Esclarecendo o conceito de “cultura do estupro”

Autora:Maisha Z. Johnson.

Publicado originalmente em Everyday Feminism.

O que você diria se alguém oferecesse uma oportunidade para reduzir o numero de violência sexual em sua comunidade?

Eu não estou falando em organizar um grupo de vigilantes ou em fazer uma generosa doação para uma organização anti-estupro – mas de ações práticas em sua vida diária que podem ajudar a diminuir a violência sexual.

Você toparia?

O que aconteceria se eu dissesse que isso significa falar na cultura do estupro?

Eu encontrei diversas pessoas que concordam que o estupro é ruim e que precisa parar, mas hesitam em falar da cultura do estupro.

Cultura do estupro é o conjunto de práticas culturais que permitem que a violência sexual aconteça e a desculpam quando acontece.

Em minha experiência, as pessoas que hesitam em falar disso são frequentemente – mas não sempre – homens. Eles acreditam que a ideia de cultura do estupro coloca uma culpa injusta em seus ombros.

Na ótica deles, eles nunca estupraram alguém e eles consideram o estupro algo horrível, então porque eles seriam responsáveis por ter feito algo assim?

Eu entendo que é desconfortável estar associado com um ato tão vil. Se eu disser que você pode mudar seu comportamento rotineiro para ajudar a parar o estupro, isto significa que algo em seu comportamento rotineiro pode estar contribuindo para o estupro.

Eu não te culpo por ficar na defensiva diante da ideia. Mas o problema é que ficar na defensiva não ajuda em coisa alguma.

Pessoalmente, eu fico em guarda assim que eu ouço que “não existe a cultura do estupro”.

Isso acontece por autodefesa, também – porque esta afirmação costuma vir junto com uma condenação da vítima e até negando que o estupro é um assunto importante.

Mas nem todos que negam a existência da cultura do estupro é totalmente dissimulado sobre o estupro. Existem pessoas que ficam perturbadas com a violência sexual, mas acham que a cultura do estupro é algo que eles não querem mexer.

Então vale a pena ao menos tentar ficar no mesmo pé sobre o que estamos falando.

Se você não acredita em cultura do estupro, eu baixo minha guarda e te dou o benefício da dúvida. Eu tenho certeza que você nunca concordaria com a violência sexual.

Enquanto você lê esse texto, eu te convido a baixar a guarda. Considere a possibilidade que talvez você possa estar desprezando a cultura do estupro porque você não entendeu o que significa.

Eu espero que nós possamos nos encontrar em um lugar aonde você tem a chance de fazer uma diferença positiva, sem o medo e a hesitação que aparece quando alguém fala em cultura do estupro.

Vamos falar sobre o que outros advogados, ativistas e eu realmente estamos querendo dizer quando discutimos a cultura do estupro.

Aqui estão algumas das coisas que as pessoas acham que nós falamos – e porque estas objeções estão enganadas.

1. Nós não estamos dizendo que toda interação é estupro.

Eu conheço gente que se queixa que o conceito de cultura do estupro ofende as vitimas ao comparar interações aparentemente inofensivas com violência sexual.

Se nós estamos realmente fazendo essa comparação, eu entendo este ponto.

Por exemplo, homens participam da cultura do estupro quando eles me encaram em publico – mas eu não estou falando em gritar estupro somente porque alguém me olha do jeito errado.

Eu estou falando sobre reconhecer as conexões entre coisas diferentes.

Para registrar, eu sou uma dessas vítimas de estupro – mas eu nunca estive remotamente ofendida pelo conceito de cultura do estupro.

Afinal, falar sobre a cultura do estupro incluem coisas diárias como assédio na rua, normas de gênero e a Mídia, nós não estamos dizendo que estas coisas sejam estupro.

Eis o que estamos falando: nada acontece por acaso.

Queira nós admitir ou não, a sociedade influencia nossos pensamentos, costumes e comportamentos diários.

Tudo, desde como nós tomamos o café até como criamos as crianças, pode ser moldado em parte pela cultura ao nosso redor – então por que a forma como abordamos a violência sexual não poderia ser influenciada?

Por exemplo, quando alguém costuma ver o corpo da mulher ser representado na Mídia como algo que existe apenas para seu prazer, então não é muito difícil pensar que isso influencia como a mulher é vista em sua vida.

Talvez você não sinta ter o direito sobre o corpo de uma mulher sem o consentimento dela – mas isto não é razão para negar a objetificação diária da mulher e a violência que desumaniza a mulher.

Não é apenas a mulher que sofre o estupro – a violência sexual afeta as pessoas de todos os gêneros. Mas este é um exemplo de como as normas patriarcais de gênero pode gerar expectativas prejudiciais para a mulher e outras pessoas que são tratadas da mesma forma como a sociedade trata a mulher.

2. Nós não estamos dizendo que todos os homens são estupradores.

Eu tenho certeza de que tem gente que me pegou culpando os homens.

