Arquivo mensal: junho 2016

A sociedade líquida

Autor: Vinicius Siqueira.

Original em: Colunas Tortas.

Para Zygmunt Bauman, a sociedade atual pode ser classificada como uma modernidade líquida (que seria uma substituição do termo “pós-modernidade”, que se tornou muito mais uma ideologia do que um tipo de condição humana, como diz o autor), em contraposição à modernidade sólida que seria a modernidade propriamente dita, da época da guerra fria e das guerras mundiais.

Qual a grande diferença? Pode-se começar pelo fim das utopias. A sociedade líquida, ao contrário do que ocorreu durante o século XX, não pensa a longo prazo, não consegue traduzir seus desejos em um projeto de longa duração e de trabalho duro e intenso para a humanidade. Os grandes projetos de novas sociedades se perderam e a força da sociedade não é mais voltada para o alcance de um objetivo.

A utopia era a maneira de perceber que a realidade atual precisava ser modificada somada com a força para sua modificação (a esperança no potencial humano de transformação). Ou seja, havia a constatação de que o mundo precisava ser mudado e interações sociais suficientes para criar grupos, para engajar pessoas e para movimentar nações de maneira que as modificações pudessem ser feitas. Estas duas condições básicas para a sustentação da utopia desaparecem quando a sociedade começa a ser desregulamentada e desordenada.

Para o autor, o fim das utopias é a perda do caráter reflexivo em relação a sociedade e, por consequência, a perda da noção de progresso como um bem que deve ser partilhado. A busca do prazer individual é o fim último da sociedade líquida. Bauman explica que a sociedade atual é desregulamentada, pois o mercado é aquilo que dita as regras e as regras do mercado são marcadas pelo objetivo econômico capitalista: a aniquilação dos concorrentes e o sucesso com os consumidores. A vida também passa a ser desordenada, já que não há mais as claras divisões que antecediam a pós-modernidade (como a divisão do bloco comunista e do bloco capitalista).

Uma corrente de incerteza e insegurança guia o sujeito pós-moderno, que não tem mais referencial nenhum para construir sua vida, a não ser ele mesmo.

A liquidez da sociedade se dá pela sua incapacidade de tomar forma fixa. Ela se transforma diariamente, toma as formas que o mercado a obriga tomar, não propicia a elaboração de projetos de vida (como ter um projeto de vida quando os antigos empregos para toda a vida já não existem mais? Como planejar sua vida sendo freelancer de um projeto de três meses em uma agência de publicidade qualquer? Como fazer um projeto de vida se cortes acontecem semestralmente e se funcionários fixos são cada vez mais trocados por terceirizados ou por contratos de pessoa jurídica?)

Bauman ainda utiliza a metáfora do caçador e jardineiro para simbolizar a era pré-moderna e moderna. Segundo Bauman, na era pré-moderna, a metáfora do caçador descreve melhor a presença humana na terra: o caçador é aquele que protege seus terrenos de qualquer interferência externa e acredita num equilíbrio da natureza. O caçador vê uma estabilidade funcional na presença de cada elemento no mundo e não se importa em acabar com os recursos de um dado espaço, pois pode se mover para outro espaço e utilizar mais recursos.

A vida do caçador é feita de guerra com outros caçadores e proteção do ambiente que se explora.

Já na era da modernidade, a presença humana parte para uma visão reflexiva da sociedade, pautada numa noção de progresso que envolve projetar aquilo que se quer fazer antes da ação. O jardineiro sabe quais plantas devem ser plantadas e quais devem ser cortadas, ele também entende que a ordem no mundo depende do esforço de cada um, não de uma lei exterior.

Segundo Bauman, quando a utopia passa a ser deixada de lado na sociedade líquida, o caçador volta a tomar lugar do jardineiro e as regras fixas do equilíbrio da natureza voltam a produzir formas variadas e variantes, em que a condição humana volta a ser dominada por uma angustia e insegurança insustentáveis.

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A ocupação escarlate

O ser humano é um animal senciente que percebe tanto o mundo como a si mesmo. O ser humano atribui nomes para seus atos e os distingue conforme o objetivo a ser atingido.

A divisão das tarefas está presente inclusive nas culturas mais primitivas e em sociedades mais complexas, cria-se uma hierarquia dos ofícios. Então algumas ocupações carregam consigo um tabu e um estigma, por causa da cultura, da sociedade e da política.

Na Antiguidade, a condição ou posição de escravo denotava também o papel social de um indivíduo, muito embora os patrícios concedessem diversos benefícios e direitos que, em sua versão na Baixa Idade Média e início da Idade Moderna, não existiram. Acima dele estava o servo, geralmente era colocado em serviços públicos.

Outras funções tinham mais aceitação, como o do camponês, o do artesão, o do mercador e o do soldado. Acima dessas funções estava a do governante e a do sacerdote, que ainda possuem uma grande estima por parte da sociedade.

