Arquivo mensal: julho 2016

O fim do mundo não é uma tragédia

A aeronave pousa suavemente no gramado do quartel da Sociedade Zvezda, automaticamente abre suas portas, mas ninguém sai de dentro. Intrigado, Durak dá uma espiada, mas não detecta nenhuma presença no saguão de entrada da aeronave. Curioso, Durak entra na aeronave em busca dos tripulantes até chegar na cabine de comando, onde ele encontra Gorgo e Erich dormindo juntos, abraçados, felizes e satisfeitos. Corajoso, Durak sacode Gorgo.

– Soldado Akula, desperte. Soldado Kiska, desperte. Vocês chegaram na base da Sociedade Zvezda. Onde estão a comandante Plamya e a soldado Vorobey?

– Bom dia, Durak. Desculpe por nos encontrar dormindo. Nós tivemos que descansar depois de… tirar o atraso.

– Se o senhor quiser, eu trago um corpo, soldado Kiska.

– Obrigado, mas eu gosto de escolher as minhas… roupas. Gorgo acordou?

– Sim, Erich, eu acordei. Deixe que eu vou buscar as nossas meninas.

Gorgo se ergue do chão, ainda trôpego e desajeitado, mas segue, completamente nu, pelos corredores da aeronave, na direção dos aposentos de Erich, onde ele tinha certeza de que encontraria Itsuka e Mabel. Quando se distanciou, Gorgo se permite rir de si mesmo. Não que ele sinta culpa ou remorso pelas ações ou escolhas que fez, mas por ter demorado tanto em conseguir se expressar. Por que fazia tanta diferença saber como era o corpo de Erich, se ele pode ter qualquer corpo? Depois de ter enfim consumido o amor que tinha por Erich, não fazia mais o menor sentido ou diferença sequer se era humano, então Gorgo ria de si ao lembrar de como era ridícula sua trava. Gorgo ria de si mesmo por que foi necessária ter tido a experiência para encarar que era um escape toda sua fachada de autocontrole, uma fuga para não enfrentar seus recalques, seus medos e inseguranças.

O som de dois roncos saia dos aposentos pessoais de Erich, confirmando que Itsuka e Mabel estavam ali, provavelmente repondo as energias depois da sessão de treinamento privado. Com estardalhaço, Gorgo invade o quarto e interrompe as belas adormecidas.

– Bom dia, dorminhocas! Vamos acordar! Vamos levantar! Nós chegamos!

– Uaaahh.. bom dia, irmãozão…

Mabel esfrega o olho e encara Gorgo sem se importar em ser vista completamente nua, mas Itsuka ainda não tinha esse costume, então ela tentava cobrir, inutilmente, seu voluptuoso corpo com uma almofada.

– Desculpe interromper o sono de beleza das princesas, mas o tal de Durak está impaciente.

– Que bom! Se Durak veio nos buscar, quer dizer que Kate… aliás, Venera sama, está sozinha no quartel! Eu quero, eu preciso dar um abraço e um beijo em nossa amada líder!

Mabel levanta e sai correndo, levando apenas a pele com que nasceu enquanto Itsuka tenta acompanha-la, algo difícil com ela tendo que correr segurando uma almofada. Na entrada da Sociedade Zvezda, Natasha observava os novos recrutas com um sorriso de satisfação.

– Bom dia, Durak e Kiska. Eu imagino que a garota cor de cobre deva ser Mabel e o homem com olhos de serpente deve ser Gorgo.

– Bom dia, Professor Um. Sim, estes são os meus filhos. Eu sei que posso confiá-los à você. Mabel, Gorgo, sejam educados e digam alô à Natasha.

– Oitudobemtchaueutocompressa.

– Desculpe minha irmãzinha, Natasha, ela está com uma… urgência para resolver.

– Que certamente envolve nossa amada líder. Eu sei. Impossível não ficar apaixonado por ela. Durak, conceda alguns minutos para que nossos recrutas conheçam nossa amada líder e vá buscar Yasu e Asuta para nossa reunião. Todos serão necessários para ativar nossa arma.

Durak faz continência e segue sua missão, embora contrariado. Natasha acompanha Erich e Gorgo calmamente até a sala de reuniões, onde Kate se encontra, provavelmente sendo disputada pela Mabel e por Itsuka.

– Venera sama pediu para que lhe comunicasse que você utilize nosso corpo biomecânico, Kiska. Para o ativamento da arma, você irá encorpar em nossa Eva.

– Por mim tudo bem, mas eu gostaria que Gorgo fosse meu Adão.

– Nós ainda não decidimos em qual espectro de gênero nós vamos deixar o Akula, mas se ambos forem hermafroditas, será bem mais interessante, não acha?

– Ei, não falem de mim como se eu não estivesse presente. Se esse for o desejo de Venera sama, eu aceito.

– No momento a minha ordem é que afastem um pouco a Mabel e a Itsuka de mim. Fica difícil fazer uma reunião com a… atenção que elas me dão.

– Minha adorada Venera sama, eu trouxe Yasu e Asuta, como solicitado.

– Excelente, Durak. Como prêmio, você pode ficar para nos ajudar na ativação da arma.

Gorgo consegue afastar Itsuka e Mabel de Kate, resistindo à tentação de ficar no lugar delas, haverá outras oportunidades para tais exercícios. Realmente, Kate é adorável.

– Assim está bem melhor. Eu sei que todos aqui me amam e eu fico feliz com isso. Cada um de vocês terá tempo e oportunidade para expressar o amor que sentem por mim, mas antes nós temos que destruir Fantomas e o Usurpador. Professor Um, explique para nossos convidados o que é a arma e como ela funciona.

– Esta arma é feita com a mesma tecnologia que nossa Sociedade tem utilizado com sucesso, a partir da fusão nuclear e criaturas Kurun. Cada um de vocês será a bateria dessa arma. Em pares, vocês ocuparão as células e terão relações sexuais. A energia que seus corpos gerarem será captada e direcionada ao canhão de fótons. O canhão irá disparar uma única vez a energia gerada, o que será mais do que o suficiente. A carga irá ricochetear na estratosfera e irá espalhar ao redor do mundo inteiro. Não existe coisa alguma que consiga resistir a este tipo de energia. A arma não pode ser destruída, nem desligada, nem parada. Nós iremos conquistar o mundo todo com um único disparo.

– Muito bem, todos à postos! Como preferem ocupar as células?

– Eu quero ficar com Gorgo, amada líder. Mesmo que tenha que usar o corpo de Eva.

– Eu aceito ficar com você Erich, mas pouco importa para mim agora se seremos macho, fêmea ou hermafrodita.

– Kate, eu queria ficar com você, mas eu também queria ficar com Itsuka.

– Eu quero o mesmo, Kate…

– Então vamos nós três ficarmos na mesma célula. Vai ser divertido. Yasu e Asuta podem brincar entre eles ou conosco, tanto faz.

– Kate, eu gostaria de me servir de Durak.

