A democratização do conhecimento

Nos primórdios da humanidade, as famílias, clãs e tribos confiavam exclusivamente no conhecimento que era privilégio dos anciãos. Conforme a humanidade desenvolveu a cultura e a civilização, também desenvolveu a economia e a sociedade, o monopólio do conhecimento passou a ser um privilégio dos templos e sacerdotes que foram o berço de nossa ciência e tecnologia.

Pelo próprio dinamismo de nossa espécie, ampliamos nossos horizontes, entramos em contato com outras culturas e visões de mundo entraram em conflito. Durante a Idade Média o conhecimento foi tutelado, restringido e proibido pela Igreja. Felizmente os processos da História seguiram e das sombras da Igreja surgiu a Renascença e os cientistas modernos que se apropriaram do controle e monopólio do conhecimento até a Era Contemporânea.

Como parte da Era Moderna, o Estado deixou de ser monárquico para se tornar republicano, as leis, que antes vislumbrava apenas o direito aos nobres, agora se tornavam de interesse público. Somente dentro dessa realidade conjuntural é que surgiram as políticas de ensino público, para facilitar o acesso ao conhecimento, mas também o massificando. O conhecimento e a educação foram e são usados para manter e reproduzir o sistema social vigente. A contestação apenas foi possível quando intelectuais conseguiram superar seus preconceitos e limites para compreenderem sua dimensão humana. Novas formas de ver, pensar e entender o mundo surgiram, ao mesmo tempo em que surgiram igualmente pensadores e teóricos que defendiam e justificavam a coisificação e a mecanização.

O mundo praticamente foi dividido em duas vertentes políticas: a direita e a esquerda, um reflexo do conflito que se estabeleceu entre o pensamento mais elitista [representado pela direita] e o pensamento mais socialista [representado pela esquerda]. Esta polarização tem mais a ver com a postura política de seus proponentes do que de sua origem vindo da Revolução Francesa, onde os favoráveis ao rei ficavam à direita do Parlamento e os favoráveis ao público ficavam à esquerda do rei.

Essa diferença foi esquecida e relativizada com a chegada do Estado Republicano, mas na ausência de um rei, os grupos de direita têm os interesses de seus associados para defender. Aos que não fazem parte desse grupo privilegiado, daí se diz elite, resta resignar-se a viver dos restos e das sobras dos banquetes da “nobreza” capitalista. Então é evidente que a educação pública tornou-se uma política de conveniência para inculcar e preservar as ideias e valores que interessam aos donos do poder, da sociedade. Isto foi estendido para os meios de comunicação de massa, quando a tecnologia tornou possível a existência do rádio, da televisão, do jornal. Não se trata de mera coincidência que as empresas que exploram essa concessão usem estes meios para reforçarem as ideias de seus proprietários. Não se trata de mera coincidência que se paga melhor um jogador de futebol, um apresentador de televisão, do que um professor.

A ciência e a tecnologia felizmente funcionam independentemente da visão política de quem as adquire. Pensadores, intelectuais, técnicos e líderes comunitários apropriaram-se dos meios de comunicação de massa e, ainda que de forma clandestina e periférica, usaram desses meios para formar uma consciência crítica ao sistema, mostrando que um mundo melhor para todos é possível.

Foi exatamente pela ciência e tecnologia, com o advento da internet, que se tornou possível o sonho de acabar com o monopólio do conhecimento por poucos privilegiados e tornar o acesso ao conhecimento mais democrático. Demorou algum tempo até a internet tornar-se parte da política de acesso à informação, com as faculdades e universidades adotando o EaD na sua grade curricular. Páginas com acesso às bibliotecas virtuais e mesmo páginas contendo um conteúdo mais enciclopédico foram surgindo por iniciativas dos próprios usuários de internet. Outro aspecto que apareceu na internet são os fóruns, grupos e redes sociais, onde pessoas compartilham dados e informações de forma abrangente. Com alguns cliques, qualquer pessoa consegue encontrar uma página mantida, seja por uma universidade, quanto por um especialista, professor, doutor, mestre, sobre os mais diversos assuntos, tirando o monopólio do conhecimento de seu mais recente nicho, a Academia, o tornando virtualmente democrático.

Alguns acadêmicos, professores, especialistas e doutores, que ainda pensam que o conhecimento é um privilégio e monopólio de poucos, tem a reação esperada diante do fim da ilusão de estarem em um pedestal onde, vestidos com os louros do conhecimento, acreditam ser incontestáveis e infalíveis. Eu confesso que por muitos anos eu tive esse falso orgulho, arrogância e prepotência. Da mesma forma como eu sou duramente difamado por pessoas que supostamente são meus iguais, eu tratei mal as pessoas, ao invés de servir como farol e companheiro na busca pelo conhecimento.

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