Cachorro de madame – III

Osmar fitava o oceano de dentro do Cruzeiro Manhattan, saindo do porto de Liverpool em direção ao porto de Le Havre, França. Ele nunca tinha visto tanta água assim antes e se perguntava, com justiça, se não seria mais certo chamar nosso planeta de Água, ao invés de Terra. O oficial de justiça estava entretido com os seus tutores, um preâmbulo necessário antes da apresentação de Osmar ao testamenteiro.

– Senhor e senhora, eu peço que perdoem meu péssimo inglês ou se meus modos não são muito britânicos, mas o ofício assim me exige que eu os prepare para a audiência. Para ser bem direto, eu devo lhes pedir que mostrem os papéis do menino, sobretudo o que lhes concede a guarda dele.

– Senhor Dupont, veja a nossa situação. O senhor acredita que pessoas como nós tem algum acesso a um serviço público ou condições para arcar com tal custeio? Oh, não, senhor Dupont, nós somos parte de uma população que a sociedade simplesmente ignora ou desconhece a existência. Osmar nos foi entregue em mãos como se fosse um saco de batatas. Não nos perguntaram nossos nomes, se tínhamos condições, então não questionamos de quem recebíamos e por que. Se serve, nós temos a certidão de nascimento de Osmar do Orfanato Dominicano.

Visivelmente irritado e contrariado, Javier Dupont apanha o papel amarelado das mãos de Toulouse. Bretões! Se acham tão superiores, organizados, civilizados! A certidão era imprestável. Cheia de erros, rabiscos, rasuras, selos de procedência duvidosa, dados vagos e incompletos. Os executantes do espólio o tinham avisado de que ele teria dificuldades. Dupont solta um impropério que faria um marinheiro francês corar de vergonha, suspira e tenta aliviar o estresse pressionando o travessão entre os olhos e o nariz. Recompõe-se, alinha seu cabelo com um pente fino e gel para, então, seguir o roteiro.

– Muito bem, senhor e senhora. Eu ficarei com esse documento. Assim que chegarmos em Le Havre, eu levarei o senhor Boudin a um conhecido meu para fazer um teste de DNA. Nesse interim, eu lhes rogo que compre alguma roupa mais apresentável ao senhor Boudin.

– Ô da batata frita! Nós não temos dinheiro! Quer que eu traduza para o francês?

Dupont olha com uma expressão de desprezo para Sibil. Por pensamento, agradece ao seu pároco por tê-lo livrado dessa influência nefasta. Agradece a Deus por ter feito seus votos como clérigo secular.

– Dinheiro não será necessário, senhora. Basta que vão a esta loja de roupas com esse coupon e dar as medidas do senhor Boudin. Tudo está pago.

– Tudo hem? Bom, nós, como tutores e responsáveis do senhor Boudin, também precisamos de roupas mais apresentáveis. O gentil patrocinador não irá se incomodar com isso certo?

Dupont solta outro impropério que mesmo um marinheiro holandês não conhece. Acena com a mão, como que os liberando para fazer compras. Apanha um cheret da bandeja de algum garçon e vai falar com Osmar, torcendo para que ele tenha mais sensibilidade.

– Pardon… eh… perdão, senhor Boudin, por interromper sua admiração pelo oceano, mas eu devo solicitar ao senhor alguns minutos de sua atenção.

– Claro, senhor Dupont! Fique à vontade!

Dupont relaxa de uma forma incrível. Como seria bom se fosse sempre assim! Não importa o ofício ou assunto que portava, as pessoas jamais o recebiam com tamanha gentileza. Bastava dizer “oficial de justiça” que os rostos se contorciam. Na escola ele aprendeu que antes os cobradores eram considerados malditos. Por isso que os Judeus somente conseguiam empregos como cobradores, cambistas e banqueiros. Uma curiosa ironia, uma vez que o mundo era movido pelo capital tão pecaminoso.

– O senhor é muito gentil, senhor Boudin. Custa-me crer que seja tão educado, tendo tido os tutores que tem. Isso pode ser uma benção e uma perdição, senhor Boudin. Nós vivemos em um mundo onde existe apenas maldade e concupiscência. Eu temo que o senhor perca sua alma se for à audiência, então permita-me prepara-lo para enfrentar a sordidez humana.