– De acordo. Seria um desperdício de seus… dotes… não usá-la como bateria de sua própria criação, Natasha.

A arma inicia seu funcionamento enquanto os “instrumentos” se ocupam em gerar a energia para alimentá-la. Os corpos, em atrito, em conjunção, misturam-se em inúmeras formas, gerando com rapidez e eficiência uma enorme energia. A arma coleta o êxtase dos amantes em meio ao balé do prazer e, quando todos atingem o orgasmo, a arma também dispara e acerta o firmamento. Uma enorme massa de energia rosácea preenche toda a órbita da Terra com a única energia capaz de destruir Fantomas e o Usurpador: o mais puro, bruto e incondicional Amor.

Este foi o fim do mundo. Tal como o conhecemos. A humanidade teme tanto isto que chamam de Fim do Mundo… por que acreditam que o Fim é destruição, drama ou tragédia. Tudo tem um fim. Ainda bem. Este mundo só pode voltar ao seu eixo quando acabarmos com o verdadeiro inimigo da humanidade.

Anúncios

Na terra do sol nascente

Erich, com ajuda de Itsuka, fez com que Gorgo e Mabel embarcassem em sua aeronave, um veículo que conseguia desenvolver velocidade supersônica e deslizava pela estratosfera com sua fuselagem multicolorida que parecia ser feita de escamas.

A aeronave elevou-se rapidamente até a altura de cem mil pés, deslocando-se verticalmente, sem que seus ocupantes sequer sentissem seu movimento. Arremetendo na direção leste, a aeronave alcança sua velocidade máxima, embora a impressão para os passageiros fosse de que estava parada.

– Para onde nós vamos, papai?

– Nós vamos ao Japão, Tóquio, distrito de Udogawa.

– Nós estamos indo para sua casa, senhora Itsuka?

– Para nossa casa e quartel. Vocês serão orgulhosos soldados da Sociedade Zvezda assim que fizerem seu juramento à nossa amada líder.

– Como ela é?

– Ahhh… minha Kate é absolutamente liiindaa…

– Você a conheceu papai?

– Sim, Itsuka me apresentou a ela. Eu ficaria de joelhos diante dela, se eu os tivesse.

– Então ela é muito poderosa!

– Sem dúvida, minha princesa. Fantomas não é páreo para ela.

– Eu estou receosa… senhora Itsuka, será que ela vai gostar de mim?

– Claro que sim, Mabel. Ela está aguardando ansiosamente a sua chegada e a de Gorgo.

– Como que a senhora a conheceu?

– Eu a conheci quando eu ainda era criança. Eu e meu pai estávamos fugindo da Máfia Rússia quando ela nos protegeu e esmagou nossos inimigos. Ela nos levou para a Sociedade, onde conhecemos Natasha Hamawa. Depois vieram Yasu, trazido por influência de meu pai e o Asuta.

– Por que a Sociedade Zvezda tem interesse em nós?

– Nós acompanhamos o Erich e Gorgo enquanto estavam na organização. Nós notamos o potencial de Erich e Fantomas. Depois que conquistamos o Japão, nós estávamos tentando englobar a organização quando a torre caiu e a organização implodiu em pedaços. Nossa amada líder, mesmo assim, manteve seu interesse em resgatar Erich, o que eu fiz. Infelizmente eu não tinha achado Gorgo e ainda não sabia de sua existência Mabel, mas Kate… nossa amada líder nos tranquilizou quando nos disse que tudo estava sendo providenciado.

– De vez em quando você fala de nossa futura amada líder com carinho… a senhora está apaixonada por ela?

– Quêêê? Você é bem rápida, precisa e afiada não? Quando você a conhecer, também ficará apaixonada.

– O que ainda eu não entendi é por que ou como nós podemos ser interessantes a uma entidade tão poderosa.

– Você, pelo visto, é descrente, Gorgo. Existe poder em todos os seres vivos. Alguns colaboram, outros competem. Nenhum ser existente consegue viver isolado e nenhum ser existente tem poder ilimitado ou supremo. Os Deuses guerrearam em uma época anterior unicamente por discordarem da formação da humanidade. Nós somos filhos e filhas dos Deuses, nós somos espíritos presos nesse mundo, confinados em corpos carnais. Nossa missão, nosso objetivo, é conciliar corpo e espírito, ressacralizar esse mundo. Não há separação ou conflito entre o mundo e o divino, entre a carne e o espírito. Nós vivemos em um mundo com sofrimento e dor unicamente por nossa própria e exclusiva responsabilidade.

– Itsuka?! Você não está estragando o meu discurso, está?

Um equipamento emite uma imagem holográfica em três dimensões diante dos tripulantes da aeronave. Mabel vê uma garota, aparentemente um pouco mais nova do que ela, com fartos cabelos acinzentados, vívidos olhos rubros e usando uma roupa comum.

– Ka… kate! Não, por favor! Não é a hora certa para eles te verem! Eles ainda não estão preparados!

– Eu tenho certeza de que você deve estar curtindo muito fazer o papel de irmã mais velha, mas eu não gosto de esperar. Erich, por favor, nos apresente.

– Com imenso prazer. Gorgo, Mabel, meus filhos, esta é nossa amada líder, Venera sama.

– Muito prazer em conhece-la Kate… Venera sama. Eu sou Mabel.

– Eu estou feliz em te conhecer, Vorobey. Este é o seu nome de batalha, use-o com orgulho.

– Qual o nome do meu papai?

– Você pode chama-lo de Kiska.

– Que nome você vai dar para Gorgo?

– Eu estou em dúvida… Akula ou Lichinka?

Todos começam a rir, mas Gorgo fica amuado. Mabel olha para Itsuka e acena para ela. Com uma piscadela e fazendo sinal de positivo, ela concordou com Itsuka, ela estava apaixonada por Kate.

– Que bom que todos estão animados. Professor Um deixou tudo preparado. Durak irá conduzi-los até nossa Câmara Ardente. Itsuka, cuide para que nossos… instrumentos… estejam dispostos e preparados para ativar nossa arma mais poderosa.

– Ai que raiva… Kate está lá no quartel com aquele… Durak… sozinha… só eu posso tocar naquele corpo!

– Quem é esse Durak?

– Um imbecil qualquer que diz ser escritor. Ele é apaixonado pela minha Kate.

– Você é bem ciumenta hem? Eu também estou apaixonada por Kate… mas eu não quero te contrariar e nem quero ser sua adversária… mesmo com ciúmes, nós podemos ser amigas?

Itsuka tenta manter uma expressão séria enquanto olha para Mabel, mas não consegue. Mabel é adorável. Kate é adorável. Kate não vai se importar se ela “adotar” a Mabel. Em troca, ela não vai ficar com ciúmes quando Mabel estiver com Kate. Serão três amigas curtindo um triângulo amoroso. Uma solução genial que deixou Itsuka excitada enquanto fantasiava de como seria o corpo de Mabel.

– Comandante Plamya sama… se for do seu interesse, utilize meus aposentos para… conversar… privadamente com Mabel. Assim eu aproveito para falar com Gorgo.

