A ocupação escarlate

O ser humano é um animal senciente que percebe tanto o mundo como a si mesmo. O ser humano atribui nomes para seus atos e os distingue conforme o objetivo a ser atingido.

A divisão das tarefas está presente inclusive nas culturas mais primitivas e em sociedades mais complexas, cria-se uma hierarquia dos ofícios. Então algumas ocupações carregam consigo um tabu e um estigma, por causa da cultura, da sociedade e da política.

Na Antiguidade, a condição ou posição de escravo denotava também o papel social de um indivíduo, muito embora os patrícios concedessem diversos benefícios e direitos que, em sua versão na Baixa Idade Média e início da Idade Moderna, não existiram. Acima dele estava o servo, geralmente era colocado em serviços públicos.

Outras funções tinham mais aceitação, como o do camponês, o do artesão, o do mercador e o do soldado. Acima dessas funções estava a do governante e a do sacerdote, que ainda possuem uma grande estima por parte da sociedade.

Com o desenvolvimento, expansão e complexidade que a sociedade alcançava, novas ocupações surgiram, enquanto algumas alcançavam destaque social, outras eram malvistas. Houve um tempo em que a ocupação de cobrador era tão desprestigiada quanto a do cambista.

A evolução e complexidade atingida pelo Estado [conjunto formado por governo e sociedade] inevitavelmente fez com que fosse necessária a formulação de leis para legalizar e regulamentar tais ocupações. A falta ou ausência de leis ou regulamentações não irá acabar com tais funções e a presença dessas leis ou regulamentações não irá aumentar com o numero de pessoas nessa condição.

No mundo contemporâneo, no século XXI, existe uma profissão que carece, urgentemente, de legalização e regulamentação: a do trabalhador do sexo. Todo tipo de ocupação humana é igualmente digna e todo tipo de ocupação humana é exercida mediante pagamento, mas o trabalho do sexo ainda está cercado de tabus, proibições e estigmas. Centenas de pessoas humanas são relegadas à clandestinidade simplesmente porque alugam seu tempo de serviço e sua ferramenta [o corpo] para suprir a necessidade humana de sexo.

Essa função carrega consigo o estigma da sociedade porque nossa cultura sofre com a influência da religiosidade judaico-cristã que vê o corpo, o desejo, o prazer e o sexo como coisas pecaminosas. Um reflexo disso é a percepção que a nudez [especialmente a
feminina] é entendida como pornografia. Diversas análises acabam confundindo e mesclando a Pornografia e a Prostituição como uma e a mesma coisa e isso atinge a todos os trabalhadores do sexo, indistintamente.

Foi com o início da Era Contemporânea, a chegada do Pós-Modernismo, dos meios de comunicação de massa e da Contracultura que a indústria pornográfica surgiu. Servindo tanto de reflexo e confirmação da cultura judaico-cristã de que sexo é algo sujo, vulgar e perigoso, a pornografia [a escrita da prostituição] por um lado reforça o patriarcado e por outro fomentou a discussão sobre nossos fetiches e libidos.

Tanto a pornografia quanto a prostituição são expressões bem antigas, embora tenham recebido outros conteúdos, contextos e conceitos, em outras épocas. Houve uma época onde existiam as prostitutas sagradas, houve uma época onde a cortesã recebia alguma estima social. A prostituição desceu na escala das ocupações na Era Vitoriana e seu Puritanismo. A pornografia desceu na escala das expressões artísticas na Era Moderna, com as ditas revistas masculinas adultas.

Entretanto, em torno da revista ou da prostituta existem diversos outros profissionais que, da mesma forma, estão no trabalho do sexo, mas que são relegados ao mesmo substrato social. Para melhorar a condição destes profissionais, torna-se urgente e necessário a legalização e regulamentação desse trabalho.

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