Cachorro de madame – V

Enquanto Dupont tratava com o recepcionista, Osmar e seus tutores exploravam o quarto de hotel. Não era um quarto de luxo, uma suíte presidencial, mas aquele quarto era consideravelmente melhor do que todo o cubículo onde moravam. Osmar ainda tentava processar tudo, do porto de Le Havre até o hotel Windsor, ele olhou a cidade com olhos maravilhados. Sibil tentava se conter para não levar os portadores de guardanapo em prata. Toulouse ficava indeciso de qual garrafa abrir e tomar tudo. Osmar tinha olhos para a decoração, ele nunca imaginou que u quarto poderia ser uma obra de arte.

– Ufa… tem gente que não cai bem para ocupar certas funções. Felizmente o gerente é mais civilizado. Muito bem, senhores e senhora. Café da manhã às oito horas, almoço ao meio-dia, jantar às sete da noite. Eu pedi um pequeno lanche para nós, para repor nossas energias, gastas pela viagem. Estamos há três quadras do centro comercial, onde poderemos fazer compras. Eu peço que os senhor e a senhora não abuse da boa vontade de nosso patrocinador.

– Ao invés de regular, “batata frita”, por que você não aproveita e compra algo?

– Ao contrário da senhora, “cigana”, eu tenho princípios.

– Ora, ora… começamos a nos dar nomes? Eu vou começar a ter ciúmes desse relacionamento amargo-doce de vocês. O que achou de tudo, “bodinho”?

– Toulouse! Você prometeu!

– O senhor Dupont vai ficar desapontado se não souber de sua alcunha, “bodinho”. Eu bem sei que vocês me chamam de “facilitador”, como se eu fosse um hougan haitiano.

– Eu gostaria muito de apreciar esse tipo de vulgaridade, mas nós teremos uma audiência e o costume pode ser fatal, a Justiça não tem espaço para frugalidades.

– Você ainda está muito tenso, “batata frita”. Tome, aqui tem uma excelente tequila.

Dupont não protesta, aceita a garrafa, abre e toma um gole. Seus olhos brilham com aprovação. Um funcionário do hotel bate na porta e traz o lanche. Sibil está com tanta fome que esquece a prataria. Osmar sai da varanda e acerca-se da mesa, absorto com o elegante aparelho de cerâmica e o generoso prato com pães diferentes. Algo que só se via em revistas. Ele morde um dos pães e se delicia com o sabor.

– Isso é um croissant. Seria impossível não comer croissant estando na França.

Dupont aponta e nomeia cada quitute do prato, sentado confortavelmente na poltrona, cobrindo as pernas com um lenço, beliscando um bolo e bebericando uma xícara. Um hábito um tanto inusitado, certamente uma mistura de sua criação britânica e francesa misturada. Mas o que incomoda Sibil é a forma como ele está sentado, meio de lado, com as pernas cruzadas, com olhos famintos na direção de Osmar. Debaixo daquela fachada de bons modos, Sibil sabe muito bem o que pensa Dupont.

– Mas que coisa! Osmar, nem parece que te demos educação! Vamos, mostre ao “batata frita” que nós sabemos ser gente educada como ele. Pegue um pratinho, seu lanche, sua xícara e venha cá sentar em meu colo, como bom menino.

– Eu faço isso, mas não vou sentar em seu colo. Eu não sou mais criança!

– Claro que não. Você é um homem. E homens sentam com homens, para falar coisas de homens. Sente aqui conosco.

– Toulouse, você vai deixar esse “batata frita” seduzir nosso “bodinho”?

– Mas por que sempre sou eu quem tem que resolver essa disputa entre vocês? Então, “bodinho”, você não é mais criança, então você que resolve essa briga. Isso é, se você estiver em condições de expressar sua identidade e preferência.

– Poxa, gente! Não estraguem o lanche! Nós não íamos passear e fazer compras? Quando eu tiver resolvido “isso”, vocês serão os primeiros a saber.

Toulouse ficou satisfeito com a postura de Osmar e tratou de apaziguar Sibil e Dupont. Depois de uma rodada de tequila, estavam todos amigados e prontos para as compras. Osmar estava entusiasmado e andava na frente, sendo seguido por Toulouse, enquanto Sibil e Dupont ficavam se esbarrando.

O centro comercial estava situado ao redor de uma grande praça arborizada, onde sobressaia uma enorme escultura da época do Império Romano. Tudo era muito novo, muito bonito e muito elegante para Osmar, que se maravilhava com cada detalhe. Tanta gente, de tantos lugares, de tantos tamanhos, tipos, cores, que Osmar sentia que existia espaço para ele.