– Aham… muito bem, Kiska, eu aceito sua oferta. Eu irei… passar alguns comandos especiais para Vorobey. Aproveite para… destravar esse instrumento ou eu mesma o descartarei.

Itsuka e Mabel vão alegremente pelos corredores da aeronave em direção dos aposentos de Erich. Sem saber muito bem o porquê, Gorgo está acanhado, envergonhado e cheio de ciúmes.

– Você queria saber, Gorgo, se era capaz de amar alguém… e eis você, se mordendo de ciúmes por causa da Mabel. Você disse que me admirava, mas eis você, com uma oportunidade de demonstrar o que sente por mim, mas está acanhado e envergonhado… se eu não te amasse, eu ficaria com raiva de você, mas você precisa quebrar esses seus bloqueios. Não tenha medo. Aproxime-se de mim. Deixe o sentimento fluir. Expresse-se. Eu estou bem aqui. Eu não vou te machucar, eu não vou te rejeitar, eu não vou te julgar. Eu apenas vou te amar incondicionalmente. Eu vou aceitar o amor que tiver por mim.

– Doutor… Erich… eu sempre tive curiosidade em saber qual é sua aparência debaixo daquele capuz, como é seu corpo debaixo daquele uniforme pesado. Deixe-me ver o que está debaixo destes véus que eu sinto que eu vou poder superar meus medos e receios.

– Muito justo, Gorgo. Eu devia ter feito isso há muito tempo. Eu farei melhor do que tirar minhas roupas. Eu te mostrarei minha forma verdadeira.

O corpo humano aleijado que estava sentado na cadeira de rodas rasgou-se, como se fosse um trapo, um casulo, brotando luz de seu interior e, do meio da luz, Erich mostra sua verdadeira forma: Erich é um dragão fêmea. Cheio de emoção e felicidade, Gorgo consegue, enfim, demonstrar todo o amor que tem por Erich.

O verdadeiro inimigo da humanidade

Fortuna e Destino voltaram para a quinta dimensão, deixando muitas dúvidas e perguntas sem respostas. Certo de que estas entidades cuidariam do esqueleto justiceiro, Erich acena para que Gorgo e Mabel o sigam para conversarem enquanto caminhavam.

– Gorgo, bom amigo, eu te devo desculpas.

– Do… doutor?

– Deixe de formalidade, Gorgo. Pode me chamar de Erich. Você também, Mabel. Eu gostaria muito de ouvir a história de vocês.

– Nós podemos falar? Quem é essa mulher?

– Itsuka? Ela é confiável. Para falar a verdade, ela é minha superiora, no lugar para onde nós vamos.

– Doutor… digo, Erich… o que aconteceu depois que a torre caiu?

– Eu morri, Gorgo. Por assim dizer. Mas aquilo que consiste o nosso “eu” não é algo corporal ou carnal, então eu deixei aquele corpo anterior e entrei em outro. Infelizmente essa técnica tem um preço. Eu fiquei desacordado e, quando recobrei meus sentidos, eu havia sido resgatado por Itsuka. E quanto a você, Gorgo?

– Eu acordei na ilha de Kalau… ou melhor, no que era assim conhecido… dali eu fui a Fiji para tentar contactar nossa organização e foi ali que eu conheci a Mabel.

– Que providencial… o que você lembra de seu passado, Mabel?

– Minha memória mais antiga é de quando eu era criança e vivia em um orfanato. Eu cresci e aprendi alguma coisa naquele internato e foram os diretores de lá que me mandaram para trabalhar no escritório da organização em Fiji. Não foram os melhores anos de minha vida, especialmente por causa de Kahua, meu finado chefe. Quando Gorgo surgiu no escritório, algo me dizia que minha vida ia mudar… eu sou grata a Gorgo por ter me trazido até aqui.

– Então vocês acham que isso foi algo casual, uma… coincidência. Fortuna tem muitos poderes, bem como Destino, mas acreditem em mim, não existem concidências. Você, Mabel, tem muita coisa em comum com Gorgo, por isso que vocês se dão tão bem. Gorgo não é capaz de admitir, mas ele vê muito de sua juventude em você e, de um jeito estranho, eu sou capaz de afirmar que ele te ama, Mabel.

– Mas, Erich, ele me disse diversas vezes que não tinha interesse em mim! No máximo, ele falou que você foi a pessoa que ele esteve mais próximo de sentir amor.

– Oh, Gorgo, que tolo! Nós poderíamos ter evitado muito desconforto se fôssemos mais sinceros com nossos sentimentos. Expressar um sentimento não é perder o autocontrole, mas exercê-lo. Eu sabia de sua devoção, ter você ao meu lado me dava ânimo e coragem, Gorgo, mas eu queria muito é ouvir você dizer o que sente por mim.

– Erich… eu não saberia me expressar. Quando você me escolheu, no convés daquele porta-aviões, eu me perguntava quando eu seria merecedor de tal honra.

– Deixe de bobagens sentimentais, Gorgo. Eu te escolhi exatamente por que você merecia. O mesmo sentimento que te fez escolher Mabel. Você não tem problema algum em dizer o que sente por Gorgo, tem?

– Eu o amo. Eu o desejo. Agora mesmo eu estou morrendo de vontade de cavalgar em cima dele.

– Eu tratarei de vocês terem o momento, o lugar e a oportunidade para consumir tal amor, mas antes vocês precisam conhecer mais sobre o passado de cada um, bem como o meu próprio. Nossas vidas estão entrelaçadas, destinadas e afortunadas a estarem juntas, lutando contra o verdadeiro inimigo da humanidade.

– Isso tem alguma relação com aquela garota atrevida e o tal esqueleto justiceiro?

– Bravos! Você escolheu bem sua parceira, Gorgo! Sim, eu e Fantomas somos habitantes da quinta dimensão e, desde que nascemos, nós lutamos um contra o outro. Eu perdi parte de meu corpo antes de vir para Gaia e acreditei que eu estava livre dele. Mas os caprichos dos Antigos fez com que ele fosse achado e ressuscitado neste mundo pelas mãos da “garota atrevida”. Nosso embate nesta dimensão causou a destruição de minha torre e a morte de muitos de meus homens. Mas para o ser humano, como Fantomas venceu, ele é o herói e eu, o vilão. A loucura de Marie apenas mostra que isso não é tão simples assim. O herói é uma ferramenta de guerra do Usurpador. Atrás de palavras belas, mas vazias, como “verdade”, “honra” e “justiça” esconde-se um tirano, um ditador. Atrás da máscara das “boas intenções” está um projeto para subjugar, dominar e escravizar a humanidade.

– Mas o que existe sobre o meu passado que eu não lembro que possa ter relação com tudo isso?

