O caminho do mercenário

Gorgo e Mabel estão em um ponto estratégico em uma montanha próxima do campo de batalha. Gorgo observa por um binoculo a movimentação das tropas enquanto Mabel tenta não ficar chateada, ocupando-se em limpar seu rifle de assalto pela décima vez.

– Você está sentindo, não está?

– Sentindo o que, chefe?

– A expectativa, a ansiedade. Seu sangue, seu corpo e sua mente estão pedindo por ação. Seu dedo está implorando para puxar o gatilho de seu rifle. Você precisa aprender a ter autocontrole. O nosso maior inimigo está dentro de nós mesmos.

– Chefe, isso é uma parada mística, esotérica?

– Oh, não, princesa. Isso é também psicologia, filosofia e ciência. O que nos distingue dos animais é que nós estamos cientes de nossa existência, somos capazes de dar um sentido a isso e podemos transmitir esse conhecimento. Na natureza, os animais agem pelo instinto, nós agimos pela vontade. Quando agimos por impulso, por paixões ou sentimentos, nós perdemos o controle. Esteja sempre no controle de si mesma para poder controlar qualquer situação.

– Mas e o infortúnio, o acaso, o inesperado? Como eu poso ter controle sobre isso?

– Tem coisas que dependem da gente, de nossa ação. Aquilo que não depende de nós ou de nossa ação, vai acontecer, então não deve ser de nosso cuidado. Com autocontrole, você consegue perceber, antecipar, esquivar ou minimizar o efeito de uma ação contrária resultante de outra vontade.

– Eu estou ficando confusa, chefe. Como que com a minha vontade eu posso ter domínio sobre mim e sobre a situação?

– Venha aqui e olhe o campo de batalha pelo binóculo e diga o que vê.

– Eu vejo ambas as tropas, movimentando, posicionando, de forma ordenada.

– Então existe uma ordem nas ações. De onde vem a ordem?

– De um comando.

– Então a ordem é externa. Se a ordem é externa, o que faz com que cada tropa siga a ordem? Isso somente pode acontecer quando a ordem está intrínseca no grupo como um todo. Um grupo somente tem ordem quando a ordem é parte intrínseca da vontade de cada indivíduo. Portanto, a ordem é algo interno, natural. Portanto, se há ordem na Natureza, existe a ação de uma ou mais vontades. Então nada existe por acaso, aleatoriamente, inesperadamente. Se qualquer coisa acontecesse por mero acaso, os pesquisadores não poderiam descobrir as Leis da Natureza, não seria possível ter qualquer certeza científica e objetiva sobre o mundo.

– Mas chefe… tem tanta coisa na natureza que é caótica…

– Oh, princesa, agora você está sendo infantil como o ateu. Você está isolando uma consequência, sem analisar a causa e, partindo de um julgamento humano de valor, decide qual efeito é bom ou ruim. Nós somos parte da Natureza, a Natureza não gira em torno do nosso umbigo. Aonde você vê caos, existe um mecanismo que segue leis determinadas e isso somente é possível onde há ordem pré-estabelecida. Não é porque não compreendemos ou não gostamos dos resultados, das consequências, que nós podemos descartar a presença de uma vontade em cada ação.

– Minha cabeça está começando a dar nó…

– Então vamos relaxar. Fique à postos. Chegou o momento que você tanto esperava. O campo de batalha sempre foi um excelente lugar para adquirir conhecimento na prática. Apenas me prometa que vai usar a razão e não a emoção.

Gorgo sorri e bagunça os negros cachos de Mabel com sua mão antes de avançar. Em sua outra vida, isso a chatearia, mas nessa vida, ela considera um elogio. Rapidamente se ergue, engatilha seu rifle e segue pela trilha lateral, para dar suporte e apoio ao ataque de Gorgo.

A estratégia é simples, atacando em duas frentes faz parecer que são dois destacamentos e não apenas dois soldados. De sua posição, Mabel vê que cada lado deixou suas posições ou formações de batalha e tudo parece caótico, como se cada soldado agisse por conta própria no campo de batalha. Mabel pensa em uma boa piada sobre sua experiência para contar a Gorgo, quando ela nota um destacamento avançando em campo aberto, aparentemente sem objetivo definido.

