Evangelho de Magdala – I

Reunidos no templo de Ishtar, os sacerdotes observavam a lua e as estrelas com vívido interesse, procurando por sinais e maravilhas no firmamento. Antigos pergaminhos cananeus e acadianos dão como certo, com data e hora, que assim os planetas se alinhariam anunciando o início de um novo Aeon, de uma nova Era, a ser celebrada com o nascimento da Criança Prometida por inumeráveis profetas.

O Alto Sacerdote e a Alta sacerdotisa observavam, ansiosos, para os escolhidos dentre uma casta escolhida de sacerdotes, separados, treinados, especialmente para este único dia, através de incontáveis gerações, unicamente para que deles nascesse a Criança Prometida.

Contar as luas para o nascimento ocorrer quando esperado não é difícil, a natureza propicia o clima adequado para o comércio entre as carnes e seus escolhidos carregavam consigo suas linhagens, mas mesmo assim, tiveram o cuidado de convidar para a cerimônia um pequeno círculo, mais restrito, mais experiente, para a consumação inevitável do coito. Esse é um ritual extremamente delicado e separado, para pessoas ordinárias, tabu, como se fosse algo proibido ou errado, mas não é do interesse do templo o que pertence à ignorância.

Nenhum sacerdote oriundo do sul da Palestina. Essa é a recomendação que fizeram e era muito genérica e não faltaram protestos vindos de templos, cheios de diplomas e títulos, mostrando que tinham capacidade e competência para testemunharem a encarnação de Ishtar. Hiram, o Alto Sacerdote, sabia que estava sendo exagerado, mas foi muito triste e arriscado ver colegas e amigos seus ficarem horrorizados diante do Hiero Gamos executado entre seu sobrinho, Iskander, ainda imberbe, e Emira, uma garota que mal havia completado a puberdade, sobrinha da Alta Sacerdotisa Semiramis. O sul da Palestina tinha se tornado uma região dominada por monoteístas das mais diversas vertentes e religiões, cada qual aclamando o Deus deles como o único, uma blasfêmia e heresia imensurável.

Os pensamento de Hiram cessaram com o choro da nova vida que nascia. Apressado, trata de levantar de sua elegante poltrona, dispensou a ajuda de sua corte, avizinhou-se com presteza do centro do altar, pôs de lado seu sobrinho e, com olhar perturbado, pergunta para a que trouxe a luz sobre o resultado de seu trabalho.

– Este é quem esperamos?

– Meu senhor, vede, eis aqui Cristo.

Hiram ouviu com curiosidade o título com o qual a sacerdotisa saudava o nascimento da Criança da Promessa, mas considerou adequado ao ver um ser tão bem formado, cujo corpo apresentava os mesmos símbolos de Ishtar, o mesmo órgão sexual comum a todas as fêmeas.

– Sórores de Ártemis, rápido! Peguem e levem essa nova vida para o templo sagrado, para que cresça com nenhuma mácula, afastada do profano.

Com dor no coração, Hiram teve que ver a esperança de gerações e da própria humanidade sendo levada para longe, para Chipre, para viver entre os Helenos e ali aprender os mistérios dos quais ela seria a portadora, senhora e mensageira.

– Meu senhor, por que enviaste Cristo ao estrangeiro?

– Eu chamarei a Criança Prometida de terras longínquas. Assim está escrito. Mas não há qualquer profecia sobre o nome ou título pelo qual a Criança Prometida libertará o mundo. Diga-me Emira, de onde vem tal visão profética?

– Meu senhor, eu estava na peregrinação ao Templo de Adônis, nas cercanias de Samaria, Canaã, quando reis magos avisaram sobre que Cristo chegaria, anuncio feito pelas estrelas e este é o sinal do início do Aeon de Peixes.

– Decerto são acadianos para saberem dos astros. Aeon de Peixes, disseram? Corrija-me Semiramis, Cristo significa aquele, ungido ou ungida, por Deus, correto?

– Sim, Hiram e Peixes é chamado de Ixtos entre os Helenos, o que me faz suspeitar de que estes reis sejam sumerianos.

– Meu senhor e minha senhora, acertaram dois dos três reis que avisavam aos iniciados, mas o terceiro foi o que mais me chamou a atenção, algo assim eu apenas ouvi falar. Ele parece muito com aquela gente que vive mais além do norte, coisas que apenas supomos de lendas e boatos populares.

– Além do norte? Diga-me Iskander, você que veio da Macedônia, o que há além do norte?

– Eu conheço os romanos, gente rara nesta região e quando eu estive ali, observando e assimilando suas táticas de batalha, os soldados contavam sobre os povos do norte. Eles dizem que estes povos do norte são descendentes de Europa e, tal como a Deusa, tem a cútis rosada e cabelos da cor do trigo.

– Que novidade! Eu desconfiei quando disseram que dos remanescentes de Tróia surgira uma cidade chamada Roma e eis que nos vemos cercado de romanos! Eu, que estive em Tebas e Cartago, quantos povos diferentes eu conheci! A Verdade deve ser espalhada em tais longínquas terras?

– Sim, meu querido Hiram. A Verdade não pode mais ficar dentro dos templos nem deve mais estar em nossas mãos. Os Deuses confiaram a nós a Luz, esperando por esse momento, para que toda a humanidade despertasse. Eis a hora! Em breve não serão mais necessário templos, sacerdotes, rituais, cerimônias, pois o Mundo conhecerá a Luz, haverá amor e união, então, mais uma vez, os Deuses habitarão entre os homens, os homens serão Deuses.

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