– Desculpe, senhor Dupont, mas eu tenho que discordar. Nós vivemos em um mundo onde existe apenas a benevolência divina. Existem pessoas ruins e graças a Deus são poucas, senão o senhor não teria descanso, os tribunais estariam abarrotados e não haveria prisões o suficiente para tantos criminosos. Os que são ruins são punidos pelos seus próprios atos. Aos que podem e possuem entendimento, usufruem da beatitude que é a vida. Isto é gratuito e aberto a qualquer um, mesmo aos que são ruis. A mudança depende de cada um e esse é um compromisso pessoal, não vem de livros, de padres, de igrejas, mas vem dessa parte de Deus que está em nós.

Dupont queda boquiaberto. Um garoto que mal atingiu a puberdade sabe mais de Deus e de virtude do que qualquer padre, pastor ou sacerdote. Absorto em entusiasmo, Dupont lembra como ele orgulhosamente debatia teologia na escola e sempre vencia. Mas então porque ele não conseguia retrucar? Porque ele apenas sente um calor confortável e aconchegante simplesmente por estar admirando este rosto angelical?

– Deveras, senhor Boudin. Mais uma vez o senhor me surpreende. Evidente que seus tutores não te ensinaram coisas tão profundas. Eles provavelmente se aproveitariam de sua pureza para algum ritual pagão obsceno. Se o senhor me permitir, eu tratarei de indicar tutores melhores para cuidar do senhor, assim que acabar a audiência. Eu irei cuidar do processo pessoalmente na vara da família.

– Oh, não, senhor Dupont! Não me tire de meu padrasto e de minha irmã! O senhor Toulouse é um homem bom, verá se o conhecer melhor! A senhora Sibil é uma mulher honrada, basta que lhe dê uma chance! Eles não são perfeitos, mas ninguém é, senhor Dupont! Como podemos exigir que as pessoas nos aceitem e nos perdoem, se não aceitamos e perdoamos as pessoas?

Dupont sente as mãos de Osmar segurando gentilmente seu rosto. Uma pele suave, com cheiro de rosas, como a Mãe de Deus. Os olhos de um azul profundo como imitação do Paraíso, emoldurado por longos cabelos dourados como o sol. Dupont sente um calor diferente, quente, fervendo, ebulindo dentro dele. Cada fibra de músculo está tensa como a corda de uma cítara, cada centímetro de sua pele empola. Dupont jamais sentiu algo assim, por ninguém, ele acreditava estar livre de tais tentações, mas ele sabia, pelo menos teoricamente, o que ele estava sentindo e sabia que era um pecado terrível. Dupont levanta e sai correndo, sem direção exata, tentando esconder que ele estava sentindo atração sexual por Osmar. Isso não era bom e a viagem seria longa. Dupont tranca-se em seu dormitório e fica debaixo de um chuveiro gelado até conseguir se controlar. Dali só sairia quando chegassem em Le Havre.

Novamente sozinho, Osmar tenta entender o que aconteceu, se ele fez algo errado ou se disse algo errado. Osmar não tinha muita certeza do que ou quem era, não sabia como lidar com o que era ou tinha se tornado, mas não tinha dificuldade alguma em entender e saber quando uma pessoa despertava um interesse em outra. Ele até não via qualquer vantagem em tal interação humana, mas também não via qualquer problema nisso. Não era algo muito complicado, na verdade parecia bem normal, natural e saudável que uma pessoa pudesse expressar seu desejo por outra, embora não conseguisse entender o motivo ou ganho que se obtinha em consumar tal ato.

– O que foi, Osmar? O “batata frita” ficou vidrado na sua, mas não teve coragem em admitir, como sempre costuma acontecer?

– Sibil, você que sabe dessas coisas, seja bem sincera comigo. O que tem em mim que faz com que tanto você quanto o senhor Dupont sintam desejo por mim, se eu não tenho a menor ideia do que é meu corpo, do que ou de quem eu sou, de como eu sinto “isto” que eu sou ou me tornei?

Sibil sente as pernas tremerem, como se fosse uma garotinha diante de sua primeira paixão. Apesar de sua milhagem, Sibil não consegue encarar Osmar. Ele é talvez a única pessoa que mexe com ela desse jeito. Acostumada a entender o amor e o sexo como algo ruim, errado, pecaminoso, violento e indiferente, ela não consegue definir o que sente por Osmar. A despeito de todas as vezes em que ela dizia, descaradamente, que queria tirar o “selinho” dele, ela sabia que, no fundo, era apenas da boca para fora. Osmar ficou espantado quando viu que Sibil enrubescia.

– I… isso não é coisa que se pergunte a uma dama, Osmar. Vamos, o jantar deve estar sendo servido e está tudo pago. Eu preciso de uma taça de champanhe. Afinal, nós vamos para a França.

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