Com o desenvolvimento, expansão e complexidade que a sociedade alcançava, novas ocupações surgiram, enquanto algumas alcançavam destaque social, outras eram malvistas. Houve um tempo em que a ocupação de cobrador era tão desprestigiada quanto a do cambista.

A evolução e complexidade atingida pelo Estado [conjunto formado por governo e sociedade] inevitavelmente fez com que fosse necessária a formulação de leis para legalizar e regulamentar tais ocupações. A falta ou ausência de leis ou regulamentações não irá acabar com tais funções e a presença dessas leis ou regulamentações não irá aumentar com o numero de pessoas nessa condição.

No mundo contemporâneo, no século XXI, existe uma profissão que carece, urgentemente, de legalização e regulamentação: a do trabalhador do sexo. Todo tipo de ocupação humana é igualmente digna e todo tipo de ocupação humana é exercida mediante pagamento, mas o trabalho do sexo ainda está cercado de tabus, proibições e estigmas. Centenas de pessoas humanas são relegadas à clandestinidade simplesmente porque alugam seu tempo de serviço e sua ferramenta [o corpo] para suprir a necessidade humana de sexo.

Essa função carrega consigo o estigma da sociedade porque nossa cultura sofre com a influência da religiosidade judaico-cristã que vê o corpo, o desejo, o prazer e o sexo como coisas pecaminosas. Um reflexo disso é a percepção que a nudez [especialmente a
feminina] é entendida como pornografia. Diversas análises acabam confundindo e mesclando a Pornografia e a Prostituição como uma e a mesma coisa e isso atinge a todos os trabalhadores do sexo, indistintamente.

Foi com o início da Era Contemporânea, a chegada do Pós-Modernismo, dos meios de comunicação de massa e da Contracultura que a indústria pornográfica surgiu. Servindo tanto de reflexo e confirmação da cultura judaico-cristã de que sexo é algo sujo, vulgar e perigoso, a pornografia [a escrita da prostituição] por um lado reforça o patriarcado e por outro fomentou a discussão sobre nossos fetiches e libidos.

Tanto a pornografia quanto a prostituição são expressões bem antigas, embora tenham recebido outros conteúdos, contextos e conceitos, em outras épocas. Houve uma época onde existiam as prostitutas sagradas, houve uma época onde a cortesã recebia alguma estima social. A prostituição desceu na escala das ocupações na Era Vitoriana e seu Puritanismo. A pornografia desceu na escala das expressões artísticas na Era Moderna, com as ditas revistas masculinas adultas.

Entretanto, em torno da revista ou da prostituta existem diversos outros profissionais que, da mesma forma, estão no trabalho do sexo, mas que são relegados ao mesmo substrato social. Para melhorar a condição destes profissionais, torna-se urgente e necessário a legalização e regulamentação desse trabalho.

Metamorfose – IV

Vera e Henry voltaram bem tarde à noite, rindo muito e falando bobagens no ouvido um do outro, recapitulando toda a diversão que tiveram. Foram direto até a biblioteca onde Osmar e Javier estavam esticados no chão, com um sorriso de orelha à orelha. Vera fica cutucando Javier com seu sapato enquanto Henry olha Osmar.

– Ô! Javier! Acorda!

– Madame… mil perdões, madame, por me ver em um estado tão deplorável.

– Você não está em estado deplorável, você está em estado de graça. Eu somente ficaria chateada com você e não o perdoaria se eu não os encontrasse devidamente desfrutados. Desde o inicio foi parte do meu plano deixar Osmar com Leila e depois com você.

– Mas… madame!? Eu?

– Sim, Javier, você. Dentre tantos eu te escolhi, exatamente por seu histórico. Não me entenda mal, Javier, mas você é um bom exemplo do ser humano médio que vive dentro dessa civilização ocidental moderna e cristã. Você teve o vislumbre do que eu hei de desvelar para o mundo inteiro. Toda a humanidade verá, através do caminho da verdade pelo prazer. Você viu a Verdade, através da Luz. Lembra o que viu?

– Madame, eu vi o senhor Magritte acenando para mim. Então eu fui para a quinta dimensão e percebi claramente o que o senhor Magritte explicou sobre a realidade ser apenas um espelho da realidade divina. Ali, corpo, alma e espírito são um único ser. Ali, existem miríades de dimensões, universos e criaturas, seres estranhamente biológicos e seres feitos de energia. Tempo e espaço são plásticos como argila. Magritte apontou para um ponto e em um segundo eu lá estava. Eu vi Deus. Deus é mulher e negra. Eu vi, mas não entendi, madame.

– Não se preocupe com isso. Como você percebeu, tempo e espaço são meras ilusões de minha irmã, Maya. Minha mãe, Lúcifer, é quem traz a Luz e aponta para quem é Deus e Cristo. Maya é a ilusão, a sombra, o espelho, o reflexo, os ídolos que centenas de religiões admiraram mas preferiram seguir falsos Deuses.

– Então a Verdade é Deus?

