A dificil relação entre mestre e aluno

A guerra é o negócio mais bem sucedido e lucrativo desde que a Era Moderna teve início. A movimentação de armas, munições e mercenários segue por diversas rotas e métodos. No porto de Fiji, Gorgo não tem dificuldade em encontrar um dos muitos cargueiros clandestinos que são completamente ignorados pela Guarda Costeira. Algo normal, para um país subdesenvolvido. Falta de efetivo, de maquinário ou simplesmente corrupção. Ninguém vê, ninguém pergunta, contêineres entram e saem como se não existissem.

A tripulação também não faz perguntas quando Gorgo sobe à bordo, com Mabel agarrada em seu braço. Os marinheiros estão ocupados demais com as cargas, diversos caixotes que Gorgo sabe que contêm peças para os mais diversos tipos de armamentos. Em peças isoladas, mesmo em portos grandes e fiscalizados, passam como equipamento para montagem.

– Mabel, fique escondida aqui ou tente se ocupar com algo. Nem sempre eu vou poder estar ao seu lado e te proteger. Nós estamos em um navio pirata, mantendo-se ocupada ninguém vai te incomodar.

– Você bem que podia me ensinar essas coisas…

– Não se engane com minha aparência, Mabel. Eu sou um monstro insensível. O pouco de humano que ainda resta em mim se recusa fazer contigo a mesma coisa pela que eu passei.

– O…olha aqui, eu sou bem forte viu!? Achar que eu não posso ou não consigo é machismo, sexismo, etarismo!

– Muito bem, Mabel… mas se eu começar a te treinar, eu não vou parar, por mais que me peça, chore e implore. Ou você atinge o objetivo ou morre no processo.

Mabel balançou a cabeça. Gorgo deu de ombros e ambos começaram a carregar os caixotes, como se fossem parte da tripulação, sem que qualquer marinheiro protestasse. Goro carregava facilmente quatro caixotes e Mabel custou a carregar um. Quando tudo estava embarcado, Gorgo e Mabel compartilharam da comida servida à tripulação.

– Coma sem perguntar e sem reclamar. Isso faz parte de seu treinamento.

– Chefe, eu fui bem hoje?

Mabel olhava Gorgo fixamente com o olhar semelhante de um filhote de cachorro. Ser chamado de chefe por um projeto de gente, de mulher, traz uma sensação estranha, agradável e saudosa. Sem saber bem por que, Gorgo resolve elogiar a garota.

– Sim, você foi bem hoje. Considerando que você trabalhava em um escritório como recepcionista. Mas não fique muito feliz ou alegre. Eu ainda nem comecei a te treinar sério.

Evidente que Mabel não ouviu o resto, apenas a primeira parte. Ela abriu um enorme sorriso, suas bochechas ficaram avermelhadas e ela deu um abraço apertado em Gorgo. Ele havia acabado de adquirir um animalzinho de estimação.

Quando o navio alcançou o mar profundo, as águas internacionais, a tripulação ficou mais relaxada. Um ou outro marinheiro parecia notar a presença de Gorgo e Mabel, mas não dava muita importância. Pelo código dos mares, eles haviam ajudado a carregar o navio, mereciam ao menos serem levados até o porto de destino da carga. Mabel se aninhou em cima de um carretel de cordame e dormiu. Gorgo ficou satisfeito. Ele escolheu bem sua “aluna”. O treino sério podia começar no dia seguinte.

– Bom dia, princesa. Acorde que o treino sério vai começar.

– Oaahhoo… bom dia, chefe. Que horas são?

– O sol deve aparecer em breve. Você corre rápido?

– Há! Eu fui a campeã da minha escola!

– Então vejamos o quanto você corre. Daqui da proa à popa. Tente ganhar de mim. Pronta?

Mabel adora disputas. Ela se coloca em posição de corrida. Um marinheiro qualquer dá um sinal e Mabel sai na frente, correndo com toda sua força. Ela dá uma olhadinha por trás do ombro e não vê Gorgo a seguindo. Moleza, pensava ela. Quando ela olha para a frente, quase próxima da popa, Gorgo a aguarda. Mabel freia e para sua corrida a alguns centímetros do final.

– Mas… como?

– Você tem que treinar mais. Quando acabarmos, você será capaz de correr mil vezes mais rápido, sem que alguém sequer te perceba. Venha, vamos ao depósito de cargas. Vamos ver o quanto é forte.

Gorgo e Mabel seguem até o depósito de cargas enquanto os marinheiros parecem pagar ou discutir suas apostas. Na “barriga” do navio, diversos caixotes, caixas e contêineres estão dispostos pelo espaço. O depósito é bem iluminado, mas um pouco abafado. Gorgo fica diante de um caixote médio e parece indicar para Mabel.

– Isto deve ter trinta quilos. Consegue levantar?

– Coisa de bebê.

– Este aqui tem cinquenta quilos.

– Unf… parece ser mais.

– Este tem cem quilos. Levante.

– Ah, qual é, só um halterofilista consegue levantar isso.

– Quantos quilos você acha que eu consigo levantar?

– Uns oitenta… noventa… no máximo.

Gorgo vai até um veículo pequeno, agacha, põe suas mãos por debaixo dele e com dois impulsos o levanta acima da cabeça.

– Quando acabarmos, você será capaz de erguer uma tonelada ou mais. E este é apenas o treinamento físico básico. O treinamento inclui o controle da respiração, da pulsação, da emoção, da sensação e da dor. Então? Ainda quer continuar?

– Eu sou uma Marble! Ninguém na minha família volta atrás na palavra! Se você pode e consegue, eu também posso e consigo!

– Excelente. Eu farei que Marble vire Marvel. Com seu esforço e dedicação, é bem capaz que consiga me superar. De Marvel, será Wonder.

– Então vamos continuar!

– Por hoje, erga o caixote de cinquenta quilos, até chegarmos ao porto de destino.

Mabel manteve durante o dia inteiro sua decisão e determinação. A viagem prosseguiu até o porto de destino, com a lua despontando no céu. Quando o capitão anunciou para a tripulação descer e descarregar as cargas, Gorgo foi olhar como Mabel estava.

– Então? Cansada? Desistiu?

– Che… chefe, eu estou um pouco cansada sim, mas eu não parei até agora. Quer saber de algo engraçado? Olha só, eu consigo erguer esse caixote com uma mão só.

Desenvolvimento e evolução impressionantes. Gorgo está realmente satisfeito consigo mesmo. Escolheu bem sua “aluna”.

– Excelente. Nós chegamos ao destino. Vamos ajudar a descarregar o navio. Você sentirá mais facilidade em erguer. Vejamos como se sai em andar com peso. Isso vai te ajudar a desenvolver mais velocidade.

– Tudo bem, chefe. Mas o almoço é por sua conta.

Os marinheiros ficam impressionados ao ver como o “mascote” levantava e descarregava as cargas do navio. Com mais a ajuda dos “passageiros”, o navio foi rapidamente descarregado, o que deixou a tripulação com mais tempo vago para passear e se divertir em terra firme. Todos se reuniram em uma taverna, comeram e beberam. Gorgo e Mabel ficaram na confraternização e desfrutaram da mesma comida e bebida.

Um pouco antes da turma se dispersar pelas ruas, o capitão deixou um maço de dinheiro para Gorgo. Pagamento. Virá a calhar para comprar roupas e alugar um quarto. Não faltam hotéis em cais que estão mais interessados em dinheiro do que em conhecer seus inquilinos.

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