Protesto inútil

“Quando estava na minha primeira faculdade, passamos por uma longa greve de estudantes. No início, ia às assembleias discutir a razão de achar aquela greve inútil. Entre elas, a mais evidente era: estudantes de uma universidade pública (ou não) em greve nada importam para o dia a dia da cidade, por isso podem ficar 30 anos em greve. O único dano é aos colegas que querem avançar na vida.” – Luiz Felipe Pondé

Eu fico muito grato por eu ter lido o livro “A Utilidade do Inútil”, de Nuccio Ordine, tanto que eu recomendo a leitura desta obra. Eu duvido que Pondé tivesse capacidade para entender, a despeito de sua formação, pois ele diz que o protesto estudantil é inútil.

O protesto estudantil é tão inútil que se tornou referência histórica. Em maio de 1968, na França, estudantes protestaram contra a reforma no setor educacional [tal como vemos acontecendo
hoje, em São Paulo]. O movimento espalhou de tal forma que trabalhadores endossaram o protesto, com greves gerais, totalizando a paralização de 9 milhões de pessoas, causando a queda do presidente da França, Charles de Gaulle. Um feito e tanto para algo inútil.

Ao contrário do que os testas de ferro dos patrões dizem, as condições do trabalhador melhoraram com a organização e mobilização política do trabalhador. Não foi o patrão nem o Capitalismo quem tornou possível 44 horas semanais de trabalho, férias, 13º salário, intervalo de almoço, entre outros direitos. A despeito de toda a apologia feita ao Capitalismo, nada vai apagar o estigma deste sistema que é baseado na [re]produção da desigualdade, na manutenção da pobreza e da miséria. Apesar de estarmos no século XXI, o Capitalismo ainda persiste a existência de trabalho análogo ao escravo, dos subsalários da mulher, da discriminação ao negro, da segregação ao imigrante e a exploração do trabalho infantil. Isso apenas mudou depois de muito protesto, de muita mobilização popular e de leis promulgadas pelo Estado.

Até os EUA, a “Terra da Liberdade”, demorou séculos para reconhecer o direito dos negros e das mulheres, existindo ainda resistência para reconhecer o direito dos gays e dos imigrantes. Somente com a organização e mobilização política dos afrodescendentes é que os EUA começaram a reconhecer o direito dessa minoria, após o Movimento Pelos Direitos Civis, entre 1954 e 1980.

Na Europa, a coisa não é tão melhor assim. Coisas hoje banais e normais, como o direito da mulher votar, somente foi possível depois que as mulheres se organizaram e mobilizaram pelo seu direito de voto [foram chamadas, pejorativamente, de sufragistas], o que deu início ao Feminismo. Causa-me até asco quando eu vejo alguma mulher dizendo que não precisa do Feminismo, a despeito de que sua situação atual, em termos de trabalho, carreira, estudo, mobilidade social e cidadania, somente foram possíveis graças ao Feminismo.

Isto é o que mais me espanta quando eu leio o texto de algum conservador e reacionário. Esbravejam pelos seus “direitos”, esquecendo [Conveniência? Preguiça e desonestidade intelectual?] que estes direitos somente existem de forma mais ampla depois que aconteceu a Revolução Francesa. Antes disto, as leis e direitos eram privilégios de pouquíssimos. Se o Brasil ainda fosse ou pertencesse a este mundo que Pondé tanto defende, ele provavelmente sequer teria tido acesso à uma escola e estaria sobrevivendo de algum tipo de ocupação urbana clandestina, simplesmente por ser descendente de africanos.

Foi pelos protestos, inclusive o estudantil, que o acesso a uma educação pública existisse. A educação pública tem perdido sua qualidade e importância porque, infelizmente, o brasileiro continua elegendo gente que é descendente dos senhores coloniais. Na falta de educação, o brasileiro é culturalmente indigente e consome lixo cultural. Na falta de escola, o brasileiro aprende e se socializa através dos meios de comunicação de massa, o que o torna uma mera extensão daquilo que consome. Sem educação, escola e cultura, não há diálogo, não há questionamento, não há contestação. O meio acadêmico se torna um espelho da elite e defende ideias que podem exterminar com o Conhecimento e a Sabedoria. Quando um intelectual usa de seu conhecimento para explicar, justificar e defender a atual conjuntura, ele está cometendo suicídio.

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