Revolução na Disneylândia – III

Eu procurei por todos os estúdios de filmagem e não encontrei Donald. De tempos em tempos ele sumia sem dar satisfações, mas os seguranças da empresa sabiam que ele ia fazer seu relatório aos seus verdadeiros patrões. Eu quero distância de qualquer tipo de Polícia, estadual ou federal e definitivamente que quero continuar sendo ignorado pela CIA e outras agências secretas de inteligência do Governo.

Quando as filmagens acabaram estava bem tarde da noite. Livre desse compromisso, eu pude tentar procurar Donald na casa de Margarida, afinal, ela também raramente ficava em seu camarim. Os toons que viviam naquele bairro olhavam para mim com um misto de repulsa e medo. Margarida morava em um bairro de classe média que está acostumada a achar que tudo que é diferente da vidinha medíocre deles é uma ameaça.

Mesmo com a fama e dinheiro que eu ganhara eu não conseguiria viver ali. As casas todas muito igualzinhas, coloridinhas, com florzinhas nas jardineiras das janelas… eu teria dado um tiro no meu ouvido. No quintal, os “sobrinhos” brincavam com coisas que eu jamais teria na idade deles, botando banca de donos da rua. No meu pedaço não durariam cinco segundos.

Quando eu entrei a cena que eu me deparei era mais típica de ser vista nos guetos e periferias em que eu passei minha infância. Eu estava acostumado com isso, mas não combinava com a imagem exterior da casa e com a imagem que os produtores queriam que Margarida tivesse. A casa estava mais parecendo um lixão, o papel de parede descascando, a iluminação pendente com fios desencapados expostos mal conseguia vencer a penumbra do ambiente, mantida por janelas cobertas por cortinas, como se ali se escondesse algum noiado.

Eu chamei por Margarida diversas vezes e fui explorando os cômodos. Margarida estava prostrada na cadeira de sua cozinha, olhando para algum ponto indefinido na parede. Por sorte nenhum produtor ou publico a viu desse jeito, olhos fundos, uma bituca de cigarro no bico, um copo com uma dose de uísque e várias garrafas vazias de diversos destilados. Eu não me surpreenderia se eu encontrasse seringa com heroína e papelotes com cocaína.

– Hei, oi, Margarida? Sou eu, Fred. Você está consciente?

– Hmmm… hã… Fred… oh, Fred! Que bom que você veio me ver! Eu não aguento mais! Eu estou para acabar com minha vida miserável!

De uma salto Margarida levantou da cadeira, me abraçou, me agarrou e se esfregou de uma forma que nem Cristo se seguraria. Eu precisava manter o foco na minha missão.

– Opa, hei, calma, Margarida! Eu te ajudo se você me ajudar. Você pode me dizer onde está Donald?

– Bah! Nunca mais fale desse nome! Se fosse outro toon, eu te daria um soco, Fred! Aquele…aquilo… sumiu… me deixou mais uma vez sozinha, cheio de contas, cheia de carência, cheia de problemas com essas pestinhas que colocaram no meu ovo. Ele deve estar lustrando alguma bota de um general, ou outra coisa… oh, Fred, Fred! Só você pode me ajudar! Só uma vezinha só! Faça comigo o que você faz com a Minnie, a Clarabela, sua assessora…

Margarida praticamente arrancou minha camiseta, enfiou as mãos no meu calção enquanto me dava um beijo como se ela fosse uma profissional do sexo. Oh, Cristo, não olhe! Eu perdi totalmente o foco quando ela levantou sua saia. Um mamífero transando com uma ave. Eu duvido que isso passe no Discovery Channel. Um sexólogo teria dificuldade em dizer se era anal ou genital, pois nas aves fêmeas, só tem um buraco para ambas as funções. Eu dei a ela uma boa injeção de testosterona com a minha seringa. Com as pernas tremendo, mas mais calma e feliz, Margarida ficou mais colaborativa.

– Nossa, Fred… eu chego a ficar com inveja da Clarabela, Minnie e sua assessora. Eu deixaria todos os outros vícios se você fosse meu fornecedor de sexo. Como você foi tão gentil, você pode pegar as coisas de Donald e levar para aquele traste. Na mesinha do corredor de entrada você vai encontrar várias cartas para ele, com os endereços de onde ele pode estar, mas cuidado… não são lugares amistosos. Você vai voltar a me visitar, não vai?

– Eu vou tentar, Margarida. Quando eu puder, se não tiver filmagens, eu venho.

– Oh, por favor, venha! Não é justo que apenas Clarabela, Minnie e sua assessora possam se divertir!