– Oho! Garota afiada e precisa! Vocês precisam saber e aceitar que vocês dois são projetos meus. Gorgo, você não foi o meu único “escolhido”. Quando eu cheguei naquele porta-aviões, eu sabia que você estava ali, eu o coloquei lá e eu não o escolhi por acaso, Gorgo… nem é casual seu sentimento por mim… Gorgo… eu te fiz, assim como eu fiz a Mabel. Vocês são meus… filhos, se preferirem assim. Vocês têm três hélices de DNA, o que os torna “naturalmente” super-humanos. Eu fico muito feliz que vocês cresceram e se conheceram, mas, para que meu projeto alcance seu objetivo, vocês devem consolidar a relação entre vocês, como amantes.

– Eu tenho certeza de que Mabel gostou de saber isso, mas Erich, eu não sei se sou capaz de amar… eu passei por tantas alterações no corpo que eu acho que eu não sou capaz de dar ou sentir prazer, tampouco de gerar descendência.

– Não diga bobagens, Gorgo. Eu os criei plenamente eficientes. Você só precisa “religar” essa chave que você mantem adormecida. Ainda que não a tivesse, você é capaz de inventá-la. Sinta livremente por Mabel o mesmo que sente por mim.

– Erich… eu ainda tenho dificuldade em sentir atração física por Mabel e ela é uma garota com atributos interessantes mas… eu ainda não sei ao certo o que sinto por você…

– Oh, Gorgo, não me decepcione! Você está olhando tanto para Mabel quanto para mim por nossa aparência física. Você acha que Mabel até pode ser atraente somente porque aparenta ter um corpo feminino, mas não eu, porque eu aparento ter um corpo masculino? Você, Gorgo, ainda não consegue perceber qual a verdadeira forma e aparência dos seres viventes? Simploriamente toma o todo por uma ínfima parte? Você não é masculino porque porta um pênis, Mabel não é feminina porque porta uma vagina. Consegue entender isso?

– Eu… consigo.

– Um homem não deixa de ser masculino apenas por gostar de outro homem. Um homem não se torna mais homem por amar muitas mulheres. Se isso ainda for complicado, eu posso, facilmente, manifestar um corpo que te seja mais agradável.

– Erich… conceda-me um tempo para entender e aceitar que você é capaz de me amar, como Mabel me ama, para que eu seja capaz de te amar da mesma forma.

– Ah, que menino sentimental! Você não precisa de minha permissão. Se eu não o conhecesse, se eu não confiasse em você, você não seria meu filhinho, seria?

– Papai, quem é nossa mamãe?

– Mmmm… boa pergunta, Mabel. Vamos para a nova base… vamos para casa… ali eu espero que vocês despertem assim que conhecerem nossa amada líder.

– Basta, Erich. Você fala muito e depois precisa ficar no tanque de nitrogênio.

– Sim, comandante Plamya sama.

O mito da objetividade

Muita coisa está deixando de ser dita diante do projeto “escola sem partido”, inclusive por pensadores, críticos e farsantes. Um exercício de questionamento é necessário, sobretudo quando a página dedicada a “explicar” o projeto contêm artigos que evidenciam exatamente o oposto do que se pretende.

Alguns conceitos iniciais são necessários para descascar esse abacaxi. Segundo os próprios autores do projeto, define-se a escola como “centros de produção e difusão do conhecimento, abertos às mais diversas perspectivas de investigação e capazes, por isso, de refletir, com neutralidade e equilíbrio, os infinitos matizes da realidade”.

O filósofo riria dessa proposição, afinal, “conhecimento” não é apenas o objetivo. A partir do momento que você define a escola/ o conhecimento como necessariamente “objetivo”, está se assumindo uma posição o que, portanto, anula a “neutralidade”.

A fachada do projeto é o de “combater” o que, no entender dos autores do projeto, é a utilização da escola como instrumento de doutrinação. Então devemos partir do pressuposto de que tal “doutrinação” existe, é tangível, é demonstrável e consistiria em um “desvio” da “verdadeira” função da escola. A despeito da fachada vendida pelos idealizadores do projeto, o objetivo é o de extirpar apenas um tipo de ideologia. Pelo conteúdo da página e dos textos, fica evidente que a postura dos postuladores deste projeto são conservadores e avessos a qualquer tipo de pensamento que estes consideram “inapropriados” ou contrários aos “valores tradicionais do ocidente cristão”, um completo contrassenso ao que o próprio projeto propõe.

Tipos de conhecimento

Uma pessoa tem diversos tipos de conhecimento à sua disposição. Existem seis tipos de conhecimento: conhecimento técnico, conhecimento estético, conhecimento empírico, conhecimento filosófico, conhecimento teológicoeconhecimento científico. A escola é um local propício para adquirir os diversos tipos de conhecimento além do “objetivo”. O ser humano perderia muito conhecimento se dispensasse o conhecimento subjetivo, perderia simplesmente em tentar separar os diversos conhecimentos por esta pobre dicotomia, pois existem diversos graus de objetividade e subjetividade dentro de uma mesma matéria.

Objetividade

Por mais que a objetividade seja algo necessário, útil e confortável para a Ciência, um filósofo riria da presunção, pois não resolve as questões que envolvem o objeto, a observação, o observado, o ambiente e o contexto. Diversas matérias do conhecimento humano se definem como “objetivas”, isto pressupondo que isto signifique “mais exato”, “mais certo”, o que nos conduz ao extremo de que é um conhecimento invariável, inquestionável.

Isso não é Ciência, afinal, inúmeros cientistas continuam suas pesquisas exatamente para refinarem nosso conhecimento, quando não descartar por completo teorias obsoletas. Mas… se o conhecimento é “objetivo”, ele deveria ser infalível, invariável… certo? Para isso existe a Filosofia. E a Ciência utiliza muito a Filosofia, bem como o pensamento abstrato.

Cientistas que também são pensadores perceberam a sutileza de que a natureza da observação sofre variações do que se observa, conforme o ambiente, o observador e seu contexto cultural. Esta é uma questão que divide a Filosofia, algo existe por si mesmo ou existe quando observado? Aquilo que é observado pode ser objetivamente observado ou sofre influência da bagagem cultural que o observador carrega? Qual a influência que o ambiente ou o contexto exerce sobre o objeto e o observador? Qual a influência que a simples presença do observador pode exercer no objeto observado? A objetividade é possível, mas é desejável? A subjetividade pode ser diminuída, mas convêm ser eliminada? Ao assumir uma postura diante destas questões, cessa a neutralidade.

Escola e ensino

A construção de uma escola é um resultado politico de um governo, em uma época, em uma sociedade, em uma cultura. A existência da escola acontece dentro de um propósito definido, portanto a escola em si mesma não tem como ser neutra. A indispensável presença e postura de um professor diante de uma classe descarta qualquer neutralidade. As escolhas que o professor faz de determinados autores ou obras aniquila qualquer neutralidade. A escola é um lugar onde um professor está presente diante de uma classe de alunos para transmitir o conteúdo de uma determinada matéria. A especialização de cada professor a uma determinada matéria demonstra que na neutralidade não há escola nem ensino.

