Cachorro de madame – VIII

Quando a limusine parou diante do hotel Windsor, vários funcionários correram de encontro para atender, tomando como verdade de que estava chegando alguém rico, influente ou importante. O porteiro ficou surpreendido e talvez decepcionado quando, ao abrir a porta da limusine, encontrou Osmar, embora com uma aparência melhorada graças à Césane.

– Adiante, tartaruga! Eu quero descer desse carro e esticar as pernas. E faça o favor de andarem rápido. Eu não quero que nenhum conhecido me veja frequentando essa espelunca.

O porteiro abriu um enorme sorriso quando viu a senhorita Etienne, surgindo de dentro do carro, seguindo bem atrás de Osmar. Os funcionários do hotel cercaram a senhorita Etienne, deixando Osmar e amigos para se virarem como podiam.

– Se… se… senhorita Etienne… eu sou seu fã. Pode me conceder seu autógrafo?

– Não se aproxime, plebeu! Vocês todos, afastem-se, não me toquem! Por isso que eu detesto sair nas ruas… eu não suporto esse populacho.

– Se… senhorita Etienne, eu sou o proprietário e gerente deste hotel, por favor, aceite nossas boas vindas. Nosso hotel oferece nossa melhor suíte presidencial à senhorita, por conta da casa.

– Humf! Diz isso como se fosse grande coisa! Boudin, meu irmão, me socorra!

Como uma manada, os funcionário se dão conta da presença de Osmar, ajudando Toulouse, Sibil e Dupont com as malas. Pessoas de mentalidades simples, aceitam rapidamente como verdade que Osmar tem alguma importância. Os funcionários do hotel dividem-se e também cercam Osmar e seus amigos. Dupont tem bastante trabalho para segurar aquela gente enquanto Toulouse e Sibil tratam de escapar em direção ao quarto, levando Osmar com eles.

Depois de trinta minutos de luta árdua, Osmar, Toulouse e Sibil estão em segurança no quarto. Dupont chega cinco minutos depois, todo estropiado.

– Sagrado Coração de Maria! Eu nunca enfrentei algo assim, nem nas greves!

– Pois está e a minha rotina, senhor Dupont.

Só então todos se dão conta que a senhorita Etienne os aguardavam no quarto, acompanhada por um homenzinho que não parava de escrever.

– Senhorita Etienne, eu peço sua permissão para esclarecer aos néscios.

– Isso estragaria a graça e o charme desse momento, escriba. Além do que o senhor Boudin também é um Montmart, certamente intui as coisas. Continue a escrever.

– Sim, madame.

– Como está, senhor Boudin?

– Eu estou bem, senhor Dupont.

– Se estamos bem, está tudo bem. Por favor, façam suas malas imediatamente para que possamos partir dessa cidade de beira de porto.

Como membros de uma orquestra, onde a senhorita Etienne é a maestra, os adultos começam a arrumar as malas, compenetrados em executar com eficiência e rapidez a tarefa. Quinze minutos depois, malas prontas, abrem a porta do quarto e caminham cautelosamente em direção ao corredor do hotel, mas estranhamente encontram o andar inteiro vazio.

– Pelo visto, papai deu um jeito para limpar nosso caminho. Vamos!

O elevador parou apenas no andar onde estavam, completamente vazio. Saíram do elevador e deram com o saguão de entrada e recepção do hotel igualmente vazios.

– Papai quando faz algo, faz bem feito. Prossigamos, sem receio, do lado de fora encontraremos apenas a limusine que nos tirará desse pardieiro.

Dito e feito, Toulouse, Sibil e Dupont colocam as malas dentro do bagageiro do carro enquanto Osmar e a senhorita Etienne se acomodavam dentro da limusine. Os adultos não demoram a entrar e o motorista partiu sem demora, acelerado, sem que tivesse que se importar com outros carros, trânsito ou semáforos. Um enorme estrondo soou quando a limusine alcançou a distância de dez quilômetros e quando Osmar olhou na direção do barulho percebeu que uma enorme coluna de fumaça e fogo erguia-se de onde estava o hotel Windsor.

– Isso… também foi coisa de papai?

– Eu não duvidaria. Aliás, meu nome é Leila.

– Prazer, Osmar. Este é Toulouse, esta é Sibil e este é o senhor Dupont.

– Chame-o apenas de Javier. Agora ele é da família. Nós podemos todos usar os primeiros nomes ao direcionar a palavra. Qual é o primeiro nome de seus tutores?

– Eu me chamo Henry e ela se chama Gal.

– Eu me chamo… ai!

– Você não, escriba. Você ainda é o cachorro de madame. A-pe-nas-es-cre-va.

– Desculpe, Leila, mas… quem é esse escriba?

– Um coitado qualquer que sabe fazer malabarismo com as palavras. Mamãe teve o péssimo gosto de mordê-lo, então eu acabei tendo que adotá-lo como meu animal de estimação.

– Senhor escriba, perdoe minha irmã. Eu vou tentar fazer algo pelo senhor.

– Obrigado senhor… ai!

– A-pe-nas-es-cre-va.

A limusine segue pela estradas, passando ao lado de Rouen, Paris, Orleans, Vierzon, até chegarem, enfim, em Lacroix. A cidade toda parecia ser um cenário de filme, com tantas mansões, mas que pareciam meros casebres diante da residência da família Montmart. Osmar achava impossível que existisse uma casa tão grande assim. Ali caberia facilmente todo o cortiço onde ele cresceu e mais o bairro inteiro. Ali tinha muito menos gente e muito mais elegância. O motorista somente parou quando chegaram em um enorme pórtico que era a entrada do edifício principal da mansão Montmart.

– Ufa! Até que enfim em casa! Vamos! Rápido! Desça! Mamãe deve estar ansiosa para nos ver.

Osmar sai desajeitado da limusine e Lilian praticamente sai por cima dele e corre através do pórtico para dentro do saguão de entrada, anunciando sonoramente sua chegada.

– Mamãe? Maaamããããeeee! Chegamos!

– Oh, que bom! Mamãe está aqui, Leila.

– Veja, mamãe, este é Osmar.

– Pra… prazer, senhora.

– Ah, que bobagem. Me chame de mamãe ou Vera. Seu pai não demora muito para chegar. E quem são os cavalheiros e a dama?

– Esse, mamãe, é Henry Toulouse, meu tutor e padrasto. Esta é Gal Sibil, minha tutora e irmã. Este é Javier Dupont, meu amigo, advogado e tio.

Enquanto Dupont desandava a chorar de felicidade, Toulouse beijava a mão de Vera e Sibil apenas acenava de longe.

– Todos são bem vindos. Só falta Lou chegar para que todos possamos ter uma refeição, que tal?

– Refeição? Ainda bem que tratei de preparar a sala de jantar. Olá, meu amor. Perdoe minha demora. Então, o que achou de seu outro… filho?

– “Ele” é perfeito, querido. Vamos, antes que as panquecas esfriem.

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