Revolução na Disneylândia – II

Isso foi há vinte anos, meu programa estava com boa audiência e eu tinha muita fama e dinheiro como Osvaldo. Eu cheguei no horário de sempre, minha assessora entregou o roteiro depois de fazer um belo boquete em mim, quando veio meu empresário.

Eu nunca vou negar minha origem e etnia, sempre que eu posso eu ajudo. Quando meu empresário veio com um problema com o roteiro que precisava de um malvado, eu o indiquei aos produtores para ser o “Bafo de Onça”. Eu fui influenciado por ele também ser afrodescendente, mas eu o indiquei por que ele, sendo descendente de aborígenes americanos, era grande o bastante para intimidar e tinha uma expressão carrancuda perfeita para o papel. Depois do Pateta, o Bafo de Onça é meu melhor amigo.

Nessa tarde, ele também tinha seu roteiro e estava todo desarrumado, saindo do trailer que era o camarim da Clarabela, com um sorriso de satisfação no rosto que se apagou ao me ver.

– Hei, Fred [meu nome verdadeiro é Frederico], os produtores endoidaram. Querem que você troque de nome e aparência para o novo programa.

– Quê? Deixa eu ver isso. Um-hum. Eu não entendi. Agora querem que eu deixe de ser coelho? Isso é bom, eu vou poder tirar essas tiras de borracha de minha orelhas. Ufa! Agora eles querem que eu me apresente como Mickey Mouse? Isso está esquisito. Por que os produtores querem que eu me apresente como um camundongo?

– Algo mudou do lado dos humanos. Apareceu um tal de Bugs Bunny [Pernalonga] que está tirando a audiência. Aqui entenderam que isso aconteceu porque o ator que faz o personagem é mais autêntico, mais original, ele representa muito bem o americano caipira. Além do que parece que estão convencidos que “Osvaldo” é um nome latino demais.

– Por mim, tudo bem. Eu apenas exijo que faça parte do novo programa a minha galera, especialmente Minnie.

– Ah, essa é a parte da boa notícia. Vocês dois estão indo tão bem no programa antigo que nesse novo vocês serão o outro “par romântico”, que vai contrastar com o “par romântico” formado por Donald e Margarida.

– Excelente! Eu vou querer que meu camarim fique ao lado do de Minnie. Os produtores devem fornecer uma caixa de camisinhas todos os dias. Mas agora eu estou com uma dúvida. Nós vamos fazer um programa voltado ao publico adulto?

– Essa é a parte da má notícia. Nosso público continua infantil. Cenas românticas e selinhos estão permitidos. O resto, apenas fora do estúdio.

– Hmmm… bom, isso nunca nos deteve.

– Mas o estúdio e os produtores foram bem claros quanto a… isso. Em hipótese alguma Minnie não pode engravidar. Foi um problema danado quando Margarida apareceu com seus “sobrinhos”. Eu desconfio de quem seja a paternidade. Se bem que é um milagre da Clarabela não ter engravidado ainda.

– Bom, se desejo, prazer, sexo, ofende alguém ou é considerado obsceno, isso é problema dos humanos. Só mesmo essa espécie esquisita faz algo bom ser ruim ao mesmo tempo em que elogia e aplaude a violência e o ódio. Bafo, entre ver um personagem metralhando e ver Clarabela nua, qual das duas imagens é mais obscena?

– Eu entendo seu ponto de vista, Fred, mas nós temos o Donald para nos lembrar de que temos também criaturas complexadas. Ele seria bem capaz de gozar mais ao lado de uma metralhadora do que ao lado de Margarida.

– Oquei, oquei, eu entendi. Eu vou avisar a minha assessora de que eu vou precisar do dobro de frutafoda [boinkberry]. Mais alguma coisa?

– Bom, sabe… o Donald… os agentes do lado humano e os agentes do lado cartoon concederam a ele o cargo de fiscal dos bons costumes.

– Por mim ele pode ser general de cinco estrelas, eu não dou a mínima. Se ele se intrometer entre mim e Minnie, nós vamos comer pato à Califórnia.

– Fred, não esqueça que ele foi fuzileiro naval…

– Grande merda. Enquanto ele usava fraldas, eu sabia usar faca, pistola, carabina ou o que eu tivesse mãos. Se ele se meter a besta, eu vou palitar os dentes com a baioneta, depois de ter varado a cabeça dele com ela.

– Desde que você faça isso fora do estúdio ou fora das vistas dos produtores, tudo bem. Eu até ajudo, esse Donald está pedindo uma boa surra. Nos vemos no cenário quatro!

Bafo sumiu atrás de um cenário quando chegou Pateta, mais transtornado do que eu estava acostumado, quando batia a paranoia causada pelo efeito do fumo de “orégano”.

– Hei, Fred, hei! Você ouviu, não ouviu?

– Sim, Pateta, eu ouvi. Mas… de onde você veio?

– Bom… eu… estava… conversando com Clarabela…

– Isso é evidente. Sua calça está toda molhada. Se Clarabela não estiver cansada, eu vou visita-la daqui a pouco. Mas não se preocupe. Eu vou manter minha galera nesse novo programa.

– Hã… sim… hã… Clarabela se queixou que você não vai visita-la como antes. Ela está com tudo, Fred. Ela está com disposição para um batalhão. Ah! O que me lembra do “problema”. Você sabe… o marinheiro carola…

– Sim, sim, Donald, o coroinha católico cheio de regras, proibições, normas, tabus… eu às vezes me pego pensando o que Margarida viu nele. O que tem ele?

– Bom… é que… você sabe… ele representa não apenas o lado opressor da nossa sociedade, mas da sociedade humana também. Ele é o garoto do Governo, dos Militares, da Igreja. Ele é o escoteiro que recebeu sanção para patrulhar as nossas vidas. Agora que estamos reconstruindo o mundo para todos, imagine o que vai acontecer com os direitos civis sendo justo ele o “fiscal”? Você sabe… eu tenho esse… hã… passatempo… vão querer acabar com meu passatempo. E tem a Clarabela. Vão querer fazer dela uma feira, algo assim. Não vai demorar para te chatearem, tanto por causa de suas… hã… atividades secundárias com a Minnie, quanto por causa de sua etnia.

– Relaxe, Pateta. Nós temos conseguido lidar com Donald e seus… patrocinadores até agora e vamos continuar a levar vantagem. Se isso te deixa mais tranquilo, eu vou lá peitar o fuzileiro… mas primeiro, um chazinho com Clarabela.

– Hã… claro. Deixa que eu te cubro. Ninguém vai te interromper.

Pateta parecia mais tranquilo quando eu dei uma ultima olhada antes de bater na porta do camarim de Clarabela. Minha mente enevoou por completo assim que ela respondeu com uma sensualidade que derreteria o Ártico. Eu mal consegui me conter em meus calções só em ouvir tal voz, então eu perdi totalmente o controle quando eu a vi, lânguida no sofá, com uma lingerie que apenas destacava suas generosas formas, gesticulando um “vem cá” com o dedo indicador.

Eu acordei três horas depois e vi o estrago que eu causei, na mobília e em Clarabela, mas ela parecia estar muito feliz e satisfeita, então eu pude seguir com minha missão: enfrentar Donald.

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