Arquivo mensal: maio 2016

Cachorro de madame – VI

O atendente do hotel Windsor ficou boquiaberto quando Osmar e amigos retornaram do passeio. Césane fez seu milagre, suas roupas estavam impecáveis e adequadas ao convívio com a sociedade. O ser humano, “civilizado” e “provinciano”, infelizmente julga as pessoas por sua aparência, não pelo caráter.

Dupont estava aflito, pois a audiência seria amanhã, antes do meio-dia, então tinha urgência para que todos fossem dormir. Evidente que todos quiseram aproveitar o jantar, comer um prato feito era uma raridade, então muito justamente queriam aproveitar se fartarem com pratos que dificilmente comeriam.

Quando ficaram saciados, voltaram ao quarto, quando Toulouse arrumou e convocou uma reunião, uma “mesa redonda”, todos sentaram nas cadeiras e Osmar ficou no centro.

– Muito bem, “bodinho”, está na hora de você falar. Você quer que sejamos uma grande e feliz família, então nós não podemos ter segredos. Eu estou interessado em saber mais dessa revelação que eu tive. Quando e como você se deu conta de sua… condição?

– Bom… eu conto se vocês também contar sobre suas vidas, combinado?

– Combinado, certo, pessoal? Certo.

– Eu… nasci assim. Ao menos em parte. Eu sempre fui assim e, pelo menos para mim, quando eu era menor, isso era o normal. Só depois que eu cresci e tive contato com outras pessoas que eu percebi que eu era… diferente. Não que haja algo de ruim em ser diferente, afinal vemos tantas pessoas diferentes! Então tem alguns anos que minha… condição começou a ficar mais… explícita. Eu desenvolvi quadril e seios. Eu fiquei com medo e vergonha, então eu fico escondendo. Há algo de errado comigo, Toulouse?

– Claro que não, “bodinho”! Talvez para a sociedade ocidental europeia cristã você seja diferente, mas vivemos em um mundo imenso. Acredite em mim, eu vi muitos outros e outras iguais a você. Para ser sincero, as culturas antigas consideravam o hermafrodita um ser divino, o verdadeiro ser humano original, então os diferentes, os estranhos, somos nós, portadores de um único sexo e gênero.

– Toulouse, só você mesmo consegue me fazer rir!

– Eu tenho certeza que todos vão concordar que o importante é que você seja feliz. Mas eu não sou o único com perguntas e curiosidades. Eu sei que você nunca bebeu, mas tome um gole de bourbon, pois Sibil e Dupont vão querer fazer perguntas que podem parecer intimidantes, mas somente enfrentando o medo é que você pode se superar.

– E… eu… eu consigo. Eu sei que Sibil e o senhor Dupont sentem algo por mim, eu devo ouvi-los e tentar resolver essas questões. Depois eu tomo o bourbon.

– Eu primeiro, afinal, eu tenho mais “tempo de casa” e sou praticamente sua irmã, certo, “bodinho”?

– Evidente que não. Falta-lhe a educação, a sensibilidade e a finesse em conversar sobre um assunto tão delicado com uma pessoa tão gentil quando o senhor Boudin.

– Hahaha! Vocês disputando o “bodinho” explica muito mais! Então, Osmar, com quem você quer falar primeiro?

– Sibil, desculpe, mas eu sinto que eu tenho que falar primeiro com o senhor Dupont, afinal, ele deve estar mais torturado e confuso sobre o que sente por mim do que você.

– Ah! Doce vitória!

– Humf! Não cante vitória, “batata frita”! A batalha está apenas começando!

– Nada disso! Primeiro vocês tem que me ouvir. Eu não sou prêmio nem troféu. Eu sou uma pessoa. Por isso, senhor Dupont, fale, como puder, com sinceridade, o que sente por mim.

– Senhor Boudin, eu peço que perdoe meus maus modos, se por acaso minhas palavras te ofenderem. Veja bem, senhor Boudin, eu nasci e cresci em uma família complicada, cheia de problemas causados por causa desse perigo chamado amor. Quando eu tinha idade suficiente, eu entrei em um seminário e tornei-me um clérigo secular, prometendo ao bispo e a Deus que eu jamais cairia em tentação. Por caminhos que eu percorri, eu cheguei ao posto de oficial de justiça e infelizmente pude conhecer ainda mais os desvios e pecados que a alma humana escondem. Eu devo dizer que foi um bálsamo quando o senhor me recebeu com incomum gentileza e animosidade. Então, senhor Boudin, ali no convés do navio, quando o senhor olhou fundo em meus olhos e segurou meu rosto com suas mãos, eu senti algo que eu jamais havia sentido antes, embora eu saiba teoricamente. Isso é bastante complicado, delicado e arriscado, senhor Boudin. Minha vida ficaria arruinada se alguém soubesse que eu estou apaixonado por outra pessoa, especialmente se for do mesmo gênero, ainda mais com sua idade. Sim, eu estou surpreso, chocado, confuso, mas acima disso tudo, o que há em meu coração, é amor, senhor Boudin, que Deus me perdoe, mas eu te amo.

– Senhor Dupont, eu disse antes e repito: nós somos todos uma grande família feliz. Eu jamais ficaria ofendido, eu fico no máximo chateado quando Toulouse e Sibil ficam usando meu apelido, mas eu sei que o fazem por carinho. Eu vejo tanta gente nas ruas e fico imaginando a história da vida de cada um, então eu suponho que somente nós sabemos o fardo que carregamos. Felizmente Deus é tão bom que nos faz encontrar pessoas boas, pessoas confiáveis, amigos, que nos ajudam a levar nosso destino. Eu te peço que tenha paciência, pois eu ainda preciso aceitar e processar tudo isso, mas por enquanto, aceite minha amizade e seja parte de nossa grande família feliz.

Dupont desatou a chorar, por felicidade. Enfim, tinha extravasado toda a tensão. Ele tinha se confessado para uma pessoa que ele considerava próxima de Deus e só isso importava. Sibil aproveitou e, deixando o decote mais evidente, foi falar com Osmar.

– Tudo isso é muito bonito, muito agradável, mas não se esqueça de que nós dormimos juntos completamente nus e tomamos banho diversas vezes. Você me conhece bem e eu te conheço muito bem. Eu ainda não sei bem o que fazer com esse seu… upgrade, mas nós podemos achar um jeito juntos, que tal?

– Sibil, você tem mais a aprender. Afinal, como você mesma diz, dormiu, tomou banho e nunca se deu conta de minha… condição. Eu sei muito bem que você tenta fugir e se esconder de seu passado, de seus traumas e frustrações fazendo essa personagem de mulher fácil e acabou acreditando nessa sua imagem distorcida a respeito do amor. Eu não estou te julgando, eu não estou te condenando, mas você precisa que eu te diga essas verdades porque, a despeito de tudo, você é minha irmã. Quando e se você for capaz de amar como Dupont ama, eu levarei a sério o que você me diz.

Sibil desmorona no chão, se encolhe toda e fica em posição fetal. Toulouse assistiu ao desempenho de Osmar na reunião e viu que seria o próximo.

