A certeza escorre entre os dedos

Desmanchando os monólitos

Derrida é o autor da filosofia da desconstrução, entendendo que o conhecimento é um discurso, um produto de linguagem. A linguagem é igualmente um material moldável e plástico, outras e novas possíveis abordagens aparecem quando se quebra a falsa solidez das palavras e seus conceitos.

No entanto a certeza é uma obsessão do ser humano. A necessidade da certeza está presente tanto na crença quanto na descrença, tanto na religião quanto na ciência. Mas a certeza não é algo sólido, é um conceito abstrato, assim como a razão, a lógica e a mente.

Deleuze e Guattari são da mesma escola e desconstruíram o conceito de corpo e organismo na obra “Anti Édipo”, o que foi extendido por Beatriz Preciado ao conceito de gênero na obra “Contrassexualidade”. A ciência e a tecnologia estão demonstrando o quanto é frágil e inconsistente aquilo que consideramos o que é um “ser humano”.

Bauman tem teorizado sobre a “liquidez”, do tempo, da modernidade, da sociedade, do amor e do homem. Quando Bauman aponta que algo é líquido, devemos entender que até então tais estruturas eram consideradas sólidas, concretas… certas. Um pesadelo para o conservador, pois a civilização ocidental está questionando conceitos e valores que ele acreditava serem atemporais.

Não é coincidência que o conservador é, em geral, de direita e católico, ou cristão de alguma vertente. Infelizmente os fatos desmentem a doutrina cristã e a ciência tem demolido os dogmas cristãos. A civilização ocidental está quebrando as correntes do Totalitarismo Eclesiástico, a sociedade está tendo que ceder espaço para novas formas de família, relacionamento e sexualidades. Parodiando Bauman, nós podemos falar que o sexo é líquido e o gênero é fluído.

Sexo é líquido

A medicina aceita como parte da natureza a existência de pessoas intersexuais. Pessoas que geneticamente nascem com órgãos sexuais que estão dentro do enorme espectro da sexualidade humana, desmontando a falsa dicotomia que apenas se nasce menino ou menina. Por uma decisão arbitrária, o hospital decide se tal pessoa será menino ou menina, mais pela aparência estética do que por seu DNA.

Se o gênero fosse determinado pelo DNA como querem, o órgão sexual deveria ser irrelevante para definir a sexualidade ou gênero de uma pessoa, então chegamos à conclusão que o órgão sexual de uma pessoa não define sua sexualidade, opção e preferência sexual.

Um homem/mulher é aceito como homem/mulher ao fazer uma bioplastia/implante para substituir qualquer de seus órgãos, uma pessoa deve ser aceita como ele/ela quer ser reconhecida após a cirurgia de troca de sexo. Uma pessoa intersexual é redesignada ou redesignado para atender aos rígidos conceitos sociais. A sociedade deveria aceitar da mesma forma uma pessoa que, por vontade própria, redesigna seu corpo para adequar ao gênero/sexualidade que escolheu. Uma pessoa intersexual é uma pessoa que se tornou transgênero simplesmente por uma questão estética da sociedade, que não deveria fazer tanta questão em aceitar uma pessoa que, mesmo por razões estéticas, se torna transgênero.

Gênero é fluído

Eu vou aproveitar um trecho de um texto meu contra o Frade Longenecker:

“Comer é como sexo. Confundir gêneros é igual a comer algo inapropriado”.

Comer é uma função orgânica e natural que visa um objetivo. Comer deve ser compatível com o organismo e não o inverso. Vamos colocar em uma mesa a enorme diversidade de espécies. As formas de comer são inúmeras. Portanto as formas de gênero são igualmente inúmeras. O que torna ridículo a doutrina da Igreja de que apenas existe o gênero “homem” e “mulher” e de que apenas existe a heterossexualidade.

“Confundir gêneros humanos é igual a pessoas comendo algo inapropriado”

Quando falamos especificamente em seres humanos, também devemos ser específicos quanto aos hábitos alimentares. Vamos colocar em uma mesa a enorme diversidade de épocas, povos, culturas e dietas. Os hábitos alimentares são extremamente diversificados. Portanto as formas de gênero e sexo são tão amplas que se torna ridículo e grosseiro que um cristão ocidental dite normas, sejam de hábitos alimentares, sejam de gênero/opção/identidade sexual, para quem quer que seja.

Eu gostei tanto dessa analogia comer = sexo que eu vou mais adiante. Afinal, se hoje eu comi bife e amanhã eu como macarrão, hoje eu sou heterossexual e amanhã eu posso ser homossexual. O senhor pode fazer o mesmo. Se hoje o senhor jejuou e amanhã vai comer uma feijoada, hoje o senhor é monogâmico e amanhã o senhor pode ser poligâmico.

Se cada pessoa pode escolher o que quer comer, cada pessoa pode escolher qual é seu gênero/opção/identidade sexual e ninguém tem coisa alguma com isso.

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