O pesadelo de Marcela

Uma fábula pós-moderna, ambientada no Brasil.

Titulo alternativo: a nada fácil vida de uma boneca.

Personagens: Marcela e Pimpão.

Tema: a hipocrisia de uma sociedade machista patriarcal e sexista em promover uma manequim de vitrine como modelo de mulher.

Nascida em uma família tradicional e conservadora, Marcela assim que pôs seus pés no mundo, ouvia de seus pais aquilo que seria seu roteiro, pelo resto de sua vida.

– Sente direito! Vista-se direito! Coma direito! Fale direito! Comporte-se direito!

Desde que nasceu, Marcela não conheceu outra forma de viver senão pelas regras que seus pais, a família e a sociedade lhe impunha desde pequena. Como na sociedade europeia do século XVIII, a vida de Marcela se resumia a ser um manequim de vitrine, um acessório, um símbolo de status de sua família, de seus pais, ou de seu marido.

Ela foi bem treinada, desde o berço, a seguir o que era socialmente aceito e elogiável. Ela estudou apenas nas escolas que endossavam o patriarcado, ela só aprendeu o conteúdo que interessava para manter o machismo, ela tinha o comportamento moldado para agradar ao sexismo reinante.

Quando sua família lhe apresentou seu futuro marido, um homem que tinha idade para ser seu avô [aqui entra discussão sobre a discriminação etária], ela fez aquilo que ela foi treinada. Sorria, sentava e aceitava o destino que traçaram para ela. Como esposa bela, bonita e do lar, ela cumpriu seu papel, tornando-se um mero assessório e símbolo de status para seu marido.

Então houve uma eleição e seu esposo foi na posse como vice-presidente e ela foi fazer sua figuração, até que grupos descontentes com o resultado da eleição começaram a conspirar para tomarem o poder, nada que abalasse sua personagem e seu papel. Tudo isso mudou quando a mesma Imprensa que parecia fazer parte da conjuração divulgou uma carta, vinda de seu marido, para a presidente do país, dando a entender que havia algo mais entre os dois [aqui entra discussão sobre o tabu social com relacionamentos extraconjugais].

Marcela foi tentar dormir naquela noite visivelmente nervosa. Nada daquilo que disseram ou ensinaram para ela a tinha preparado para lidar com esse papel de traída. Ela tinha feito tudo o que a mandaram fazer, mas ela não estava tendo o “felizes para sempre” que prometeram para ela. Até aquele dia, ela vivia como uma princesa de contos de fada, mas agora tinha que lidar com seu príncipe encantado fazendo juras para a “outra”, a “amante”, a “madrasta”. Em sua cama, Marcela ficava agarrada ao seu ursinho de pelúcia, doce lembrança de sua infância, para tentar afugentar as sombras que pareciam estar mais espessas naquele quarto, onde ela estava sozinha com seus pensamentos.

– Por que, Pimpão, por quê? Eu nasci em berço abençoado e tive minha infância acompanhada por fadas madrinhas. Eu cresci como as profecias diziam que seria e eu me tornei a princesa de um reino, ou pelo menos de uma república. Então por que está acontecendo isso? Onde foi que eu errei?

– Seu erro foi aceitar ser um mero manequim de vitrine, Marcela.

– Oh! Pimpão! Você fala!

– Evidente! Ao contrário de você, eu tenho cérebro, personalidade e identidade próprios. Agora cala a boca e dorme. Você não é Cinderela nem Bela Adormecia às avessas. Continue sendo uma boneca, no pior sentido possível.

– Mas eu não quero isso! Eu quero meu final feliz! Eu quero ser a mais bela de todas, eu quero ser a rainha, eu quero ser amada e idolatrada!

– Ah, mas isso você terá. Pena que não terá alma para sentir o gosto.

– Mas eu tenho alma! Eu fui batizada na igreja! Eu até me casei em uma! Aonde eu vou, todos me admiram!

– Ah, pobre Marcela, admiram a imagem do que você reflete, como bom espelho sem alma que você é! Todas essas suas roupas, suas joias, sua educação primorosa, sua habilidade em oratória… tudo tinha o intuito de servir como um adorno, um acessório, para mostrar a riqueza e o status de seus donos, antes seus pais, agora seu esposo. Nada disso que tem realmente é algo significante ou pertinente ao que você é, uma mera boneca, tão artificial quanto as bonecas de plástico.

– Não, não, não! Eu ganhei essas coisas por que eu merecia! Essas coisas que eu recebi eram necessárias para a minha jornada e aqui eu estou, sem saber o que faço! Nada daquilo que eu recebi me preparou para enfrentar esse… pesadelo!

– Pois então! Aí está seu erro. Aceitou aquilo que te ofereceram e acreditou que era para o seu bem, que seria importante para o seu futuro, mas quem vai ter o final feliz, embora tão curto e tão trágico quanto MacBeth, será seu marido.

– Isso faz de mim… Gruoch? Não, não, não! Eu sou uma princesa pura, ingênua e casta, eu sigo as doutrinas da Igreja, eu sou uma mulher de virtudes cristãs!

– Oh, minha pobre Marcela, nunca foste pura, ingênua e casta! Devia ler mais seu texto sagrado! Ali, a sina e destino da mulher é nascer, viver e morrer como a pecadora, a causadora da queda do homem, mesmo quando ele é quem causa sua queda! Acha mesmo que quando seu príncipe cair, você será salva do clamor popular? Não se esqueça do que aconteceu com a rainha Maria Antonieta.

– Oh! Horror! Basta! Eu não quero esse destino! Eu quero ser feliz!

– Tarde demais, Marcela. Aqui não há mais baile, nem fadas madrinhas ou abóboras que são carruagens. Querendo ou não, você tem parte nisso. Você sabe muito bem o que seu marido está tramando e nada faz. E se fizer, conhecerá mais cedo sua queda. A única pessoa que poderia te ajudar é esta que está sendo conduzida ao cadafalso. Ela e milhares de mulheres que tiveram a coragem de ser o que queriam ser, contra os ditames da sociedade, contra as doutrinas da Igreja, contra a supremacia masculina.

– Ah! O que você sabe? Você é apenas um urso de pelúcia!

– Sim, eu sou, mas é você quem está falando com um simples urso de pelúcia. Eu sou estufado com espuma. Qual é a sua desculpa?

Marcela tem um treco no dia seguinte ao ver as manchetes de uma conhecida revista conservadora, de quem muitos suspeitam estar envolvida na conspiração, dando a ela o título de “bela, recatada e do lar”. Seu marido cogitou em interna-la, mas não teve tempo. As brigas internas dos grupos interessados na tomada do poder somente deixaram mais visíveis a trama que estava sendo urdida. Toda aquela gente oprimida ouviu o apelo daquela que estava sendo ojerizada e foram à luta. Os conspiradores foram todos identificados, processados, condenados e presos. Marcela não teve seu final feliz, mas o Brasil pode vir a ter. Só depende de nós.

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