O pesadelo de um conservador

Eu espero que o leitor entenda porque eu sou contra o conservadorismo. Algumas coisas e ideias são boas para se manter, por exemplo a conservação do ambiente, mas não porque a Natureza esteja ameaçada, mas sim porque eu quero preservar a nossa espécie. Até uma pessoa com pouco estudo entende a lógica nisso.

Quando eu digo que eu sou contra o conservadorismo, isso quer dizer que eu sou liberal? Não se entendermos o liberalismo como uma política econômica que nos lançou na mais recente crise do Capitalismo. Quem diz ser liberal geralmente defende o liberalismo e a liberdade para apenas alguns poucos privilegiados. Por exemplo, pergunte a um liberal, uma vez que ele defende o liberalismo, se ele é a favor do fim da propriedade privada, afinal, se tudo é livre, se todos são livres, nada impede de João tomar a propriedade de Pedro.

Eu ouvi uma risadinha na plateia, mas isso não é muito difícil. Qualquer pessoa, com um mínimo de instrução, alfabetizado, consegue fazer filosofia [Sócrates foi autodidata]. Acreditem, vocês conseguem criar e desenvolver uma mente racional, lógica, basta apenas isto para fazer um bom argumento ou desmontar as bobagens que se espalham por aí.

Um exemplo prático nós conseguimos da notícia recente com a saída da Grã Bretanha da União Europeia. O bretão médio contemporâneo comum não é muito diferente do brasileiro médio comum. Quando começam a aparecer dificuldades, por comodidade ou conforto, não vão analisar a responsabilidade de cada um no fracasso, vão apontar um bode expiatório. O bode expiatório preferido do conservador é o imigrante. O bretão médio comum vai acreditar que ele está desempregado ou endividado não por causa de uma péssima política neoliberal, mas porque o imigrante está tirando seus empregos e conspurcando sua cultura.

Isso não faz o menor sentido. A Grã Bretanha [e seus habitantes] foi ocupada e colonizada por imigrantes, Bretões, povo que tem uma origem em comum com os Gauleses, que são povos que fazem parte dos Celtas. Depois vieram os Anglos e os Saxões, povos que tem uma origem em comum com os Germanos, os fundadores da Bélgica e da Alemanha. Como se isso não fosse o suficiente para demonstrar o absurdo de querer “tirar os imigrantes/invasores da Bretanha”, não nos esqueçamos de que nestas ilhas vieram também os Romanos que, com a cultura e tecnologia que “emprestou” dos Gregos, “educaram” na civilização os povos bárbaros europeus.

Vamos devolver a Bretanha aos Bretões? Ótimo, devolva tudo que não for “britânico”. Especialmente a Igreja, seja a Católica, Protestante ou Anglicana. Que se restaure a religião dos Bretões, o Druidismo.

O absurdo é ainda pior quando um americano médio comum, com um patriotismo pedante e desinformado, declama a glória de sua nação, não muito diferente do brasileiro médio comum patriota. Nisso o americano e brasileiro tem em comum: esquece que são descendentes de imigrantes, gente que fugia do Absolutismo [Monárquico e Eclesiástico], gente que fugia da guerra, gente que fugia da miséria. As colônias americanas e brasileiras foram ocupadas por ladrões, estupradores, hereges, vigaristas, fraudadores e presos políticos.

Assim como os portugueses e espanhóis, os americanos, em sua pia obrigação cristã, promoveram o maior genocídio que a humanidade tem conhecimento contra os povos nativos. Toda a glória da América do Norte somente foi possível com o conhecimento e tecnologia que tem origem em diversos países, épocas, povos e culturas. Toda a glória da América do Norte somente existe graças aos inúmeros outros imigrantes que para lá foram.

Quando falamos em Americanos e Bretões, do “Novo Mundo” e do “Velho Mundo”, inevitavelmente falamos do maior câncer da humanidade: o Cristianismo. Por exemplo, quando existe uma massiva indignação do “mundo civilizado ocidental cristão” diante de um ataque terrorista cometido por grupos muçulmanos extremistas. Basta dar uma boa olhada nas notícias para vermos ataques terroristas cometidos por extremistas cristãos, mas não há indignação. Não houve qualquer comoção por parte do “mundo civilizado ocidental cristão” quando houve a invasão do Iraque.

Deve ser um pesadelo para o conservador lembrar os inúmeros crimes cometidos por Cristãos ao longo desses 19 séculos de existência, sobretudo quando um historiador aponta que o Império Otomano conheceu um despertar da ciência 500 anos antes da Renascença, um pouco antes da Renascença no Império Bizantino [Cristão Ortodoxo, mas do Oriente Médio] que estimulou a Renascença Carolíngia. Sem esquecer-se das inúmeras contribuições dos Egípcios, Persas, Babilônicos para a Ciência.

