A morte da carolice

Luiz Felipe Pondé é um filósofo curioso. Ele é o autor do livro “Guia Politicamente Incorreto do Sexo” e ao mesmo tempo é o que mais apregoa em seus textos a carolice disfarçada de intelectualização refinada. Ele deve ser ainda do tempo em que, no máximo, os casais faziam a posição “missionário”. Ele ainda está perdido, como o coroinha abusado pelo padre, ao perceber que o sexo não se resume ao papai-mamãe ou ao binômio de gênero.

Pondé em seu texto ao anunciar a morte de Freud ele comete diversos atos falhos expondo suas inseguranças e imaturidade sexuais. Como bom puritano, provinciano, conservador e carola controlado pela moral judaico-cristã, ele profetiza que no futuro o sexo será coisa de pobre. Uma afirmação suficiente para o Pai da Psicanálise ter interesse em voltar da tumba para tratar da pulsão de Pondé.

Mas vamos fazer essa concessão e admitir que no futuro sexo será coisa de “gente pobre”, o que é um evidente preconceito social e econômico. Então o que será coisa de gente “classe média” ou de gente “rica”? Para Pondé o acumulo de riqueza pressupõe mais instrução e isto fará das elites um bando de punheteiros. Até parece o discurso de Levi Fidelis falando que aparelho excretor não reproduz. Pondé deve ter pulado as aulas 101 de sexualidade ou nunca teve educação sexual. Vamos tentar ajudar: nem sempre sexo e reprodução são a mesma coisa. Bater punheta, fazer um boquete, entre outras atividades “lúdicas” com nossos órgãos sexuais são…[óbvio]…parte do sexo.

Eu gostaria de saber com que base Pondé atribui à concentração de renda ser necessariamente mais instrução, diante da estupidez e ignorância demonstrada por ricaços. Em termos de vida sexual, a concentração de renda dá aos ricaços uma imensa vantagem e diversidade que nós, pobres mortais, apenas podemos sonhar.

Eu acho que é isso que incomoda Pondé quando ele usa o “futuro” punheteiros dos ricos para expor sua maior insegurança: a confusão latente costumeira entre sexo e gênero. Pondé realmente acredita nessa que é a verdadeira Ideologia de Gênero imposta pela Igreja de que existem apenas meninos e meninas.

Ato falho contínuo, Pondé profetiza que o futuro será um mundo com histéricas, puritanos, carolas em geral. Interessante que a histeria foi um sintoma causado exatamente pela política sexual da Igreja por séculos. Desde que se tornou a religião oficial do ocidente “civilizado e branco”, a Igreja espalhou esse conceito de pecado e interdição que reprimiu e oprimiu a cultura europeia. Tudo aquilo que era referente ao corpo, ao desejo, ao prazer, ao amor e ao sexo chegou ao extremo de condenar o casamento heterossexual. Hoje a Igreja é a que mais defende a “tradição cristã” do casamento, desautorizando outras formas de relacionamento, como se ainda precisássemos de permissão da Igreja.

Para o desespero de Pondé, nós passamos da Era Moderna, nós passamos da Era Contemporânea, nós superamos o Pós-Modernismo e nós estamos apenas começando o Pós-Humanismo, em direção ao Trans-Humanismo. Como bom desonesto e preguiçoso intelectual, Pondé acha mesmo que a relativização do gênero, que se demonstrou mais ter origem cultural do que natural, é o mesmo que dizer que o corpo é uma representação social, como se isso negasse nossa sexualidade. O conceito de que fazemos de nosso gênero, de nossos papéis sexuais, de nossas identidades/personalidades/ preferências sexuais é uma representação social porque está inserido em um contexto temporal, social, cultural, linguístico e político. A referência do ser em si mesmo, o corpo, está onde está, como sempre esteve, mas a forma como tomamos consciência desse corpo, de nosso ser em si mesmo e de como percebemos essa relação entre corpo/gênero/sexo, são configuradas conforme os ditames de nosso sistema.

Pondé, horrorizado diante da humanidade redescobrindo seu corpo, faz a mesma arenga do padre e pastor: a carne [sexo] é a porta para o pecado [morte]. Os franceses, românticos ao extremo do dramático e do trágico, bem que falam que o orgasmo é “la petit mort”. Bem que nós ficamos extenuados após o clímax, mas gozar é o medo de Pondé. A pulsão do sexo é o prazer, o desejo, eventualmente a reprodução, em suma, é o êxtase da vida, negação da morte.

Sexo tem tanto mais a ver com a vida que este teatro é necessário para produzir novas gerações, ao mesmo tempo em que carrega em si o risco das doenças venéreas. Pobre Vênus! O ser humano é tão complexado com tudo que é carnal que usou o nome da Deusa do Amor e do Sexo para designar doenças que são transmitidas e contraídas no ato sexual! A doença, não cuidada, não medicada, pode levar o doente à morte, mas pela ação da bactéria, bem viva, sexo não mata. Eventualmente amantes se matam nos chamados “crimes de honra”, mas isto acontece pelo sentimento de posse que uma das partes se ache no direito sobre o corpo, o amor, o desejo, o prazer e o sexo da outra parte, ali não há mais amor.

Para um filósofo que publicou o “Guia Politicamente Incorreto do Sexo”, Pondé está mais para um policial de costumes, um carola recalcado. Nós ainda carregamos muito dessa culpa e medo que existe na cultura judaico-cristã. Nós ainda não compreendemos Freud e falta muito para destravarmos das descobertas feitas por Kinsey. Nós estamos revivendo nossa puberdade. Com alguma sorte, amadureceremos e será a morte da carolice.

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