– Oh, não, eu não ouso tanto. Assim como tudo, eu sou filha Dela e Dele. Eu encarnei milhares de vezes nesse planeta que o ser humano chama de Terra, mas eu conheço como Gaya. Sou eu quem se esconde em todas as efígies de milhares de Deusas. Dê um nome e me encontrará.

– O Mensageiro de Deus é mulher?

– Eu fui homem também e isso deve ter confundido bastante o ser humano, mas agora, com essa Evangelização, eu irei colocar a humanidade de volta ao seu destino.

– Cristo era uma mulher?

– Oh, sim, eu fui Magdala, chamada de Cristo, pelos gregos gentios, significando “ungido/a”, mas infelizmente os nazarenos, os proto-cristãos, ouviram minha Verdade e não a entenderam. Saiba Javier, de uma vez por todas: o Amor é a Lei. O resto é desnecessário, ridículo e a humanidade quase se perdeu. Não é a Igreja, não é a doutrina, não é nenhum livro sagrado. O caminho para a verdade está no mundo, na natureza, tal como a Ciência me venera. O caminho para a espiritualidade está no corpo, no desejo, no prazer e no sexo, como disse o Profeta do Profano! Agora eu vim a este mundo e trouxe de volta os Caminhos do Bosque Sagrado, o retorno do Paganismo e o surgimento da Bruxaria como religião moderna. Quando o ser humano tiver resgatado suas raízes e origens, acabará a opressão das religiões monoteístas, Ciência e Religião serão um só Conhecimento. Será o fim de todas as cadeias, gaiolas, jaulas, condicionamentos, fronteiras. A humanidade enfim será humana e poderá seguir rumo ao seu destino, que é tornar-se divina.

– Mas, mamãe, onde eu entro nisso?

– Oh, meu querido, meu precioso Osmar! Você e Leila são minhas obras primas. No momento certo, eu irei ativar suas habilidades que tornarão ambos férteis. Vocês será capazes de engravidar e de engravidarem. Todes sees filhes serão ambos os gêneros, serão hermafroditas, até que a humanidade inteira desperte e entenda que o DNA define seu órgão genital, não seu gênero e existe um amplo espectro de diferentes sexos intergêneros a serem explorados.

– Isso parece perigoso e arriscado. Os Mensageiros anteriores acabaram sendo mortos de forma trágica. Eu não quero isso para o meu “bodinho”.

– Javier! Até você!

– Não se preocupem com isso, meus amores. Eu pessoalmente coloquei em vocês um gene que os tornam virtualmente imortais e invulneráveis.

– Madame e quanto aos homens? Osmar e Leila os deixarão grávidos?

– Mais bien sour! Está na hora de acabar com a soberania masculina e o patriarcado. Somente quando o homem sentir o seu lado feminino é que poderemos sonhar com um mundo mais justo para todes!

– Sim e foi exatamente isto que eu e sua mãe fomos fazer. Achamos um lugar ideal para abrir o nosso coven. Nós iremos ressuscitar os antigos ritos negros da antiguidade. O Deus verdadeiro voltará a ser visto. A Deusa virá montada em seu torso, tal como Babalon no Dragão do Apocalipse. Evidente que você, Osmar e Leila, serão les clercs…

– Eu gostei da ideia, mamãe. Com quem nós começaremos a repovoar o mundo?

– Leila teve uma ideia que é bem provocante. Nós faremos do pobre escriba nossa primeira cobaia.

O pobre escriba deve encerrar seu relato enquanto tenta aceitar que o mundo está ficando obscuro porque é preciso piorar para melhorar. O pobre escriba sente-se honrado por madame ter escolhido ele para escrever a história e ser cobaia. O pobre escriba agradece ao leitor, pois espantosamente ainda não criou nenhum grupo de linchamento para calar o pobre escriba.

Nos reencontramos na quinta dimensão.

Metamorfose – III

O sol seguia tranquilamente seu percurso pelo firmamento, quando seus raios atravessaram a janela do quarto e pousaram gentilmente no rosto de Osmar. Ele abre os olhos e vê que está deitado no chão, ainda nu. Colocando-se em posição sentada, Osmar vê que seu corpo está com manchas descamando, como se alguma substância gelatinosa tivesse espirrado e ressecado por cima de sua pele.

– Ah, enfim acordou, preguiçoso? Nunca comeu do fruto e quando come se lambuza!

– Leila… o que aconteceu?

– Como assim, o que aconteceu? Você experimentou o “fruto proibido”. Como se sente?

– Eu… você… nós… nós vamos engravidar?

– Não, seu tonto! Nós somos a obra prima de mamãe. Ela nos gerou perfeitos. Pelo nosso parentesco consanguíneo, nós não podemos nos engravidar. Nós temos as mesmas bactérias e sistema imunológico, não há a menor possibilidade de contrairmos qualquer doença venérea. Vamos, vista-se! Está tarde! Estão nos esperando para o café.

Osmar levanta do chão com dificuldade, seu corpo parece feito de chumbo, braços e pernas bambeavam sem forças. Depois de um banho rápido, escolhe algumas peças casuais e vai até a cozinha para o café.