– Toulouse… meu pai! Eu sinto um pouco de inveja de você, por saber quem é e o que quer. Eu te devo desculpas por não ter tido a coragem de falar com você sobre o que eu estava passando. Eu não sei a qual anjo ou gênio eu tenho que agradecer pelo acidente na loja, mas para minha sorte foi você quem me desvendou e me aceitou tal como eu sou. Eu sei que posso contra com sua sabedoria e orientação para me ajudar a entender. Eu sou menino e menina. Eu ainda não sei se gosto de menino ou menina. Eu sequer sei se eu estou pronto para amar. Aliás, eu peço a todos, que sejam pacientes. Com o tempo, com a vivência, com a experiência, eu poderei definir quem eu sou, como eu me sinto, como eu percebo o meu corpo, como eu definirei minha identidade, preferência e opção sexual.

– Puxa vida, “bodinho”… por uns instantes eu achei que também seria detonado! Garoto, eu sinto muito orgulho de você. Dupont vai concordar comigo que você tem mais coragem e capacidade do que nós, os “adultos”. Eu vou dormir tranquilo, pois eu sei que você vai tirar de letra essa audiência.

Osmar esboça um largo sorriso e vai contente para a cama, satisfeito consigo mesmo, por ter, enfim, enfrentado seus esqueletos, seus fantasmas. Toulouse ajuda Sibil a se erguer e a leva para a cama, mas desta vez para dormir sozinha. Quando ele retorna para a sala, Dupont estava enxugando o bourbon que ele tinha separado para Osmar.

– Eu devo dizer, Dupont… você me surpreendeu. Eu achei que você não conseguiria desabafar.

– Senhor Toulouse, eu admito que meus nervos estão em frangalhos, mas eu estou, enfim, livre. Ainda tem daquela tequila?

– Sim, vamos abrir uma e brindar a quem?

– Ao senhor Boudin. Por ter libertado a minha alma.

– Vivas ao “bodinho”!

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Cachorro de madame – V

Enquanto Dupont tratava com o recepcionista, Osmar e seus tutores exploravam o quarto de hotel. Não era um quarto de luxo, uma suíte presidencial, mas aquele quarto era consideravelmente melhor do que todo o cubículo onde moravam. Osmar ainda tentava processar tudo, do porto de Le Havre até o hotel Windsor, ele olhou a cidade com olhos maravilhados. Sibil tentava se conter para não levar os portadores de guardanapo em prata. Toulouse ficava indeciso de qual garrafa abrir e tomar tudo. Osmar tinha olhos para a decoração, ele nunca imaginou que u quarto poderia ser uma obra de arte.

– Ufa… tem gente que não cai bem para ocupar certas funções. Felizmente o gerente é mais civilizado. Muito bem, senhores e senhora. Café da manhã às oito horas, almoço ao meio-dia, jantar às sete da noite. Eu pedi um pequeno lanche para nós, para repor nossas energias, gastas pela viagem. Estamos há três quadras do centro comercial, onde poderemos fazer compras. Eu peço que os senhor e a senhora não abuse da boa vontade de nosso patrocinador.

– Ao invés de regular, “batata frita”, por que você não aproveita e compra algo?

– Ao contrário da senhora, “cigana”, eu tenho princípios.

– Ora, ora… começamos a nos dar nomes? Eu vou começar a ter ciúmes desse relacionamento amargo-doce de vocês. O que achou de tudo, “bodinho”?

– Toulouse! Você prometeu!

– O senhor Dupont vai ficar desapontado se não souber de sua alcunha, “bodinho”. Eu bem sei que vocês me chamam de “facilitador”, como se eu fosse um hougan haitiano.

– Eu gostaria muito de apreciar esse tipo de vulgaridade, mas nós teremos uma audiência e o costume pode ser fatal, a Justiça não tem espaço para frugalidades.

– Você ainda está muito tenso, “batata frita”. Tome, aqui tem uma excelente tequila.

Dupont não protesta, aceita a garrafa, abre e toma um gole. Seus olhos brilham com aprovação. Um funcionário do hotel bate na porta e traz o lanche. Sibil está com tanta fome que esquece a prataria. Osmar sai da varanda e acerca-se da mesa, absorto com o elegante aparelho de cerâmica e o generoso prato com pães diferentes. Algo que só se via em revistas. Ele morde um dos pães e se delicia com o sabor.

– Isso é um croissant. Seria impossível não comer croissant estando na França.

Dupont aponta e nomeia cada quitute do prato, sentado confortavelmente na poltrona, cobrindo as pernas com um lenço, beliscando um bolo e bebericando uma xícara. Um hábito um tanto inusitado, certamente uma mistura de sua criação britânica e francesa misturada. Mas o que incomoda Sibil é a forma como ele está sentado, meio de lado, com as pernas cruzadas, com olhos famintos na direção de Osmar. Debaixo daquela fachada de bons modos, Sibil sabe muito bem o que pensa Dupont.

– Mas que coisa! Osmar, nem parece que te demos educação! Vamos, mostre ao “batata frita” que nós sabemos ser gente educada como ele. Pegue um pratinho, seu lanche, sua xícara e venha cá sentar em meu colo, como bom menino.

– Eu faço isso, mas não vou sentar em seu colo. Eu não sou mais criança!

– Claro que não. Você é um homem. E homens sentam com homens, para falar coisas de homens. Sente aqui conosco.

– Toulouse, você vai deixar esse “batata frita” seduzir nosso “bodinho”?

– Mas por que sempre sou eu quem tem que resolver essa disputa entre vocês? Então, “bodinho”, você não é mais criança, então você que resolve essa briga. Isso é, se você estiver em condições de expressar sua identidade e preferência.

– Poxa, gente! Não estraguem o lanche! Nós não íamos passear e fazer compras? Quando eu tiver resolvido “isso”, vocês serão os primeiros a saber.

Toulouse ficou satisfeito com a postura de Osmar e tratou de apaziguar Sibil e Dupont. Depois de uma rodada de tequila, estavam todos amigados e prontos para as compras. Osmar estava entusiasmado e andava na frente, sendo seguido por Toulouse, enquanto Sibil e Dupont ficavam se esbarrando.

O centro comercial estava situado ao redor de uma grande praça arborizada, onde sobressaia uma enorme escultura da época do Império Romano. Tudo era muito novo, muito bonito e muito elegante para Osmar, que se maravilhava com cada detalhe. Tanta gente, de tantos lugares, de tantos tamanhos, tipos, cores, que Osmar sentia que existia espaço para ele.

Dupont somente parou de aborrecer Sibil quando chegaram na loja indicada pelo cartão dado pelo patrocinador. Uma loja de excelente gosto, nada muito extravagante, que pertencia a um conhecido dele, o que iria facilitar muito seu serviço. Assim que entrou, dispensou com desprezo a ajuda de uma atendente e bramiu em alto som pelo nome de seu amigo.

– Césane! Por Deus, homem! Como você coloca gente assim para atender a seus clientes preferenciais? Eu trouxe gente importante, venha nos atender!