Parecem patos em uma barraca de tiro. Mabel até pensa em avançar um pouco mais, só para atirar em tantos patinhos. Felizmente ela parou e pensou, não agiu pela emoção. Respirou fundo e reavaliou o quadro. Observou o destacamento mais uma vez pela mira de longa distância e viu que parte parecia desorientada e parte prosseguia. O que pretendiam? O que procuravam? Mabel deslocou-se para um local completamente diferente, para observar melhor a região e olhou mais uma vez. Ainda estavam na mira. Mas todo o destacamento estaca desorientado, como se olhasse ou estivesse esperando por algo. Mabel até tenta entender o que tanto procuram, mas o local onde ela estava e onde ela pensava em estar explodem. Fumaça, fuligem e terra chegam a sujar seu cabelo, mas a explosão não a atingiu. Mabel percebeu então que aquele destacamento sabia, de alguma forma, onde ela estava e tinham planejado atrai-la para uma armadilha. Pela mira, ela viu que o destacamento olhava na direção da explosão, com uma expressão tensa e esperançosa. Mabel sorriu e apertou o gatilho. Quinze tiros, quinze corpos no chão. Depois se deslocou mais, pois certamente viriam mais projéteis tentando acertá-la.

Sons de disparos, zunidos, estrondos. Mabel tem que fazer um deslocamento rápido e em zigue-zague. Desperdício de munição. Mabel tranquilamente descansa quando a bateria de disparos cessou. Burros. Ela tinha aprendido o suficiente para identificar os sinais. A forma da cratera, a inclinação do buraco, a distância e o estrago mostravam que tipo de bomba usavam e de onde atiravam. Canhões são bem eficiente no que fazem, mas deixam um rastro muito fácil de seguir. Camuflada, Mabel praticamente passou debaixo dos narizes de seus atacantes, antes de cortar a garganta de cada um.

Esperta, preparou o canhão em uma coordenada e deixou uma bomba relógio para detonar depois. O canhão disparou enquanto ela seguia a trilha, admirando durante a corrida o belo arco que sua obra executava. Os quatro projéteis acertam exatamente onde ela tinha apontado. Há cem metros do quartel general dos Tigres Amarelos, um cumprimento de saudação dela a Rabelais. Os destacamentos que estão no local começam a entrar em desespero e descontrole, correndo de um lado a outro, como se estivessem sendo atacados por um imenso efetivo, atendendo os feridos, apagando os incêndios, organizando barricadas. A bomba relógio que havia deixado no canhão atrai a atenção de todos e ela, com o uniforme dos Tigres Amarelos, sequer é notada, questionada ou impedida.

Mabel tenta segurar a palpitação e a respiração quando entra na tenda do comando central, onde o comandante Rabelais discute com seus generais as ordens de batalha. Todos se voltam para ela. Rabelais faz a pior escolha possível nesse momento para sua vida. Profere suas ultimas palavras.

– Qual o problema, garotinha? Veio procurar por sua mamãe? Aqui não tem lugar para choro. Volte para seu lugar que nós estamos sob ataque.

Mabel gargalha muito. Uma risada que faz gelar o sangue dos generais. Os mais rápidos e espertos saem correndo. Os mais lentos caem feito folhas secas. Sozinho em sua tenda, Rabelais se borra todo. Ele sequer tem coragem de tentar se defender. Mabel o atinge com a faca em ponto nevrálgicos, que o imobilizam, mas não o matam.

Mabel amarra e amordaça Rabelais que implora com o mesmo olhar daquele garotinho da mamãe. Mabel lambe os lábios como uma pessoa faminta diante de um prato cheio. Ela tem todo o tempo do mundo. Com o acampamento em ataque, os generais que conseguiram fugir não serão ouvidos. Mesmo se dissessem algo, ninguém acreditaria que uma garotinha os enxotou.

– Eu sei que você imaginou diversas formas de me estuprar. Igualzinho ao imprestável Kahua, meu finado chefe. Bom, eu vim para realizar um sonho. Eu irei abusar de seu corpo de formas que você nunca, jamais, teria inteligência, capacidade, competência, coragem ou criatividade de imaginar. Eu vou dar prazer. Ao menos será um prazer para mim.

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