Premissas problemáticas

Os idealizadores do projeto demonstram, portanto, serem contraditórios, porque identificam um determinado conteúdo como “inadequado” e que o ensino de tais conteúdos seriam “doutrinação”, elegendo como ideal somente os conteúdos que consideram “adequados”, um conhecimento supostamente “objetivo” e “neutro”. Ao eleger apenas um programa e descartar outro, sem argumentos melhores, inexiste objetividade e neutralidade.

O projeto é nulo por suas próprias premissas. Pressupõe que uma escola, o ensino e o professor devem ser objetivos e neutros. Considerando que estes eventos acontecem dentro de um contexto político, social e cultural, estes ideais são inexistentes e impossíveis. O professor não é um equipamento, é um ser humano, com opiniões, preferências e opções que são refletidas nas obras e autores escolhidos. O projeto é inócuo simplesmente porque o que se pretende é que o conservadorismo reconquiste a hegemonia na sala de aula. O projeto é reacionário porque pretende cessar ou eliminar o questionamento ou a contestação pelos alunos. O projeto é fascista porque quer alienar o aluno de qualquer tipo de educação ou conscientização política. O projeto é falso, porque qualquer versão ou opinião sobre as questões políticas e socioculturais são tendenciosas e subjetivas. O projeto é absurdo, pois ao colocar a educação familiar acima da educação escolar perde-se a neutralidade, a objetividade e criará atritos entre os envolvidos.

Desenlaces e reencontros

Você, leitor, esteve em uma situação onde, com seus familiares ou amigos, embora todos pareçam estar desinibidos, todos tentam evitar falar do “elefante na sala”. Mabel tentava falar e agir como estava acostumada, mas estava difícil com tanta atenção. Geralmente ela não dava a mínima para o que as pessoas “normais” falavam ou quando a ficavam encarando, mas a atenção estava insuportável com a presença de Fortuna e Destino.

As pessoas “normais” consideravam Gorgo seu pai ou tio, então a “relação” entre eles era fácil de administrar, mas as pessoas acabavam “assumindo” outras coisas quando viam ela acompanhada de Fortuna e Destino. As pessoas “normais” ou achavam que Fortuna era sua irmã ou achavam que era sua mãe. Curiosamente, as pessoas “normais” comentavam com ela o que elas pensavam de Fortuna.

– Puxa, você é uma garota bem comportada e educada. Bem diferente de sua irmã mais velha. Ela devia usar roupas mais adequadas.

A coisa piorava se Mabel dissesse que elas não eram parentes. Ela queria falar que Fortuna era uma entidade, mas isso seria catastrófico. Destino, ao contrário de Fortuna, teve o bom senso de manifestar sua aparência com roupas “normais” para a época, mas arruinava o disfarce quando dizia para as pessoas o que realmente aconteceria em suas vidas. As pessoas preferem e querem imaginar um futuro rosado e adocicado, então vem o Destino e seu pragmatismo para estragar tudo.

– Meu senhor! Como assim, meu casamento é um casamento de conveniência? Como o senhor pode dizer que eu serei constantemente traída? Como o senhor pode dizer que meu chefe está apenas querendo abusar de mim e não vai me promover?

O leitor pode ver como ciganas, cartomantes e videntes sempre descortinam um futuro lindo e maravilhoso para seus “clientes”. Destino mostrava o que inevitavelmente aconteceria, a despeito do empenho, crença ou espiritualidade que a pessoa possuía ou consumia como se fosse uma barrinha de cereal.

– Pessoal, se vocês querem nos acompanhar e observar como é a vida de um mortal, vocês poderiam, ao menos, disfarçarem e se comportarem como mortais.

– Você diz como, viver sem sentido, sem propósito, preso com cadeias e correntes, fingindo ser o que não é ou fazendo o contrário do que acredita? Indiferença, escravidão e hipocrisia. Isso não é vida. Vocês quem deveriam ser como nós. Por exemplo, você e seu tutor. Eu sei o que você quer fazer. No seu lugar eu simplesmente faria. Eu chego, pego o meu irmãozinho e o ataco. Simples assim.

– Acredite, senhora Fortuna, ela serviu-se de meu corpo como bem quis. Ela percebeu que o sexo é superestimado. Existem fontes mais interessantes e mais intensas de desejo, prazer, excitação e satisfação. Por exemplo, eu estou me divertindo muito com Destino e seus vaticínios.

– Oho! Viu só, Destino? Esses mortais são mais interessantes e mais sábios do que você.

– Evidente, senão eu não os estaria observando. Este homem riu diversas vezes diante do meu rosto e isto me intriga. Esta garota demonstra ter um potencial impressionante ainda a ser descoberto. Eu quero descobrir de onde vieram tais espíritos.

– Mmmm… talvez sejam o resultado de nossa… atividade, irmãozinho.

– Olha, eu entendi a parte que vocês são seres que vivem na quinta dimensão, mas como nós podemos ser resultado hoje do que vocês fizeram?

– Então… Mabel, certo? Eu vou dizer por que eu gostei de você e nós temos muito em comum. Aqui onde vocês habitam o tempo é dividido e organizado em uma sequência linear. Para nós, o tempo é mais como um lago. Uma coisa líquida, moldável. Nós podemos nos transpor livremente para qualquer parte desse “lago”. Passado, presente e futuro são pontos onde podemos estar. Este momento presente é tão “real” e “concreto” para nós como o ontem e o amanhã. Esse cosmo onde se situa Gaia pode ser resultado de um evento que nós, Deuses, provocamos. O aparecimento da humanidade e especificamente o de vocês pode ter um motivo, um propósito. Diga, Mabel, quais são as chances de você ter conhecido o homem de sua vida exatamente no pior momento de sua vida?

– Eu não sei… mas… e o livre-arbítrio?

– Isso é mais complicado do que aparenta, Mabel. Você está tendo a incrível oportunidade de conhecer entidades aparentemente distintas: Fortuna e Destino. No entanto, eu sou a irmã mais velha. Não se deixe enganar, Destino é apenas um garotinho debaixo dessa barba branca cerrada e dessas roupas pesadas e formais.

– Fortuna! Pare de me envergonhar! Eu não sou um garotinho! Você é apenas alguns minutos [em termos humanos] mais velha do que eu!

– Eu estou ficando com nó na cabeça. Mesmo na quinta dimensão existe o tempo? Vocês são filha e filho de outros Deuses? Então existe sexo, desejo, prazer e êxtase na quinta dimensão?

– Oh, sim! Cronos é nosso irmão mais velho. Nós somos primos de Gaia e Urano. Nós somos uma grande família. Papai e mamãe geraram muitos de nós… então sim, sexo, desejo, prazer e êxtase são dádivas de nosso pai e mãe. Eu fico intrigada como sua gente pode acreditar em uma entidade e uma religião que condenam estas coisas.

– Talvez por que, titanesa, estes homens tenham confundido autodisciplina com proibição.