Eu balancei a cabeça como se concordasse, juntei minhas roupas como pude, as vesti e rapidamente saí para a rua, antes que ela tivesse chance de me abraçar mais uma vez. As ruas estavam vazias e frias, como em toda madrugada, um ambiente não recomendado para toons comuns, mas eu sei me cuidar.

O endereço mais próximo da casa de Margarida certamente é uma pista para o possível lugar do verdadeiro pai dos “sobrinhos” de Margarida. O Forte Kernell é uma base do Exército, Marinha e Aeronáutica, onde o Almirante Nelson, tutor de Donald e pai de Margarida, comanda a Terceira Esquadra Toon. Para humanos deve ser chocante, mas toons tem menos preconceitos e tabus do que os Deuses humanos. Papai Nelson sentiu-se no “dever” de dar “um sossego” na sua filhinha, o resto é consequência.

O pracinha com rosto pouco amigável não tirava os olhos de mim, enquanto eu me aproximava da guarita de entrada, para me apresentar e tentar falar com o Almirante Nelson.

– Boa madrugada, senhor oficial. Eu me chamo…

– Osvaldo, o Coelho Sortudo. Eu sei. Eu conheço você. Todos aqui assistem a seu programa. Mas entenda, Osvaldo, aqui você é um reles cidadão comum.

– Eu estou ciente disto, senhor oficial, mas se o senhor puder, ao menos, avisar ao Almirante Nelson que eu estou aqui para falar sobre Margarida, talvez ele autorize minha entrada.

– Vamos combinar o seguinte: você tira uma foto comigo e autografa. Em troca, eu ligo para o Almirante Nelson.

Não pensem errado, toons e humanos. Troca de favores é algo tão antigo quanto andar para frente. Chamar algo tão tradicional com o nome feio de “corrupção” não vai parar com esse comércio. Eu fiz a minha parte, o pracinha fez a dele. A voz do lado do interfone parecia amistosa e agradável. O pracinha aperta um botão, o portão dá um estalo e se abre. Eu tive que dar mais algumas centenas de autógrafos aos outros soldados, para só então poder entrar no prédio dos oficiais, aonde o sargento Garcia me conduziu até o escritório do Almirante Nelson.

– Osvaldo! O Coelho Sortudo! A quem eu devo a honra e satisfação de receber uma celebridade dos Estúdios Pixar?

– Almirante Nelson, o prazer é meu. Afinal, foram os fuzileiros navais que diversas vezes nos ajudaram em nossos filmes. Sem falar na presença marcante e prestativa de Donald, seu tutelado. O problema, almirante, é que ele tem faltado com suas “outras” obrigações e eu estou muito preocupado com o abandono de sua filha, a Margarida.

– Sim, sim… Donald e Margarida… eu também perdi algumas horas de sono com esse problema. Uma pata de família conservadora e tradicional, vivendo como mãe solteira, com três patinhos… os toons do seu estúdio devem fazer muitos boatos. O que falam por lá?

– Por favor, almirante, não vamos perder tempo com fofoca. No que eu puder, eu vou ajuda-lo a dar um suporte para Margarida. Mas eu vou precisar da ajuda do senhor para, digamos, “dar uma coça” no Donald.

– Eu percebo que temos interesses e gostos em comum, Osvaldo. Margarida me falou muito a seu respeito durante nossas… hã… “sessões de terapia”. Donald, por outro lado, há tempos merece uma surra. Você pode encontra-lo na rinha de tiro. Eu vou olhar para o outro lado enquanto você “conversa” com ele.

– Eu agradeço muito, almirante. Como sinal de minha gratidão, eis o telefone da Clarabela. Eu acredito que ela será uma boa cliente para suas “sessões de terapia”.

– Oh! Que gentil! Eu sempre quis conhecer a Clarabela. Eu… digamos… acompanho com interesse a carreira dessa grande artista.

Eu saí do escritório do almirante com ele no telefone, visivelmente “ligado” na conversa com a Clarabela. A rinha de tiro não era muito longe do prédio dos oficiais, mas eu cheguei ali com o toque da alvorada, fazendo com que soldados aparecessem aos montes, prontos para a inspeção. Estavam tão concentrados que nem me notaram, exceto Donald que olhava para mim com desdém enquanto segurava um rifle de precisão com a ponta voltada para o chão.

Uma cena clichê demais. O sol despontando, dois desafiantes, uma arma. Mas isso não era uma cena de roteiro. Quem ficou no chão foi Donald. Mas meus problemas estavam apenas começando.

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