No corredor, encontra Gal, olhando para os lados, procurando algo, olha para ele, suspira aliviada e afasta-se apressada.

No saguão, encontra Javier que o observa com uma expressão especulativa e intrigada, como se notasse algo diferente em Osmar.

– Bom dia, senhor Dupont!

– Bom dia, senhor Boudin. Como o senhor passou a noite? Dormiu bem?

– Eu acho que sim. Eu e Leila estávamos tão cansados que caímos no sono sem sequer perceber. Eu recobrei os sentidos apenas depois de acordar a poucos minutos atrás.

– Eu também estou recobrando minha consciência aos poucos. Henry abusou da gentileza dos anfitriões e eu acabei bebendo muito. Pelo requinte e sofisticação de madame, eu tenho certeza de que um belo desjejum nos aguarda.

Javier esquece sua cisma e oferece a mão para Osmar segurar que, sorrindo, aceita, para o deleite de Javier.

Mais adiante, pelo cheiro e som, era possível encontrar a cozinha, cuja dimensão é a de um restaurante completo, com mesas, cadeiras, garçons, atendentes, vários carrinhos com guloseimas e diversos bules. Vera estava sentada, rindo bastante, enquanto Henry sussurrava algo em seu ouvido. Osmar torceu para que Gal não fizesse nenhuma cena de ciúmes, pois os braços e mãos de Henry estavam enredados demais no corpo de Vera.

– Bom dia, mamãe, bom dia, Henry!

– Bom dia, meu amor!

– Bom, dia, “bodinho”!

– Senhor Dupont, sente-se e fique à vontade. Leila não veio?

– Leila adiantou-se, meu amor, não quis te esperar e saiu.

– E Gal? Henry, Gal não vem?

– Gal teve a gentileza de acompanhar Leila. Hoje nós teremos que deixa-lo aos cuidados de Javier, pois eu e Henry teremos que resolver algumas coisas. Você nos poderia fazer esse favor, Javier?

– Será uma honra e satisfação, madame.

Henry sussurra algo no ouvido de Vera, gargalhando, enquanto Javier ficava corado. Osmar não se preocupa com essa microcena. Seja lá o que ele tenha feito com Leila na noite anterior, ele está faminto. Seu foco está nos quitutes e em encher sua xícara com chá.

Assim que todos estão satisfeitos e estufados, Henry envolve o quadril de Vera e ambos seguem, como se fossem namorados, para seus negócios.

– O que nós vamos fazer, senhor Dupont?

– Senhor Boudin, eu gostaria de aproveitar a ocasião para manter seus estudos em dia. Madame prefere que seus filhos recebam educação em casa, então vamos até a biblioteca e vejamos como estão seus conhecimentos.

Osmar acenou afirmativamente, estendeu a mão para que Javier a segurasse. O coitado estava nervoso, suando frio, engasgado e seu rosto inteiro estava da cor de um camarão.

A biblioteca era grande e espaçosa, tinham várias poltronas e mesas. Encontraram também lápis, papel e caneta para fazer anotações. Escolheram um livro qualquer de uma prateleira aleatória, liam, comentavam e anotavam.

Javier tentava manter o foco nos livros, no estudo, mas Osmar estava começando a ficar impaciente com a falta de iniciativa de Javier.

– Javier, pegue minha mão.

– Se… senhor Boudin?

– Me chame de Osmar. Nós somos bons amigos, deixe de tanta formalidade. Segure minha mão. Eu aprendi essa terapia com a Leila.

Osmar sorri levemente enquanto observava Javier, inseguro, receoso, somente com algo tão simples, mas Osmar sabe o que ele está sentindo. Javier segura sua mão e ele sente o nervosismo e a tensão através da pele. Javier também deixa escapar certos sinais e expressões típicas de pessoas apaixonadas que tanto não acreditam que finalmente estão sendo amadas como sentem medo de receber amor.

– Consegue dizer agora o que sente por mim, Javier?

– Se… Osmar… eu sinto uma fornalha ardendo dentro de mim. Meu corpo tem uma necessidade urgente e vital de estar unido com o seu. Isso faz de mim um monstro.

– Monstro? Por que o seu amor por mim te faria um monstro?

– Meu amor… nós vivemos uma sociedade doentia, onde o Amor não é permitido, apenas sobrevive, dentro de gaiolas, jaulas, regras, tabus, proibições.

– Isso é o que querem que acreditemos, Javier. Ninguém tem poder e autoridade para nos manter nessa opressão. Nada pode nos deter nem nos proibir.

– Oh, eu sinto vontade de gritar e anunciar o quanto eu te amo. Mas irão julgar e sentenciar nosso amor por sua aparência, não por seu sentimento, consentimento ou condição. Para a sociedade, você é um garoto o que faria de mim um pervertido.