– Aummm… faz tempo que um homem não me chama de “titanesa”. Você me emprestaria um pouco seu homem, Mabel? Brincadeira. De certa forma você está certo, Gorgo. Sexo é superestimado exatamente porque o homem tem uma vida sexual muito pobre. Talvez por culpa do Destino, o homem tenha adquirido trauma em relação ao seu corpo e tudo que é carnal e mundano, quando começaram a acreditar que o divino é adverso a este mundo, que o divino é transcendente. Não deve ser novidade alguma falar que sexo não é apenas penetração e nudez não devia ser sinônimo de pornografia.

Os quatro estavam tão entretidos com a conversa que não perceberam a aproximação de um grupo de pessoas. Com expressões carregadas, estas pessoas carregavam cartazes com palavras de ordem. Algumas empunhavam um livro ou seguravam um estandarte com uma flâmula contendo a imagem de um morcego dourado. Uma garota, que parecia ser a líder deles, começou a interpela-los.

– Aqui estão, povo de Deus, os hereges infiéis! Nós precisamos convertê-los para a Verdade e a Vida! Nós precisamos trazê-los para nossa Igreja!

O grupo em massa apenas profere as palavras “Ogon Bato”. A garotinha continuava a fazer sua pregação moralista e teológica. Fortuna ria profusamente enquanto Destino ficava amuado. Mabel praguejava por não ter uma arma sequer em mãos. Gorgo estava pálido e de olho arregalado. Ali, na sua frente, estava Marie Miller, a filha do doutor Miller e protegida daquele esqueleto justiceiro.

Por algum motivo, depois da queda da torre e o desaparecimento do doutor Erich Nozo, Marie tornara-se uma fanática religiosa e fundadora de sua própria Igreja: Ogon Bato. Portando o Livro da Atlântida, ela rapidamente congregou vários seguidores que acreditavam que aquele livro continha a Verdade. Quem a contestasse ou a desafiasse recebia a visita do esqueleto justiceiro, que havia se tornado um mero fantoche dela.

Mabel percebeu que Gorgo estava perturbado com Marie. Mabel tinha motivos de sobra para desprezar a Marie pelo que ela falava. Pior, a garota era tão sem noção que falava em Deus mesmo diante de outros Deuses. Mabel vasculha seu bolso e encontra seu inseparável canivete. Sem hesitar, o tira do bolso e aciona a mola, armando a lâmina, que descreve um belo arco no ar até esguichar um lindo filete de sangue. Marie se cala e cai no chão, empapada no próprio sague. Evidente que a turba se desfez rapidamente assim que Marie deu seu ultimo suspiro.

– Mabel… você… por que? Você sabe o que fez?

– Ela fez em alguns minutos o que não conseguimos fazer em anos, Gorgo.

Gorgo e Mabel notam que ficaram mais duas pessoas. Uma pessoa vestida como profissional de enfermagem, conduzia outra pessoa em uma cadeira de rodas. A “enfermeira” tinha um tapa olho e carregava uma katana nas costas. O “inválido” tinha parte do tronco e apenas um dos braços, aparentava ser velho ou tinha alguma coisa cobrindo seu rosto. Mabel quer saber quem são estas pessoas enquanto Gorgo estremece.

– Do… doutor?

– Demorou para me reconhecer, Gorgo? Você está amolecendo, Gorgo. Nem percebeu minha presença… quem são seus amigos?

– Doutor… mil perdões… eu pensei…

– Todos pensaram, Gorgo. Mas você sobreviveu, meu bom amigo. Em seu lugar, eu pensaria o mesmo. Não seja tão rigoroso consigo mesmo. Eu também estou surpreso por ainda estar vivo. Bom, para ser educado, eu tenho que me apresentar. Muito prazer, eu sou o doutor Erich Nozo.

– Muito prazer, doutor. Eu sou Mabel. Eu sou… aluna… de Gorgo.

– O prazer é todo meu, Mabel, mas você está se subestimando… você é muito mais do que aluna de Gorgo, certo, meu bom amigo?

– Doutor… eu pensei… o senhor… eu…

– Eu vejo que você está irremediavelmente apaixonado, Gorgo e isso é bom. Eu creio que deva isso à interferência de Fortuna… certo, Deusa?

– Digamos que eu coloquei as peças no tabuleiro… mas cabe ao meu irmãozinho Destino o desenlace dos eventos.

– Como esperado de meus tios. Eu lhes rogo que cuidem do esqueleto justiceiro. Eu irei tomar conta deles por vocês.

Destino fica todo envergonhado enquanto Fortuna dá uma piscadela e ambos voltam para a quinta dimensão. Gorgo está embasbacado e Mabel desistiu de entender o que estava acontecendo.

– Eu sei que vocês estão confusos. Venham comigo. Na minha nova base, eu darei todas as explicações necessárias.

Desencontros e enlaces

Mabel fecha o Diário de Bordo apreensiva, com a nítida impressão de que estava sendo observada. Gorgo está na cabine de comando, pilotando o avião, junto com Lecter. Os outros meninos ou estão dormindo ou estão checando o Whatsapp. Mas a sensação de que havia mais duas presenças ali no avião é forte demais.

Mabel acaricia a capa do livro, um calhamaço de 500 páginas encadernadas e numeradas, onde ela anotou cada uma das missões que seu grupo concluiu. Sempre depois de acrescentar mais uma vitória, Mabel relia o relato da missão em Kalau. Por acaso seriam anjos que estão espiando? Mabel nunca perguntou para Gorgo o que ele pensava dessas criaturas e congêneres.

O sono começa a se aproximar, então Mabel repassa, como se fosse um filme, como foi a estreia de seu exército. Gorgo nivelou o avião a mil metros de altura, assim que o radar detectou a proximidade da ilha. Os meninos estavam posicionados nas armas de médio e longo alcance. Ela tinha sentado no canhão. Gorgo quis passar em baixa altitude apenas para que seu pessoal pudesse curtir o espetáculo. As saraivadas de tiros iniciaram assim que avistaram terra firme. Mabel disparou o canhão na marina, destroçando todo o cais. A sensação que ela teve… foi melhor do que a da “sessão” de batismo com os meninos. Mais tiros, mais explosões, pedaços de terra e gente pelos ares. Era belo e excitante. Mabel recorda com carinho quando atingiu o orgasmo ao explodir a prefeitura. Quando Gorgo retomou a altitude de 10 mil metros, a parte habitada da ilha estava em chamas, destruição e grito por todo lado. Gorgo ainda não estava satisfeito, fez a volta e todos se divertiram enquanto o avião abria suas imensas comportas e despejava sua carga letal no que havia sobrado. Da altura que estavam, não dava para ver muita coisa, mas não deixava de ser belo e poético. Mabel adormece depois de recordar quando deixaram a ilha reduzida a uma imensa coluna de fumaça no meio do oceano.

– Hei, Gorgo… diz para mim… como e onde você achou a sua “princesa”?

– Eu a encontrei em um escritório de minha organização, em Fiji.

– Vendo ela dormir, nem parece perigosa.

