Revolução na Disneylandia – I

O Mundo dos Humanos e o Mundo dos Cartoons estão interligados parcialmente por instrumentos conhecidos por televisão e cinema. O Mundo dos Humanos vê por uma janela cenas do Mundo dos Cartoons, mas o que se vê não é muito diferente das transmissões por estes meios de comunicação. O que o ser humano vê são apenas as transmissões permitidas e autorizadas pelos estúdios que existem do lado do cartoon. Fora das telas, além dos bastidores e cenários, cada personagem tem uma vida própria que, tal como a dos atores humanos, é uma vida excepcional diante da dura realidade do Mundo dos Cartoons.

Um documento apócrifo foi encontrado no fundo de um imenso cofre de propriedade de Walt Disney, encontrado quando tiveram que demolir uma parte obsoleta e inutilizada da Disneylândia original. A empresa do lado humano nega a autenticidade do documento e a empresa do lado do cartoon foi destruída pelo fogo, o verdadeiro motivo da morte de Marvin Acme e da acusação contra Roger Rabbit.

O conteúdo do documento fala da história do Mundo dos Cartoons no século XX, entre a década de 20 e a década de 50. Tal como no Mundo dos Humanos, aconteceram dois grandes conflitos que dividiram as nações dos cartoons. Da mesma forma como apareceu o fascismo entre os humanos, apareceu o fascismo entre os cartoons.

A semelhança entre as histórias de dimensões tão diferentes ainda é assustadora e houve um momento onde o lado cartoon da Disneylândia teve uma revolução, cujo efeito começou a aparecer nas produções dos estúdios de animação do lado humano no início do século XXI, produções que refletem as mudanças acontecidas tanto com o ser humano quanto com o cartoon.

A primeira parte do documento é uma autobiografia do personagem e ícone que se tornou símbolo da Companhia Disney. Esta é a biografia de Mickey Mouse e da Revolução Pictórica.

Eu hoje estou com cinquenta e sete anos e, como muitos seres do Mundo Cartoon, eu tenho muitas esperanças com o que vai acontecer daqui a cinquenta ou cem anos. O Mundo Cartoon passou por momentos terríveis durante as duas Guerras Mundiais e agora tudo o que queremos é construir um mundo melhor para todos.

Se eu dissesse isso quando eu tinha vinte anos, eu certamente seria preso, acusado de ser “comunista”, muito embora eu tivesse mais motivos para ser importunado constantemente pelos policiais. Eu não sei como colocar isso, especialmente se isso for lido por um humano, especialmente se o Mundo Humano não expurgar suas culpas. Enfim, a quem interessar possa, eu preciso desabafar: eu sou negro. Eu não me refiro ao tom da tinta que é utilizada para cobrir minha imagem nas transmissões, eu estou falando que eu sou afrodescendente.

Eu nasci em Birmingham, Alabama, 1908. Eu vivi muitos anos de minha vida no gueto onde meus pais, avós e várias gerações de afrodescendentes viviam confinados, separados, segregados. Nós vivíamos como párias em nossa própria cidade, em nosso próprio Estado, em nosso próprio país, unicamente por causa de nossa origem e etnia. A situação era ruim no pós-guerra para os eurodescendentes, era pior para os afrodescendentes, o pouco recurso e acesso que tínhamos estava mais ralo que sopa de pedra.

Então o que sobrava para mim era a “educação das ruas”, fazer bicos e correr dos policiais. A própria sociedade produzia e mantinha as condições propícias para que todos nós seguíssemos a sina de sobreviver nas periferias, nos guetos, comendo sobras, sem qualquer serviço público, receita certa para a “vida bandida” que só tem glamour nos estúdios de filmagens.

Eu não sei exatamente como aconteceu, mas foi assim, nas ruas, nas esquinas, nos lixões e becos de edifícios que eu comecei a fazer minhas apresentações. Todos gostavam do que eu fazia e quando começou o rádio um repórter percebeu meu potencial e transmitia minhas piadas. Eu era bem aceito pela audiência porque apenas ouviam minha voz e gostavam dos meus disparates.

