Revolução na Disneylândia – IV

Eu saí do Forte Kennel e fiquei perambulando pelas ruas feito zumbi, cansado, com sono e machucado. Eu detesto admitir, mas Donald deu mais trabalho do que eu esperava. Conforme os toons saiam de suas casas em direção ao trabalho, olhavam para mim como se eu fosse mais um pedinte, um mendigo, ninguém me reconhecia e eu não estou certo de estar grato por isso. Um carro brecou com força ao meu lado e Bafo saiu de dentro, gesticulando feito um carcamano.

– Fred! Por onde você andou? O que você fez na noite passada? Você está péssimo! Vamos! Rápido! Você tem várias filmagens agendadas para hoje.

– Bafo, desculpe, mas não vai dar. Eu estou dolorido e com muito sono.

– Cadê o Fred que eu conheço? Vamos, deixe disso. Entre no carro que eu te dou meus rebites de cafeína e cocaína. A maquiagem disfarça os roxos. Rapaz! O que aconteceu? Um caminhão te atropelou?

– Eu dei uma coça no Donald.

– Poxa, nem me chamou? Olha, pode ficar à vontade. Tome dois desses.

Bafo me passa do banco do motorista duas pílulas púrpuras. Ao meu lado, uma caixa de isopor estava cheia com a minha cerveja favorita. Eu empurrei as pílulas garganta abaixo com seis latinhas. A cerveja ajudou a anestesiar a dor no corpo e os rebites bateram rápido. Eu estava mais aceso do que árvore de natal.

Eu cheguei ao estúdio bastante agitado, nada que os funcionários não tivessem visto antes ou acostumado, deram de ombros e continuaram o trabalho. O que interessava é acabar com as cenas. Aquele deve ter sido o dia mais produtivo de toda a minha carreira. Eu atuei melhor do que em dias normais e conclui vários projetos, filmes e propagandas. Os produtores esfregavam satisfeitos as mãos, calculando quanto iriam lucrar. O rebite perdeu sua potência e eu fui apagando como uma lâmpada velha.

– Senhor Brooks! O senhor está bem? Cristo, Bafo, o que você deu para o senhor Brooks?

Bafo nem prestou atenção, enquanto minha assessora me segurava como podia, servindo de muleta, até que pudéssemos chegar ao meu camarim.

– Senhor Brooks, o senhor se meteu em alguma briga? Olha, eu sei que sou apenas sua funcionária, mas o senhor tem que parar com isso.

– Boa garota. Faça o favor de chamar Minnie.

– Oh, não, nada disso, senhor Brooks. Se a senhorita Mansfield o ver nesse estado, ela vai agravar mais ainda seu estado de saúde. E não me chame de garota. Eu trabalho com o senhor há anos, o senhor deveria me chamar pelo nome: Minerva.

Ela tinha toda a razão. Eu devia dar o tratamento e respeito adequado a ela. Foi um achado realmente precioso, eu a conheci quando ela tinha começado na companhia como estagiária. Bafo insistia que eu tinha que ter uma assessora, pois quando eu não filmava, eu estava “ensaiando” com Minnie, Clarabela ou Margarida. Ou qualquer garota que desse bobeira no estúdio. Bafo tinha uma mente sintonizada com a minha, mas eu não sei de que raios de colégio e universidade ele tinha trazido aquela penca de garotas que mal tinham atingido a puberdade. Todas gritando, tendo faniquitos, só por estarem ali, diante de mim. Ao fundo, lá estava ela, Minerva, com aquelas roupas bem típicas de colegial de classe média, toda insegura. Mas dentre tantas garotas ali, prontas a fazer qualquer coisa para serem minhas assessoras, foi ela quem captou a minha atenção. Tinha algo místico e mágico naquele pelo macio e alvo de Minerva, nada que não fosse comum para um visão do ártico, mas foi como se eu tivesse visto Vênus em pessoa. Eu recordo como se fosse ontem nosso primeiro diálogo.

– Olá garota. Como é seu nome?

– Mi… mi… Minerva, senhor Brooks.

– Muito bem, Minerva, eu vejo que você é estagiária dessa companhia. A senhorita aceitaria ser a minha assessora?