“Aha! Você mencionou papéis patriarcais de gênero machucando a mulher – você está dizendo que todo homem é um estuprador?”.

Não foi isso o que eu disse. Vamos desembrulhar o que eu disse.

Você conhece as normas de gênero – elas são as nossas expectativas sociais que todo mundo é ou homem ou mulher e que certas aparências, comportamentos e papéis definem o que significa ser um homem ou uma mulher.

Pense, por um momento, sobre a diferença como meninos e meninas aprendem sobre o desejo sexual.

Muitos meninos aprendem da Mídia, da família e do público que o homem naturalmente tem um forte desejo sexual por mulher. E que um homem que “pega” muitas mulheres é um “garanhão”.

As meninas aprendem das mesmas fontes que seus corpos provocam a tentação e que o prazer sexual é apenas para o homem. Então a mulher que “entrega” seu corpo a diversos parceiros sexuais é considerada uma “vagabunda”.

Você provavelmente entende como essas normas machucam todos os envolvidos.

Por exemplo, o homem que não sente atração por mulher ou que não sente desejo por muito sexo, é envergonhado e pressionado a provar sua masculinidade por objetificar a mulher.

A mulher é socializada para acreditar que ela deve colocar o prazer do homem antes do dela.

As pessoas que são homossexuais, transgênero, não-binárias, intersexuais ou assexuadas são completamente apagadas da narrativa de como se supõe como o sexo acontece entre homens e mulheres cisgêneros.

Essa narrativa contribui para a cultura do estupro com a ideia de que um garoto só é um homem de verdade se ele transar com várias mulheres.

Sem duvida você não precisa ser um estuprador para participar destas normas sociais. Elas aparecem quando casualmente você brinca com seus amigos sobre quem está ou não dentro dos padrões de masculinidade.

Mas esta é a mesma ideia que aparece quando um homem ou uma pessoa percebida como masculina são ignoradas como vítimas de estupro por causa da suposição de que estão “sempre a fim” de sexo.

E quando a mulher ou pessoa percebida como feminina tem sua vida sexual investigada e julgada como prova de que podem estar mentindo sobre terem sido estupradas.

Não, nem todo homem é estuprador. Mas toda pessoa pode perpetuar a cultura do estupro apenas seguindo as dolorosas normas sociais.

3. Nós não estamos dizendo que a sociedade promove explicitamente o estupro.

Nós temos que falar da ideia de que os países ocidentais não tem uma cultura de estupro.

“Mas você vive nos EUA! Tente ir ao Oriente Médio, aonde realmente existe a cultura de estupro”.

Eu acho que entendo o que leva a esse engano. Você encontra as palavras “estupro” e “cultura” lado a lado e pensa que isto significa uma cultura que explicitamente endossa a violência sexual.

Você aponta para exemplos terríveis do que acontecem com a mulher em outros países – e diz que, em comparação, as feministas nos EUA estão apenas reclamando de problemas do primeiro mundo.

Em nossa sociedade, papéis de gênero são reforçados em nível estrutural – e o rotulo de problemas de primeiro mundo é aplicado aos modos sutis como nós os mantemos.

Nossa resposta diante de meninos assediando meninas se resume a problemas do primeiro mundo? Pais usualmente desculpam esse comportamento dizendo que “garotos sempre serão garotos” e dizendo às garotas que “ele faz isso porque gosta de você”.

Eles não estão literalmente dizendo para meninos crescerem para serem estupradores, então você pode achar que nós devemos nos preocupar com isso.

Dizer que a cultura do estupro é parte da sociedade americana não é o mesmo que dizer que todos em nossa sociedade estão intencionalmente encorajando o estupro.

Muitos pais que dizem “garotos são garotos” estão apenas transmitindo o que aprenderam. Eles não viram que eles podem estar desapercebidamente ensinando ideias toxicas sobre consentimento.

Uma garota crescendo nos EUA encontra códigos de vestimenta escolar que a torna responsável em cobrir seu corpo para que ela não “distraia” os meninos e os homens, a Mídia apresenta a caçada como “romance” e seus próprios pais dizem que o assédio de um garoto significa que ele gosta dela.

Nenhuma dessas palavras especificamente inclui as palavras “você merece ser estuprada”. Mas podem ajudar a ensiná-la que seu consentimento não importa.

E esta mensagem é parte do por que tantas sobreviventes de assédio sexual são culpadas pela violência que sofreram – tanto pelos outros quanto por elas mesmas.

O estupro nunca deveria acontecer – nem mesmo nos países ocidentais. Dizer que outros sofreram mais nada mais é do que uma distração do que está acontecendo aqui em nossa casa.

4. Nós não estamos dizendo que você nunca deve falar com uma mulher.

Alguns homens chegaram a conclusões bastante pessimistas depois de aprenderem sobre o conceito da cultura do estupro.

Eles dizem: “eu acho que eu nunca mais vou falar com uma mulher porque as feministas dizem que isto me faz um estuprador!”.

