Apologia ao prazer desponderado

Antes de começar meu texto, eu lanço um desafio ao leitor. Um bom escritor deve ler e ler inclusive dos autores que não concorda. Um bom leitor deve ler inclusive obras que saem de sua preferência. Meu desafio ao leitor é que leia e faça seu comentário crítico ao livro “Guia Politicamente Incorreto do Sexo”, de Luiz Felipe Pondé.

Para introduzir [em todos os sentidos] este texto, o título do livro é uma boa pista, então vamos dividir as palavras.

Quando falamos em “guia”, nos lembramos de mapas ou de manuais de instruções, o que coloca o autor como alguém experiente ou conhecedor daquilo que pretende “nos guiar”. Eu coloco isto em uma categoria quase neutra, o indivíduo que viaja, quando se depara com inúmeros guias, sabe do que eu falo.

Quando falamos em “politicamente”, aí a coisa complica, por que o senso comum acredita que política tem a ver com governo e o brasileiro adquiriu aversão à política pelo circo que vemos todos os dias. Eu tenho que descontentar o leitor, porque a política faz parte de nossa rotina, em diversos momentos e níveis, dizer-se “apolítico” é, paradoxalmente, uma postura política.

Vamos citar algumas definições. De acordo com a página “Significados”, política é a “arte de negociação para compatibilizar interesses”. Segundo Heni Cukier, “para obter a maioria das coisas precisamos nos esforçar, competir, conceder, negociar, persuadir, seduzir e algumas vezes brigar”. Isso combina com a definição de que política envolve a ação de conciliação entre os interesses das pessoas. Cada um de nós tem seus interesses, objetivos, ambições, projetos e, para torna-los reais, precisamos da ajuda, auxílio, colaboração e apoio de outras pessoas e estas tem os seus e, para se concretizar algo, aí entra a política. Note que eu estou falando de uma ação, aqui não entram considerações de tendências, direções ou de valores.

A coisa fica embaçada quando falamos em “incorreto” porque se pressupõe que exista o “correto”, que são valores morais extremamente discutíveis e questionáveis. Eu estou falando de política, não de políticos, diga-se de passagem, pois para que se diga que um político está agindo incorretamente é necessário que existam leis e regras que são produtos, efeitos e sintomas da política.

A coisa fica esquisita quando falamos em “sexo”, especialmente quando falamos de nossa sociedade, dominada pela cultura europeia ocidental branca e cristã. Inevitavelmente, como nossa sociedade é organizada, existem grupos que tem um peculiar interesse em manter uma determinada politica sexual, porque quando você controla a vida pessoal e íntima de uma pessoa, seu corpo, seu desejo, seu prazer, seu sexo, você controla a vida dessa pessoa. E eu não estou me referindo apenas à Igreja, mas a todos os grupos cristãos que estão politicamente organizados.

O nosso maior órgão sexual é o cérebro. Ali em nossa mente estão todos os nossos desejos, sonhos, fantasias, pulsões e libidos. O sexo começa no pensamento e se expressa no corpo, começando com um e são muitas as opções lúdicas para vôos solos. O corpo é a coisa em si, tal como nós viemos ao mundo, mas a forma como nós o sentimos, o percebemos e o expressamos, em relação a nós mesmos, a outra pessoa e ao nosso ambiente, o corpo recebe da linguagem da época um signo, um símbolo e um significado dados pela cultura e sociedade vigentes. Mas a coisa começa a ficar mais apimentada quando tem duas ou mais pessoas em cena. Onde existe mais de uma pessoa, haverá a necessidade de negociar e compatibilizar os interesses, então a política é parte e condição inequívoca da arte da sedução, da corte e do sexo.

Até mesmo o Neandertal tinha a sensibilidade e empatia de “não avançar o sinal” quando a outra parte “não está no clima”. Parece algo bem simples, mas de difícil compreensão para os meninos e os masculinistas de que, para que duas pessoas façam amor, é necessário que ambos estejam conscientes e consentindo na consumação do ato. Notem que aqui eu não entrei com conceitos de valor, nem defini o que se pode conceber como uma “forma correta”.

Nos domínios de Eros e Afrodite, é irrelevante a condição dos atletas de alcova. Podem ser hetero, homo, bi, transexuais. Podem ser solteiros, casados, divorciados, viúvos. Podem ser altos, baixos, gordos, magros, deficientes. Podem ser ativos, passivos, traumatizados, recalcados, histéricos, caretas, liberados. Podem ser monogâmicos ou poligâmicos. Podem ser pudicos em público enquanto mantem seus fetiches em seus quartos. O que interessa para os contorcionistas do desejo é atingir o êxtase.

“Nunca na história desse país” teve tanta gente querendo meter o bedelho em nossa identidade, personalidade, preferência, opção e atividade sexual. Como bom porta-voz dos donos do poder e da sociedade, Pondé fica de mimimi, vociferando contra o “politicamente correto do sexo”, não porque ele queira emancipar as pessoas, mas exatamente porque ele, como um bom coroinha carola, se sente ameaçado e incomodado com as minorias [aqui cabe lembrar que “minoria” em termos de acesso e representação política, não em termos de censo populacional] se expressando. Na verdade, o termo “politicamente incorreto” foi a forma do reacionário tentar coibir as legítimas expressões sexuais das minorias, curiosamente utilizando termos e conceitos da esquerda para manter o discurso da norma social.

Jogando habilmente com os conceitos, apresentando os que lhe são favoráveis como axiomas e os que lhe são desfavoráveis como censura, Pondé na verdade reafirma que nós, pobres mortais, somos politicamente incorretos no sexo, porque queremos que a mulher seja sujeito e não objeto, porque queremos que o comércio do sexo tenha a mesma consideração social que todo comércio tem, porque queremos que a humanidade reconheça que somos todos intersexuais e estamos além do gênero maniqueísta binário.

O que Pondé tenta esconder debaixo do seu discurso crítico ao que ele considera como “patrulha ideológica” é exatamente o inverso, afinal o que existe nas entrelinhas do discurso de Pondé é o verdadeiro “politicamente correto do sexo” que tem causado ao longo dos séculos nosso recalque, nossa frustração, nossa histeria, nossa neurose e paranoia. O que Pondé tem preguiça ou desonestidade intelectual para entender é que a humanidade não está mais vivendo na Era Vitoriana, com o Romantismo do século XVIII e a mesma regra cristã moralista hipócrita que reinou até o século XX.

O discurso que propomos não vai acabar com o casamento “religioso” ou com o relacionamento heterossexual, tampouco pretende por em risco sua masculinidade, embora a insegurança dos meninos seja tão grande ao ponto de se sentir ameaçados diante da diversidade sexual da humanidade. O que propomos é simples: todos tem o direito e a liberdade de amar quem quiser, quantos quiser.

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