– E desde quando os amantes pedem permissão e autorização, do Estado, da Igreja ou da Sociedade para amarem? Que digam o que disser. Eu sou dono de mim, de meu corpo, de meu desejo, de meu prazer. Eu sou plenamente consciente de meus atos e tenho ampla capacidade de consentir e ter um relacionamento com quem eu quiser. Ninguém te fará mal porque eu te protegerei. Aceita meu amor?

Osmar pousa a mão de Javier em um de seus seios e tenta não rir por ver nele as mesmas reações que ele mesmo sentiu, quando Leila o despertou, o iniciou, no caminho da verdade pelo prazer. Javier não pode ser forçado, ele deve querer aceitar a revelação.

– Vamos, Javier, nada tem a temer. Eu não posso prosseguir se não disser o que quer e o que deseja.

Como um lobo, Javier salta de sua cadeira, avança em direção a Osmar, o derruba no chão, arranca suas roupas, arranca as deles. Javier abraça, acaricia e beija todo o corpo de Osmar, sofregamente, chorando, de emoção.

– Pronto, pronto! Não foi tão difícil, foi? Agora deixe-me ver melhor o “tamanho” do seu amor por mim.

Osmar divertiu-se com Javier tanto quanto se divertiu com Leila e não pode evitar de comparar os “instrumentos”. O coitado do Javier também explodiu depois de alguns minutos, tal como Leila, diante de sua habilidade natural.

– [gasp] Tudo isso? Eu quase engasgo, Javier. Mas e agora, o que vai fazer para me satisfazer?

Javier se volta para Osmar, visando suas partes baixas e pode ver, deslumbrado, que Osmar era efetivamente um hermafrodita perfeito. Definitivamente, uma obra divina, ter em um único corpo, todas as vias do êxtase. Javier brincou bastante com a parte feminina e depois montou na parte masculina até que Osmar também esguichou feito chafariz.

– Por Deus, Javier… assim você me mata.

– Meu amor, se ainda tiver fôlego, podemos ir para um segundo round.

Rompendo o casulo

Autor: Neto Lucon.

Original: Nlucon.

Willa Naylor tinha sete anos quando gravou o vídeo Trans kids need to be listened to (Crianças trans precisam ser ouvidas). Nele, a pequena fala sobre o relacionamento com os pais, a vivência trans e ainda faz um pedido: a despatologização das identidades trans.

Ela, que mora na Ilha de Malta e que atualmente está com oito anos, afirma que antes da transição foi muito “ruim viver como um garoto” e que decidiu conversar com a mãe e o pai, Bex e James, dizendo que “se sentia uma menina”.

Diferente de tantas histórias, Willa foi respeitada por eles. “Eles me aceitaram. Então, me deixaram vestir como uma menina dentro de casa para que eu pudesse ver se isso era certo para mim. E isso foi bom, porque minha vida ficou muito melhor. Se eles não tivessem me deixado viver como menina, eu teria sido triste”, conta.

Após perceberam que Willa realmente se sentia à vontade com as roupas femininas e com essa vivência, os pais então permitiram que ela vivesse fora de sua casa a real identidade. Simples, né? “Agora, estou muito feliz vivendo como uma menina. Eu sou Willa em todos os lugares, quando estou em casa e na escola também. Sou plenamente respeitada como Willa e é isso que outras crianças trans também precisam”.

O FIM DA DESPATOLOGIZAÇÃO

O vídeo com a mensagem de aceitação termina falando sobre um projeto que visa derrubar a patologização das identidades trans. Ou seja, que a travestilidade, transexualidade ou transgeneridade não sejam mais vistas como uma doença e que seja tirado da Classificação Internacional de Doenças (CID), pela Organização Mundial de Saúde.

“Nós devemos apenas ter permissão para viver como nós somos, porque sabemos quem somos. Crianças trans precisam ser ouvidas. Não temos uma doença e você não pode nos mudar. Nós somos o que somos”, afirma a garotinha, que frisa ser “muito feliz sendo uma garotinha”.

Em Malta, graças ao reconhecimento legal de Willa, pessoas trans não precisam fornecer prova de tratamento psiquiátrico ou psicológico para conseguir ser reconhecida com a sua identidade de gênero. Mas, em grande parte do mundo, muitas crianças trans passam por procedimentos estigmatizantes com o objetivo de serem reconhecidas como tal.

“Sou plenamente respeitada como Willa e é isso que outras crianças trans precisam”.

DIA INTERNACIONAL PELA DESPATOLOGIZAÇÃO TRANS

Muita gente não sabe, mas o Dia Internacional Pela Despatologização das identidades trans é realizado no dia 24 de outubro pela ong internacional Transgender Europe.

A ideia é que a travestilidade, transexualidade ou transgeneridade não sejam mais vistas como um problema de saúde mental. Mas como mais uma possibilidade de vivências e identidades.

Impossível? A luta pela despatologização começa a trazer resultados pelo mundo. A Dinamarca, por exemplo, foi o primeiro a eliminar a transexualidade dos manuais de psiquiatria. A modificação está prevista para ser realizada no dia 11 de janeiro de 2017.

