Cultura do bode expiatório

Dois fatos aparentemente sem conexão mostra como e por que, apesar de estarmos no século XXI, nós temos que conviver em uma sociedade estagnada no século XVIII.

Eu estava visitando uma livraria quando eu encontrei o livro do Leandro Narloch intitulado “Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo”, onde o autor anota na contracapa que os cintos de castidade não existiram na Idade Média. Um casuísmo aparentemente sem sentido, mas antecipa o intuito do autor em fazer um Revisionismo Histórico, como os que existem para “contextualizar” os genocídios acontecidos durante as Cruzadas, o tribunal de exceção conhecido como Santo Ofício e o Holocausto do povo Judeu. Conservadores preferem interpretar e entender a história da Idade Média como sendo uma época onde se formou a civilização europeia e que, por isso, deve ser preservado, sobretudo quanto a manter o domínio religioso da Icar.

Depois do estupro coletivo acontecido há poucos dias, a despeito de todo o clamor, protesto, empatia e bom senso em condenar o ato, não faltaram textos e páginas apontando a culpa do estupro para outras causas, acusações que são apenas outras versões de atribuir a culpa à vítima. Os autores, geralmente conservadores, de direita, cristãos, ao invés de perceber e aceitar o problema como consequência de uma cultura, sociedade e politica, preferem, para interesses escusos, apontar como causas o feminismo, o “esquerdismo” e a sexualização precoce. O curioso e interessante é que estes textos recorrem com frequência ao “relativismo” que tanto acusam a “esquerda”, utilizando do mesmo casuísmo de Leonardo Narloch, quando não distorcem, deturpam um fato noticioso.

Eu costumo dizer que a filosofia praticamente pode ser dividida em duas escolas: uma diz que a realidade existe por si mesma e a outra diz que o conceito de realidade depende da apreensão pelos sentidos. Inúmeras subdivisões podem ser feitas, como, por exemplo, quando colocamos a questão se o homem é “naturalmente” perverso ou se ele é um “produto do meio”. Quando se quer estabelecer uma culpa ou causa, inevitavelmente nossa sociedade, um sistema onde vigora a supremacia masculina, vai sempre tentar projetar sua responsabilidade para um bode expiatório. Eu irei desconstruir as falácias destes textos.

A causa “local” – ela foi estuprada porque foi na favela. Quem afirma isso deve ignorar que estupros acontecem até mesmo em igrejas.

A causa “criminal” – ela foi estuprada porque bandidos [que vivem na favela] agem à vontade. Quem afirma isso deve ignorar que estupros são cometidos da mesma forma por cidadãos [inclusive que são da família da vítima], pessoas de classe média, em bairros elegantes. Eu considero esta falácia uma extensão da anterior, porque contêm em si o preconceito de que favela é lugar de bandido.

A causa “cultural” – ela foi estuprada porque frequentava baile funk. Quem afirma isso ignora que estupros acontecem em diversos outros eventos culturais. O funk existe e surgiu mais como sintoma e consequência da própria exclusão e segregação que existe na sociedade ocidental europeia cristã e branca.

A causa “legal” – leis contra o estupro estão apenas aumentando o estupro. Este é um fato que acontece na Suécia, mas é necessário “contextualizar”, como os conservadores tanto gostam de fazer, quando lhes é útil. Textos com esse tema são tendenciosos e desonestos porque tomam um dado estatístico para fazer uma afirmação qualitativa. Esta é uma falsa afirmação, afinal, tal como acontece quando se fala em leis e comportamento, casos somente são registrados exatamente após a existência da lei, antes os casos eram abafados ou omitidos, então não houve um “aumento” de casos, mas sim que apenas estão se tornando público.

A causa “pornográfica” – ela foi estuprada porque existe uma sexualização precoce dos jovens, causada pelo [pasmem] feminismo. Quem afirma isso simplesmente omite que a excessiva sexualização está presente em toda a Mídia, não apenas na pornografia. A indústria pornográfica somente pode aparecer, crescer e ser bem sucedida na Era Moderna porque, queiram ou não os puritanos e conservadores, sexo vende e o Capitalismo foi bastante pródigo em explorar o sexo como alavanca do consumo. O que torna um tanto contraditório que os conservadores critiquem a pornografia, afinal de contas, a liberdade de expressão e o livre mercado faz parte dos “valores da civilização ocidental”. A Revolução Industrial, fundamental para o Capitalismo, fomentou a tecnologia e esta trouxe uma considerável evolução nos meios de comunicação de massas e no acesso à informação que culminaram com a chegada da internet. A geração atual nasceu e cresceu praticamente conectada e vive de forma bastante pragmática a Revolução Sexual da década de 60 do século XX. A menos que os conservadores queiram abrir mão desses “valores da civilização ocidental”, a tendência é do ser humano continuar a crescer, evoluir e se libertar desses grilhões obsoletos e arcaicos. A despeito dos “males da pornografia”, esta não é, nem de perto, a principal causa de estupro. Existem causas que antecedem à existência da pornografia que são históricas, políticas, sociais, culturais e até religiosas. Evidente, a solução seria a educação sexual, algo que os conservadores são contra.

Ao invés de apontar as causas, os conservadores apontam consequências e sintomas. Falar que isso acontece no Oriente Médio é a mais banal falácia, mas os conservadores convenientemente esquecem e omitem que há algo em comum entre a Europa e o Oriente Médio: ambos são territórios dominados por uma religião monoteísta patriarcal, machista e sexista, então é um contrassenso exigir que o Oriente Médio diminua a violência física e sexual contra a mulher.

Antes que perguntem, em tom provocativo, por que as feministas não vão protestar no Afeganistão, os conservadores deviam se informar que existem grupos feministas de muçulmanas em ação no Oriente Médio. Da mesma forma que o europeu lutou e se livrou da Teocracia Cristã, cabe ao árabe lutar e se livrar da Teocracia Islâmica. E que surja um mundo melhor para tod@s.

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