Cachorro de madame – I

O carteiro chega em um cortiço com um telegrama destinado a um garoto chamado Osmar. Os habitantes grunhem algo e vão apontando para uma direção até o carteiro chegar a um campinho de futebol improvisado. Vinte garotos correm atrás de uma bola enquanto outros cem assistem ou aguardam sua vez de jogar.

– Senhor Boudin? Por favor, eu procuro pelo senhor Boudin. Eu tenho um telegrama para ele.

– Hei, “bodinho”, seu namorado veio te trazer uma carta.

– Não me chame de “bodinho”, Hans! E ele não é meu namorado!

– Há! Mas bem que você queria né?

O jogo para enquanto os garotos começam a implicar com um garoto pequeno, magro, fraco, tímido e introvertido. Suas roupas não são diferentes dos demais garotos, moda de periferia, mas os traços e aspectos físicos de Osmar Boudin destoam por inteiro daquela turba. Uma pele rosada que parecia brilhar, mesmo com o pouco sol de inverno em Kenstone. Longos e louros cabelos o deixavam ainda mais parecido com uma garota e isso é imperdoável em um meio social tão cheio de pobreza, ignorância e preconceito.

– Eu sou Boudin, senhor carteiro. Desculpe pelos maus modos dos meus amigos.

– Tudo bem, eu nasci em um lugar parecido. Por favor, senhor Boudin, assine o recibo para receber o telegrama.

Osmar assina o recibo e recebe o pequeno envelope azul típico de um telegrama nessa região ao noroeste da Inglaterra. Parecia ser sério. Estava escrito em francês. Osmar precisaria da ajuda de Toulouse. Abandonou o campinho e deixou a garotada zoando no vazio. O melhor remédio contra o assédio moral, o que agora ficou na moda chamar de bullying, é ignorar os ignorantes.

Osmar caminha pelas estreitas vielas do cortiço, algo que gente de fora não ousaria tentar. Depois do mercadinho, depois do sapateiro, ele bate na porta da vidente.

– Sibil? Sou eu, Osmar. Eu preciso ver Toulouse.

– Garoto, quantas vezes eu tenho que pedir para você não vir interromper meu serviço? Bom, não tem problema, passaram os vinte minutos. Volte outro dia, senhor. Quando seu “troço” resolver funcionar.

Quando não tinha gente pedindo para ler cartas, mãos ou falar com algum finado, Sibil prestava outro tipo de serviço para homens anônimos. O coitado sai capengando, ainda terminando de colocar as calças, suado, vermelho, camisa pendurada no braço e os sapatos pendurados em uma mão.

– Pode entrar, Osmar. Toulouse está na laje.

Osmar conhece bem a casa de Sibil. Ele conhece bem a decoração extravagante e o cheiro indistinto misturando incenso e sêmen. Quando Osmar chegou do orfanato no cortiço, Sibil foi como uma irmã para ele. Isso faria de Toulouse seu tutor ou seu padrasto? Como era de praxe, Sibil alisou seu traseiro por trás.

– Quantos anos você tem mesmo, Osmar? Olha, quando você quiser é só pedir. Para você, eu faço de graça.

Osmar sorri de volta e segue subindo pela escadaria precária em direção à laje. Sibil sempre foi assim com ele. Osmar cresceu acostumado com a sensualidade transbordante de Sibil. Dormiram juntos diversas noites completamente nus. Tomaram banho juntos incontáveis vezes. Mas Sibil tinha que conviver e aceitar que ela era a “irmã”. Muito embora isso não significasse muita coisa na periferia.

– Ora, se não é meu “bodinho”! Chega mais, garoto. O porco gordo foi embora com a linguiça murcha mais uma vez. Um dia desses nós dois precisamos “dar um trato” na Sibil.

Toulouse estava na beira da laje, sentado com as pernas trançadas, por sobre um tapete, vestindo uma calça jeans e camiseta, olhando para o cenário como se estivesse em meditação profunda. Osmar estendeu o envelope azul e ficou com um olhar perdido.

– Ah! Meu “bodinho” recebeu um telegrama! Viu só, garoto? Eu te disse que você é importante. Vejamos o que tem aqui.

Toulouse pega o telegrama e se levanta. Sua figura alta e esguia de cor de ébano impressiona qualquer um. Toulouse começa a balbuciar algumas palavras em francês, como se ditasse o telegrama para alguém invisível. Conforme fala a frase, completa com a tradução em inglês e depois tenta dar sentido ao telegrama.

– Telegrama de Lacroix. Para Osmar Boudin. Urgente. Herança de parente distante. Presença obrigatória. Tio Magritte. Isso faz algum sentido, “bodinho”?

– Por favor, Toulouse, não me chame de “bodinho”. Isso é coisa que criança diz.

– Ah, mas eu digo “bodinho” com todo meu respeito. Você sabe a fama que o bode tem? Devia saber. Mas e esse tal de “tio Magritte”?

– Eu não tenho a menor ideia. Eu passei minha infância em um orfanato, nada sei de familiares ou parentes.

– Nesse caso, vamos descer e usar dos serviços de Sibil, embora não os que ela nos quer prestar, não é, meu “bodinho”? Ela conta os dias para que você tenha maturidade suficiente para que ela possa te levar para a cama e te iniciar em sua vida sexual.

– Pare com isso, Toulouse! Isso… é imoral… é indecente… eu e Sibil… nós somos uma família!

– Ah, garoto, garoto… eu queria ter tido a família que você tem. Uma família sexualmente saudável, onde os mais jovens aprendem com os mais velhos. Mas por sua cara, isso vai demorar. Vamos, lá em baixo descobrimos tudo.

Sibil estava cuidando das unhas no sofá, ainda bem à vontade, portando nada mais do que uma lingerie. Ela encarou seus homens sabendo que quando os dois descem juntos da laje, é porque tem algo errado. Ela viu Toulouse com o envelope azul em mãos e a expressão carregada de Osmar. Sibil pigarreou, colocou um roupão, limpou sua mesa de consultas e arrumou seu carteado. Não era preciso ser vidente para saber que aquele envelope continha um telegrama com alguma notícia séria.

– Muito bem, senhores, sentem-se. Se os senhores não desejam fazer uso da minha carne, façam uso da minha mente.

– Faça um bom serviço. Eu sinto que nosso “bodinho” vai ter uma jornada que vai amadurecê-lo, então você vai poder servi-lo como você quer.

– Silêncio, por favor. Eu tenho que me concentrar. Deixe-me segurar o telegrama e vamos ouvir o que os espíritos têm a dizer.

Toulouse é um homem sábio e sério, mas quando se trata de mulher, ele não é muito diferente dos garotos que Osmar conhece. Sibil e Toulouse são os únicos com quem Osmar se sente à vontade, mesmo quando começa a besteirada e a sacanagem. Talvez algum dia Osmar confie neles o suficiente para expressar como ele se sente, a respeito de seu corpo, de sua identidade, personalidade, opção e preferência sexual.

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