– Ah, meu Deus! Javier! Há quanto tempo! Eu achei até que você estava com bronca de mim. Mas diga-me, quem são esses que estão com você?

– Não torça seu rosto, Césane. Vai acabar deformado. Eu sei que a aparência deles não condiz com sua loja, mas esse será seu desafio. Torne essas pessoas apresentáveis, tome este cartão e você entenderá tudo.

– Oh, oh, oh! Que alegria! Madame Montmart deu-me a honra em servi-la! Vamos, senhores e senhora, vamos operar um milagre hoje.

Dupont senta-se na recepção enquanto vê a trupe estropiada entrar no ateliê de Césane, tentando lembrar onde ouviu o nome Montmart antes. Bobagens, pensa ele. Ele não era um detetive. Dupont estava mais interessado em ver como Osmar ficaria depois de um banho de loja.

– Trés bien! Justine, cuide da… senhora. Monsieurs, sigam-me. Eu tenho ternos di-vi-nos para os senhores. Eu também tenho sapatos e gravatas, mas, primeiro, o essencial. A roupa de baixo é a primeira peça de um perfeito cavalheiro. Escolham à vontade.

Toulouse e Osmar nunca tinham visto tantas ceroulas juntas. Tantos modelos, tipos, cores, que deixava qualquer cabeça embaralhada. Enquanto isso, Césane trazia os ternos e os calçados. Toulouse foi experimentar uma cueca box e Osmar, ainda encabulado, ficou diante do espelho de prova, com duas peças íntimas masculinas, enquanto se observava no espelho. Osmar segurou o choro, pois havia aumentado ainda mais o volume em seu tórax e seu quadril. Se ele usasse essas roupas, eles veriam, eles saberiam e ele teria que se explicar, se justificar. Osmar estava confuso há alguns anos sobre o que tinha se tornado. Ele lembra do medo de estar doente e da vergonha em mostrar que seu quadril estava mais… curvilíneo e aquele carocinho que surgiu em seu tórax agora tinha o tamanho e a forma perfeita de um pêssego. Ele tinha desenvolvido seios e bunda, algo que ele via em meninas. Mas tinha algo mais, tinha “aquilo”, algo que ele nunca tinha visto em outra pessoa. Ele havia nascido com “aquilo”, ele tinha a parte tanto de um menino quanto de uma menina entre as pernas. Não! Não dá! Como falar “disto” para todos?

– E aí, garotão? Pronto para escolher seu terno?

Toulouse escorre a cortina do provador com Osmar na frente do espelho ainda segurando a camisa com as mãos. Osmar instintivamente aperta as mãos contra o corpo e cobre seus seios com a camisa, o que faz ressaltar ainda mais seu traseiro e sua perfeita silhueta feminina. Toulouse estapeia a testa e solta um assovio de surpresa. Césane desmaia enquanto Sibil e Dupont chegam atabalhoadamente, achando que Osmar corria perigo. Não dá. Acabou. Chorar não vai resolver coisa alguma. Agora eles sabem. Agora eles viram. Agora eles vão te mandar para o hospital ou algum circo. Acabou sua fantasia de ter uma família feliz.

– Então “esse” é o seu segredo, “bodinho”? Você devia ter me falado antes. Teria sofrido menos. “Isso” explica muita coisa, menos o motivo pelo qual você não confiou em mim. Eu até te daria razão, em relação à Sibil ou Dupont, mas eu, “bodinho”? Eu? Toulouse? O homem que circulou esse mundo mais vezes do que Phileas Fogg?

Osmar enxugou a lágrima que saia de seu olho, fungou e olhou para Toulouse, sempre com aquele semblante sereno, tranquilo e sábio. Ele também percebeu e olhou para Sibil e Dupont, evidentemente chocados, confusos, mas felizes, de uma certa maneira. Osmar sorriu de volta, deu um soquinho na cabeça e mostrou a língua, como uma criança faz quando é pega fazendo arte.

Cachorro de madame – IV

O sol está em seu terceiro quarto em direção ao oeste quando o Cruzeiro Manhattan soa sua sirene em um toque longo, sendo respondido por dois toques longos das sirenes do porto de Le Havre. Uma sinfonia de diversos sinos, buzinas e sirenes soam por diversos outros barcos que chegam ou partem. Toulouse respira aliviado. Estavam, enfim, chegando em terra firme. Toulouse sempre sentia calafrios quando viajava de navios por causa das histórias que seus avós contavam. Ele dá uma ultima olhada em Osmar, que fazia seu cochilo de fim de tarde, para esticar as pernas no convés. Dupont continuava enfurnado no dormitório dele, Sibil estava calada e amuada demais nos últimos dias. Desembarcar era mais do que necessário.

Toulouse passa pelo bar e pega uma garrafa de rum, afinal, ele também é filho de Deus e estava tudo pago. Uma bebida típica do Caribe, região onde aborígenes, espanhóis e negros criaram diversos países. Mas para os europeus, era a “bebida dos piratas”. A origem de uma bebida devia ser irrelevante diante de sua qualidade, assim como deviam ser com as pessoas.

– Henry, precisamos conversar…

– Ora, veja quem saiu da toca… quando você me chama de Henry é porque o assunto é sério.

– Eu demorei para tomar coragem… não ria! Tem alguns dias que eu fico martelando isso na cabeça. Depois que o “batata frita” pirou e saiu correndo com as mãos como se segurasse algo, eu fui conversar com Osmar.

– Ver você falando como uma dona de casa suburbana está me assustando. Aconteceu algo com o Osmar?

– Não… não. Osmar está bem. Mas eu acho que eu tenho o mesmo “problema” que Dupont. E o que Osmar me falou naquela ocasião apenas me deixou mais perturbada.

– Eu estou cético quanto a isso. O que Osmar disse que te perturbou?

– Ele perguntou de forma bem honesta e sincera: “o que tem em mim que faz com que tanto você quanto o senhor Dupont sintam desejo por mim, se eu não tenho a menor ideia do que é meu corpo, do que ou de quem eu sou, de como eu sinto “isto” que eu sou ou me tornei?”. Você sabe o que isso significa?

– Não. Mas parece que tem algo a ver com o comportamento estranho que ele tem demonstrado nos três últimos anos, lembra? Por algum motivo, ele ficou mais reservado, mais introvertido, mais sensível, sobretudo em relação ao corpo dele. Talvez o nosso “bodinho” tenha atingido a maturidade e desenvolveu algum tipo de vergonha ou insegurança com essa mudança, como todos nós passamos um dia.

– Será que ele ouviu algum desses pregadores do evangelho? Toda vez que eu ouço um, eu tenho vontade de cortar a garganta dele com minha navalha.

– Há essa possibilidade, mas de qualquer forma Osmar cresceu e foi educado por nós. Ele teria conversado e discutido conosco se ele tivesse ouvido essas arengas ridículas. Deve ser coisa dele mesmo e somente ele pode decidir se quer ou não falar sobre “aquilo” conosco.

– Senhor e senhora, eu lhes rogo que deixem o senhor Boudin exatamente como ele é: puro, imaculado e belo.