Se você tem esse pensamento, faça uma pausa para ter certeza que você tenha entendido o que estamos falando antes que você fique embotado diante de uma mulher.

Sim, nós estamos apontando para o potencial perigo em interações aparentemente inocentes.

Por exemplo, você vê uma mulher linda lendo um livro no parque. Ela está sozinha e você a acha atraente, então você diz “olá” e pergunta o nome dela.

Um simples cumprimento. Você não deseja fazer mal e é possível que você não cause um. Algumas mulheres não ligam em serem abordadas publicamente.

Mas a despeito de como esse momento discorre, eis a verdade desafortunada relacionada com isto: muitas mulheres e pessoas não-binárias sabem o que é ter estranhos (geralmente homens) invadirem seu espaço em público.

Nós recebemos comentários sobre nossa aparência – inclusive cantadas vulgares de pessoas que dizem estarem nos “elogiando” e “dando conselhos” sobre como nós não devemos nos vestir. Nós recebemos encaradas, gestos explícitos, agarrões e somos expostas.

Às vezes nós dizemos não e eles não param. Às vezes nós tentamos ser gentis, na esperança de que isso vai nos deixar seguras e eles não param.

Às vezes nós os ignoramos, gritamos dizendo “eu tenho namorado”, mudamos nossa rota, carregamos spray com pimenta, vestimos roupas folgadas – nós tentamos qualquer coisa para simplesmente existir em público sem ser objetificadas.

E na maioria das vezes, nada disso funciona. As pessoas violam nossos limites, nos ameaçam, atém mesmo nos atacam e nos matam por ter dito não.

Certo, muitas de nós não se importam em ser abordadas. Mas a mulher que você está se aproximando pode apenas estar querendo ler em paz no parque e mesmo uma conversação com um estranho pode lembrá-la de que ela está constantemente sendo objetificada.

Porque – enquanto você sabe que suas intenções são inocentes – ela não sabe quem é você ou como esse cumprimento pode incomodar ou machucar ela. Depois de tantas objetificações, se tudo que ela pode pensar é que ela não pode sequer ler um livro sem que outra pessoa a incomode, você pode mesmo julgá-la?

Para ser clara, eu não estou te acusando de estupro ou de estar intencionalmente contribuindo para a cultura do estupro apenas por dizer “oi”. E falar da cultura do estupro não significa que você não pode nunca ser amigável.

Mas isso significa estar alerta das condições que a mulher e as pessoas não-binárias estão lidando e compreender o porque nossos limites são necessários para nos proteger.

Você sabe o que mais é parte da cultura do estupro? Dizer que nós estamos exagerando sobre nossas experiências e acreditando que devemos deixar isso de lado porque é isso que os papéis de gênero determinam.

Uma mudança que ajuda pode ser tão simples como ter certeza de ler a linguagem corporal de alguém e respeitar seus limites ao invés de se achar no direito em alugar publicamente alguém somente porque parece ser uma mulher.

Isso não é pedir muito, certo?

***

Algo disso é diferente do que você pensa sobre o que é o conceito de cultura de estupro?

Reconhecer as cordas escondidas nas normas sociais tóxicas pode ser difícil. Mas se você está realmente aberto em encontrar evidencia da cultura do estupro, mantenha em mente o que esse termo significa e você entendera como isso está presente em sua volta.

Enquanto estes assuntos são complicados, a mensagem de combater a cultura do estupro é bem simples: nós todos estamos aprendendo algumas lições perigosas sobre consentimento, nós precisamos desaprendê-las e parar de transmiti-las para os outros.

Meninos e homens estão sendo desumanizados pela pressão de serem máquinas sexuais furiosas.

Meninas e mulheres estão aprendendo que seus corpos não lhes pertencem.

Todo mundo está sendo forçado dentro dessa caixinha de gênero e sendo punido por não se encaixar.

E muitos de nós são sobreviventes lidando com o vil impacto da violência sexual, a vergonha e o julgamento que seguem.

Podemos concordar que isso é prejudicial para todos?

Todos nós temos o poder para contribuir com algo para mudar estas condições, nós podemos nos policiar, falar com amigos e ouvir aos sobreviventes.

Coletivamente, nós podemos nos curar das expectativas que a sociedade coloca em nossas costas.

Negar a existência da cultura do estupro é apenas emperrar o caminho. Se você consegue aguentar o desconforto de encarar essas verdade duras, então você pode definitivamente fazer algo para acabar com a violência sexual.

Maisha Z. Johnson é Aassociada do Conteúdo Digital e escritora da equipe do Everyday Feminism. Você pode achar seus escritos nas seções e descaradamente entregando-se à sua obsessão com a Cultura Pop na Web. O trabalho anterior de Maisha inclui a Community United Against Violence (CUAV), a organização anti-violência LGBT nacional mais antiga e “Fired Up!”, um programa da California Coalition for Women Prisoners. Através de seu projeto pessoal, Inkblot Arts, Maisha mexe com artes criativas e mídias digitais para amplificar a voz daqueles muitas vezes silenciados.

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