Cachorro de madame – VI

O atendente do hotel Windsor ficou boquiaberto quando Osmar e amigos retornaram do passeio. Césane fez seu milagre, suas roupas estavam impecáveis e adequadas ao convívio com a sociedade. O ser humano, “civilizado” e “provinciano”, infelizmente julga as pessoas por sua aparência, não pelo caráter.

Dupont estava aflito, pois a audiência seria amanhã, antes do meio-dia, então tinha urgência para que todos fossem dormir. Evidente que todos quiseram aproveitar o jantar, comer um prato feito era uma raridade, então muito justamente queriam aproveitar se fartarem com pratos que dificilmente comeriam.

Quando ficaram saciados, voltaram ao quarto, quando Toulouse arrumou e convocou uma reunião, uma “mesa redonda”, todos sentaram nas cadeiras e Osmar ficou no centro.

– Muito bem, “bodinho”, está na hora de você falar. Você quer que sejamos uma grande e feliz família, então nós não podemos ter segredos. Eu estou interessado em saber mais dessa revelação que eu tive. Quando e como você se deu conta de sua… condição?

– Bom… eu conto se vocês também contar sobre suas vidas, combinado?

– Combinado, certo, pessoal? Certo.

– Eu… nasci assim. Ao menos em parte. Eu sempre fui assim e, pelo menos para mim, quando eu era menor, isso era o normal. Só depois que eu cresci e tive contato com outras pessoas que eu percebi que eu era… diferente. Não que haja algo de ruim em ser diferente, afinal vemos tantas pessoas diferentes! Então tem alguns anos que minha… condição começou a ficar mais… explícita. Eu desenvolvi quadril e seios. Eu fiquei com medo e vergonha, então eu fico escondendo. Há algo de errado comigo, Toulouse?

– Claro que não, “bodinho”! Talvez para a sociedade ocidental europeia cristã você seja diferente, mas vivemos em um mundo imenso. Acredite em mim, eu vi muitos outros e outras iguais a você. Para ser sincero, as culturas antigas consideravam o hermafrodita um ser divino, o verdadeiro ser humano original, então os diferentes, os estranhos, somos nós, portadores de um único sexo e gênero.

– Toulouse, só você mesmo consegue me fazer rir!

– Eu tenho certeza que todos vão concordar que o importante é que você seja feliz. Mas eu não sou o único com perguntas e curiosidades. Eu sei que você nunca bebeu, mas tome um gole de bourbon, pois Sibil e Dupont vão querer fazer perguntas que podem parecer intimidantes, mas somente enfrentando o medo é que você pode se superar.

– E… eu… eu consigo. Eu sei que Sibil e o senhor Dupont sentem algo por mim, eu devo ouvi-los e tentar resolver essas questões. Depois eu tomo o bourbon.

– Eu primeiro, afinal, eu tenho mais “tempo de casa” e sou praticamente sua irmã, certo, “bodinho”?

– Evidente que não. Falta-lhe a educação, a sensibilidade e a finesse em conversar sobre um assunto tão delicado com uma pessoa tão gentil quando o senhor Boudin.

– Hahaha! Vocês disputando o “bodinho” explica muito mais! Então, Osmar, com quem você quer falar primeiro?

– Sibil, desculpe, mas eu sinto que eu tenho que falar primeiro com o senhor Dupont, afinal, ele deve estar mais torturado e confuso sobre o que sente por mim do que você.

– Ah! Doce vitória!

– Humf! Não cante vitória, “batata frita”! A batalha está apenas começando!

– Nada disso! Primeiro vocês tem que me ouvir. Eu não sou prêmio nem troféu. Eu sou uma pessoa. Por isso, senhor Dupont, fale, como puder, com sinceridade, o que sente por mim.

– Senhor Boudin, eu peço que perdoe meus maus modos, se por acaso minhas palavras te ofenderem. Veja bem, senhor Boudin, eu nasci e cresci em uma família complicada, cheia de problemas causados por causa desse perigo chamado amor. Quando eu tinha idade suficiente, eu entrei em um seminário e tornei-me um clérigo secular, prometendo ao bispo e a Deus que eu jamais cairia em tentação. Por caminhos que eu percorri, eu cheguei ao posto de oficial de justiça e infelizmente pude conhecer ainda mais os desvios e pecados que a alma humana escondem. Eu devo dizer que foi um bálsamo quando o senhor me recebeu com incomum gentileza e animosidade. Então, senhor Boudin, ali no convés do navio, quando o senhor olhou fundo em meus olhos e segurou meu rosto com suas mãos, eu senti algo que eu jamais havia sentido antes, embora eu saiba teoricamente. Isso é bastante complicado, delicado e arriscado, senhor Boudin. Minha vida ficaria arruinada se alguém soubesse que eu estou apaixonado por outra pessoa, especialmente se for do mesmo gênero, ainda mais com sua idade. Sim, eu estou surpreso, chocado, confuso, mas acima disso tudo, o que há em meu coração, é amor, senhor Boudin, que Deus me perdoe, mas eu te amo.