Então vieram duas grandes invenções e uma enorme oportunidade de negócio: televisão e cinema. Um agenciador de atores veio ao estúdio de rádio para fazer uma oferta, mas titubeou ao me conhecer. Os produtores do estúdio também ficaram receosos, pois a audiência poderia reagir mal diante de um ator negro. Eu precisei colocar uma pasta em torno do meu rosto que branqueava minha pele e prenderam as minhas orelhas para que eu tivesse a aparência de um coelho, algo menos agressivo e mais aceitável do que um rato. Foi assim que eu me apresentei ao público com o nome de Osvaldo, o Coelho Sortudo.

Eu consegui emplacar com o personagem e fui contratado por um grande estúdio de animação que tinha como contraparte a Companhia Disney. Os roteiros chegavam e saiam com se fossem pastéis, aparentemente ninguém dava qualquer importância a quem eu era ou exatamente por ser o que eu era emprestava mais graça a uma sociedade racista.

O publico gostava tanto do espetáculo que os produtores tiveram a brilhante ideia de trazer mais gente para o programa, mais personagens que representasse essa camada da população que é constantemente humilhada, como se o grupo que fizesse parte do “normal” precisasse de autoafirmação.

Assim eu conheci o meu melhor amigo, que paradoxalmente foi chamado de Pateta, apesar dele ser um professor universitário, mas com o péssimo hábito de estar sempre “alto” por fumar “orégano”. Nós tínhamos tiradas que tornavam difícil gravar algo, tantas risadas que causávamos.

Então veio o “empata foda”, o carola certinho, que tinha o único propósito de oferecer ao publico uma figura confiável, tradicional e correta. Ele chegou ainda com seu uniforme de marinheiro, como se ainda estivesse servindo no Exército e foi chamado de Donald. Davam a ele as frases moralistas ou deixavam para ele as cenas onde ele nos livrava do pior. Os produtores entraram em desespero quando a audiência caiu, então ao invés de tirar o prego, trouxeram mais gente ao programa, tiveram a brilhante ideia de trazer garotas. Eu espero não estragar a infância de algum humano que for ler isso, mas trazer garotas em um programa dominado por garotos, em algum momento isso daria confusão.

Quem chegou primeiro foi uma garota que mais parecia ter saído da página central de uma revista adulta masculina. Uma verdadeira bomba sexual que, para nosso desespero, acabou sufocada em roupas de uma dona de casa comum e ela foi chamada de Clarabela.

Depois veio uma garota que era a típica patricinha desmiolada e alienada, mas que veio para dar dicas de moda, postura e comportamento para o publico feminino. Ela foi chamada de Margarida e mal conseguia decorar o roteiro, mas garantiu sua permanência porque “Donald” simpatizou com ela, surgindo o primeiro “par romântico”.

Quando eu achei que aquilo ia ficar nesse elenco sem graça, no fim das apresentações, eis que veio uma garota que até hoje me tira do sério. Uma ratinha, afrodescendente como eu, mas que não tinha vergonha nem medo de sua identidade. Eu não consegui me conter em meus calções, eu fiquei com um tronco entre as pernas só de olhar para ela. Ela me esnobou no começo, mas conforme seguiam as filmagens, acabamos nos dando bem e fui eu quem escolheu o nome de Minnie para ela. Mas de pequena ela nada tinha, pequeno era eu diante dela. Eu estava absolutamente apaixonado por ela, desde seu sotaque do Queens, bairro de New York, até o jeito dela andar balançando as cadeiras.

Meninos e meninas, me desculpem, mas eu calquei a Minnie atrás dos bastidores, atrás das cortinas, no camarim, até no banheiro do avião. Isso pode ser chocante para os humanos, mas toons também tem sexo e transam. Muito.

Eu sei que “Pateta” é bem esperto e comeu a “Clarabela”. “Donald” deve ter tentado fazer algo para a “Margarida”, mas com todo aquele recalque e mentalidade militar, eu acho que ele broxou, tanto que tiveram que arrumar alguns “sobrinhos” para ele, para não quebrar a imagem do “par romântico”.

Tudo ia bem, até que veio Kennedy, a Crise dos Mísseis de Cuba, a Caça aos Comunistas de McCarthy. “Donald” evidentemente deixou sua vertente militarista mais acentuada e “Pateta” deixou sua vertente contestadora mais acentuada. Enquanto os humanos discutiam a Contracultura, nós vivíamos no estúdio o resquício do fascismo que dominou a Europa no século XX, entre a década de 30 e a de 50.

Então eu relato nas páginas a seguir a minha memória da Revolução Pictórica.

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