O tabu da nudez

Um estudo feito nos meios de comunicação de massa chegou a uma conclusão alarmante: a mulher ainda é uma pessoa de segunda categoria. Eu não estou me restringindo apenas ao evidente sexismo e objetificação da mulher que existe na propaganda comercial. Em programas de televisão e em filmes da sétima arte, pode-se contar nos dedos os filmes onde a mulher é a protagonista. O comum é colocar a mulher no papel da burra, da gostosa, da maliciosa, da tentadora, da infiel, entre outros papeis que reforçam a cultura misógina da civilização ocidental cristã.

A supremacia masculina é facilmente percebida como norma nos meios de comunicação de massa. A despeito de todo o seu pretenso conteúdo contestador, a trilogia de sucesso “Cinquenta Tons de Cinza” é o melhor exemplo de que a submissão feminina é a norma. Falar em Empoderamento Feminino, enfrentar o sistema patriarcal, fazer da mulher a senhora de seu corpo e de sua história ainda é um tema a ser explorado.

Por estranho que pareça, é mais difícil desconstruir o conceito social profundamente arraigado que a nudez [especialmente a feminina] é igual a sexo ou pornografia do que refutar os discursos que dizem que é bobagem falar em cultura do estupro. Afinal, é pela própria sociedade e pelo sistema que o homem está e permanece como senhor, então que o mundo inteiro está à sua disposição. O meio ambiente está causando efeitos no clima exatamente por causa do apetite insaciável do homem. Dificilmente um menino que cresce e é educado com essa mentalidade irá pensar de forma diferente, basta lembrar-se dos casos patológicos dos masculinistas.

Eu vou tentar poupar tempo e dinheiro dos leitores com analistas, advogados ou psiquiatras. Isso é algo que eu aprendi, com leitura e experiência pessoal. Uma pessoa que fica nua não está te convidando para ter relações sexuais. Uma pessoa que faz fotos de nudez não está fazendo insinuações de que quer ter sexo. Eu iria mais longe: uma pessoa que faz vídeos com sexo não está querendo te incluir em seus relacionamentos sexuais. Veja se entende, meu caro leitor, homem e maduro: só há um único jeito de saber se uma pessoa quer transar com você – quando ele ou ela diz SIM. Do contrário, mesmo se for uma “profissional do sexo”, é violência sexual, é abuso sexual, é crime. Quando uma pessoa diz NÃO, mesmo que for sua esposa ou amante, guarde a viola que não vai ter serenata.

Nós, que somos homens e maduros, devemos ajudar e incentivar toda e qualquer iniciativa para evitar ou coibir a violência física e sexual. Somente levantando a questão é que vamos conseguir combater o estupro até que este seja erradicado completamente. Mas isso somente será possível se discutirmos e apontarmos para essa doença de nossa sociedade que é a cultura do estupro e isso irá incomodar a supremacia masculina.

Por exemplo, só agora, depois de tantos massacres é que os EUA estão começando a discutir leis para restringir o direito de posse de armas. Um filósofo procuraria entender porque existe a discussão, antes de criticar qualquer postura ou a discussão em si mesma. A cultura dos EUA cresceu junto com a ideia de que é parte do “direito civil” ter uma arma. Os EUA não seriam os EUA se não tivessem lutado por sua independência e foi com esse intuito que os patriarcas americanos garantiram ao cidadão o “direito” de portar armas. Os EUA não seria os EUA sem ter expandido de treze colônias para o oeste. Os EUA não seriam os EUA sem que tivessem participado das guerras mundiais e se tornado a maior potência militar. Freud teria muito a dizer sobre essa estranha fixação dos americanos com armas, mas para esta analise o que interessa é que é inconcebível para o americano ficar sem seu “direito” de portar armas, mesmo diante dos inúmeros massacres de americanos cometidos contra americanos.

A cultura ocidental nasceu, cresceu e surgiu com o conceito de que o homem é superior e a mulher é inferior. Diversos mitos e lendas praticamente sacralizam o estupro. A misoginia judaico-cristã aponta a mulher como a responsável pela queda do homem e pela chegada do pecado no mundo. Luxúria, tentação, lascívia, libido… são parte das artimanhas da mulher, não da natureza humana. Então, curiosamente, o “sexo forte” confessa ser frágil e, por isso, precisa ser agressivo, violento, dominador. O homem infantil recusa o convite de Eros e Afrodite, prefere a “sutileza” de Marte e Ares. Para o homem que nasceu cresceu e foi educado em uma cultura patriarcal é inconcebível que ele não tenha o “direito” de estuprar, tal como o americano acha inconcebível não ter o “direito” de portar armas.

Infelizmente homens vão tentar contextualizar, justificar e explicar o estupro, quando não criticam iniciativas para combater o estupro, quando não criticam a discussão em si mesma. Não existe contexto, condição ou evento que possa explicar e justificar o estupro. Haverá uma época em que tentar contextualizar, explicar ou justificar o estupro será tão inaceitável quanto fazer discursos xenófobos, racistas ou defendendo a escravidão nos dias de hoje.

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