Metamorfose – II

Joe continuava a falar das obras de Mansfield, Leila comentava umas e aplaudia outras. Osmar ouvia com atenção, mas não via coisa alguma que pudesse justificar tanto escândalo e, para ser sincero, estava ficando enfadonho e cansativo. O monólogo foi interrompido com Osmar soltando um sonoro bocejo.

– Pelos Deuses! Olhem a hora! Muito bem, meus queridos, está na hora de ir para cama.

– Ah, mãe! Nós não somos mais crianças! [bocejo] Nós estamos nos divertindo, ouvindo papai!

– Eu sei disso, meu amor. Nós continuamos amanhã, sem falta, oquei? Osmar ainda não está acostumado com as nossas atividades. Jout, jout!

– Senhores e senhora, sirvam-se à vontade, do que tiver do bar e da geladeira. Infelizmente eu terei que voltar para a quinta dimensão.

– Trés bien. Vamos secar alguns xerezes, Henry?

– Madame nos acompanha?

– Muito gentil, Henry, mas eu vou dar uma volta com Gal. Conversa de meninas.

– Isso nos deixa para uma conversa de meninos, não é, Javier?

Mas o pensamento de Javier está distante, pela forma como olha Osmar andando com Leila, ambos em direção ao quarto deles. Leila lança um beijo no ar e Osmar acena, em despedida.

– Eu gosto muito de ouvir nosso pai, mas eu fico contente de estarmos indo para a cama. Os adultos fizeram suas panelinhas, nós vamos fazer a nossa. Nós temos muito que conversar.

– Eu também estou feliz que nós teremos alguns momentos para nós. Mas onde [bocejo] nós vamos conversar?

– Ora, no nosso quarto, claro! Eu fiz questão [bocejo] que dormíssemos no mesmo quarto.

Leila abre uma porta almofadada e, com um trejeito, apresenta o quarto onde passariam a noite. Osmar fica boquiaberto, o quarto era maior do que a casa onde ele habitava com Henry e Gal. Um quarto com uma decoração caprichada, parecida senão mais requintada do que as lojas elegantes do centro comercial.

– Aquele armário é o seu. Eu espero que as roupas sejam do seu gosto e tamanho. Este aqui é o meu.

Osmar encarou a porta do seu armário e abriu, desvendando um espaço grande suficiente para um cômodo do cortiço. Tinha um corredor e dois nichos, onde várias roupas estavam limpas, cheirosas e organizadas. Osmar nunca tinha visto ou tido tantas roupas para ele.

– O seu pijama deve estar na terceira gaveta da estante à sua direita. Não seja lerdo e vista!

Osmar acha a estante, a gaveta e o pijama, mas fica empacado, com o pijama na mão e se vira para Leila. Leila estava nua e percebeu que Osmar a estava encarando.

– Irmãozinho! O que você tanto olha? Ora, ora, quem diria! O santinho que não via nem sentia coisa alguma em ver imagens de tantos garotos e garotas, fica embasbacado por ver sua irmãzinha nua? Tarado! Pervertido!

– Eu… eu não sou tarado, nem pervertido! Eu só… admiro sua beleza. Eu… eu não sei bem o que é… tem algo em você que embaça minha mente.

– Ora, ora, não me diga! E você ainda perguntou ao Javier o que ele via de tão especial em você? Meu irmão, isto que você está sentindo agora por mim é o que Javier sente por você. Por acaso isto incomoda ou é impróprio?

– Não… não se trata de algo incômodo ou impróprio. Eu apenas não tinha sentido algo assim antes. Eu estou surpreso, pois é algo novo, inusitado, mas eu não estou com medo nem me sinto ameaçado, muito ao contrário. Eu sinto um calor confortável, acolhedor.

– Então agora você entende como Javier olha para você. Agora seja um menino educado, cavalheiro e tire a roupa. Não é justo apenas eu estar nua.

Osmar começa a tirar a roupa, algo que nunca foi problema, mas desta vez ele estava acabrunhado. Leila saboreava cada segundo, mantendo uma expressão indiferente.

– Ah, até que enfim! Agora eu consigo te ver. Eu devo dar razão ao Javier, você é atraente. Nós não somos muito diferentes. Meu quadril e seios são um pouco mais cheios do que os seus. Mas a sua “arma” é um pouco maior do que a minha. Como você sente seu corpo, Osmar?

– Normal… eu acho. Sinto frio, sinto calor, sinto sede e sinto fome.

– Não é disso que falo, panaca! Eu quero saber se você explora seu corpo, se você toca no seu corpo e se tem sensibilidade em algum ponto.

– Ah… eu tomo banho, ensaboo, enxaguo, mas eu não tenho alguma sensibilidade específica.

– Mmm… isso é preocupante… e grave. Nesse passo, você não vai ser capaz de entender seu amigo Javier nem saberá o que você sente por mim. Vamos fazer um teste. Segure minha mão.

