Cachorro de madame – IV

O sol está em seu terceiro quarto em direção ao oeste quando o Cruzeiro Manhattan soa sua sirene em um toque longo, sendo respondido por dois toques longos das sirenes do porto de Le Havre. Uma sinfonia de diversos sinos, buzinas e sirenes soam por diversos outros barcos que chegam ou partem. Toulouse respira aliviado. Estavam, enfim, chegando em terra firme. Toulouse sempre sentia calafrios quando viajava de navios por causa das histórias que seus avós contavam. Ele dá uma ultima olhada em Osmar, que fazia seu cochilo de fim de tarde, para esticar as pernas no convés. Dupont continuava enfurnado no dormitório dele, Sibil estava calada e amuada demais nos últimos dias. Desembarcar era mais do que necessário.

Toulouse passa pelo bar e pega uma garrafa de rum, afinal, ele também é filho de Deus e estava tudo pago. Uma bebida típica do Caribe, região onde aborígenes, espanhóis e negros criaram diversos países. Mas para os europeus, era a “bebida dos piratas”. A origem de uma bebida devia ser irrelevante diante de sua qualidade, assim como deviam ser com as pessoas.

– Henry, precisamos conversar…

– Ora, veja quem saiu da toca… quando você me chama de Henry é porque o assunto é sério.

– Eu demorei para tomar coragem… não ria! Tem alguns dias que eu fico martelando isso na cabeça. Depois que o “batata frita” pirou e saiu correndo com as mãos como se segurasse algo, eu fui conversar com Osmar.

– Ver você falando como uma dona de casa suburbana está me assustando. Aconteceu algo com o Osmar?

– Não… não. Osmar está bem. Mas eu acho que eu tenho o mesmo “problema” que Dupont. E o que Osmar me falou naquela ocasião apenas me deixou mais perturbada.

– Eu estou cético quanto a isso. O que Osmar disse que te perturbou?

– Ele perguntou de forma bem honesta e sincera: “o que tem em mim que faz com que tanto você quanto o senhor Dupont sintam desejo por mim, se eu não tenho a menor ideia do que é meu corpo, do que ou de quem eu sou, de como eu sinto “isto” que eu sou ou me tornei?”. Você sabe o que isso significa?

– Não. Mas parece que tem algo a ver com o comportamento estranho que ele tem demonstrado nos três últimos anos, lembra? Por algum motivo, ele ficou mais reservado, mais introvertido, mais sensível, sobretudo em relação ao corpo dele. Talvez o nosso “bodinho” tenha atingido a maturidade e desenvolveu algum tipo de vergonha ou insegurança com essa mudança, como todos nós passamos um dia.

– Será que ele ouviu algum desses pregadores do evangelho? Toda vez que eu ouço um, eu tenho vontade de cortar a garganta dele com minha navalha.

– Há essa possibilidade, mas de qualquer forma Osmar cresceu e foi educado por nós. Ele teria conversado e discutido conosco se ele tivesse ouvido essas arengas ridículas. Deve ser coisa dele mesmo e somente ele pode decidir se quer ou não falar sobre “aquilo” conosco.

– Senhor e senhora, eu lhes rogo que deixem o senhor Boudin exatamente como ele é: puro, imaculado e belo.

– Ora, ora… mais um ermitão que mostra a cara. Tome, Dupont, uma boa dose de rum. Você está precisando mais do que eu.

Dupont pega a garrafa das mãos de Toulouse e começa a enxugar a garrafa de rum em goles generosos enquanto Sibil o olha com raiva e ciúmes.

– Escuta aqui, seu… seu… batata frita pervertido! Não ouse por as mãos no meu “bodinho”, ouviu? Eu vou ser a primeira e única que vai tocar nele.

– Pardon mademoiselle… mas apenas o senhor Boudin é quem pode fazer tal opção.

– Seu… seu… tarado! Pervertido! Ele é apenas uma criança!

– Oh, Mon Dieu… senhora, eu pensei o mesmo quando eu vi que tipo de vida a senhora e o senhor Toulouse levam e eu fiquei espantado e aliviado ao perceber que o senhor Boudin manteve sua virtude. Mas se vamos falar em diferença de idade, a senhora é velha demais para ser a… irmã do senhor Boudin, como ele gentilmente a define. Então cá estamos nós dois e nenhum de nós é um criminoso, porque não há crime no amor.

– N… não tente desviar de assunto! Isso é abuso de menor! Pedofilia!

– Sacre Coeur… a meretriz querendo dar lições de moral a um clérigo secular. Cet ettonant! Senhor Toulouse, por favor, me perdoe a indiscrição, mas o senhor é tão britânico quanto eu sou gaulês. O senhor parece ser um homem mais inteligente e cosmopolita. Diga-nos, o senhor acredita que qualquer pessoa, por sua idade, seja completamente inocente ou ingênua quanto à seu sexo ou sexualidade?

– Touche, como diz na sua terra, Dupont. O senhor acertou nas duas afirmações. Eu vim do Senegal, África, o suficiente para despertar estranhas reações e fantasias dos brancos europeus cristãos. Culturas em diversos países e épocas tinham e ainda tem rituais de passagem que celebram a maturidade de uma pessoa e isso depende mais do desenvolvimento de cada indivíduo do que de alguma idade fixada aleatoriamente por convenções sociais. O problema, senhor Dupont, é que sua gente se distanciou tanto de suas origens e raízes culturais ao ponto de rejeitarem o fato que todo ser vivo nasce com uma sexualidade, então vão sempre presumir que um tipo de relacionamento é proibido, imoral ou abusivo.

– Isto é uma verdade, eu detesto admitir, mas é verdade. Existem imposições, pela Sociedade, pelo Estado, pela Igreja. Meus avós me contaram como tiveram que fugir para poder viverem juntos e criar uma família, apenas por serem de países diferentes. Um tio meu foi preso e enviado para a Legião Estrangeira simplesmente porque se casou com uma afrodescendente. Meu irmão foi deserdado porque assumiu sua união com outro homem. Essas histórias são muito tristes, então eu prometi a mim mesmo que não cairia em tal tentação, mais eis-me aqui, sem saber o que eu faço com o que eu sinto em relação ao senhor Boudin.

– Ânimo, senhor Dupont! Admitir o sentimento é o primeiro passo e o senhor não está sozinho nesse dilema. Toda a raiva de Sibil é simplesmente ciúmes de nosso “bodinho”. Eu fico feliz por vocês dois, mas vocês dois tem que lembrar que cabe ao nosso “bodinho” decidir como, quando e com quem ele vai querer amar, como bem disse o senhor Dupont.

– Ah… vocês estão aí? Que horas são? Por que toda essa gritaria? Nós chegamos?

Osmar desponta no convés, todo descabelado, esfregando os olhos para tirar o resto do sono, com o pijama todo amassado. Tanto Sibil quanto Dupont ficam com olhos esbugalhados e babando pelo canto da boca. Toulouse começa a rir, a gargalhar, enquanto o pobre Osmar tenta entender o que estava acontecendo.

– Este foi realmente um dia faustoso! Veja, Osmar, Le Havre. Chegamos na França. Em breve desembarcaremos e assim que tivermos nos estabelecido em algum hotel, nós todos vamos fazer algumas compras, que tal?

– Mesmo, Toulouse? Nós vamos? Todos nós? Inclusive o senhor Dupont?

– Oh, sim, bo… Osmar, todos nós, como uma grande e feliz família!

– Oba! Hoje é o dia mais feliz de minha vida!

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