A mulher brasileira e o feminismo

Eu peço desculpas às minhas leitoras, afinal, eu, como homem, cissexual, heterossexual, branco e pagão, pouco ou nada sabe do que é ser mulher e, embora tenha simpatia pelo feminismo, minha visão sobre o feminismo é tão relevante quanto a de um escravagista sobre o racismo.

Mas chamou-me a atenção o texto do “dito filósofo” sobre se a mulher brasileira odiar o feminismo. Com tanto estudo e conhecimento que o “dito filósofo” alega possuir, aparentemente ele faltou nas aulas de sociologia. Eu indicaria para ele também algumas leituras de historia, psicologia e antropologia, mas eu estaria desperdiçando meu tempo.

Então com o intuito de tentar esclarecer ao leitor, homem comum, quanto a esta questão, eu peço licença às minhas leitoras para fazê-lo, usando trechos do texto do “dito filósofo” como base para esta digressão.

Segundo o “dito filósofo”:

“Qualquer postagem ou vídeo contra o feminismo faz sucesso na Internet, principalmente entre as mulheres. A maioria das mulheres brasileiras odeia o feminismo ou no mínimo não quer de modo algum se identificar com as feministas.”

Eu fico imaginando como ele chegou a essa conclusão. A afirmação é vaga, afinal, de quais mulheres ele está falando? Qual perfil? Qual idade? Qual nível socioeconômico? Qual escolaridade? Eu duvido que ele ou a equipe dele tenha feito uma análise de audiência. Há uma razão para que uma mulher expresse seu apoio a vídeos contra o feminismo, uma análise simples para a antropologia, a psicologia e a sociologia, tal como eu descreverei conforme a sequência.

Segundo o “dito filósofo”:

“Em geral, a ideia da mulher brasileira sobre as feministas é a seguinte: são mulheres que querem impor como devemos ser, e em geral são mal amadas, ou feias ou masculinizadas; no fundo não querem sexo, não querem ter um homem. A mulher brasileira quer ter um homem, é sexualizada, e odeia que mulheres não sexualizadas venham lhe castrar. O feminismo lhes é sempre algo autoritário, não raro moralista.”

Novamente, ele não cita de onde tirou essa informação ou como chegou a essa conclusão e, diga-se de passagem, a mulher não o fez de porta-voz ou advogado de suas opiniões, mas isso é fácil de entender utilizando a sociologia.

Tanto o homem quanto a mulher nasceram, cresceram e foram criados dentro de uma cultura, sociedade e sistema, elementos que possuem mecanismos que garantem sua manutenção e [re]produção. Então o conceito, papel e imagem que esta conjuntura incute na mulher foi concebida por um pequeno grupo [elite], dominantemente formada por homens, conservadores, católicos [senão cristãos de alguma vertente], o que caracteriza nossa sociedade atual como patriarcal, sexista, machista e preconceituosa. Basta ver a diferentes maneiras como são educados os meninos e as meninas, as maneiras diferentes dos comportamentos que são impostos e cobrados dos meninos e meninas. Em verdade, o “dito filósofo” joga na “opinião da mulher” seus próprios preconceitos sobre a mulher e o feminismo.

Cabe então a pergunta do porque o “dito filósofo” [ou a mulher] acredita nesses conceitos e definições sobre o que é o feminismo ou o que é uma feminista. Lembre-se de que estamos em uma sociedade onde o que está em voga é a supremacia masculina. Desde que nasce, a mulher é exposta constantemente [na família, na escola, no trabalho, na sociedade] a uma educação, mensagem e coerção comportamental que a tolhe de seu empoderamento. Este tipo de efeito não é exclusivo da mulher, a história mostra diversos grupos de minorias que, diante de um regime opressor, por sobrevivência, assimilam e endossam as condições de sua realidade social.

Segundo o “dito filósofo”:

“A mulher brasileira é uma das mais vaidosas do mundo. Ninguém gasta tanto em salões de beleza que a mulher brasileira. Sai maquiada para trabalhar, quer andar bem vestida e na moda. A mulher brasileira adora chamar a atenção. Quer comandar o seu homem, mas isso sendo mulher, mostrando seu poder como força de submissão na cama. O feminismo quer lhe mostrar um mundo de opressão que ela conhece, mas que ela não quer fazer nada contra se, para ser contra, for necessário assumir o comportamento mulher-macho ou mulher-assexuada que o feminismo, em graus variados, faz questão de impor, mesmo quando diz que não quer impor.

As feministas insistem em não perceber isso. Não raro são ranzinzas, não possuem humor algum e, por isso mesmo, acabam por confirmar o que todas as outras mulheres falam delas: ‘não gozam, por isso possuem raiva dos homens e da objetificação necessária ao sexo’.”

Para quem diz ser filósofo, deixar passar essas contradições de que “a força da mulher é sua submissão” e de que “a objetificação é necessária ao sexo” são grosseiras e um ato falho de sua misoginia patente. Vamos lembrar o básico: feminismo é um movimento político que visa a igualdade legal entre homens e mulheres. Aproveito para desfazer uma confusão que tem ficado muito comum ultimamente: o sufixo “ismo” não é usado apenas para relacionar apenas uma enfermidade, mas também para definir um fenômeno linguístico, sistema político, religião, esporte ou ideologia.

Então é muita desonestidade e má-fé afirmar ou alegar que o feminismo ou as feministas tenham, como padrão, tais preceitos, características e definições. Existem diversas formas e vertentes de feminismo, como existem diversos tipos e posturas de feministas. Mas o “dito filósofo” coloca convenientemente na “opinião da mulher” de que o feminismo está dominado pelo “moralismo e esquerdismo baratos e incultos”. O “dito filósofo” confunde ações positivas para diminuir o sexismo [que fomenta a objetificação da mulher e a cultura do estupro] com moralismo.

Segundo o “dito filósofo”:

“Hoje o preconceito contra o feminismo virou conceito, e tem lá sua razão. É chato admitir, mas para ser honesto intelectualmente, é necessário fazê-lo: para cada ganho de ideais do feminismo há cada vez mais mulheres que querem distância das feministas.

As mulheres que não querem saber das feministas nada possuem nada de machistas, ao contrário. O problema é que elas amam a liberdade, e as feministas se arvoram em proprietárias de regras.”

Preconceito sempre será preconceito, jamais conceito, mesmo com razão. Se não fosse pelo feminismo, a mulher continuaria a ser uma cidadã de segunda categoria, sendo um “mal tolerado” nas famílias unicamente por ser moeda de troca pelo dote, como foi comum na sociedade ocidental cristã até o século XIX. O feminismo e as feministas continuam a contestar e questionar o sistema exatamente para garantir à mulher que ela e apenas ela seja senhora de seu corpo, de suas regras, de sua liberdade, para o desespero de meninos e masculinistas.

Infelizmente é uma luta inglória. Assim como os Negros colaboraram para a Escravidão, como os Judeus colaboraram para os Nazistas, muitas mulheres [inclusive que foram feministas] colaboram para o Patriarcado, acreditando que vão ter algum tratamento diferenciado, mas estão apenas sendo objetos úteis que serão descartados assim que perderem sua utilidade.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s