Seguindo o vento

Três helicópteros apache dão um rasante pela região e o barulho de suas hélices despertam Mabel. Ela se dá conta que está em uma barraca e, pelo cheiro de terra e mato, o acampamento está em algum local do campo de batalha. O sol ainda está inclinado e uma brisa suave indica que é de manhã. Mabel se põe sentada e, a despeito de estar nua da cintura para cima, ela está mais curiosa com a gosma verde que foi colocada em cima de seus ferimentos.

– Muito bom dia, princesa. Acordou na hora certa. Nosso café está pronto.

Gorgo traz um canecão com algo quente e uma chapa de ferro com raízes, frutas e vermes assados no espeto. Uma pessoa comum teria nojo, mas a proteína de um gusano assado é mais saudável do que a proteína de uma picanha de boi assada. Mabel come sem fazer perguntas nem reclamar. Ela sabe que esta comida é considerada um manjar entre os soldados. Come e sacia sua fome, mas aparenta estar contrariada.

– O que foi, princesa? Não gostou de seu batismo de sangue? Ainda está com remorso do que fez ontem?

– Desculpe, chefe… eu sei que não posso reclamar nem fazer perguntas… mas é a segunda vez que passamos a noite juntos. Eu sou tão repugnante assim?

– Oh, não, princesa. Eu posso te garantir que você certamente estava nas fantasias de seu finado chefe. Você certamente está na imaginação dos soldados novatos. Garotos são garotos, eles implicam com você para te chamar a atenção. Aliás, você deve ter autoconfiança em si mesma e em sua aparência, sem precisar que um homem fique babando ao olhar para você, para você saber que é sexualmente atraente.

Mabel mastigava a comida e a explicação, engolia, mas não processava. Ela estava com a pergunta na ponta da língua, coçando, pedindo para ser proferida, quando o comandante Rabelais surge e interrompe a reunião.

– Bom dia, mercenários. Eu espero que tenham gostado de meu parque de diversão. A tropa deve se reunir em cinco minutos. Nós começaremos uma marcha até as montanhas para acuar os Tigres Amarelos.

Gorgo apenas faz um sinal com a mão apontando o polegar para cima. O comandante, antes de sair, encara o peito desnudo de Mabel.

– Ora, ora, ora! Uma garota!

Mabel levanta, furiosa.

– Sim! Uma garota! Que matou em uma única noite mais soldados do que qualquer um aqui! Eu tenho mais “bolas” do que você!

– Opa… garota nervosa, hem? Meu anjo, para mim pouco importa quem ou o que você é. O que me interessa é que você arrase meus inimigos. Mas não venha choramingar no meu ouvido se algum soldado abusar de você.

– Pois que tente! Vão comer capim pela raiz! Minha faca vai entrar neles até o cabo! E eu vou ficar vendo suas almas partirem com um sorriso no rosto!

– Eu não duvido, meu anjo… eu tenho pena do seu colega aqui. Ele parece ser veterano, então eu estranhei dele ter uma garota com ele sem fazer uso e sem compartilhar com seu comandante. Mas eu vou deixar para lá, você não tem conteúdo suficiente para me satisfazer.

Rabelais solta uma gargalhada, mas Gorgo não riu e Mabel estava para explodir. Rabelais bufa e grunhe, mas segue pelo acampamento, transmitindo o comunicado aos demais.

– Chefe… eu vou matar esse porco na primeira oportunidade.

– Faça. Não precisa me pedir permissão. Esse animal não vai durar muito. No mínimo conseguiu suas divisas por ser parente de alguém de patente. Mudando de assunto… conte-me qual foi sua sensação ontem, durante a batalha?

– Eu me senti ótima! Meu sangue fervia, minha respiração estava descontrolada e meu corpo inteiro tilintava! Quando eu cravei a faca naquele garotinho da mamãe, quando ele deu o ultimo suspiro, eu senti algo que eu nunca senti antes… como um choque, uma energia, descendo por minha espinha e algo jorrou de dentro de mim.

– Bravo, princesa, bravo! Você acaba de descrever um orgasmo. Consegue entender que você gozou, sem ter tido sexo?

– Eu não tenho certeza… eu só sei que eu adquiri essa experiência e isso basta.

– A conversa está boa, mas devemos nos juntar ao pelotão. Sente o vento? Eu acho que nós teremos uma mudança.

Mabel olha intrigada para Gorgo, tentando decifrar o enigma, pois a brisa da manhã tinha acabado e o ar estava parado. Gorgo sai da barraca com sua mochila e Mabel empacota suas coisas com presteza e corre atrás de Gorgo.

O areal estava cheio de mercenários organizados em equipes, todos perfilados, ouvindo as abobrinhas que Rabelais despejava. Mabel só pedia a Deus por uma chance para cortar aquele pescoço seboso. Os novatos demonstravam impaciência. Gorgo e os veteranos permaneciam impassíveis. Mabel quer aprender esse truque.

– Senhores! Hoje nós vamos acabar com a raça dos Tigres Amarelos! Será a glória do Exército de Libertação Pantera Vermelha! Myanmar voltará a ser governada pelos legítimos governantes! Avante!

O pelotão grita, entusiasmado, enquanto Mabel decide se estão felizes por ter acabado o discurso enfadonho ou se estão felizes por voltarem ao que interessa. Como no dia anterior, o pelotão é separado em grupos e cada grupo segue uma linha de batalha. Mabel nota que Gorgo se distancia mais e mais do bloco. Será que seu chefe vai fazer uma missão solo?

– Aqui está bom. Solte um rojão de sinalização, Mabel. Depois aguarde mais instruções.

Mabel arma o sinalizador e aciona o gatilho. O rojão sobe, soltando uma trilha de fumaça azul e o projétil acende ao chegar na altura máxima. As folhagens do mato se agitam e surge outros soldados e outros uniformes.

– Saudações, Tubarão e Pardal. Eu sou o comandante Andersen, do Exército Legalista Tigres Amarelos. Eu agradeço por ter aceito nossa proposta e convite. Como parte da colaboração dos senhores em pacificar essa região em Myanmar, eu estou concedendo aos senhores armas, munições e veículos.

– Nós que temos que agradecer por ter nos escolhido, senhor Andersen. Nossos irmãos estão aguardando ansiosamente que nosso acordo seja bem sucedido. Eu devo recordar que, como parte do acordo, o senhor irá garantir a segurança dos meus irmãos após o desbaratamento dos Tigres Amarelos e nós nos comprometemos a sair de seu país. Nós temos um acordo, senhor Andersen?

– Perfeitamente. Este é o documento, selado e assinado, ao senhor e seus irmãos, concedendo imunidade e liberdade para saírem de Myanmar, sem retaliações ou emboscadas. Nosso presidente Suharto me pediu para agradecê-lo por este gesto. O senhor é um herói, merece ganhar medalha e estátua.

– Diga ao senhor presidente que nós agradecemos, mas nós somos meros mercenários. Dar-nos honrarias acabaria trazendo desconforto a este lindo país. No entanto, talvez meu colega Pardal tenha um pedido…

– Senhor Andersen, eu peço apenas uma coisa. Eu quero a cabeça de Rabelais.

Andersen acena, em acordo, mãos são apertadas, papéis são assinados, despedidas são proferidas. Os Panteras Vermelhas somem no mato e Gorgo expressa um enorme sorriso de satisfação. Ele lembra que fez uma promessa a certos habitantes de Kalau.

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