– Lecter, você não está curtindo um play back, pensando em Clarice?

– Ah… Agente Starling… eu fiquei sabendo que um escritor romanceou nossa… relação.

– Sim e eu gostei muito da performance de Antony Hopkins ao te representar.

– Ah! Quisera eu ser tão charmoso! Mas eu não gostei de Jodie Foster no papel de Clarice.

– Bom, meu velho amigo, a produção do filme fez o que pode, mas é muito raro encontrar uma mulher como sua Clarice.

– Sim e sua “princesa” me lembra muito ela. Eu sinto que nosso bando vai dispersar em breve, então poderia me mandar notícias dela?

– De Clarice?

– Não, sua anta. De Mabel.

– Eu vou pensar. Eu não sei se terei tempo para isso. Eu ainda quero encontrar o doutor.

– Durante as missões nós encontramos algumas pistas e indícios, mas estão em conflito. Eu não consigo sequer concluir se o doutor está vivo ou não.

– Eu não sei como colocar isso, Lecter, mas… você deve ter sentido não? Por alguns instantes, tinham mais duas presenças neste avião.

– Está perguntando para o cara errado, Gorgo. Eu fui um psicanalista. O cientista aqui é o Dexter.

– Ele simplesmente ignoraria os indícios e descartaria qualquer hipótese que não fosse científica. Ele negaria a existência de seres incorpóreos, ainda que um o pegasse pelo pescoço e o erguesse do chão.

– Se me permite uma piada, Dexter é psicopata porque é ateu ou é ateu porque é psicopata?

– Esta é uma pegadinha engraçada, Lecter, mas aqui estamos nós, vinte e três psicopatas, sem que se possa estabelecer algum padrão.

– Touché! Depois que o bando se dissolver, o que você e Mabel pretendem fazer?

– Depois de tantas missões? Nós vamos tirar férias. Ela merece isso. Mesmo que seja uma ilusão, ela se diverte fingindo ser gente normal.

– Mmmm… fingindo que é gente normal, passear, comer, beber, fazer compras e amor… nesse passo, Mabel rapidinho vai ficar grávida.

– Pare de ficar me analisando, Lecter. Mabel bem que gostaria disso, mas nós sabemos muito bem que isso é impossível. Embora meu corpo pareça clinicamente saudável, eu passei por tantas modificações de corpo que agora possuo uma natureza completamente distinta.

– Certamente um hospital ou um laboratório teriam muitas dificuldades e surpresas com seu corpo, mas quem sabe? Por mais que sua condição pertença a outra categoria, não há muitos como você para poder afirmar que isso é impossível.

– Você está é querendo fazer com que eu tenha aquilo que você queria ter com Clarice…

– Touché! O analista foi analisado, pesado, mastigado e cuspido fora.

Gorgo e Lecter riem bastante e, alguns instantes depois, Lecter pega no sono e dorme. Gorgo o cobre com um cobertor e continua pilotando o avião. Quando foi a ultima vez em que ele dormiu? Ah, sim, quando ele e Mabel ficaram juntos pela primeira vez em um quarto de hotel. Ela realmente é especial. Como uma garota tão jovem e pequena consegue fazer isso? Gorgo gostava do calor que o corpo de Mabel lhe proporcionava. Misteriosamente, sentir os braços dela o envolvendo o acalmava e o tranquilizava. Antes, só o doutor conseguia isso. Estaria Gorgo ficando apaixonado? Seria ele capaz de amar? Gorgo solta um riso breve, balança a cabeça e chega à conclusão que está amolecendo.

Na quinta dimensão, Destino recobra os sentidos, retoma a postura e, aflito, vai ver como estão suas cobaias Gorgo e Mabel. Foi tão repentino e desesperado seu despertar que até fez com que Fortuna engasgasse com a ambrosia que ela bebia.

– Gasp! Cofcof! Que é isso, irmãozinho? Endoidou?

– O que você fez, Fortuna?

– Aummm… desse jeito eu vou achar que você não me ama mais. Eu fiz o que você me pediu. Eu coloquei um pouco de meu tempero na vida de seus mortais.

– Mas… eu não vejo desordem, bagunça ou complicação… eles estão… indo bem.

– Mmmm… eu não sei se fico ofendida ou agradecida.

– Por nosso pai e mãe… Fortuna… o que vai acontecer?

– Ah que chato… eu não sei. Você é o Destino. Então o que for para acontecer, irá acontecer… certo?

– Isso é um pouco mais… complicado. Todo ser vivo nasce com livre arbítrio, então aquilo que os seres escolhem e fazem gera uma energia que molda o futuro. Ainda que eu tente ordenar os eventos, nossos vizinhos influenciam o andamento do agora, como se não bastasse os eventos aleatórios que você cria.

– Humpf! Eu sempre sou a que é mais incompreendida. Por que você não volta para seu trono, para sua mesa e livros? O que será, será. Sente-se, assista e desfrute do espetáculo.

Gorgo aterrissa o avião sentindo novamente a forte presença de mais duas consciências. Seu pessoal acorda, espreguiça, dá uma desculpa qualquer e sai do avião, sem planos de retornar. Pouco depois Mabel aparece, com duas canecas de café e dois pratos de ovos com bacon.

– Chefe o Bando de Desprezíveis acabou. Todos os meninos foram embora. Mas eu sinto que nós estamos sendo observados… eu estou louca?

– Não, você não está louca. Seus sentidos estão mais apurados, como os meus. As pessoas ordinárias percebem o mundo apenas através de rudimentares cinco sentidos. Nós podemos perceber tais presenças, mas não sei se nós podemos nos comunicar com essas entidades.

– Eeeeiii! Ooooiiii! Vocês aí que estão nos espiando! Conseguem nos ouvir? Conseguem falar ou dar algum sinal?

Gorgo fica espantado e surpreso com a iniciativa de Mabel. Dois vultos saem do meio do ar diante deles. Um aparenta ser um homem velho e barbudo, coberto por um manto de capuz. O outro aparenta ser uma mulher jovem e deslumbrante, escassamente coberta com uma túnica.

– Saudações, mortais. Eu sou Fortuna e este é meu irmão Destino. Nós gostaríamos de acompanha-los nesse precioso dia. Hoje é um dia em que você vão decidir o futuro de vocês.

Fortuna e Destino

Este universo está na terceira dimensão, apenas uma esquina, considerando que existem doze dimensões. A terceira dimensão flutua no campo da quarta dimensão, que é aquilo que o homem chama de tempo. A quarta dimensão é gerenciada por consciências da quinta dimensão, aqueles que o homem chama de Deuses. Dois habitantes são particularmente interessados em como e para onde os multiversos se deslocam.

Permitam-me apresentar Destino. Sempre coberto com seu manto e capuz, observa e anota em um imenso tomo as cenas que acontecem nesse pequeno grão de poeira que nós chamamos Terra. Em Gaia existem criaturas que são incrivelmente minúsculas, mas também são impressionantemente barulhentas. Destino fica entretido com o espetáculo que um macaco pelado evoluído, que ousa chamar a si mesmo de ser humano. Destino sempre se intrigou com e pelo o que o homem tanto se agita. Seu estudo nunca termina porque é constantemente interrompido pela Fortuna.