– Ora, ora… mais um ermitão que mostra a cara. Tome, Dupont, uma boa dose de rum. Você está precisando mais do que eu.

Dupont pega a garrafa das mãos de Toulouse e começa a enxugar a garrafa de rum em goles generosos enquanto Sibil o olha com raiva e ciúmes.

– Escuta aqui, seu… seu… batata frita pervertido! Não ouse por as mãos no meu “bodinho”, ouviu? Eu vou ser a primeira e única que vai tocar nele.

– Pardon mademoiselle… mas apenas o senhor Boudin é quem pode fazer tal opção.

– Seu… seu… tarado! Pervertido! Ele é apenas uma criança!

– Oh, Mon Dieu… senhora, eu pensei o mesmo quando eu vi que tipo de vida a senhora e o senhor Toulouse levam e eu fiquei espantado e aliviado ao perceber que o senhor Boudin manteve sua virtude. Mas se vamos falar em diferença de idade, a senhora é velha demais para ser a… irmã do senhor Boudin, como ele gentilmente a define. Então cá estamos nós dois e nenhum de nós é um criminoso, porque não há crime no amor.

– N… não tente desviar de assunto! Isso é abuso de menor! Pedofilia!

– Sacre Coeur… a meretriz querendo dar lições de moral a um clérigo secular. Cet ettonant! Senhor Toulouse, por favor, me perdoe a indiscrição, mas o senhor é tão britânico quanto eu sou gaulês. O senhor parece ser um homem mais inteligente e cosmopolita. Diga-nos, o senhor acredita que qualquer pessoa, por sua idade, seja completamente inocente ou ingênua quanto à seu sexo ou sexualidade?

– Touche, como diz na sua terra, Dupont. O senhor acertou nas duas afirmações. Eu vim do Senegal, África, o suficiente para despertar estranhas reações e fantasias dos brancos europeus cristãos. Culturas em diversos países e épocas tinham e ainda tem rituais de passagem que celebram a maturidade de uma pessoa e isso depende mais do desenvolvimento de cada indivíduo do que de alguma idade fixada aleatoriamente por convenções sociais. O problema, senhor Dupont, é que sua gente se distanciou tanto de suas origens e raízes culturais ao ponto de rejeitarem o fato que todo ser vivo nasce com uma sexualidade, então vão sempre presumir que um tipo de relacionamento é proibido, imoral ou abusivo.

– Isto é uma verdade, eu detesto admitir, mas é verdade. Existem imposições, pela Sociedade, pelo Estado, pela Igreja. Meus avós me contaram como tiveram que fugir para poder viverem juntos e criar uma família, apenas por serem de países diferentes. Um tio meu foi preso e enviado para a Legião Estrangeira simplesmente porque se casou com uma afrodescendente. Meu irmão foi deserdado porque assumiu sua união com outro homem. Essas histórias são muito tristes, então eu prometi a mim mesmo que não cairia em tal tentação, mais eis-me aqui, sem saber o que eu faço com o que eu sinto em relação ao senhor Boudin.

– Ânimo, senhor Dupont! Admitir o sentimento é o primeiro passo e o senhor não está sozinho nesse dilema. Toda a raiva de Sibil é simplesmente ciúmes de nosso “bodinho”. Eu fico feliz por vocês dois, mas vocês dois tem que lembrar que cabe ao nosso “bodinho” decidir como, quando e com quem ele vai querer amar, como bem disse o senhor Dupont.

– Ah… vocês estão aí? Que horas são? Por que toda essa gritaria? Nós chegamos?

Osmar desponta no convés, todo descabelado, esfregando os olhos para tirar o resto do sono, com o pijama todo amassado. Tanto Sibil quanto Dupont ficam com olhos esbugalhados e babando pelo canto da boca. Toulouse começa a rir, a gargalhar, enquanto o pobre Osmar tenta entender o que estava acontecendo.

– Este foi realmente um dia faustoso! Veja, Osmar, Le Havre. Chegamos na França. Em breve desembarcaremos e assim que tivermos nos estabelecido em algum hotel, nós todos vamos fazer algumas compras, que tal?

– Mesmo, Toulouse? Nós vamos? Todos nós? Inclusive o senhor Dupont?

– Oh, sim, bo… Osmar, todos nós, como uma grande e feliz família!

– Oba! Hoje é o dia mais feliz de minha vida!

Cachorro de madame – III

Osmar fitava o oceano de dentro do Cruzeiro Manhattan, saindo do porto de Liverpool em direção ao porto de Le Havre, França. Ele nunca tinha visto tanta água assim antes e se perguntava, com justiça, se não seria mais certo chamar nosso planeta de Água, ao invés de Terra. O oficial de justiça estava entretido com os seus tutores, um preâmbulo necessário antes da apresentação de Osmar ao testamenteiro.

– Senhor e senhora, eu peço que perdoem meu péssimo inglês ou se meus modos não são muito britânicos, mas o ofício assim me exige que eu os prepare para a audiência. Para ser bem direto, eu devo lhes pedir que mostrem os papéis do menino, sobretudo o que lhes concede a guarda dele.

– Senhor Dupont, veja a nossa situação. O senhor acredita que pessoas como nós tem algum acesso a um serviço público ou condições para arcar com tal custeio? Oh, não, senhor Dupont, nós somos parte de uma população que a sociedade simplesmente ignora ou desconhece a existência. Osmar nos foi entregue em mãos como se fosse um saco de batatas. Não nos perguntaram nossos nomes, se tínhamos condições, então não questionamos de quem recebíamos e por que. Se serve, nós temos a certidão de nascimento de Osmar do Orfanato Dominicano.

Visivelmente irritado e contrariado, Javier Dupont apanha o papel amarelado das mãos de Toulouse. Bretões! Se acham tão superiores, organizados, civilizados! A certidão era imprestável. Cheia de erros, rabiscos, rasuras, selos de procedência duvidosa, dados vagos e incompletos. Os executantes do espólio o tinham avisado de que ele teria dificuldades. Dupont solta um impropério que faria um marinheiro francês corar de vergonha, suspira e tenta aliviar o estresse pressionando o travessão entre os olhos e o nariz. Recompõe-se, alinha seu cabelo com um pente fino e gel para, então, seguir o roteiro.

– Muito bem, senhor e senhora. Eu ficarei com esse documento. Assim que chegarmos em Le Havre, eu levarei o senhor Boudin a um conhecido meu para fazer um teste de DNA. Nesse interim, eu lhes rogo que compre alguma roupa mais apresentável ao senhor Boudin.

– Ô da batata frita! Nós não temos dinheiro! Quer que eu traduza para o francês?

Dupont olha com uma expressão de desprezo para Sibil. Por pensamento, agradece ao seu pároco por tê-lo livrado dessa influência nefasta. Agradece a Deus por ter feito seus votos como clérigo secular.

– Dinheiro não será necessário, senhora. Basta que vão a esta loja de roupas com esse coupon e dar as medidas do senhor Boudin. Tudo está pago.

– Tudo hem? Bom, nós, como tutores e responsáveis do senhor Boudin, também precisamos de roupas mais apresentáveis. O gentil patrocinador não irá se incomodar com isso certo?

