A cor da minha bandeira

Eu nasci no Brasil, eu sou brasileiro. Eu conheço a história do meu país e devo lembrar que as cores da bandeira de um país tem seus significados.

O brasileiro, patriota, nacionalista e analfabeto político, deve acreditar realmente que verde e amarelo são “as cores do Brasil”. Não são, o verde veio da casa real de Bragança e o amarelo é a cor da casa real de Habsburgo.

Em suma, as “cores” do Brasil resguardam muito de seu passado monárquico e colonial. O que as cores da bandeira representam é aquilo que temos visto diariamente desde o início deste ano: uma classe política, eleita por intermédio de financiamento particular, fingindo que representa o brasileiro. O único interesse dos “nobres deputados” não mudou muito desde a fundação da Terra de Vera Cruz, cujo território foi dividido em Capitanias Hereditárias para os Capitães que eram indicados pela Coroa. De acordo com Laurentino Gomes, esses governantes não eram muito diferentes de nossos políticos atuais, eles visavam apenas e unicamente seu enriquecimento e mandavam às favas a administração pública.

Para se ter uma ideia, Portugal era o reino mais atrasado de toda a Europa. Enquanto o Brasil começava a fazer parte do Império Português, países europeus e colônias britânicas davam início ao regime republicano, tornando-se independentes.

Algo que o Brasil não conseguiu em absoluto, a “independência” foi mais obra dos britânicos, que aqui tinham interesses comerciais, do que do pulso de Dom Pedro I. Depois trocamos de “coroa”, passamos da britânica para a americana e assim tem sido até os dias de hoje. Até nossa constituição, Lei Maior, recebeu influência das constituições francesas e italianas. De nosso, brasileiro, só temos o famigerado “jeitinho brasileiro”, o que não é exatamente uma virtude.

Nós começamos mal nossa vida como país independente, foi à custa de um golpe que passamos da monarquia para a república, regime que nascia dominado por uma oligarquia e direitos para poucos. Depois nós continuamos a confirmar nossa índole para privilegiar uma determinada elite, outros golpes de Estado foram seguindo em nossa história e assim continuamos a ser um país colonial, conservador, atrasado, católico e elitista.

Os recentes acontecimentos não devem ser vistos com estranhamento, como algo inesperado ou incompreensível. Nossa população nunca teve uma formação política. Nossa gente nunca formou uma base de consciência política. O brasileiro é, em sua maioria, um analfabeto político que vai manter no poder esse mesmo grupo que tem se perpetuado no poder, o mesmo grupo que é responsável por sua conjuntura sofrida, difícil, carregando nos ombros a riqueza de poucos.

Refletindo com os acontecimentos, vem do noticiário a intenção de José Padilha filmar uma série inspirada na “Operação Lava Jato”, que será chamada, segundo o diretor, de “Jet Wash”. Nós somos tão colonizados pelos americanos que usamos nomes americanos em filmes brasileiros. Nós somos tão colonizados que mal sabemos falar português e achamos que falamos inglês. Uma tradução para o termo seria “Car Wash” e isso me recorda de um filme de 1976 que tem muito a ver com a realidade do Brasil de 2016.

O filme Car Wash, de 1976, é um filme americano que mostra, com ironia e comédia, um retrato da sociedade americana. Nos EUA os lava-rápidos começaram a aparecer depois que pessoas de rua, geralmente negros e imigrantes, tentavam sobreviver com esmolas em troca de uma limpeza de carro. Americanos tornam qualquer coisa em negócio rentoso, mas os lava rápidos ainda eram o local de serviço majoritariamente de negros e imigrantes, pois não havia lugar para eles no “american way”.

O filme mostra a nítida estratificação social da sociedade americana. De um lado, o dono do carro, geralmente um americano de classe média, que teve acesso à boa escola e melhores oportunidades de emprego. Do outro lado, o empregado do lava rápido, geralmente um negro ou latino, sem acesso à educação, sem ter acesso às mínimas infraestruturas, relegado a serviços pequenos ou provisórios.

A Operação Lava Jato foi um processo operado pelo doutor Sergio Moro e a Polícia Federal, supostamente com o intuito de “combater a corrupção”, mas o processo tem sérios indícios de nulidade e procedimentos autoritários. Com a ajuda das empresas de jornalismo, o doutor Moro divulgou informações extremamente parciais, manipuladas e tendenciosas, deixando a suspeita de que as intenções do magistrado fossem outras.

Para estabelecer o paralelo entre o filme e a operação, temos que estabelecer o lado dos funcionários do lava-rápido com a maioria do povo brasileiro e temos que estabelecer o lado dos usuários do lava-jato com a classe média brasileira. Para a maioria do povo brasileiro, não há acesso à educação, à infraestrutura ou à bons empregos. Para a classe média brasileira, seu estilo de vida depende da manutenção da sociedade, daí o motivo pelo qual o brasileiro é conservador e avesso à tudo que seja um avanço, um progresso, em direção a um mundo melhor para todos. Em uma sociedade extremamente estratificada dessa forma, qualquer alteração na conjuntura econômica e política do país será visto como uma ameaça à pátria.

O que pessoas sem estudo ou formação política ignoram é que sua situação somente foi possível graças a um rol de direitos e garantias, que fazem parte da Constituição, mas que são habilmente manipuladas pelos que detêm o poder para que se mantenha a atual conjuntura, lucrativa para poucos.

Um exemplo trivial, tomando o filme como cena, é o do americano médio, com seu carro do ano, começar a discutir ou agredir com o negro/latino simplesmente porque ele quer lavar seu carro popular, geralmente usado e pago em prestação, no mesmo lava-rápido. Na delegacia de polícia, um detetive, muito prestativo, começa a juntar provas contra o acusado, provas de origem e obtenção sob suspeita, mas para o jornalista, simpático ao americano médio, um cidadão “igual” a ele, as provas são indicio suficiente para que o acusado seja preso e condenado à prisão perpétua. Um inocente ficará preso, mas a sociedade estará “a salvo”.

Este é exatamente o reflexo do que tem acontecido no Brasil em 2016. Grupos, poderosos e ricos, recorrerão a qualquer expediente, para manter as coisas como são e não faltarão brasileiros de classe média para ajudá-los.

E para que conste, levando em conta o andamento dessa vergonhoso processo, a cor da minha bandeira é branca.

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