– Se…se…senhor Brooks? Eu? Com tantas garotas mais capazes e competentes, o senhor escolheu a mim?

– Claro, garota! Acredite em mim, Minerva, você tem um potencial enorme. E tem algo que nenhuma dessas pretendentes possui: carisma.

Minhas mãos suavam como se eu fosse um garotinho mimado de mamãe querendo fazer sua primeira paquera. Seus olhos verdes brilharam como esmeraldas, ressaltados por sua cabeleira dourada. Ela aceitou, sob protestos gerais. Eu acertei em cheio, ela tem muito potencial, consolidou sua posição como minha assessora em alguns dias. Minha memória está confusa, então eu não sei quem começou, mas eu sei que fui eu quem tirou o “selinho” dela.

– Senhor Brooks! O senhor está pensando em sacanagem de novo! Como eu posso passar esse creme em seus machucados se o senhor não sossega?

– Minerva, Minerva, você reclama, com razão, pela forma indiferente como eu falo com você, mas fica envergonhada quando eu tenho intimidades. Decida-se! Quer ser tratada como uma garota ou como uma mulher?

Minerva parou de massagear minhas costas, virou-me para cima e começou a massagear o volume que sobressaía de meu calção. Se vocês têm acompanhado até aqui, eu vou poupa-los de detalhes. Nós dois caímos no sono e apenas acordamos com o barulho de tiros e bombas.

– Oh, mon Dieu! Devem ser os Germanos!

Eu não entendi o que Minerva falou, mas parecia francês. Eu olhei pela janela do meu camarim e pude ver como se fosse eu o espectador do cinema. De um lado da rua, Donald liderava o grupo de conservadores, católicos, reacionários e fascistas. Do outro lado da rua, Pateta liderava o grupo de progressistas, humanistas, liberais e anarquistas. Somente um péssimo roteirista ou escritor faria uma cena de confronto bem no meio de um estúdio.

– Fique aqui, Minerva. Eu vou tentar parar essa insanidade. Nós mal saímos de uma guerra, não precisamos começar outra.

Eu nem pensei em falar com Donald. Ele certamente iria querer uma desforra. Como ele não se garante sozinho, iria mandar a turma dele me bater. Pateta tinha juntado uma galera de ex-alunos e muito pequeno-burguês com a cabeça cheia de minhoca ideológica. Mas essa gente pelo menos é mais amistosa a um diálogo.

– Opa! Hei! Pateta! Sou eu, o Fred!

– Olá Fred. Eu estava esperando ansioso sua chegada. Venha conosco, companheiro, para acabarmos com essa ditadura.

– Pateta, essa coisa toda acabou faz tempo. Nós não podemos mais nos dividir em facções e nos matarmos. Nós somos toons, nós não somos humanos.

– Você não entende, companheiro, nós estamos aqui lutando pelo Povo, pela Democracia, pela República. Nós estamos lutando aqui por nossos irmãos e irmãs, os oprimidos e reprimidos pelo sistema.

– Eu entendo perfeitamente, Pateta. Nós, os oprimidos, podemos falar por nos mesmos. Nós não precisamos e dispensamos a tutela ou ideologia barata. Qual é, cara, enquanto você ficava apregoando o Amor Livre e a liberação da canabis, eu estava nas ruas com os Panteras Negras, nos movimentos pelos direitos civis que gente bacaninha como você diariamente nos negava. Vê se se toca, Pateta, os caras que você idolatra apenas tem te usado para ter o mesmo que os burgueses tem: poder. No fim, apenas trocam as cabeças coroadas e nós, “o povo”, continuamos onde sempre estivemos.

– Sim, companheiro, eu conheço sua dor e drama. Eu sei o quanto é difícil superar a inculcação imposta pelo sistema. Mas nós vamos adiante, para que os oprimidos possam se libertar de suas algemas! Adiante! Revolução Pictórica!

Os dois grupos se atacam com ferocidade. Tiros, bombas, corpos despedaçados. Nós apenas queríamos reconstruir o mundo. Mas preferimos acabar de destruir. Algo zune, meus ouvidos reclamam, meu corpo é atirado no ar junto com o chão. Nesse momento, eu acho que vi Cristo. Os sábios estavam certos. Cristo é uma baita de uma gata.

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