Evangelho de Magdala – IV

O templo estava alegre e agitado, todas as garotas ocupadas com a aproximação do festival da primeira lua cheia de outono, momento em que o templo abre seus portões para que o povo gentil de Chipre e sacerdotes de todas as cidades helênicas pudessem participar da Procissão de Demeter. Aqui e ali, garotas ora gritavam de felicidade, ora debulhavam-se em lágrimas, pois haviam recebido a confirmação de sua ascensão para o corpo sacerdotal, sua iniciação e inevitável partida para o Templo de Athena, para continuarem com o aprendizado dos mistérios.

Miriam perambulava pelo pátio, como que se estivesse fazendo o censo de quantas tinham recebido a intimação, quantas riam, quantas choravam, mas sem que isto a movesse ou a interessasse de alguma forma. Ela parou quando sentiu alguém esbarrando nela, chorando copiosamente, como se visse o próprio Dionísio sendo estraçalhado. Desfazendo-se das cadeias que a lamurienta fazia com os braços em torno de seu pescoço, Miriam pode enfim olhar para o rosto da carpideira e viu que se tratava de Abelina.

– Mas o que significa isso? Por que chora tanto? Nem estamos nas vésperas do Lamento a Adônis e está chorando assim?

– Ah, minha senhora, nem na Trácia uma mulher chora por Tammuz mais do que eu choro hoje. Vede, eis que eu tenho em mãos minha sentença e condenação. Neste pequeno pergaminho cruel está a intimação para que eu me apresente para receber os votos na cerimônia da Procissão de Demeter.

– Ah, Abelina, como eu a invejo! Você deveria estar feliz e exultante! Você vai poder sair desse calabouço e dessa vida aprisionada.

– Eu bem que gostaria, mas não consigo! Eu temo em ir! Eu temo em te deixar! Quem irá olhar por minha senhora?

– Não chore por mim, Abelina. Nem há coisa alguma a temer. Apenas júbilo, honra e glória.

– Mas as garotas dizem que nós teremos que nos unir com um monstro terrível! Eu tremo em pensar em ver o meu corpo nu, ao centro do altar, diante de uma plateia, pronta para ser devorada por uma besta!

– Você não deveria ouvir o boato de pessoas ignorantes, Abelina. Por inveja ou ciúme estão inventando este cenário de terror para que desista. Mas se tem tanto medo, eu te digo e mostro, aqui e agora, o mistério que irá desvendar.

– Oh, minha senhora, eu te rogo humildemente! Piedade! Mostre o que me aguarda!

– Então veja e vede, pois o mistério pode ser facilmente elucidado observando a natureza. Do solo brotam as plantas e das plantas brotam as flores e frutos. Assim como o fruto cresce e amadurece, a fêmea cresce e amadurece. Nosso corpo é um espelho e reflexo da fecundidade e fertilidade da natureza. Seus seios estão tão bem formados e repletos como a fruta em seu momento de colheita. De seu ventre correu o liquido vital, tal como escorre a seiva da árvore no ápice da primavera. Da mesma forma como a terra precisa ser arada, a mulher precisa ser penetrada. Para fecundar a natureza, é necessário que haja poder e força, por isso que o Deus veio ao mundo na forma de um enorme bisão e seus descendentes todos tomam a forma de touro ou portam chifres em sua fronte. Os pobres de espírito veem apenas a forma e ficam aterrorizados diante da manifestação do Deus na forma de um monstro, uma besta. O que celebramos é a representação do ato de criação do mundo.

– Mas… é só isso? Eu e tantas passamos anos aqui nesse templo para aprender os mistérios que você desvendou em poucos dias, observando a natureza? Mas e o labirinto e o labris? Por que o touro deve ser sacrificado se ele é o Deus?

– Os mistérios são ocultos em símbolos e a abstração da arte serve muito bem. O labris é uma abstração, tanto dos chifres do touro, quanto do braço da Deusa, para nos lembrarmos de que a vida vem do sacrifício, o renascimento vem da morte. O labirinto é o caminho de volta ao útero da Deusa. Somente pode entrar o que é externo, somente desbarata o labirinto aquele que conhece seu interior por ser seu berço, seu lar e sua tumba. Somente quem tem poder e força pode fazer a semente brotar das entranhas da terra, então, mais uma vez, o Deus se faz de fuso, espinho e lança, para que nós possamos vir a este mundo.

– Então… quando eu estiver no altar, eu serei como a Deusa?

– Sim, você será como eu ou uma de minhas muitas irmãs, nós que viemos todas daquela, inominável e eterna.

– E ali no altar será um sacerdote a representar o Deus?

– Sim, ele será como Adônis ou de meus muitos irmãos, todos descendentes daquele, inominável e eterno.

– Eu gostara de ver.

– Acredita estar preparada?

– Não, mas com você ao meu lado, eu consigo!

Como se fossem panos e cenários de um grande teatro, Miriam e Abelina atravessam tempo e espaço, chegam ao centro do altar. Diante delas, do lado oposto, ao oeste do templo, entrando pelo enorme portal, um imenso touro, grande como uma casa, as patas grossas como colunas, o torso feito de puro músculo e dois chifres enormes. Sua respiração era poderosa como o vento norte, seus olhos brilhavam como o sol e sua pisada fazia todo o solo trepidar.

– Tiveste sorte, Abelina. Eis o meu Consorte. Ele preferiu te conhecer pessoalmente a deixar que um reles mortal o representasse. O que sente diante do Senhor teu Deus?

– Oh, minha senhora, perdoe-me por ser tão franca e sincera, mas eu sinto meu corpo esquentar, meus seios ficam eriçados e escorre água de meus lábios inferiores. Eu desejo me deitar e ser coberta pelo meu Senhor. Eu quero que a chuva, o sangue e o sêmen de meu Senhor preencha meu ventre.

– Bendita és entre as mulheres, Abelina!

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