Cachorro de madame – II

– Sabe, senhor Toulouse, meu marido vive dizendo que meus salgadinhos são incomestíveis. Mas seu filho devorou todos! A senhora Sibil deve ter orgulho dele. Eu nunca vi um rapazinho tão educado assim! Você devia ser assim, Mortimer ! Sabe, ele se acha grande coisa só porque foi promovido. Eu tento, Cristo, fazer com que ele tenha uma vida mais cristã e que Deus tenha misericórdia de sua alma. Nós devemos ajudar os mais necessitados, assim nos diz o diácono da Igreja de Whitechurch. Ah, perdão, eu fiquei falando esse tempo todo. Onde estão meus modos? Conte-me, senhor Toulouse, o que o fez pedir carona na estrada em direção à Liverpool?

– Ah, senhora Christie, você sabe, nós fazemos de tudo por nossos filhos. Meu pequeno bo… meu filho Osmar recebeu um telegrama que exige a presença dele no continente, entre os Gauleses. Imagine só! Nós, Bretões e orgulhosos, entre Gauleses.

– Por Santa Maria! França! Se tivessem permanecido parte da Normandia, da Bélgica ou mesmo da Germânia, seriam mais civilizados. Dizem que não tomam banho e isso é o que se pode dizer de mais agradável da França. Eles são muito… liberais, não apenas nos costumes sociais, mas nas coisas de Deus, vê se pode!

– Ah, senhora Christie, são os tempos modernos! Eu me preocupo com meu pequeno Osmar crescendo em um mundo assim. Mas assim que nós estivermos bem estabelecidos, procuraremos uma boa escola católica para ele.

– Oh, sim, isso é bom… embora meu Mortimer seja Anglicano e eu mesma seja Protestante, uma educação cristã vem bem a calhar em um tempo que é o Advento do Apocalipse. Sabe, vocês tiveram muita sorte em nos encontrar. Pedir carona na estrada é muito arriscado, mesmo a uma família temente a Deus. Ah, meu Deus, as coisas que vimos e ouvimos…

– Eu oro a Deus, senhora Christie. Apenas Deus pode tocar o coração dos homens e muda-los. Eu sei que em outras circunstâncias, eu provavelmente seria preso, apenas pela cor de minha pele. Minha pobre Sibil poderia ser extraditada, simplesmente por que seus avós vieram da Romênia. Meu filhinho ficaria em algum orfanato, nas mãos, não se sabe de qual pervertido…

– Oh, senhor Toulouse, não falemos de coisas desagradáveis. Falemos de coisas agradáveis. Como o que ou quem os aguarda entre os Gauleses.

– Nossos… hã… conselheiros disseram que um parente distante solicita sua presença com urgência em Lacroix. Assunto de família, um oficial da justiça nos aguarda. Algo sobre um testamento, herança ou espólio.

– Oh… puxa! Meus sentimentos. Alguém próximo deve ter falecido. Que indelicadeza a minha. Mas dizem que Deus opera por meios misteriosos. Eu irei orar pelo finado ou finada, para que volte aos braços de Cristo, mas isso não depende de mim. Eu irei orar pelo senhor e sua família, senhor Toulouse, para que achem o que procuram e fiquem bem.

– Muito agradecido, senhora Christie. Encontrar pessoas como a senhora renovam minhas esperanças na espécie humana.

– Oh, deixe de formalidade… apenas Agatha.

– O prazer é todo meu, Agatha. Pode me chamar de Henry. Mais uma vez, nossa eterna gratidão por nos trazer até próximo de Liverpool. Agora Deus nos proverá outra alma caridosa para que possamos prosseguir nossa viagem.

– O prazer foi todo nosso, não é, Mortimer? [grunhidos] Por Deus, Mortimer! Eu agradeço também à senhora Sibil por essas maravilhosas receitas de biscoitos e bolos. Eu espero que Deus nos permita reencontrar, assim nós poderemos agradecer juntos a Ele por esse encontro abençoado.