Permitam-me apresentar Fortuna. Usa pouca roupa, quando nenhuma. Tem uma pele cor de cobre, pois gosta de dormir rodeada de diversos sóis. Alegre, esfuziante, despreocupada, Fortuna é invejada por Vênus por causa de seu corpo espetacular. Quando ela passa, Orfeu desafina e Eros se esconde. Senhora das coisas imprevisíveis, aleatórias, inesperadas, Fortuna é mais perigosa e traiçoeira do que Loki.

Para vergonha de Destino, ele é meio irmão de Fortuna, então ela tem uma peculiar preferência de perturbar e conturbar seu trabalho. Fortuna estava entediada, então ela foi, rebolando, exuberante, visitar seu irmãozinho que estava concentrado com algum evento em Gaia. Destino nem percebeu a chegada dela, tão focado que estava em ver para onde as vidas humanas chamadas Gorgo e Mabel estavam indo.

– Bom dia, irmãozinho! O que você está fazendo hoje?

– Ah! Fortuna! Assim você me assusta! Por favor, vá brincar com Júpiter, hoje eu estou muito ocupado.

– Deixa de ser chato, Destino! Não é assim que se fala com sua irmã mais velha! Você só fica olhando esses macacos pelados que existem em Gaia pelo seu globo de cristal. Como que isso pode ser considerado trabalho?

– Humpf! Você nunca compreenderia porque jamais trabalhou em toda sua existência! Conhecendo papai e mamãe, eu fico imaginando a quem você puxou. E pare de me chamar de irmãozinho! Você tem apenas alguns minutos a mais do que eu [em termos humanos].

– Você é muito chato, Destino. Fica rodeado com esses livros, se achando muito misterioso, se achando ameaçador e sinistro debaixo desse manto e capuz. O que será que os Deuses vão dizer se eu tirar suas máscaras e disfarces? Vão ver que você é apenas um garotinho mimado.

– Vo… você não faria isso com seu irmãozinho, faria?

– Hummmm… depende. Deixe eu ver também o que você está vendo.

– O… oquei, mas por favor, não estrague meu serviço e tente não ficar se esfregando em mim. Eu fico desconfortável quando eu sinto seus seios pressionarem contra mim.

– Aummm… é mesmo? O sério e implacável Destino fica excitado e com vontade de comer a própria irmã, Fortuna? Oohhh! Que coisa! Que escândalo! O que papai, mamãe e os demais Deuses diriam?

– Conhecendo nossa família, provavelmente nos fariam transar repetidas vezes até você engravidar e dar à luz a outra divindade. Brrr! Eu sinto calafrios em pensar no que resultaria.

– Huhuhu! Seu bobo! Só você mesmo para ficar preocupado com isso. Olha, se isso te deixa tão grilado, eu aprendi um truque sensacional com Ártemis. Eu permaneceria pura, intocada, virgem, como se nunca tivesse transado com ninguém, com o benefício de jamais ficar grávida por… acidente.

– Foi exatamente o que Myriam disse quando encarnou em um avatar humano e o resultado do acidente foi catastrófico para meu trabalho. Se você quiser transar, faça com qualquer de nossos vizinhos, mas me deixe em paz.

– Mmmm… mas que graça isso teria? E como fica o seu prazer?

– Pelo Caos e Tártaro! Meu prazer é irrelevante! Você quer ou não ver o que eu vejo?

– Ow… estraga festa. Tudo bem, mostre o espetáculo.

Destino ergue o globo de cristal e amplia as dimensões do artefato para que Fortuna pudesse assistir a cena. Como se fosse um apresentador canastrão de televisão, Destino explica um resumo do capítulo.

– O que você vê é o que o homem chama de Diário de Bordo. Essa criatura humana feminina, chamada Mabel, escreve nele há algum tempo. Ela está neste momento relendo seu relato de sua missão em uma região de Gaia chamada ilha de Kalau.

– Eu não entendi. Por que ela está relendo?

– Porque foi uma memória boa. Relendo ela pode reprisar, repassar, como se fosse um filme, cada sensação e satisfação que ela teve.

– Eu quero ver também! Você consegue me mostrar?

– Evidente. Isso faz parte do meu trabalho. Registrar e gravar o transcorrer dos atos e fatos. Os homens chamam a isso de história. O fluxo da história mostra que as sucessões de atos necessariamente conduzem a consequências definidas. Os homens notaram a minha presença quando se deram conta disso.

– Oh, puxa… eu consigo ver o que ela viu, sentir o que ela sentiu… parece ter uma ordem, uma relação de causa e consequência e a impressão geral é de que há arte nisso.

– Ah, Fortuna! Assim eu fico lisonjeado. Esta arte é a minha obra.

– Bom, irmãozinho, tem quem goste e gosto não se discute, se lamenta. Isso não é arte. Arte é leve, bela, desinteressada e despreocupada. Algo tão previsível, tão condicionado, tão formal… o nome disso é tédio.

– Agora eu fiquei ofendido.

– Ohhh… tadinho. Não fique ofendido, Destino. Eu ainda te amo e a oferta que eu te fiz ainda está valendo. Você devia aceitar, para relaxar um pouco…

– Fo… fortuna! Pare de se esfregar em mim! Pare de bulir meu treco com sua mão!

– Huhuhu! Seus lábios dizem não, mas seu treco diz sim. Em quem eu devo acreditar? Vaaaamos… eu sei que você quer e precisa disso…

– Fo… fo… fortuna! Pare de lamber, beijar e sugar meu treco! Isso está… perturbando minha mente!

– Mmmmm… vaaamos… admita… você deseja enfiar seu treco dentro de mim… você ama sua irmã, Fortuna. Você ama o que eu faço. O que seria de sua “arte” sem um tempero meu? Basta que você admita que eu deixo você entrar em mim.

O pobre Destino tenta raciocinar, organizar, ordenar, mas sua mente está perdida em uma névoa. Sua vontade perdeu toda a razão e a lógica. Tudo que ele consegue pensar é na sensação que Fortuna proporciona, deslizando aquela fenda escarlate ao longo de seu membro. Destino agarra as ancas de Fortuna e enceta a lança no alvo, sem que estes se importassem sobre quem ganhou. Rápido, vigoroso, esfomeado, Destino dá o que Fortuna quer, um jorro profuso de sua essência liquefeita preenchendo seu ventre.

– Uaaauu… gostei, irmãozinho. Se você quiser, eu posso vir mais vezes te visitar e… quem sabe? Você me deixa eu te ajudar em seu serviço e eu te deixo você me comer.

– Eu estou extenuado e ainda não consigo pensar direito… mas como agradecimento por seus… dotes… você pode colocar o seu tempero na vida dessas criaturas. Se eu estiver consciente, eu quero ver o que vão fazer.