Dupont solta outro impropério que mesmo um marinheiro holandês não conhece. Acena com a mão, como que os liberando para fazer compras. Apanha um cheret da bandeja de algum garçon e vai falar com Osmar, torcendo para que ele tenha mais sensibilidade.

– Pardon… eh… perdão, senhor Boudin, por interromper sua admiração pelo oceano, mas eu devo solicitar ao senhor alguns minutos de sua atenção.

– Claro, senhor Dupont! Fique à vontade!

Dupont relaxa de uma forma incrível. Como seria bom se fosse sempre assim! Não importa o ofício ou assunto que portava, as pessoas jamais o recebiam com tamanha gentileza. Bastava dizer “oficial de justiça” que os rostos se contorciam. Na escola ele aprendeu que antes os cobradores eram considerados malditos. Por isso que os Judeus somente conseguiam empregos como cobradores, cambistas e banqueiros. Uma curiosa ironia, uma vez que o mundo era movido pelo capital tão pecaminoso.

– O senhor é muito gentil, senhor Boudin. Custa-me crer que seja tão educado, tendo tido os tutores que tem. Isso pode ser uma benção e uma perdição, senhor Boudin. Nós vivemos em um mundo onde existe apenas maldade e concupiscência. Eu temo que o senhor perca sua alma se for à audiência, então permita-me prepara-lo para enfrentar a sordidez humana.

– Desculpe, senhor Dupont, mas eu tenho que discordar. Nós vivemos em um mundo onde existe apenas a benevolência divina. Existem pessoas ruins e graças a Deus são poucas, senão o senhor não teria descanso, os tribunais estariam abarrotados e não haveria prisões o suficiente para tantos criminosos. Os que são ruins são punidos pelos seus próprios atos. Aos que podem e possuem entendimento, usufruem da beatitude que é a vida. Isto é gratuito e aberto a qualquer um, mesmo aos que são ruis. A mudança depende de cada um e esse é um compromisso pessoal, não vem de livros, de padres, de igrejas, mas vem dessa parte de Deus que está em nós.

Dupont queda boquiaberto. Um garoto que mal atingiu a puberdade sabe mais de Deus e de virtude do que qualquer padre, pastor ou sacerdote. Absorto em entusiasmo, Dupont lembra como ele orgulhosamente debatia teologia na escola e sempre vencia. Mas então porque ele não conseguia retrucar? Porque ele apenas sente um calor confortável e aconchegante simplesmente por estar admirando este rosto angelical?

– Deveras, senhor Boudin. Mais uma vez o senhor me surpreende. Evidente que seus tutores não te ensinaram coisas tão profundas. Eles provavelmente se aproveitariam de sua pureza para algum ritual pagão obsceno. Se o senhor me permitir, eu tratarei de indicar tutores melhores para cuidar do senhor, assim que acabar a audiência. Eu irei cuidar do processo pessoalmente na vara da família.

– Oh, não, senhor Dupont! Não me tire de meu padrasto e de minha irmã! O senhor Toulouse é um homem bom, verá se o conhecer melhor! A senhora Sibil é uma mulher honrada, basta que lhe dê uma chance! Eles não são perfeitos, mas ninguém é, senhor Dupont! Como podemos exigir que as pessoas nos aceitem e nos perdoem, se não aceitamos e perdoamos as pessoas?

Dupont sente as mãos de Osmar segurando gentilmente seu rosto. Uma pele suave, com cheiro de rosas, como a Mãe de Deus. Os olhos de um azul profundo como imitação do Paraíso, emoldurado por longos cabelos dourados como o sol. Dupont sente um calor diferente, quente, fervendo, ebulindo dentro dele. Cada fibra de músculo está tensa como a corda de uma cítara, cada centímetro de sua pele empola. Dupont jamais sentiu algo assim, por ninguém, ele acreditava estar livre de tais tentações, mas ele sabia, pelo menos teoricamente, o que ele estava sentindo e sabia que era um pecado terrível. Dupont levanta e sai correndo, sem direção exata, tentando esconder que ele estava sentindo atração sexual por Osmar. Isso não era bom e a viagem seria longa. Dupont tranca-se em seu dormitório e fica debaixo de um chuveiro gelado até conseguir se controlar. Dali só sairia quando chegassem em Le Havre.

Novamente sozinho, Osmar tenta entender o que aconteceu, se ele fez algo errado ou se disse algo errado. Osmar não tinha muita certeza do que ou quem era, não sabia como lidar com o que era ou tinha se tornado, mas não tinha dificuldade alguma em entender e saber quando uma pessoa despertava um interesse em outra. Ele até não via qualquer vantagem em tal interação humana, mas também não via qualquer problema nisso. Não era algo muito complicado, na verdade parecia bem normal, natural e saudável que uma pessoa pudesse expressar seu desejo por outra, embora não conseguisse entender o motivo ou ganho que se obtinha em consumar tal ato.

– O que foi, Osmar? O “batata frita” ficou vidrado na sua, mas não teve coragem em admitir, como sempre costuma acontecer?

– Sibil, você que sabe dessas coisas, seja bem sincera comigo. O que tem em mim que faz com que tanto você quanto o senhor Dupont sintam desejo por mim, se eu não tenho a menor ideia do que é meu corpo, do que ou de quem eu sou, de como eu sinto “isto” que eu sou ou me tornei?

Sibil sente as pernas tremerem, como se fosse uma garotinha diante de sua primeira paixão. Apesar de sua milhagem, Sibil não consegue encarar Osmar. Ele é talvez a única pessoa que mexe com ela desse jeito. Acostumada a entender o amor e o sexo como algo ruim, errado, pecaminoso, violento e indiferente, ela não consegue definir o que sente por Osmar. A despeito de todas as vezes em que ela dizia, descaradamente, que queria tirar o “selinho” dele, ela sabia que, no fundo, era apenas da boca para fora. Osmar ficou espantado quando viu que Sibil enrubescia.

– I… isso não é coisa que se pergunte a uma dama, Osmar. Vamos, o jantar deve estar sendo servido e está tudo pago. Eu preciso de uma taça de champanhe. Afinal, nós vamos para a França.

Cachorro de madame – II

– Sabe, senhor Toulouse, meu marido vive dizendo que meus salgadinhos são incomestíveis. Mas seu filho devorou todos! A senhora Sibil deve ter orgulho dele. Eu nunca vi um rapazinho tão educado assim! Você devia ser assim, Mortimer ! Sabe, ele se acha grande coisa só porque foi promovido. Eu tento, Cristo, fazer com que ele tenha uma vida mais cristã e que Deus tenha misericórdia de sua alma. Nós devemos ajudar os mais necessitados, assim nos diz o diácono da Igreja de Whitechurch. Ah, perdão, eu fiquei falando esse tempo todo. Onde estão meus modos? Conte-me, senhor Toulouse, o que o fez pedir carona na estrada em direção à Liverpool?

– Ah, senhora Christie, você sabe, nós fazemos de tudo por nossos filhos. Meu pequeno bo… meu filho Osmar recebeu um telegrama que exige a presença dele no continente, entre os Gauleses. Imagine só! Nós, Bretões e orgulhosos, entre Gauleses.

