Evangelho de Magdala – III

Miriam observava enquanto as amazonas que guardavam o templo de Ártemis derrubavam uma árvore cujos galhos estavam perigosamente próximos da muralha. Decepcionada, viu sua escada para a liberdade caía ao solo quando uma enorme sombra anunciou que ela estava acompanhada e não era Abelina.

– Então, “princesa”, achou mesmo que eu não notaria essa ameaça à nossa segurança?

– Éris, capitã das amazonas, que ameaça uma árvore pode nos trazer?

– Pode, por exemplo, fazer com que um pequeno ratinho preguiçoso fuja de suas obrigações com o templo.

– O pequeno ratinho trabalha mais do que o enorme mastim orgulhoso pressupõe.

– Este grande mastim tem do que se orgulhar e não se lembra de ver o ratinho pequeno ocupar-se com outra coisa senão a andar para lá e cá, sendo paparicado por sua ama de leite.

– No ponto de vista do pequeno ratinho, o grande mastim tem tempo ocioso demais para cuidar do que ele faz e deixa de fazer, ao invés de cuidar daquilo que tem tanto orgulho.

– Há! Pois o pequeno ratinho deveria agradecer ao grande mastim, do contrário ele teria sido comido há muito tempo por algum gato persa gordo.

– O grande mastim se acha muito importante, se acredita que o pequeno ratinho não tem seus próprios meios para se defender.

A sobrancelha de Éris trepida em seu semblante carregado de irritação diante da ousadia de Miriam, certamente a única garota no templo que ousa retrucar para ela. Desde que Miriam veio ao templo ambas viviam assim, com desafios, confrontações, atritos, mas, ainda que Miriam a tirasse do sério, era ela quem mais tinha seu afeto, carinho, atenção e cuidado. Éris, por hábito e costume, quando irritada, ficava com sua mão crispada na espada, pronta para literalmente cortar o papo furado, mas por mais raiva que sentia não conseguiria desembainhar a espada contra Miriam. Um estrondo, correria e burburinho no templo dissipou a tensão do momento.

– Capitã Éris! O templo está sendo roubado!

– Quem teria tamanha audácia? Soem o sino de alarme! Eu quero uma coorte inteira pronta e disposta em fila! Eu espero por todas no local da ocorrência! Veja bem, pequeno ratinho, como o grande mastim trabalha. Ele não faz isso em troca de comida e água, ele faz porque é isso que dá propósito ao que ele é.

– Então o grande mastim vale-me pouco, porque sua importância acaba e se limita ao ato em si mesmo. Corra! Rosne! Seja feroz! Morda! Sua força é sua fraqueza.

Éris deu um salto do alto da muralha e pousou no solo do pátio sem um único arranhão, algo que até heróis temeriam em tentar. Seguiu a coluna de fumaça e chegou ao tesouro do templo, que teve uma parede arrancada com a explosão. O destacamento demorava a chegar, então ela desembainhou a espada e entrou pela abertura, passando através da fumaça espessa que a sufocava e fazia seus olhos lacrimejarem. Dentro da câmara do tesouro apenas as chamas da explosão iluminava parcamente o ambiente, quem invadiu o tesouro cuidou de apagar todos os archotes. A escuridão era tão densa que poderia ser tocada, barulho de passos denunciavam vários invasores, mas as paredes da câmara do tesouro abafavam os sons de respiração e pulsação dos ladrões, Éris não conseguia sentir onde estavam.

Um brilho reflete no olhar de Éris, o brilho argênteo de uma espada, vinda do meio das sombras, sem aviso, certeira, na direção de seu pescoço, rápida, tudo que Éris faz e fechar seu olho arguto e prepara-se para seu fim inevitável. Metais se chocam, o fluido vital vermelho esguicha, um corpo tomba. Éris abre o olho, aliviada por ainda estar viva. Surpresa, ela percebe que toda a câmara do tesouro está iluminada. Ao redor, três invasores estão como que imobilizados. Diante de todos, Miriam está tranquila e serena.

– E então, grande mastim? Como se sente sendo salvo por um pequeno ratinho?

– Eu não entendo! Como você desarmou o ladrão? Com que arma? Com que técnica?

– Eu sou a encarnação de Ishtar. Eu posso manifestar um batalhão inteiro armado pronto para a batalha.

Éris ouviu Miriam manifestar sua condição, mas estava além de sua capacidade perceber a extensão do que aquilo significava. O destacamento chegou, cercou os invasores e os amarraram.

– Biltres! Amanhã eles serão executados! Pagarão pelo amor que tanto dedicam ao ouro!

– Éris, eu não te condeno pelo amor que tem com sua espada, por que condena esses pelo amor que nutrem pelo ouro?

– A espada é o meu meio, uma ferramenta, que eu uso por princípios mais elevados, sem os quais eu não saberia viver.

– Uma espada é algo que te traz uma riqueza, você não sentiria mais contente tendo mais de uma espada ou se pudesse trocar sua espada por outra melhor?

– Por Ares e Marte, não! Quando se adquire uma espada, se estabelece um vínculo espiritual com a lâmina. Não basta ter e saber manejar, uma espada precisa de cuidado, atenção, manutenção. Ter mais de uma pesaria em meu cuidado e em meu ofício. Em uma batalha, o excesso de equipamento torna-se um risco de vida. Quem acumula ouro não tem outro objetivo senão ajuntar moedas, perdendo a alma.

– Eu te admiro por isso, Éris, mas se isto te vale como compensação, estes que esvaem seu viver em saciar um vazio que nunca acaba é que serão apagados pela própria efígie a quem servem.

Miriam seguiu andando, deixando Éris coma impressão de que saiu da discussão com alguma vantagem, mas o pensamento dissipou assim que a valente amazona recordou que foi salva por uma garota que era a metade de seu tamanho e força.

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