Toulouse acena, enquanto Agatha se afasta e Mortimer parecia bastante aliviado conforme a distância aumentava. Osmar não tinha ideia de como era imenso o mundo fora de Kenstone, nem de que havia campo, fazendas, animais, plantação. Sibil era a única que parecia não ter curtindo muito o passeio.

– Então, podemos parar com essa palhaçada?

– Sibil, minha Sibil… quantas vezes eu tenho que dizer? A melhor forma de nós sobrevivermos é preenchendo as expectativas das pessoas comuns. O que você acha que aconteceria se eles soubessem que eu sou de Senegal? O que você acha que aconteceria se soubessem quem são nossos conselheiros? Eu não sei se isso seria mais ou menos escandaloso do que falar que Osmar não é nosso filho.

– Não me importa! Meus avós chegaram aqui da Romênia sem ter que mentir. Você chegou aqui sem ter que mentir. Até parece que temos vergonha do que somos, de quem somos…

– Oquei, oquei… você está certa. Vamos fazer do seu jeito agora está bem?

– Então afastem-se. Eu vou conseguir uma carona em cinco segundos.

Sibil fica bem próximo da rodovia e expõe uma de suas coxas. Instantaneamente três caminhoneiros brecam bruscamente, fazendo os pneus chiarem. Sibil escolhe um sortudo e aponta para seus “parceiros” de carona. Para o caminhoneiro, isso pouco importa, desde que ela “pague” a tarifa da viagem. Toulouse gentilmente se oferece para dirigir o caminhão enquanto Sibil trata de entregar o “serviço”.

Osmar fica sentado ao lado de Toulouse enquanto ouve os gemidos e sussurros abafados na boleia que fica atrás do banco da frente. Nada que Osmar não tenha cansado de ver no cortiço, nada que ele não tenha visto Sibil fazer diversas vezes, isso não o incomodava nem o ofendia, mas às vezes se pegava pensando qual a graça em algo tão sem sentido, pois parecia obvio que nenhum dos dois lados ganhava. Quinze minutos depois, Sibil vinha para frente e sentava ao lado dos dois, como se coisa alguma tivesse acontecido.

– Meus amigos, bem vindos a Liverpool. A cidade de John Lennon e dos Beatles.

– Pelos Deuses, Toulouse, não vamos começar com essa sessão de museu de novo, por favor.

– Vê como são as mulheres, Osmar? Ela diz “museu” eu digo “cultura”. Mas você é novo, quem sabe sua geração consiga entender melhor as mulheres.

Osmar sorri, sem graça, sorriso amarelo. Osmar não entende sequer a si mesmo, como entenderia uma mulher, ou um homem? Osmar não gosta de pensar em si mesmo, na sua condição, “naquilo” que ele era ou se tornara. Ele sentia inveja de Toulouse, por saber o que ele é, o que ele quer fazer. Ele sentia inveja de Sibil, por sua tranquilidade quanto ao seu corpo, sua sensualidade e sexualidade. Aos poucos, Osmar vai se encolhendo no banco, abraçando suas pernas, baixando o rosto em direção aos joelhos.

– O que é que deu nele?

– Eu não sei. Meus espíritos disseram que cabe a ele falar. Eu só sei que isso começou há uns três anos atrás. Ele começou a me evitar. Parou de dormir comigo. Parou de tomar banho comigo. Fica todo sensível quando eu brinco com ele sobre eu ser quem vai tirar o “selinho” dele. Eu apenas espero que “isso” não dure muito.

– Ânimo, Sibil. Algo me diz que esta jornada vai ser uma revelação a todos nós.

– Assim espero.

Osmar recupera um pouco do ânimo assim que Toulouse parou no porto de Liverpool. A agitação, tanta gente, tantas vozes, tantas línguas diferentes, tantas cores, pareciam mostrar para Osmar que aquele era um mundo onde tudo era possível, todos tinham seu lugar, até ele.

– Ahem… senhor… Boudin, eu presumo?

Osmar volta-se e vê o oficial de justiça, paramentado com roupas típicas de um londrino, mas com um indisfarçável sotaque francês. Sim, Osmar, tudo é possível.

– Sim, senhor. Osmar Boudin e companhia, a seu dispor.

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