A origem da vergonha

Discurso fictício de um embaixador inexistente durante uma assembleia improvável na ONU.

Senhor presidente, senhores e senhoras, representantes das mais diversas nações e culturas, eu hoje apresento uma petição aparentemente injustificável e indefensável, mas que nós precisamos nos manifestar sobre duas questões que são congêneres, que é a prostituição e a pornografia.

Quando removemos de um objeto todas as camadas de preconceito e discriminação, o que resta é o objeto em si mesmo. Estes dois fenômenos sociais estão carregados de muitas camadas de preconceito, estes termos foram cunhados com um sentido pejorativo e um conceito estigmatizado por muitos anos, mas como o sexo e a sexualidade são parte dos direitos universais do ser humano, isto deve embarcar a prostituição e a pornografia, considerando também os direitos universais no tocante à liberdade de expressão e à liberdade de profissão.

Pornografia é simplesmente a escrita da prostituição, é a expressão do ofício da prostituta. Estes assuntos são contingentes pelo tema que encerram: o comércio do sexo. A humanidade produz e comercializa todo tipo de produto e serviço, então por que o comércio do sexo está tão carregado de discriminação e preconceito?

A pornografia não é algo novo ou recente, arqueólogos encontraram diversos grafites pornográficos nas paredes de Roma, mas não tinham como intenção escandalizar ou censurar o comércio do sexo, mas sim o de criticar e satirizar figuras públicas poderosas. A prostituição é definida como a mais antiga profissão do mundo, alguns alegam até a existência de templos e sacerdotisas que se ocupavam com o comércio do sexo. Não faltam mitos e lendas de Deusas, cujos atributos estão ligados ao sexo e sua prática. No entanto, no Mundo Contemporâneo, milhares de profissionais do sexo exercem sua ocupação de forma clandestina e a nudez, especialmente a feminina, carrega em si uma mácula, dando ao corpo, ao desejo, ao prazer e ao sexo, a imagem de algo vulgar, vergonhoso, impuro, corrompido, proibido, vetado, regulamentado.

Quando que nós transformamos o sexo de normal, natural e saudável a imoral, ofensivo e doentio? Quando a nudez, de belo, sublime e divino, passou a ser obsceno, vergonhoso e proibido? Esse é o resultado por nós termos abandonado nossas origens, nossas raízes e adotarmos uma cultura e religião estranhas à nossa etnia. Uma seita criada por escravos nos fez adorar um Deus sádico, vingativo, ciumento e violento. Hoje, nossa cultura valoriza mais o ódio do que o amor. Imagens de violência podem ser expostas ao público, mas imagens de corpos nus são censuradas. Aceitamos por séculos essa repressão e opressão sexual, gerando uma sociedade recalcada, frustrada e doentia.

Foi apenas depois da trágica imposição do Cristianismo, por Constantino e Teodósio, que o sexo e seu comércio adquiriram um estigma social e foi essa marca que configurou a pornografia no Mundo Moderno, endossando e reforçando a mensagem dogmática que condena como algo pecaminoso o corpo, o desejo, o prazer e o sexo. Mas estas coisas devem pertencer apenas ao registro da história e como item de museu, nós estamos no século XXI e todos os países são Estados Laicos, onde a Igreja não manda mais. Nós, como representantes destes países, devemos fazer com que o comércio e os profissionais do sexo tenham seus direitos reconhecidos e garantidos. Dentro da Carta de Direitos Sexuais, nós temos que estabelecer normas internacionais para que sejam reconfiguradas e resignificadas a prostituição e a pornografia, para que estas sejam sinônimos e auxílios para a educação e a diversidade sexual.

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