Cinquenta anos

Quando eu era apenas um projeto na cabeça de meus pais, o cinema nem era colorido e fazia muito sucesso os filmes de ficção científica. Pode imaginar como tanta gente, supostamente adulta, tinha tantos sonhos e fantasias sobre como seria 2016? A minha esposa não gosta desse estilo de filme exatamente porque é fantasioso demais.

Eu lembro quando eu estudei na faculdade a Era do Rádio. Orson Wells causou um pânico sem precedentes usando apenas as ondas do rádio e sua excelente arte de narrar, ao transmitir a versão radiofônica do livro “A Guerra dos Mundos”. Nas primeiras sessões de cinema, as pessoas saíam correndo, achando que um trem vinha realmente na direção deles. A televisão chegou depois e estruturou sua linguagem conforme desenvolvia sua tecnologia e seu conteúdo. Por causa da televisão, MacLuhan teorizou que “o meio é a mensagem”, porque o aparelho portava um sentido social e cultural por sua própria existência. Os computadores pessoais primeiro começaram a se tornar populares para depois surgir a internet que tem revolucionado a comunicação em massa, o acesso à informação, os meio de transmissão de dados e as formas de interações sociais. Hoje, um smartphone tem mais capacidade de processamento que os primeiros computadores pessoais, a maioria possui acesso à internet, diversos aplicativos e engenhocas que tem ameaçado o rádio, a televisão e o cinema.

Tomando os últimos cinquenta anos em retrospectiva, nós avançamos muito, em termos tecnológicos, mas permanecemos estagnados em termos humanos. Afinal, quando eu era um projeto na cabeça dos meus pais acontecia uma mudança na mentalidade humana, a Contracultura, um caldeirão de ideias e sonhos para um mundo melhor. Mas ao contrário do que aconteceu com a tecnologia, o que se sucedeu, ao longo dos anos, um retrocesso alarmante na sociedade, vemos o fascismo ressurgir cinquenta anos depois, a cada dia o conservadorismo vem solapando os poucos avanços feitos pela sociedade.

Em pleno século XXI ainda existe trabalho escravo, fundamentalismo religioso, violência física e sexual, segregação social/politico/econômica, colonialismo, imperialismo, hegemonia cultural, entre outros “defeitos” que vem se mantendo desde o início da Era Moderna, alguns que são heranças da Idade Média. Quando vamos ter o “Admirável Mundo Novo”, quando a humanidade vai ser efetivamente humana?

O que eu vejo nas ruas não é apenas pobreza e miséria material, mas também existe uma indigência cultural, nós temos um televisor de tela de plasma, com imagem e som de alta fidelidade, mas o conteúdo dos programas tem piorado com a mesma velocidade que a tecnologia avança. A educação, gentileza e cortesia tornaram-se coisas de gente velha como eu. Os governos, ao invés de implementar planejamentos sociais, incentivam o consumismo. O ter continua sendo melhor que o ser, nós julgamos conforme a aparência e cultivamos a mediocridade.

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