– Senhor Dupont, eu disse antes e repito: nós somos todos uma grande família feliz. Eu jamais ficaria ofendido, eu fico no máximo chateado quando Toulouse e Sibil ficam usando meu apelido, mas eu sei que o fazem por carinho. Eu vejo tanta gente nas ruas e fico imaginando a história da vida de cada um, então eu suponho que somente nós sabemos o fardo que carregamos. Felizmente Deus é tão bom que nos faz encontrar pessoas boas, pessoas confiáveis, amigos, que nos ajudam a levar nosso destino. Eu te peço que tenha paciência, pois eu ainda preciso aceitar e processar tudo isso, mas por enquanto, aceite minha amizade e seja parte de nossa grande família feliz.

Dupont desatou a chorar, por felicidade. Enfim, tinha extravasado toda a tensão. Ele tinha se confessado para uma pessoa que ele considerava próxima de Deus e só isso importava. Sibil aproveitou e, deixando o decote mais evidente, foi falar com Osmar.

– Tudo isso é muito bonito, muito agradável, mas não se esqueça de que nós dormimos juntos completamente nus e tomamos banho diversas vezes. Você me conhece bem e eu te conheço muito bem. Eu ainda não sei bem o que fazer com esse seu… upgrade, mas nós podemos achar um jeito juntos, que tal?

– Sibil, você tem mais a aprender. Afinal, como você mesma diz, dormiu, tomou banho e nunca se deu conta de minha… condição. Eu sei muito bem que você tenta fugir e se esconder de seu passado, de seus traumas e frustrações fazendo essa personagem de mulher fácil e acabou acreditando nessa sua imagem distorcida a respeito do amor. Eu não estou te julgando, eu não estou te condenando, mas você precisa que eu te diga essas verdades porque, a despeito de tudo, você é minha irmã. Quando e se você for capaz de amar como Dupont ama, eu levarei a sério o que você me diz.

Sibil desmorona no chão, se encolhe toda e fica em posição fetal. Toulouse assistiu ao desempenho de Osmar na reunião e viu que seria o próximo.

– Toulouse… meu pai! Eu sinto um pouco de inveja de você, por saber quem é e o que quer. Eu te devo desculpas por não ter tido a coragem de falar com você sobre o que eu estava passando. Eu não sei a qual anjo ou gênio eu tenho que agradecer pelo acidente na loja, mas para minha sorte foi você quem me desvendou e me aceitou tal como eu sou. Eu sei que posso contra com sua sabedoria e orientação para me ajudar a entender. Eu sou menino e menina. Eu ainda não sei se gosto de menino ou menina. Eu sequer sei se eu estou pronto para amar. Aliás, eu peço a todos, que sejam pacientes. Com o tempo, com a vivência, com a experiência, eu poderei definir quem eu sou, como eu me sinto, como eu percebo o meu corpo, como eu definirei minha identidade, preferência e opção sexual.

– Puxa vida, “bodinho”… por uns instantes eu achei que também seria detonado! Garoto, eu sinto muito orgulho de você. Dupont vai concordar comigo que você tem mais coragem e capacidade do que nós, os “adultos”. Eu vou dormir tranquilo, pois eu sei que você vai tirar de letra essa audiência.

Osmar esboça um largo sorriso e vai contente para a cama, satisfeito consigo mesmo, por ter, enfim, enfrentado seus esqueletos, seus fantasmas. Toulouse ajuda Sibil a se erguer e a leva para a cama, mas desta vez para dormir sozinha. Quando ele retorna para a sala, Dupont estava enxugando o bourbon que ele tinha separado para Osmar.

– Eu devo dizer, Dupont… você me surpreendeu. Eu achei que você não conseguiria desabafar.

– Senhor Toulouse, eu admito que meus nervos estão em frangalhos, mas eu estou, enfim, livre. Ainda tem daquela tequila?

– Sim, vamos abrir uma e brindar a quem?

– Ao senhor Boudin. Por ter libertado a minha alma.

– Vivas ao “bodinho”!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s