Dupont somente parou de aborrecer Sibil quando chegaram na loja indicada pelo cartão dado pelo patrocinador. Uma loja de excelente gosto, nada muito extravagante, que pertencia a um conhecido dele, o que iria facilitar muito seu serviço. Assim que entrou, dispensou com desprezo a ajuda de uma atendente e bramiu em alto som pelo nome de seu amigo.

– Césane! Por Deus, homem! Como você coloca gente assim para atender a seus clientes preferenciais? Eu trouxe gente importante, venha nos atender!

– Ah, meu Deus! Javier! Há quanto tempo! Eu achei até que você estava com bronca de mim. Mas diga-me, quem são esses que estão com você?

– Não torça seu rosto, Césane. Vai acabar deformado. Eu sei que a aparência deles não condiz com sua loja, mas esse será seu desafio. Torne essas pessoas apresentáveis, tome este cartão e você entenderá tudo.

– Oh, oh, oh! Que alegria! Madame Montmart deu-me a honra em servi-la! Vamos, senhores e senhora, vamos operar um milagre hoje.

Dupont senta-se na recepção enquanto vê a trupe estropiada entrar no ateliê de Césane, tentando lembrar onde ouviu o nome Montmart antes. Bobagens, pensa ele. Ele não era um detetive. Dupont estava mais interessado em ver como Osmar ficaria depois de um banho de loja.

– Trés bien! Justine, cuide da… senhora. Monsieurs, sigam-me. Eu tenho ternos di-vi-nos para os senhores. Eu também tenho sapatos e gravatas, mas, primeiro, o essencial. A roupa de baixo é a primeira peça de um perfeito cavalheiro. Escolham à vontade.

Toulouse e Osmar nunca tinham visto tantas ceroulas juntas. Tantos modelos, tipos, cores, que deixava qualquer cabeça embaralhada. Enquanto isso, Césane trazia os ternos e os calçados. Toulouse foi experimentar uma cueca box e Osmar, ainda encabulado, ficou diante do espelho de prova, com duas peças íntimas masculinas, enquanto se observava no espelho. Osmar segurou o choro, pois havia aumentado ainda mais o volume em seu tórax e seu quadril. Se ele usasse essas roupas, eles veriam, eles saberiam e ele teria que se explicar, se justificar. Osmar estava confuso há alguns anos sobre o que tinha se tornado. Ele lembra do medo de estar doente e da vergonha em mostrar que seu quadril estava mais… curvilíneo e aquele carocinho que surgiu em seu tórax agora tinha o tamanho e a forma perfeita de um pêssego. Ele tinha desenvolvido seios e bunda, algo que ele via em meninas. Mas tinha algo mais, tinha “aquilo”, algo que ele nunca tinha visto em outra pessoa. Ele havia nascido com “aquilo”, ele tinha a parte tanto de um menino quanto de uma menina entre as pernas. Não! Não dá! Como falar “disto” para todos?

– E aí, garotão? Pronto para escolher seu terno?

Toulouse escorre a cortina do provador com Osmar na frente do espelho ainda segurando a camisa com as mãos. Osmar instintivamente aperta as mãos contra o corpo e cobre seus seios com a camisa, o que faz ressaltar ainda mais seu traseiro e sua perfeita silhueta feminina. Toulouse estapeia a testa e solta um assovio de surpresa. Césane desmaia enquanto Sibil e Dupont chegam atabalhoadamente, achando que Osmar corria perigo. Não dá. Acabou. Chorar não vai resolver coisa alguma. Agora eles sabem. Agora eles viram. Agora eles vão te mandar para o hospital ou algum circo. Acabou sua fantasia de ter uma família feliz.

– Então “esse” é o seu segredo, “bodinho”? Você devia ter me falado antes. Teria sofrido menos. “Isso” explica muita coisa, menos o motivo pelo qual você não confiou em mim. Eu até te daria razão, em relação à Sibil ou Dupont, mas eu, “bodinho”? Eu? Toulouse? O homem que circulou esse mundo mais vezes do que Phileas Fogg?

Osmar enxugou a lágrima que saia de seu olho, fungou e olhou para Toulouse, sempre com aquele semblante sereno, tranquilo e sábio. Ele também percebeu e olhou para Sibil e Dupont, evidentemente chocados, confusos, mas felizes, de uma certa maneira. Osmar sorriu de volta, deu um soquinho na cabeça e mostrou a língua, como uma criança faz quando é pega fazendo arte.

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