– Por Santa Maria! França! Se tivessem permanecido parte da Normandia, da Bélgica ou mesmo da Germânia, seriam mais civilizados. Dizem que não tomam banho e isso é o que se pode dizer de mais agradável da França. Eles são muito… liberais, não apenas nos costumes sociais, mas nas coisas de Deus, vê se pode!

– Ah, senhora Christie, são os tempos modernos! Eu me preocupo com meu pequeno Osmar crescendo em um mundo assim. Mas assim que nós estivermos bem estabelecidos, procuraremos uma boa escola católica para ele.

– Oh, sim, isso é bom… embora meu Mortimer seja Anglicano e eu mesma seja Protestante, uma educação cristã vem bem a calhar em um tempo que é o Advento do Apocalipse. Sabe, vocês tiveram muita sorte em nos encontrar. Pedir carona na estrada é muito arriscado, mesmo a uma família temente a Deus. Ah, meu Deus, as coisas que vimos e ouvimos…

– Eu oro a Deus, senhora Christie. Apenas Deus pode tocar o coração dos homens e muda-los. Eu sei que em outras circunstâncias, eu provavelmente seria preso, apenas pela cor de minha pele. Minha pobre Sibil poderia ser extraditada, simplesmente por que seus avós vieram da Romênia. Meu filhinho ficaria em algum orfanato, nas mãos, não se sabe de qual pervertido…

– Oh, senhor Toulouse, não falemos de coisas desagradáveis. Falemos de coisas agradáveis. Como o que ou quem os aguarda entre os Gauleses.

– Nossos… hã… conselheiros disseram que um parente distante solicita sua presença com urgência em Lacroix. Assunto de família, um oficial da justiça nos aguarda. Algo sobre um testamento, herança ou espólio.

– Oh… puxa! Meus sentimentos. Alguém próximo deve ter falecido. Que indelicadeza a minha. Mas dizem que Deus opera por meios misteriosos. Eu irei orar pelo finado ou finada, para que volte aos braços de Cristo, mas isso não depende de mim. Eu irei orar pelo senhor e sua família, senhor Toulouse, para que achem o que procuram e fiquem bem.

– Muito agradecido, senhora Christie. Encontrar pessoas como a senhora renovam minhas esperanças na espécie humana.

– Oh, deixe de formalidade… apenas Agatha.

– O prazer é todo meu, Agatha. Pode me chamar de Henry. Mais uma vez, nossa eterna gratidão por nos trazer até próximo de Liverpool. Agora Deus nos proverá outra alma caridosa para que possamos prosseguir nossa viagem.

– O prazer foi todo nosso, não é, Mortimer? [grunhidos] Por Deus, Mortimer! Eu agradeço também à senhora Sibil por essas maravilhosas receitas de biscoitos e bolos. Eu espero que Deus nos permita reencontrar, assim nós poderemos agradecer juntos a Ele por esse encontro abençoado.

Toulouse acena, enquanto Agatha se afasta e Mortimer parecia bastante aliviado conforme a distância aumentava. Osmar não tinha ideia de como era imenso o mundo fora de Kenstone, nem de que havia campo, fazendas, animais, plantação. Sibil era a única que parecia não ter curtindo muito o passeio.

– Então, podemos parar com essa palhaçada?

– Sibil, minha Sibil… quantas vezes eu tenho que dizer? A melhor forma de nós sobrevivermos é preenchendo as expectativas das pessoas comuns. O que você acha que aconteceria se eles soubessem que eu sou de Senegal? O que você acha que aconteceria se soubessem quem são nossos conselheiros? Eu não sei se isso seria mais ou menos escandaloso do que falar que Osmar não é nosso filho.

– Não me importa! Meus avós chegaram aqui da Romênia sem ter que mentir. Você chegou aqui sem ter que mentir. Até parece que temos vergonha do que somos, de quem somos…

– Oquei, oquei… você está certa. Vamos fazer do seu jeito agora está bem?

– Então afastem-se. Eu vou conseguir uma carona em cinco segundos.

Sibil fica bem próximo da rodovia e expõe uma de suas coxas. Instantaneamente três caminhoneiros brecam bruscamente, fazendo os pneus chiarem. Sibil escolhe um sortudo e aponta para seus “parceiros” de carona. Para o caminhoneiro, isso pouco importa, desde que ela “pague” a tarifa da viagem. Toulouse gentilmente se oferece para dirigir o caminhão enquanto Sibil trata de entregar o “serviço”.

Osmar fica sentado ao lado de Toulouse enquanto ouve os gemidos e sussurros abafados na boleia que fica atrás do banco da frente. Nada que Osmar não tenha cansado de ver no cortiço, nada que ele não tenha visto Sibil fazer diversas vezes, isso não o incomodava nem o ofendia, mas às vezes se pegava pensando qual a graça em algo tão sem sentido, pois parecia obvio que nenhum dos dois lados ganhava. Quinze minutos depois, Sibil vinha para frente e sentava ao lado dos dois, como se coisa alguma tivesse acontecido.

– Meus amigos, bem vindos a Liverpool. A cidade de John Lennon e dos Beatles.

– Pelos Deuses, Toulouse, não vamos começar com essa sessão de museu de novo, por favor.

– Vê como são as mulheres, Osmar? Ela diz “museu” eu digo “cultura”. Mas você é novo, quem sabe sua geração consiga entender melhor as mulheres.

Osmar sorri, sem graça, sorriso amarelo. Osmar não entende sequer a si mesmo, como entenderia uma mulher, ou um homem? Osmar não gosta de pensar em si mesmo, na sua condição, “naquilo” que ele era ou se tornara. Ele sentia inveja de Toulouse, por saber o que ele é, o que ele quer fazer. Ele sentia inveja de Sibil, por sua tranquilidade quanto ao seu corpo, sua sensualidade e sexualidade. Aos poucos, Osmar vai se encolhendo no banco, abraçando suas pernas, baixando o rosto em direção aos joelhos.

– O que é que deu nele?

– Eu não sei. Meus espíritos disseram que cabe a ele falar. Eu só sei que isso começou há uns três anos atrás. Ele começou a me evitar. Parou de dormir comigo. Parou de tomar banho comigo. Fica todo sensível quando eu brinco com ele sobre eu ser quem vai tirar o “selinho” dele. Eu apenas espero que “isso” não dure muito.

– Ânimo, Sibil. Algo me diz que esta jornada vai ser uma revelação a todos nós.

– Assim espero.

Osmar recupera um pouco do ânimo assim que Toulouse parou no porto de Liverpool. A agitação, tanta gente, tantas vozes, tantas línguas diferentes, tantas cores, pareciam mostrar para Osmar que aquele era um mundo onde tudo era possível, todos tinham seu lugar, até ele.

– Ahem… senhor… Boudin, eu presumo?

Osmar volta-se e vê o oficial de justiça, paramentado com roupas típicas de um londrino, mas com um indisfarçável sotaque francês. Sim, Osmar, tudo é possível.

