Juntando os pedaços

Depois de Kahua saiu, Gorgo pode inserir na barra do navegador o endereço correto. A desvantagem em ser funcionário de uma organização mundial é que existem diversas páginas com o nome da organização, sem contra as inúmeras páginas com um anúncio. Mesmo uma busca booleana restritiva resultaria em milhões de links inúteis. Mesmo um mecanismo de Turing não conseguiria dar os números na ordem e sequencia correta.

– Saudações do subcomandante Gorgo, transmitindo aos nossos diretores e colaboradores, do escritório em Fiji. Qual a situação de nossa organização?

Nomes vão surgindo na tela, que brilha feita árvore de natal. Um bom sinal, a organização ainda funciona. Gorgo conhece algumas das alcunhas e sabe de qual país cada um é. Um usuário que usa um buldogue inglês como avatar quebra o gelo.

– Por Deus, Gorgo! É você mesmo? A armada britânica está à sua procura.

– Saudações, Winston e mande minhas lembranças à rainha. Eu percebo que Franz está presente. Franz, o que aconteceu após a queda da torre?

– Mein Got, todos nós pensamos que a organização tinha acabado. Os diretórios estão se reorganizando. Existem três blocos maiores: Europa, América e Ásia. Grupos pequenos, de suporte e colaboradores estão se conglomerando em empresas independentes, senão concorrentes.

– Então é isso? No primeiro revés e todos saem com o rabo entre as pernas?

– Gorgo, aqui é Chang. Como coordenador do bloco asiático, eu quero registrar meu protesto. Nós não recuamos nem retrocedemos. Com o devido respeito, sem a presença do doutor Erich não há organização.

– Nisso nós concordamos, Chang. Mas nós não podemos simplesmente largar tudo achando que o doutor não está mais entre nós. Nós devemos nos reestruturar e nos reorganizar, sim, mas como uma organização sólida, até a volta do doutor.

– Oh, que despautério! Perdoe a franqueza, Gorgo, mas o senhor ainda tem esperanças de que o doutor está… vivo? Nós consideramos um milagre a sua sobrevivência. O doutor estava mais próximo do ponto zero. Considerando que sua compleição física era… limitada… dificilmente sobreviveria.

– Pois eu vejo que o doutor estava certo sobre você, Winston. Sua lealdade é como a névoa londrina. Aparece quando quer e é volátil. O doutor nunca escondeu sua invalidez e mesmo assim realizou obras grandiosas. E nós, que somos hábeis, o que fizemos? Nos arrastamos e nos escondemos, com medo de nossos adversários.

– Ora… mas… que petulante! Minha lealdade está acima de qualquer suspeita. Sua majestade, a rainha, concedeu-me mais medalhas e honras do que o senhor consiga contar. Mas e o senhor? Quantas batalhas você travou? Quantas honras e medalhas você tem? Ora, senhor subcomandante, se acha que é tão melhor e superior a nós, mostre que merece seu posto e lute contra nossos inimigos.

– Muito bem, eu farei. Eu dispenso a ajuda dos senhores. E saibam que, se ficarem no meu caminho, serão destruídos como insetos que são.

– Ahahahaha! Gorgo, você deve ter batido sua cabeça muito forte. Você? Sozinho? Sem um único batalhão? Sem uma única arma? Meu filho de três anos consegue te bater. Pessoal, eu acho que podemos revogar o acesso de Gorgo ao nosso comitê.

– Adeus, Gorgo. Foi um incrível desprazer. Tenha um bom pós-vida.

Os sinais na tela vão se apagando até o monitor ficar completamente escuro. Gorgo imagina milhares de formas de torturar e matar cada um desses diretores. Mas eles não estão totalmente errados. Ele precisaria de armas e de um batalhão, para começar. Nisso o doutor era bom. Mesmo e situações adversas, ele sempre tinha uma saída.

Gorgo se lembra de quando o doutor praticamente o adotou. Ele era apenas mais um entre muitos recrutas. Sua companhia estava perfilada em um porta-aviões quando chegou o helicóptero da organização. Foi a primeira vez que ele via o doutor, algo que o inspirou e o encorajou naquele dia, enquanto seus companheiros tremiam e suavam frio. O general perdia tempo tentando elogiar o doutor, ao mesmo tempo em que tentava disfarçar a falta de ânimo daquela tropa. Gorgo recorda com certo carinho quando o doutor parou diante dele e percebeu que recebeu de volta um olhar frio e decidido.

– Hei, garoto! Você mesmo! Não está com medo de mim?

– Senhor! Não, senhor!

– Não sente um arrepio na espinha em me ver assim, faltando parte do meu tronco e de um braço?

– Senhor! Não, senhor!

– Como é seu nome, garoto?

– Senhor! Gorgo, senhor!

O doutor acenou com sua garra mecânica, o chamando para ficar ao seu lado. No instante seguinte, com um único raio de um de seus quatro olhos, o doutor desintegrou a companhia inteira.

– E então, Gorgo? Agora tem medo de mim?

– Senhor! Não, senhor!

– Excelente. Venha comigo. Eu te darei a força, a inteligência e o poder necessário para valer por mil batalhões.

As lembranças fazem uma lágrima escorrer pelo rosto de Gorgo. Não por causa do treinamento árduo. Nem pelas reconstruções de corpo. Ele aprendeu rápido que a dor é uma ilusão e o sofrimento é uma lição. A lágrima foi uma forma de agradecer por lembrar de que ele não precisava de um batalhão, ele é um batalhão. O que não falta são exércitos de mercenários, sempre em guerra, sempre com vagas, sempre sem perguntas.

Gorgo decide, então, ir até a Ásia, a região mais próxima com zonas de conflito. Saiu como entrou, sem muita cerimônia, ignorando Kahua. Na saída, a recepcionista tinha a mesma expressão e isto o lembrou de quando era jovem. Um estalo, uma ideia maluca, mas talvez por gratidão ao doutor, olhou bem nos olhos daquela garota antes de dizer algo.

– Então… Mabel… quer passar o resto da vida com um completo imbecil ou deseja viajar pelo mundo até que fique sob seus pés?

Mabel cruzou os braços e balançou vigorosamente seus cabelos negros cacheados.

– Um completo imbecil está me convidando para conquistar o mundo? Eu suporto um completo imbecil aqui mesmo. Um imbecil pervertido. Essa cantada é velha, tente outra.

– Você tem espírito. Eu gosto disso. Permita-me mostrar que eu não sou um imbecil. O que você gostaria que eu fizesse com o imbecil pervertido para ganhar sua confiança?

– Olha, se eu fosse grande e forte como você, eu arrancaria as bolas dele.

No mesmo segundo, Kahua grita de dor enquanto sangue esguicha do meio de suas pernas. Mabel arregalou os olhos enquanto seu ex-patrão agonizava no chão.

– Muito bem, Mabel. Você está demitida desse pardieiro. Agora você será minha assistente pessoal. E não se preocupe. Eu me interesso mais pelo que tem em sua cabeça do que você tem no seu corpo.

Mabel pega sua bolsa e antes de sair dá um chute no Kahua, só para descontar e extravasar. O céu do lado de fora estava lindo, as flores cheiravam, os pássaros cantavam. Era o primeiro dia que Mabel se sentia feliz e livre.

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