a filosofia da caserna?

– Princesa, se há um caminho, eu nunca o vi e nunca o segui. O que eu sou e faço agora é a minha verdade. Não há mérito, honra, dever, obrigação. Eu tenho controle sobre a minha vontade e isto é mais do que filosofia. Eu sigo a direção que a minha vontade aponta. O que ficar no meu caminho, interromper, impedir ou atrapalhar, deve ser removido ou eliminado.

– Uma noite o senhor falou dormindo o nome de um tal de doutor Erich Nozo. Quem é ele?

– Ah, minha princesa… precisa e afiada! Isso é um pouco mais complicado, pois é parte de meu passado e história.

– Chefe, se o senhor espera que eu entenda o treinamento, eu tenho que entender isso também!

– Agh! Segunda estocada! Princesa, como você definiria o que sente por mim?

– Ohmeudeus… eueueunãosei… chefe, ao seu lado eu sinto que eu vou crescer mais. O senhor é duro e exigente no treino, mas isso é para o meu bem! Isso faz com que eu me sinta grata e privilegiada. Aquilo que agora eu sou… eu devo tudo ao senhor.

– Pois é exatamente isto que eu sinto pelo doutor. Ele me inspirava, me estimulava, me desafiava. Ele se tornou um ideal para mim, princesa, algo que eu queria me tornar. Eu ficava impressionado com seu conhecimento, capacidade e habilidade, mesmo diante de situações difíceis. Levando em consideração suas deficiências, nós, que somos saudáveis, fazemos pouco.

Mabel franziu suas sobrancelhas e seu olhar ficou perdido em um horizonte imaginado. Gorgo pode ver a si mesmo, quando era jovem. O doutor foi mesmo uma pessoa que Gorgo quase amou, mas Gorgo não ousava se equiparar com o doutor, ele estava muito abaixo do nível dele e nem pela consideração que Mabel tinha por ele seria o mesmo.

– O chefe do meu chefe… eu quero muito conhecer o doutor, chefe.

– Agh! Fatalidade! Morri! Princesa, eu espero poder realizar este seu desejo. Nós podemos procurar pelo doutor juntos depois de apagarmos a ilha de Kalau, que tal?

– Combinado! Desde que eu possa operar algum equipamento e disparar até fazer o cano ferver!

– Claro, princesa, tudo o que você quiser.

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