– Sim, senhor. Osmar Boudin e companhia, a seu dispor.

Cachorro de madame – I

O carteiro chega em um cortiço com um telegrama destinado a um garoto chamado Osmar. Os habitantes grunhem algo e vão apontando para uma direção até o carteiro chegar a um campinho de futebol improvisado. Vinte garotos correm atrás de uma bola enquanto outros cem assistem ou aguardam sua vez de jogar.

– Senhor Boudin? Por favor, eu procuro pelo senhor Boudin. Eu tenho um telegrama para ele.

– Hei, “bodinho”, seu namorado veio te trazer uma carta.

– Não me chame de “bodinho”, Hans! E ele não é meu namorado!

– Há! Mas bem que você queria né?

O jogo para enquanto os garotos começam a implicar com um garoto pequeno, magro, fraco, tímido e introvertido. Suas roupas não são diferentes dos demais garotos, moda de periferia, mas os traços e aspectos físicos de Osmar Boudin destoam por inteiro daquela turba. Uma pele rosada que parecia brilhar, mesmo com o pouco sol de inverno em Kenstone. Longos e louros cabelos o deixavam ainda mais parecido com uma garota e isso é imperdoável em um meio social tão cheio de pobreza, ignorância e preconceito.

– Eu sou Boudin, senhor carteiro. Desculpe pelos maus modos dos meus amigos.

– Tudo bem, eu nasci em um lugar parecido. Por favor, senhor Boudin, assine o recibo para receber o telegrama.

Osmar assina o recibo e recebe o pequeno envelope azul típico de um telegrama nessa região ao noroeste da Inglaterra. Parecia ser sério. Estava escrito em francês. Osmar precisaria da ajuda de Toulouse. Abandonou o campinho e deixou a garotada zoando no vazio. O melhor remédio contra o assédio moral, o que agora ficou na moda chamar de bullying, é ignorar os ignorantes.

Osmar caminha pelas estreitas vielas do cortiço, algo que gente de fora não ousaria tentar. Depois do mercadinho, depois do sapateiro, ele bate na porta da vidente.

– Sibil? Sou eu, Osmar. Eu preciso ver Toulouse.

– Garoto, quantas vezes eu tenho que pedir para você não vir interromper meu serviço? Bom, não tem problema, passaram os vinte minutos. Volte outro dia, senhor. Quando seu “troço” resolver funcionar.

Quando não tinha gente pedindo para ler cartas, mãos ou falar com algum finado, Sibil prestava outro tipo de serviço para homens anônimos. O coitado sai capengando, ainda terminando de colocar as calças, suado, vermelho, camisa pendurada no braço e os sapatos pendurados em uma mão.

– Pode entrar, Osmar. Toulouse está na laje.

Osmar conhece bem a casa de Sibil. Ele conhece bem a decoração extravagante e o cheiro indistinto misturando incenso e sêmen. Quando Osmar chegou do orfanato no cortiço, Sibil foi como uma irmã para ele. Isso faria de Toulouse seu tutor ou seu padrasto? Como era de praxe, Sibil alisou seu traseiro por trás.

– Quantos anos você tem mesmo, Osmar? Olha, quando você quiser é só pedir. Para você, eu faço de graça.

Osmar sorri de volta e segue subindo pela escadaria precária em direção à laje. Sibil sempre foi assim com ele. Osmar cresceu acostumado com a sensualidade transbordante de Sibil. Dormiram juntos diversas noites completamente nus. Tomaram banho juntos incontáveis vezes. Mas Sibil tinha que conviver e aceitar que ela era a “irmã”. Muito embora isso não significasse muita coisa na periferia.

– Ora, se não é meu “bodinho”! Chega mais, garoto. O porco gordo foi embora com a linguiça murcha mais uma vez. Um dia desses nós dois precisamos “dar um trato” na Sibil.

Toulouse estava na beira da laje, sentado com as pernas trançadas, por sobre um tapete, vestindo uma calça jeans e camiseta, olhando para o cenário como se estivesse em meditação profunda. Osmar estendeu o envelope azul e ficou com um olhar perdido.

– Ah! Meu “bodinho” recebeu um telegrama! Viu só, garoto? Eu te disse que você é importante. Vejamos o que tem aqui.

Toulouse pega o telegrama e se levanta. Sua figura alta e esguia de cor de ébano impressiona qualquer um. Toulouse começa a balbuciar algumas palavras em francês, como se ditasse o telegrama para alguém invisível. Conforme fala a frase, completa com a tradução em inglês e depois tenta dar sentido ao telegrama.

– Telegrama de Lacroix. Para Osmar Boudin. Urgente. Herança de parente distante. Presença obrigatória. Tio Magritte. Isso faz algum sentido, “bodinho”?

– Por favor, Toulouse, não me chame de “bodinho”. Isso é coisa que criança diz.

– Ah, mas eu digo “bodinho” com todo meu respeito. Você sabe a fama que o bode tem? Devia saber. Mas e esse tal de “tio Magritte”?

– Eu não tenho a menor ideia. Eu passei minha infância em um orfanato, nada sei de familiares ou parentes.

– Nesse caso, vamos descer e usar dos serviços de Sibil, embora não os que ela nos quer prestar, não é, meu “bodinho”? Ela conta os dias para que você tenha maturidade suficiente para que ela possa te levar para a cama e te iniciar em sua vida sexual.

– Pare com isso, Toulouse! Isso… é imoral… é indecente… eu e Sibil… nós somos uma família!

– Ah, garoto, garoto… eu queria ter tido a família que você tem. Uma família sexualmente saudável, onde os mais jovens aprendem com os mais velhos. Mas por sua cara, isso vai demorar. Vamos, lá em baixo descobrimos tudo.

Sibil estava cuidando das unhas no sofá, ainda bem à vontade, portando nada mais do que uma lingerie. Ela encarou seus homens sabendo que quando os dois descem juntos da laje, é porque tem algo errado. Ela viu Toulouse com o envelope azul em mãos e a expressão carregada de Osmar. Sibil pigarreou, colocou um roupão, limpou sua mesa de consultas e arrumou seu carteado. Não era preciso ser vidente para saber que aquele envelope continha um telegrama com alguma notícia séria.

– Muito bem, senhores, sentem-se. Se os senhores não desejam fazer uso da minha carne, façam uso da minha mente.

– Faça um bom serviço. Eu sinto que nosso “bodinho” vai ter uma jornada que vai amadurecê-lo, então você vai poder servi-lo como você quer.

– Silêncio, por favor. Eu tenho que me concentrar. Deixe-me segurar o telegrama e vamos ouvir o que os espíritos têm a dizer.

Toulouse é um homem sábio e sério, mas quando se trata de mulher, ele não é muito diferente dos garotos que Osmar conhece. Sibil e Toulouse são os únicos com quem Osmar se sente à vontade, mesmo quando começa a besteirada e a sacanagem. Talvez algum dia Osmar confie neles o suficiente para expressar como ele se sente, a respeito de seu corpo, de sua identidade, personalidade, opção e preferência sexual.