Osmar começa a esticar a mão na direção da mão de Leila como se estivesse para colocar a mão em uma armadilha. Algo que ele fez tantas vezes, algo tão frugal e banal, mas sua cabeça parecia estar prestes a explodir. Quando Osmar segura a mão de Leila ele sente sua pele empolar, seu cabelo eriçar e um frio na espinha.

– E então, Senhor Gelo? Sentiu algo?

– Eueueu… boca seca… falta de ar… dificuldade de falar…

– Você não é um caso perdido. Muito bem… agora o que sente?

Leila move a mão de Osmar e a coloca espalmada sobre um de seus seios. Osmar fica roxo instantaneamente. Se fosse uma cena de quadrinhos, sairia fumaça de seus ouvidos. Osmar sente que o calor em seu corpo aumenta, seu estômago revira e seu tórax parece uma fornalha.

– Ora, ora… parece que meu “tratamento” está funcionando. Então, irmãozinho, quer que sua “enfermeira” continue?

Osmar está tão tenso que consegue apenas balançar a cabeça afirmativamente. Sorrindo de satisfação, Leila aproxima-se de Osmar e lhe beija, no rosto, na testa e na boca. Osmar sente uma enorme palpitação e seu corpo parece que vai derreter.

– Consegue sentir que seus seios estão tugidos como os meus? Consegue sentir algo endurecer entre suas pernas?

– [sons disconexos]

– Oh, pobrezinho do meu irmãozinho! Eu estou sendo muito malvada? Eu estou te torturando? Se você não falar algo, eu não sei o que fazer… eu devo usar minha mão ou boca aqui e baixo?

– A… a mão… de… depois… boca…

– Mmmm… o que diria Javier se soubesse disso? Meu irmãozinho quer um serviço de mão e um serviço de boca. Do jeito como você está ficando excitado, não vai demorar em jorrar creme.

Leila envolve com suas mãos o órgão de Osmar, com um sorriso de satisfação, esta era uma brincadeira que ela costumava praticar consigo mesma e fazer em Osmar tinha um sabor diferente. Ela estava fazendo pouco de Osmar, mas ela estava gostando tanto do que estava fazendo que ela mesma sentia estar próxima de ter um orgasmo.

– A… la… le…leila…

Osmar sente seu corpo desmanchar, sente as paredes desmancharem, sente o mundo desmanchar. Em uma fração de segundo, Osmar sente uma conexão profunda e absoluta com toda a vida, com cada pessoa, como se fossem pequenas folhas de uma enorme árvore. Ele tinha se tornado o mundo, ele tinha se tornado a humanidade, ele tinha se tornado a eternidade, ele tinha se tornado Deus.

Metamorfose – I

Depois do jantar, Osmar ficou ao lado de seu pai, querendo saber tudo dele. Joe Magritte contou para ele sobre seu ultimo caso e de como conheceu Vera Montmart. Leila bocejava, com sono, esta história ela conhecia muito bem e era muito mais interessante falar de seu outro “pai”, Nathan Mansfield.

– Que história tediosa, papai. Eu prefiro que você nos conte sobre Mansfield e suas obras.

– Bom, minha querida, as “obras” do tio Mansfield não eram de autoria dele. Além do que as… “obras” do seu tio podem não ser do apreço de nossos novos parentes.

– Que bobagem, Joe. Eu tenho certeza que Henry é um homem culto e inteligente e eu duvido que Gal fique facilmente escandalizada. Eu apenas não sei como nosso “primo” Javier vai reagir.

– Minha “prima”, depois de minha recente aventura, nada pode me abalar. Se o senhor Boudin consegue ouvir sobre essas blasfêmias, eu posso suportar qualquer infâmia.

– Eu posso atestar por Javier. Antes de passar para a quinta dimensão, eu o conheci e ele é um homem bastante tolerante, para a criação e crença que ele tem. Mansfield, ou melhor, os artistas que o usavam como vitrine, faziam obras que chocavam deliberadamente a moral hipócrita da sociedade humana.

– Ai que chato, papai! Pare de usar palavras bonitas ou enfeitar. Descreva as obras do meu outro pai.

– A primeira exposição de Mansfield era uma instalação imitando um banheiro, forrado com papel de parede com santos cristãos e o papel higiênico era feito de páginas da bíblia. As pessoas eram convidadas a usar o vaso sanitário, grafitar a parede e limpar seus excrementos.

– As pessoas fizeram isso?

– Algumas fizeram, mas a exposição foi fechada poucos dias depois, por causa de uma ação feita por católicos.

– A exposição ofendeu essas pessoas? Por que?

– Essas pessoas ficaram escandalizadas porque, para elas, aqueles objetos eram consagrados, santificados, então a instalação degradava não os objetos, mas aquilo que estava contido neles.

– Isso foi fraquinho. Qualquer adolescente ateu ou satanista poderia fazer algo assim. Não tem graça alguma pegar objetos profanos, tirá-los de seu contexto, cobri-los com símbolos religiosos, como se fosse tornar este símbolos ou sentimentos religiosos similares ou iguais a estes objetos profanos. Um objeto ou símbolo que é tirado de seu contexto deixa de ter seu significado e adota outro referente. Conte mais!

