Depois da queda da torre

Em diversos litorais do oceano pacífico, os habitantes tentam reconstruir suas casas e suas vidas. Mesmo depois do tsunami, cargueiros ainda encontram diversos destroços flutuando pelo mar. Navios militares passam pela região recolhendo os corpos. Nos noticiários, os jornais de diversos países divulgam que o tsunami foi causado por uma explosão vulcânica. As pessoas simplesmente aceitaram, como costuma acontecer.

Os nativos de Kalau encontram um sobrevivente em seu litoral. Ele está com queimaduras em diversas partes de seu corpo. O homem tosse e cospe muita água, fitando desolado para um ponto no horizonte de onde uma grossa coluna de fumaça subia até as nuvens. Os nativos pedem para que ele descanse, pois vão leva-lo ao hospital local, mas o estrangeiro balança a cabeça e, mesmo com custo, ergue-se e se põe de pé.

– Você entende minha língua?

– Sim, eu entendo.

– Onde eu estou?

– Em nossa casa. Sua gente chama de ilha de Kalau. Nós chamamos aqui de Nakhanpuhan. O Paraiso dos Deuses, em sua língua.

– Desculpem por minha indelicadeza, mas eu devo supor que vocês são nativos de alguma ilha da Oceania, mas vocês tem um hospital, o que me faz concluir que esse hospital é uma obra “da minha gente”. Eu tenho motivos para não querer ser achado por “minha gente”. Podem me levar a um curandeiro ou xamã?

Os nativos concordam e o levam ao curandeiro que, com ervas e materiais rústicos, faz um curativo com mais eficiência do que qualquer médico. O curandeiro, intrigado com seu cliente estrangeiro, começa a falar demais.

– Então o forasteiro foi cuspido por Palala?

– Quem?

– Nossa Senhora, Deusa dos mares e vulcões. Todos na ilha viram a explosão. Que destino hem? O senhor, em um navio, em algum ponto desse imenso mar e de repente BUM Palala resolve se manifestar. O senhor parece vestir um tipo de uniforme militar. A quem eu devo comunicar seu resgate?

O homem misterioso contrai seu braço e encrispa a mão, causando a abertura de algumas feridas. Com uma expressão melancólica, evita prolongar a conversa.

– Ninguém, meu bom homem. Ninguém. Eu sou o único sobrevivente. Todos os meus amigos, colegas, subordinados… meu chefe…

– Eu lastimo por isso, senhor, mas… quem sabe? O senhor sobreviveu. O senhor não pode presumir que não tenha outros como o senhor.

Uma tremenda bobagem dita por que não viu e nem estava lá. Mas não deixa de ser uma possibilidade. A organização era grande e complexa demais para simplesmente ter sumido ou acabado. Os outros aparelhos deveriam estar se reorganizando e sem dúvida muitos estavam se candidatando a líder supremo. Mas além dele, ninguém tinha a capacidade, a competência ou a coragem de ocupar o lugar do doutor Erich Nozo.

– Senhor, eu te agradeço por estas palavras. O senhor está certo. Pensando nisso, eu vou procurar por “minha gente”. Onde eu posso comprar um bom barco?

– Meus filhos tem barcos bons, mas nossos barcos vão no máximo até Fiji.

– Isto é o suficiente. Eu não tenho muito comigo, então eu espero que esse punhado de ouro seja o suficiente para comprar um barco de seus filhos.

Ah, bendito metal dourado que é compreendido até pelas pessoas mais simples! Ouro é mais aceito mundialmente do que qualquer moeda ou papel. O curandeiro inclui víveres e água potável. Antes de partir, o forasteiro deixa um presente aos nativos: chumaços de seus cabelos e o que restou de suas vestes. Vestido com roupas locais e besuntado com um óleo natural que o protegeria de insolação e queimaduras solares, se não fosse por sua altura e compleição física, ele passaria como um nativo.

– Boa sorte, forasteiro! Eu espero que encontre o que procura!