A mulher brasileira e o feminismo

Eu peço desculpas às minhas leitoras, afinal, eu, como homem, cissexual, heterossexual, branco e pagão, pouco ou nada sabe do que é ser mulher e, embora tenha simpatia pelo feminismo, minha visão sobre o feminismo é tão relevante quanto a de um escravagista sobre o racismo.

Mas chamou-me a atenção o texto do “dito filósofo” sobre se a mulher brasileira odiar o feminismo. Com tanto estudo e conhecimento que o “dito filósofo” alega possuir, aparentemente ele faltou nas aulas de sociologia. Eu indicaria para ele também algumas leituras de historia, psicologia e antropologia, mas eu estaria desperdiçando meu tempo.

Então com o intuito de tentar esclarecer ao leitor, homem comum, quanto a esta questão, eu peço licença às minhas leitoras para fazê-lo, usando trechos do texto do “dito filósofo” como base para esta digressão.

Segundo o “dito filósofo”:

“Qualquer postagem ou vídeo contra o feminismo faz sucesso na Internet, principalmente entre as mulheres. A maioria das mulheres brasileiras odeia o feminismo ou no mínimo não quer de modo algum se identificar com as feministas.”

Eu fico imaginando como ele chegou a essa conclusão. A afirmação é vaga, afinal, de quais mulheres ele está falando? Qual perfil? Qual idade? Qual nível socioeconômico? Qual escolaridade? Eu duvido que ele ou a equipe dele tenha feito uma análise de audiência. Há uma razão para que uma mulher expresse seu apoio a vídeos contra o feminismo, uma análise simples para a antropologia, a psicologia e a sociologia, tal como eu descreverei conforme a sequência.

Segundo o “dito filósofo”:

“Em geral, a ideia da mulher brasileira sobre as feministas é a seguinte: são mulheres que querem impor como devemos ser, e em geral são mal amadas, ou feias ou masculinizadas; no fundo não querem sexo, não querem ter um homem. A mulher brasileira quer ter um homem, é sexualizada, e odeia que mulheres não sexualizadas venham lhe castrar. O feminismo lhes é sempre algo autoritário, não raro moralista.”

Novamente, ele não cita de onde tirou essa informação ou como chegou a essa conclusão e, diga-se de passagem, a mulher não o fez de porta-voz ou advogado de suas opiniões, mas isso é fácil de entender utilizando a sociologia.

Tanto o homem quanto a mulher nasceram, cresceram e foram criados dentro de uma cultura, sociedade e sistema, elementos que possuem mecanismos que garantem sua manutenção e [re]produção. Então o conceito, papel e imagem que esta conjuntura incute na mulher foi concebida por um pequeno grupo [elite], dominantemente formada por homens, conservadores, católicos [senão cristãos de alguma vertente], o que caracteriza nossa sociedade atual como patriarcal, sexista, machista e preconceituosa. Basta ver a diferentes maneiras como são educados os meninos e as meninas, as maneiras diferentes dos comportamentos que são impostos e cobrados dos meninos e meninas. Em verdade, o “dito filósofo” joga na “opinião da mulher” seus próprios preconceitos sobre a mulher e o feminismo.

Cabe então a pergunta do porque o “dito filósofo” [ou a mulher] acredita nesses conceitos e definições sobre o que é o feminismo ou o que é uma feminista. Lembre-se de que estamos em uma sociedade onde o que está em voga é a supremacia masculina. Desde que nasce, a mulher é exposta constantemente [na família, na escola, no trabalho, na sociedade] a uma educação, mensagem e coerção comportamental que a tolhe de seu empoderamento. Este tipo de efeito não é exclusivo da mulher, a história mostra diversos grupos de minorias que, diante de um regime opressor, por sobrevivência, assimilam e endossam as condições de sua realidade social.

Segundo o “dito filósofo”:

“A mulher brasileira é uma das mais vaidosas do mundo. Ninguém gasta tanto em salões de beleza que a mulher brasileira. Sai maquiada para trabalhar, quer andar bem vestida e na moda. A mulher brasileira adora chamar a atenção. Quer comandar o seu homem, mas isso sendo mulher, mostrando seu poder como força de submissão na cama. O feminismo quer lhe mostrar um mundo de opressão que ela conhece, mas que ela não quer fazer nada contra se, para ser contra, for necessário assumir o comportamento mulher-macho ou mulher-assexuada que o feminismo, em graus variados, faz questão de impor, mesmo quando diz que não quer impor.

As feministas insistem em não perceber isso. Não raro são ranzinzas, não possuem humor algum e, por isso mesmo, acabam por confirmar o que todas as outras mulheres falam delas: ‘não gozam, por isso possuem raiva dos homens e da objetificação necessária ao sexo’.”

Para quem diz ser filósofo, deixar passar essas contradições de que “a força da mulher é sua submissão” e de que “a objetificação é necessária ao sexo” são grosseiras e um ato falho de sua misoginia patente. Vamos lembrar o básico: feminismo é um movimento político que visa a igualdade legal entre homens e mulheres. Aproveito para desfazer uma confusão que tem ficado muito comum ultimamente: o sufixo “ismo” não é usado apenas para relacionar apenas uma enfermidade, mas também para definir um fenômeno linguístico, sistema político, religião, esporte ou ideologia.

Então é muita desonestidade e má-fé afirmar ou alegar que o feminismo ou as feministas tenham, como padrão, tais preceitos, características e definições. Existem diversas formas e vertentes de feminismo, como existem diversos tipos e posturas de feministas. Mas o “dito filósofo” coloca convenientemente na “opinião da mulher” de que o feminismo está dominado pelo “moralismo e esquerdismo baratos e incultos”. O “dito filósofo” confunde ações positivas para diminuir o sexismo [que fomenta a objetificação da mulher e a cultura do estupro] com moralismo.

Segundo o “dito filósofo”:

“Hoje o preconceito contra o feminismo virou conceito, e tem lá sua razão. É chato admitir, mas para ser honesto intelectualmente, é necessário fazê-lo: para cada ganho de ideais do feminismo há cada vez mais mulheres que querem distância das feministas.

As mulheres que não querem saber das feministas nada possuem nada de machistas, ao contrário. O problema é que elas amam a liberdade, e as feministas se arvoram em proprietárias de regras.”

Preconceito sempre será preconceito, jamais conceito, mesmo com razão. Se não fosse pelo feminismo, a mulher continuaria a ser uma cidadã de segunda categoria, sendo um “mal tolerado” nas famílias unicamente por ser moeda de troca pelo dote, como foi comum na sociedade ocidental cristã até o século XIX. O feminismo e as feministas continuam a contestar e questionar o sistema exatamente para garantir à mulher que ela e apenas ela seja senhora de seu corpo, de suas regras, de sua liberdade, para o desespero de meninos e masculinistas.

Infelizmente é uma luta inglória. Assim como os Negros colaboraram para a Escravidão, como os Judeus colaboraram para os Nazistas, muitas mulheres [inclusive que foram feministas] colaboram para o Patriarcado, acreditando que vão ter algum tratamento diferenciado, mas estão apenas sendo objetos úteis que serão descartados assim que perderem sua utilidade.