– A segunda exposição de Mansfield era uma série de quadros reinterpretando a imaculada concepção de Maria por Intermédio do Espírito Santo. Muitas destas imagens eram de adolescentes, fantasiadas de santa, em uma faixa etária perigosamente limítrofe, em posições eróticas, senão pornográficas, copulando com um enorme pombo.

– Foram essas imagens que surgiram durante sua investigação do homicídio de Mansfield?

– Foram, Javier. Muitas das fotos que eu encontrei nos arquivos ainda estão sendo transmitidas clandestinamente pela internet. A nudez, feminina, ainda é um tabu, que apenas aumenta quando a modelo possui uma determinada faixa etária, como se os seres viventes não nascessem com uma sexualidade.

– Eu me recordo disso. Foi quando pessoas e repórteres começaram a nos incomodar, nos acusando de fazer apologia à pedofilia, zoofilia e de estarmos sexualizando as adolescentes. Ninguém se deu conta que Maria tinha nove anos quando foi “coberta” pelo Espírito Santo, nem que teve que casar-se aos doze com um homem de quarenta anos, porque a sociedade da época costumava matar garotas ou mulheres que fossem vítimas de estupro ou suspeitas de adultério.

– Desse eu gostei, mamãe. Não por causa da heresia banal ao Cristianismo, mas por desafiar o maior tabu da Era Moderna, que concebe a criança e o adolescente como seres ingênuos, inocentes e assexuados. Todo ser vivo nasce com sexualidade, então todo corpo é naturalmente sexualizado, sem isso não há atração, amor, tesão, cópula e reprodução. Mostre para o Osmar! Vamos ver o que ele pensa disso!

Osmar olha as figuras, sem pudor ou interesse, achando muitas poéticas e belas, sem perceber qualquer conteúdo ou ofensa sexual naquelas fotos. Percebeu que Javier olhava de esguelha, por cima de seu ombro e notou que Gal fervia de ciúmes.

– Senhor Dupont, eu não vejo coisa algum que chame minha atenção ou me atraia nessas fotos. O que o senhor vê? Estas fotos são atraentes? Por acaso é assim que o senhor olha para mim?

Javier, pego de surpresa, ruboriza, treme inteiro, mas não demora em recuperar a postura, ao recordar que ali ele não será nem julgado, nem condenado, nem perseguido pelo que gosta, sente ou pensa.

– Senhor Boudin, eu não nego que eu te amo, eu me declarei abertamente diante de testemunhas. Mas ao contrário da “cigana”, eu respeito sua dignidade e integridade, eu jamais te forçaria a fazer algo. Senhor Boudin, houve tempo em que eu me mortificaria em sequer pensar nisso, mas eu lembro muito bem, quando eu estava no seminário, como era comum existir amor entre garotos e padres. Mon Dieu, o passatempo dos garotos da minha turma era ler os mitos antigos que falavam em Deuses cometendo estupro, com garotos e garotas! Tanta gente fala dos “valores da civilização ocidental” sem se darem conta que a nossa civilização nasceu, cresceu e surgiu graças ao estupro, incesto e adultério!

– Bravo, bravo, Javier! Eu não teria dito melhor. Mas não é essa a questão. Quando você olha para o meu filho, você sente em seu corpo arder um desejo incontrolável que somente terá sossego quando seus corpos se consumirem em união carnal?

– Madame… eu sufoquei minha natureza por viver em uma sociedade doentia. Nós nos achamos tão cultos, civilizados, mas a que custo! Nós reprimimos e recalcamos a expressão normal, natural, saudável, legal e legítima do amor por causa de convenções sociais. Senhor Boudin, me perdoe. Essas fotos são apenas figuras, sombras, fantasmas, diante do que eu sinto pelo senhor. Eu olho para estas figuras buscando um pouquinho de sua beleza e me pego fantasiando com seu corpo nu. Nisto eu me rebaixo ao nível da “cigana”, pois eu sinto esse desejo ardente de unir meu corpo ao seu em uma união carnal.

Enquanto Gal crispava as unhas na poltrona, Osmar ergueu-se da cadeira, largando o álbum de fotos e, fingindo estar incomodado, decepcionado e descontente, tenta passar uma descompostura em Javier.

– Senhor Dupont! Francamente! Olhe bem para mim! Tem garotos e garotas nestas fotos que são muito mais belos do que eu! Olhe para minha mãe, para Gal! Como eu posso ser mais atraente do que estas pessoas?

Enquanto Osmar falava, ele balançava sua cabeça negativamente de um lado a outro, fazendo voar algumas mechas de seus cabelos dourados. Sua expressão tentava ser de alguém bravo, primeiro com braços cruzados e depois repousando as mãos no quadril. Javier desfrutou da cena, com olhos esbugalhados, babando pelo canto da boca, com um filete de sangue escorrendo por um nariz e uma notável ereção.

– Ora, viva! Seu corpo responde melhor que você, Javier.