O “american way” de governo

O brasileiro produz um pensamento curioso com seu complexo de vira-lata. Mal conhece sua língua e sua história, fica olhando a Europa com um estranho saudosismo e para os EUA com uma estranha esperança. Ou seja, tudo que é estrangeiro é bom, tudo que é nacional não presta.

Comparando a nossa história com a do “Grande Irmão”, ambos os países tem, em comum, o fato de que foram colonizados por fugitivos, “hereges”, ladrões, estelionatários, assassinos e estupradores. A diferença como se pode ver nos livros de história, foi a forma como aconteceu essa colonização. Esta “pequena” diferença refletiu na forma de cultura, sociedade governo e regime que construíram esses países.

Nosso sistema de política e governo é um resquício de nosso passado colonial extrativista, enquanto não houve qualquer formação de consciência política nos brasileiros, por outro lado a estrutura do regime e da classe política consolidou-se para manter a mesma oligarquia no poder. Isso não significa que o “american way” de governo seja melhor ou democrático.

O “american way” de governo surgiu com a declaração de independência, mas tal como na “democracia” da antiga Atenas, aqueles que eram considerados “cidadãos” não incluíam os nativos americanos, dizimados pelo governo genocida, um péssimo começo para um “regime democrático”.

Não podemos esquecer que por muitos anos o “país democrático” adotou e usou de negros em trabalho escravo e apenas mudou algumas coisas quanto aos direitos dos afrodescendentes depois dos conflitos por direitos civis na década de 70, no século XX. No entanto, tal como no Brasil, existe um evidente racismo e genocídio contra os afrodescendentes. Racismo que expandiu para os latinos, com a adoção de uma política social de segregação, discriminação e periferização em relação aos imigrantes, tipificada pelo muro vergonhoso separando os EUA do México. Fica impossível e indefensável caracterizar o “american way” de governo como “democrático” diante da existência de Guantánamo, um campo de concentração contemporâneo.

Em termos econômicos, o “american way” de governo foi o laboratório prático das ideias liberais prescritas pelo britânico Adam Smith. O brasileiro que adota e divulga o catecismo neoliberal devia estudar mais a realidade política e econômica dos EUA. De acordo com o economista Ha Joon Chang, o “american way” de governo praticava exatamente o oposto do que hoje tentam impor em todo mundo globalizado. Os períodos em que os EUA adotaram a economia liberal provocaram a Recessão Econômica de 1929 e a Crise Econômica de Ronald Reagan.

Em termos de direitos trabalhistas, apesar dos EUA ser considerado um país com sindicatos fortes, também era palco de constantes repressões da polícia contra trabalhadores grevistas. Essa característica policialiesca do “american way” de governo também pode ser percebida na política internacional dos EUA. Depois de saírem vitoriosos da Segunda Grande Guerra, os EUA arrogaram a si a incumbência de Polícia Mundial, realizando diversas operações militares, interferindo na soberania e governo de outros países, para garantir seu comércio e lucro fácil. Todos os países da América Latina tiveram e passaram por ditaduras militares que foram empossadas e mantidas no poder por influência direta ou indireta da CIA. No Oriente Médio, não causou nenhuma comoção internacional quando surgiu o escândalo Irã-Contras, ou a incômoda relação do Exército Americano com o Taliban e o Estado Islâmico e é pouco provável que o Tribunal de Haia venha a julgar os EUA pelos crimes que cometeu na Coréia e no Vietnã.

Se isso não é suficiente para descartar os EUA como um “país democrático”, basta analisarmos o bagunçado sistema eleitoral americano que tornou possível a eleição de George Bush. Pessoas sem formação histórica ou política deviam conhecer melhor como funciona o “american way” de governo antes de aplaudir esse regime.

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