– Grato! Eu voltarei aqui, caso eu encontre!

O homem misterioso acena de dentro do barco, enquanto as velas empurram mar adentro a nau. Seu rosto está com um sorriso marcante e, se os nativos o conhecessem, temeriam quando ele voltasse para cumprir o que prometeu. Não era uma promessa, era uma ameaça.

– Eu vou fazer com que Palala fique engasgada com seus corpos… mas isso fica para depois. Agora, eu devo procurar o incompetente Kahua, nosso diretor operacional em Fiji.

A viagem entre Kalau e Fiji demora três semanas, dependendo da maré e dos ventos. O náufrago a fez em duas semanas. O porto de Fiji é irritantemente igual a tantos outros portos de países subdesenvolvidos. Pouca ou nenhuma fiscalização. Funcionários de aduaneira corruptos. Gente demais, cheiro de peixe morto. Ele estivera ali diversas vezes, então não foi complicado entrar sem sequer ser notado. Sua aparência estava convincente o bastante para que guias não o incomodasse, algo desnecessário, ele conhecia bem as ruas.

O escritório da organização em Fiji não era muito grande nem bem equipado, mas ao menos era limpo. Para pessoas comuns o escritório mais parecia uma secretaria do governo e, de certa forma, não estão enganadas. A organização está no e é o governo.

– Saudações. Eu gostaria de falar com o senhor Kahua.

– Quem gostaria?

– Subcomandante Gorgo.

A recepcionista, uma garota adolescente, arqueia uma das sobrancelhas, incrédula. Moreno demais. Cabelo diferente demais. Roupas nativas de Kalau. Pelo interfone, ela interpela a interferência do seu diretor.

– Senhor Kahua? Um homem dizendo ser o subcomandante Gorgo lhe deseja falar.

– Gorgo? Aqui? Isso é alguma piadinha? A torre explodiu. Se ele é Gorgo, sabe qual é a senha.

Gorgo apanha o intercomunicador das mãos da recepcionista e sussurra três palavras. Um segundo depois, Kahua aparece no sagão, esbaforido, com um olhar arregalado.

– Se… se… senhor subcomandante Gorgo! Que prazer enorme em recebe-lo! Desculpe por não estarmos devidamente preparados para recebê-lo, mas nós estamos… hã… nos reorganizando. Vamos, por favor, entre, fique à vontade!

Gorgo passa para a parte interna, onde diversos funcionários estão subdivididos em gabinetes, cheios de papéis, digitando furiosamente em seus teclados, enquanto outros corriam de um lado a outro.

– Não mudou coisa alguma desde a última vez em que eu estive aqui. Organização nunca foi seu forte, Kahua.

– Sem duvida, senhor subcomandante, mas nós fazemos o que podemos com os recursos que temos.

– Os recursos que vocês tem são mais do que suficientes. Talvez, se você colocasse mais esforço e material nesse escritório do que em sua pança…

– Oh, senhor subcomandante, mil perdões! Infelizmente nem todos nasceram com a mesma inteligência e habilidade que o senhor.

– Infelizmente… mas eu não estou aqui para falar de sua evidente incompetência. Ao menos seus computadores funcionam. O senhor evidentemente cederá um terminal para que eu entre em contato com nossa organização.

– Sim, claro! O senhor pode usar meu computador pessoal! Fique à vontade!

Gorgo senta diante do computador de Kahua que tinha deixado aberto em uma página com imagens e vídeos pornográficos com adolescentes. Kahua tentava tirar a página e explicar a situação, o que apenas agravava o cenário e Gorgo apenas pensava como Kahua era incompetente como gente. Ele perdia tempo útil, dentro do escritório, dentro de seu ofício, apenas vendo, quando podia muito bem fazer de verdade, com a recepcionista.

– Muito obrigado por sua assistência, Kahua. Agora, se o senhor me permitir, eu irei ter uma sessão privada de videoconferência com os demais diretores executivos.

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