Se o Americano e o Bretão médio comum contemporâneo quer expulsar os “imigrantes”, eles vão ter que devolver tudo aquilo que veio de outros povos também. A Constituição Americana foi inspirada na Constituição Francesa. O sistema de leis e justiça tem sua origem vinda da Roma Antiga. A filosofia ocidental tem sua origem nos Gregos Antigos. Se formos colocar na conta a origem das matérias primas que são necessárias às indústrias desses países, a lista fica imensa.

Trocando em miúdos, toda a cultura, conhecimento e riqueza que o cristão branco ocidental acha ser proprietário, ou pertencia a outro povo nativo, ou veio de outros povos, de outras épocas, de outros países. Pior, o cristão branco ocidental aparentemente não faz bom uso do conhecimento que usurpou.

Por exemplo, quando se coloca a questão do aborto e outras formas de contracepção. Basta um pouco de biologia, embriologia e neurologia para se chegar à conclusão de que um feto não é uma pessoa. O engraçado é que a mesma pessoa que defende o “direito à vida” de um feto por que vê ali um “ser humano” não teve o menor problema em matar milhares de pessoas adultas unicamente por serem hereges, judeus, muçulmanos, bruxas.

Na América do Norte, onde existe uma grande presença de fundamentalistas cristãos, onde há mais campanhas contra o aborto por razões religiosas, não há problema algum em um americano matar outro americano. O americano cristão defende o direito à vida ao mesmo tempo em que defende o direito do “cidadão” em andar armado. A vida tem direito, exceto se for a de um negro, hispânico, imigrante ou homossexual. E ainda dizem que ali é a Terra da Liberdade e da Democracia.

Em verdade, o mundo ocidental branco cristão é tão desmiolado que não percebe que está copiando e imitando crenças e ideias provindas da Ásia e Oriente Médio. O melhor exemplo disso está no Vegetarianismo, algo que era para ser uma dieta, controlada e acompanhada por médicos e nutricionistas, é nada mais do que Jainismo, vendido e embrulhado em uma embalagem cheia de purpurina. O Vegetarianismo foi adotado pela Igreja Adventista do Sétimo Dia e distribuído ao público com um discurso repetido ad nauseam até hoje. Os vegetarianos, tal como os cristãos, simplesmente ignoram qualquer fato, estudo ou evidência que mostra que o Vegetarianismo é baseado em pseudociência. Assim como os cristãos, os vegetarianos abusam da distorção de fatos e pinçam apenas as partes de textos que são interessantes para fazer proselitismo.

O vegetariano é um caso de empatia seletiva como a do pequeno burguês que pratica caridade. Como Jankelevich disse [comentando Marx]: “A caridade é um suborno moral à consciência pequeno-burguesa”. A empatia ao animal concede um valor moral e ético ao que o vegetariano come. Alimento não tem a ver com moral ou ética, mas com nutrientes. O vegetariano omite que ingere suplementos alimentares e injeta B12 para “complementar” sua nutrição, como se isso fosse saudável. O vegetariano omite que o metabolismo humano não assimila a “proteína” vegetal com a mesma eficiência que assimila a proteína animal. O vegetariano defende o “direito do animal” omitindo que vários animais são mortos para que haja uma boa produção agrícola. O vegetariano omite o impacto ambiental causado pelo plantio de produtos agrícolas. O vegetariano omite o uso de agrotóxicos e esterco de origem animal na produção agrícola. O vegetariano omite que plantas sentem dor e comem pedaços vivos das plantas esquartejadas. O vegetariano omite que nossa espécie somente desenvolveu um cérebro graças ao consumo de carne e tutano. Isso é mentalidade infantil. Como Danielou disse: “Ninguém pode viver senão destruindo a vida, senão matando outros seres vivos. Nenhum ser pode subsistir sem devorar outras formas de vida, vegetal ou animal. Isso é um aspecto fundamental da natureza. Toda a vida do mundo, animal ou humana, é uma interminável matança. Existir significa comer e ser comido. Todo ser vivo alimenta-se de outros seres e irá se tornar o alimento de outros seres num ciclo interminável.”

Entretanto, o maior pesadelo para o conservador é saber que o ser humano, o Homo Sapiens Sapiens, surgiu na África, de onde nós todos somos descendentes. Pior, somos todos mestiços, pois nossos ancestrais se misturaram com os Neandertais. Pior, somos todos imigrantes, pois somos descendentes dos povos Indo-europeus, povos que vieram da Ásia para colonizarem a Europa, povos que acabaram se misturando aos povos autóctones locais.

O desafio, para a humanidade, é superar e erradicar o conservadorismo e a caretice. Para o século XXI e adiante, a humanidade vai continuar com o projeto de tornar-se humana efetivamente.

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