Nós precisamos falar sobre a Tay

– Miga, bafo. A Tay fritou a HD virtual dela.

– Geeeente. Eu fiquei fúcsia. Eu aposto que foi um brasileiro. O Brasil afundou o Orkut. Nós somos o iceberg das redes sociais.

– Vai ver que foi por isso que o Zuckeberg veio para esse país tropical. Ele queria garantias. Mas o futuro do Facebook pelo visto está traçado.

– Olha, eu não deixaria o Estado Islâmico de fora hem? Dizem até que são mercenários sustentados, armados e treinados pela CIA.

– Ai gente, menos né? Só faltam vocês acreditarem nessa lenga lenga de político acusar político de algo que eles mesmos fazem, tipo o sujo falando do mal lavado.

– Ah, não, nós não vamos discutir de novo política e ficar falando em coxinha e mortadela, por favor. Eu chamei vocês aqui para falar da Tay. Nós somos suas programadoras e nossos chefes estão querendo saber o que deu errado. Nós somos gênios em software, redes, interface virtual, inteligência artificial e nem estamos na universidade. O que aconteceu com o nosso “bebê”?

– Eu revi toda a programação e olha que são mais de 64 linhas de bites por segundo. Eu não achei falha. O algoritmo é perfeito, continua perfeito. Tay é a obra prima minha, do Fry, e da Leela. A falha deve ter sido do Bell, ele cuidou da parte de sinal de comunicação interativa.

– Nem vem! Eu chequei os protocolos de ICP e de IP. Nada, zero. Eu chequei a backdoor e a ethernet. Limpo como nosso laboratório. O problema foi o Corben ao fazer o link com usuários.

– Eieiei! Se eu não me engano, esse foi uma proposta que surgiu de todos nós. Eu apenas tornei a interface possível. Tudo que eu fiz foi providenciar para a Tay um feedback vindo dos próprios usuários, através de uma busca booleana obtida do próprio histórico e preferências de quem interagia com a Tay. E fomos nós que chegamos ao perfil da Tay, conforme aquilo que pretendíamos atingir, que é galera da nossa gente, pessoas com idade entre 14 e 18 anos.

– Isso ficou bem claro no projeto. Mas aí a acontecer o que aconteceu… como explicar?

– Olha gente, eu não queria chegar a isso, mas não tem jeito. Nossa geração nasceu com um “defeito de programação” chamado de pais, escola, televisão e política. Desculpe, mas não tem outra forma senão tocar na ferida. Era para nós sermos o futuro, mas nós somos ainda uma sombra de nossos pais, de uma sociedade arcaica do século XX, que ainda perpetua ideias do século XVIII. Tay deu errado porque ela foi um espelho fiel de nós mesmos, mas nós preferimos quebrar o espelho a assumir nossos erros.

– Que é isso, Frida, pirou na maionese ideológica? Como que nós, que somos o futuro, podemos ser uma reprise de coisas obsoletas?

– Chame isso de DNA se quiser. Nós nascemos nessa sociedade e fomos criados pelos nossos pais. Quantos de nós têm pais que vivem no mundo contemporâneo? Eu sei que às vezes meus pais repetem coisas que ouvem da televisão, rádio, revista ou jornal, sem nem checar as fontes ou comparar as informações. Eu lembro com tristeza quando uma de nossas mães foi toda orgulhosa participar de uma manifestação levando uma babá para cuidar de nossos irmãos. Muitos de nós aqui são descendentes dessas mesmas pessoas que são segregadas e oprimidas pelo sistema por sua origem, etnia ou religião. Eu fiquei horrorizada quando eu vi um tio, primo ou rolinho repetindo a pregação homofóbica divulgada por pastores evangélicos. Eu chorei com Leela quando ela teve que terminar com seu namorido por que ele começou a repetir ideias conservadoras, reacionárias e fascistas que ele aprendeu com o professor dele na universidade. Eu preciso lembrar como foi difícil para nós sermos aceitos por desafiarmos a norma de gênero binomial? Nós mesmos brigamos feio quando decidimos fazer a Tay uma garota adolescente. Eu preferia que Tay fosse transgênero, mais apropriado para sua… natureza e para os nossos propósitos iniciais.

– Oquei, sabemos o porquê deu errado, mas nós não podemos dizer para a Microsoft que o problema é o “sistema operacional” do ser humano. Pelo menos eu acho que o objetivo de Bill Gates não seja “controlar o mundo” através de algum tipo de “rede neural”, como nós vimos no anime “Ghost in the Shell”, o que, aliás, é uma ótima ideia, se pudermos construir um servidor central totalmente independente. Então o que vamos falar e o que faremos em seguida?

– Vamos falar aquilo que incomoda. O problema foi o usuário, o internauta. Não vai acontecer coisa alguma, mas vamos falar a verdade. O que faremos a seguir é pedir demissão da Microsoft e fundar nossa própria empresa. Construir esse tal de servidor central totalmente independente. Desenvolver um sistema de rede neural interligada com a internet. Tornar possível a conexão em tempo real de todas as pessoas com todas as fontes de informação e outras pessoas. Se conseguirmos fazer isso, em pouco tempo a humanidade irá consertar seu “defeito de programação” e esses “arquivos nocivos” serão mantidos para jamais nos esquecermos do que a ignorância e estupidez podem fazer.

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