Cachorro de madame – VII

Dupont suava frio esperando pela chamada de seus amigos para a audiência enquanto Osmar olhava em volta do fórum, apreensivo com o clima de pesada sobriedade. Ali as pessoas tinham seus rostos graves, sérios, carregados, com roupas escuras a tal ponto que parece um velório ou funerária. Toulouse trouxe um lanche e Sibil fazia consultas a quem quer que pedisse.

– Boudin, Osmar. Compareça com advogado e familiares na sala 105.

– Chegou a hora, senhor Boudin. Lembre-se, responda apenas o que foi perguntado. Você é um dos inventariantes. O juiz lerá o testamento e será lavrado a ata de espólio e herança.

– Você pode segurar a minha mão, se estiver com medo ou nervoso.

-Toulouse! Eu não sou mais criança!

Osmar seguiu adiante, sem esperar pelos demais, entrou na sala 105, sentou na cadeira enquanto o juiz o olhava da mesa, junto com outras pessoas. Tinham dois adultos e uma garota ao lado. Osmar notou a incrível semelhança que ela tinha com ele, com exceção dos cabelos ruivos e dos olhos verdes. O homem estava visivelmente irritado e contrariado e, por alguma razão, Osmar sentiu que ele tinha alguma relação com ele e com a mulher. Esta, não parecia ser mais velha do que Sibil, parecia ser de alta classe e seus traços eram mais próprios de uma grande estrela de Hollywood.

– Muito bem, vamos iniciar essa audiência. Esse é o testamento de Madame Montmart. São identificados dois inventariantes. Senhor Boudin está presente? Ótimo. Senhorita Etienne está presente? Ótimo. Quem vai falar em nome do senhor Boudin?

– Excelência, eu irei representar judicialmente o senhor Boudin. Meu nome é Javier Dupont.

– Dupont? O senhor não é oficial de justiça? O senhor tem algum parentesco com o inventariante? Ora, que seja. Está passando da hora de meu almoço e eu estou com fome. Quem vai falar em nome da senhorita Etienne?

– Excelência, eu, irmã Charity, falarei em nome da senhorita Etienne.

– Parece que estamos quebrando recordes de irregularidades. Por acaso o bispo tem algum interesse no espólio? Ou o convento tem algum vínculo com a pleiteante? Ah, bolas, meu estômago ronca! Estenógrafo, anote em ata que os inventariantes estão presentes com seus representantes. Anote o dia, a hora que eu estou abrindo o testamento lacrado, diante de testemunhas.

Usando uma espátula de abrir cartas, o juiz abre com toda a pompa um calhamaço de folhas que estava selada com lacre feito de cera e contendo o brasão da família Montmart. O juiz pigarreou e seguiu com a leitura do testamento.

– Condado de Lacroix, blablabla, Lucia Montmart, blablabla, estando em posse das minhas faculdades mentais, blablabla, declaro ser de minha vontade deixar metade de meus bens à senhorita Etienne e a outra metade ao fundo das Irmãs da Solicitude. Mas a condição para que a senhorita Etienne receba a herança é a de que receba, cuide e propicie um lar e uma família ao senhor Boudin. Senhores, senhoras, aviem o documento, vejam que é original e está assinado pela Madame Montmart e testemunhas. Confiram o selo de autenticidade do cartório de notas do condado de Lacroix. Os inventariantes tem algo a declarar?

– Da parte da senhorita Etienne, nada temos a declarar.

– Da parte do senhor Boudin, nada temos a declarar.

– Graças a Deus! Aqui está o testamento averbado, concluído e acertado. Meirinho, envie minha sentença ao expediente para que seja publicado amanhã no Diário Oficial. Meus parabéns a ambos os inventariantes. A sessão está encerrada. Se os senhores e as senhoras me perdoam, eu vou almoçar.

Todos se levantam, cumprimentam o juiz que sai apressadamente em direção ao refeitório de magistrados. Na sequencia, Dupont e irmã Charity tratam de aproximar os inventariantes.

– Irmã Charity, eu espero que madame esteja feliz com a conclusão sem percalços dessa audiência.

– Oh, sim, Javier, madame está felicíssima. Eu fiz bem em indica-lo. Mas… você está bem? Eu noto que você está… diferente.

– Eu estou radiante, irmã Charity. Eu devo te agradecer por lembrar de seu velho amigo de seminário em momentos assim. No início, eu recebi tal incumbência por que eu devo muito para madame. Eu iniciei meus serviços com a excelência que eu sempre cumpro meus deveres. Era apenas mais um dever até conhecer o senhor Boudin. Sem querer ser atrevido ou inconveniente, por favor, transmita à madame que, a partir de hoje, eu faço parte da família do senhor Boudin.

– Oh, não por isso, Javier! Eu devo dizer que madame havia planejado exatamente isto. Mas para que esta seja uma grande família feliz, nós devemos apresenta-los formalmente, não acha?

– Sem dúvida. Senhor Boudin, permita-me apresentá-lo à sua verdadeira irmã, a senhorita Etienne.

– Senhorita Etienne, este é Boudin, seu irmão gêmeo.

– Irmão? Ou é melhor dizer irmã? Senhor Boudin, não é algo que nós podemos escolher ou optar. Nós temos uma mãe em comum. Eu saí mais ao primeiro parceiro de mamãe, o “tio Magritte”. Eu acho que você saiu mais ao brinquedo de mamãe, o senhor Mansfield. Diga-me você já desabrochou?

– Senhorita Etienne, isso tudo é muita informação para absorver. Eu sequer sabia que tinha um tio ou uma mãe. Eu tenho apenas o senhor Toulouse, a senhora Sibil e o senhor Dupont. Que era mamãe? Quem era o tio Magritte?

– Este sou eu, garoto. Sua mãe insistiu muito para que eu viesse. Sabe, descer para este mundo não é como viajar de navio. Passar da quinta dimensão para a terceira dimensão é um incomodo considerável. Mas até que valeu a pena, garoto. Você me lembra muito sua mãe.

– Isso é algum tipo de código? Tio Magritte de onde o senhor desceu? Se desceu, como subiu? Fale-me mais de mamãe, por favor.

– Igualzinho à sua avó. Boudin, o juiz acaba de ler um testamento, o que acontece quando uma pessoa morre, no caso, sua avó, Lucia. Você acha que ela realmente morreu? Você acha que seu corpo, meu corpo, o corpo de qualquer um aqui, é concreto, real? Que quando o corpo morre acaba tudo?

– Eu não sei, tio. Eu ainda não consigo entender quem eu sou.

– Você é meu filho e minha filha. Você é igual à sua irmã e irmão, Etienne. Vocês são a obra prima de sua mãe, Vera. O tapa final na humanidade para despertá-la. Isso, esse mundo, essa realidade, não é nada mais senão uma das muitas projeções emanadas da quinta dimensão. Todo esse cosmo, esse universo, é um de muitos cubos resultantes da confluência do espaço, conjunção de três dimensões, que se move por sobre o tempo, a quarta dimensão. Tudo isso que se vê, se sente, se percebe do “real” é apenas uma sombra, um reflexo, uma imagem da verdadeira realidade.

– Eu não estou entendendo, tio!

– Eu também não entendia, até encontrar sua mãe e ser arrebatado pelo êxtase. Mas ainda não é o momento de desvelar todo o quadro pintado por sua mãe. Antes, chame seus familiares e vamos todos para a mansão dos Montmart, lá em Lacroix. Você e sua irmã tem muito a conversar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s