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Por que é importante falar de gênero?

Publicado pelo portal A Tribuna – Mato Grosso, em 21 de junho de 2015.

Alvo de muitas críticas e considerada como uma espécie de ameaça por alguns grupos sociais, a palavra gênero, como toda e qualquer palavra, faz transparecer os diversos sentidos que lhe dão vida, por isso, não é unívoca, ou seja, não carrega uma única voz, mas sim uma diversidade de vozes sociais que nos convidam a pensá-la de muitas maneiras.

Queremos trazer aqui um dos sentidos possíveis para pensarmos em gênero, que vem do campo dos estudos e das pesquisas em ciências humanas e sociais. É, portanto, nesse contexto que a palavra ganha o estatuto de conceito, com validade para podermos compreender nossas relações humanas, valores, ideias, comportamentos, aprendizagens, afetos, enfim, nossa humanização, cultura e história. Com isto, vemos que o conceito de gênero está longe de ser algo banal e sem importância para as nossas vidas.

O processo de construção do conceito de gênero nas ciências humanas e sociais ocorre a partir de uma série de indagações, na década de 1960, sobre os papéis fixos de homens e mulheres em nossa sociedade. Com o avanço dos debates, dos estudos e das pesquisas, o conceito de gênero vai se ampliando e se tornando cada vez mais complexo, passando, então, a se configurar como uma categoria de análise do humano, das relações sociais, da história e da cultura, assim como são as categorias de classe social e etnia. Recentemente, mais do que a referência a gênero, tem sido mais esclarecedor referirmo-nos a relações de gênero, visto que, diante destas, estamos preocupados/as com relações de poder que produzem masculinidades e feminilidades que envolvem todos/as nós, seres humanos, nas mais diversas situações sociais. São relações de poder, que geram subordinações, produzidas historicamente e culturalmente, que afetam nossos modos de falar, de andar, de ser, como olhamos, sentimos e pensamos nossos corpos.

Acabamos de trazer o corpo para o debate. Sim, o corpo – meu corpo, seu corpo, nosso corpo. De que corpo falamos nas relações de gênero? Estamos falando de um corpo, que mesmo com a sua natureza e biologia, não fica intacto, estático e mudo diante dos valores, dos papéis sociais, das relações de poder que nos fazem percebê-lo mais bonito ou feio, mais magro ou gordo, mais forte ou frágil, mais jovem ou velho, mais ou menos viril e sedutor, mais feminino ou masculino. Assim, se mulheres usam mais cabelos compridos do que homens, se homens mantêm mais pelos no corpo do que as mulheres, e se tudo isto ocorre, não é graças ao código genético, mas a uma cultura, com regras, valores, hierarquias, papéis e posições sociais que definem relações de gênero. Deixemos claro que não se trata, absolutamente, de negar o corpo biológico e o seu lugar no processo complexo de formação de uma pessoa, mas sim de afirmar que a existência humana não se reduz ao biológico. A vida psicológica, reiteramos, é a expressão do diálogo, muitas vezes tenso, entre o histórico, o cultural e o biológico.

Falar do corpo nos coloca, também, diante da sexualidade, outra palavra tão polemizada nos dias atuais e tão marcada por equívocos. Da forma como tem sido entendida e dita por aqueles/as que condenam “o gênero”, a sexualidade é banalizada a ponto de poder ser escolhida como se fosse um prato à la carte disponível em um cardápio de restaurante, como se cada um de nós pudesse optar por ser alguém um dia e, em seguida, tornar-se outra pessoa. Isto é um grandioso equívoco! A sexualidade diz respeito aos nossos prazeres, desejos, afetos, às relações que estabelecemos com o outro e com o nosso próprio corpo. É importante destacar que esses prazeres, desejos e afetos se constituem, também, nas nossas relações sociais e com a cultura. Está aí uma boa razão para que a sexualidade, como todo processo da vida humana, seja compreendida em sua complexidade e não como algo simplório e banal.

Cabe-nos indagar: o que as relações de gênero e a sexualidade têm a ver com a escola? A escola é, sem dúvida, um dos espaços sociais onde se manifestam, se produzem e reproduzem relações de gênero, valores, comportamentos, ideias, que ora perpetuam preconceitos, ora os superam. Ainda que essas relações e a sexualidade de crianças, adolescentes, jovens e adultos sejam silenciadas, a escola ainda está falando delas, está falando de sua ocultação, o que também é um modo de dizer sobre essas experiências. O desafio que colocamos àqueles/as que são educadores/as é poder perceber, refletir e compreender como a escola fala das relações de gênero e da sexualidade e o que faz a partir do que fala. O desafio é indagar sobre os silêncios, os preconceitos, as práticas discriminatórias e violentas que acompanham as vidas de pessoas que rompem com padrões fixos de masculinidades e feminilidades ou de outras cujos prazeres, desejos e afetos não se enquadram em uma normatividade. O desafio é intervir de forma ética na educação, no sentido de construirmos relações mais humanas e justas, nas quais as diferenças não sejam vistas nem tratadas como inferioridades. Como diz o filósofo Walter Benjamin, é preciso educar contra a barbárie, ou seja, educar para nos sensibilizarmos pela dor do outro.

Retomemos a pergunta inicial: por que é importante falar de gênero em nossa sociedade? Por que não podemos retirar a palavra gênero de nosso vocabulário, de nossas conversas cotidianas, de nossas leis, de nossos processos educativos? Porque defendemos a ética nas relações humanas, em que o outro, na sua diferença, é visto como alguém que nos complementa e, por isso, precisa ser reconhecido e respeitado, ao invés de ser combatido, perseguido e exterminado. Porque não podemos ser coniventes e compactuar com as violências instauradas por ideias, valores e práticas machistas, sexistas, homofóbicas, que legitimam todo tipo de discriminação e injustiça social.

Segundo a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) de 2012, que investigou a violência contra a mulher no Brasil, o Estado de Mato Grosso, no ranking nacional de violência contra mulheres, ocupa o 11º lugar, com a taxa de 5,4 homicídios femininos por cem mil mulheres. Os crimes de gênero (estupro, violência contra mulher, violência doméstica, cyber-vingança, entre outros, conforme tipificados no art. 5º e incisos da Lei 11.340/06 – Lei Maria da Penha) desafiam a Promotoria de Justiça da Violência Doméstica de Cuiabá e o Ministério Público de Mato Grosso, que, em favor da vida, da paz e da igualdade nas relações de gênero, desenvolvem projetos, como “Projeto Questão de Gênero”, lançado em abril de 2009, destinado a prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher, efetivado em escolas públicas, sobretudo nas mais periféricas e carentes. Portanto, uma das contribuições dos estudos de gênero na educação é podermos vislumbrar uma sociedade menos desigual e menos violenta, na qual, por exemplo, os meninos possam aprender que a masculinidade não precisa e não pode ser exercida com violência.

Esse quadro de violência se amplia quanto trazemos os crimes cometidos contra a população LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais). Dados do “Relatório sobre violência homofóbica no Brasil: ano de 2012”, publicado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, revelam que naquele ano houve 9.982 denúncias de violações dos direitos humanos feitas por essas pessoas, além de 310 homicídios cometidos contra essa população. Trata-se de um quadro que se perpetua anualmente. No tocante à escola, a pesquisa ”Preconceito e discriminação no ambiente escolar” (2009), da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas/Ministério da Educação/Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais(Inep), em uma amostra nacional de 18,5 mil estudantes, pais e mães, diretores/as, professores/as e funcionários/as, revelou que as atitudes discriminatórias mais recorrentes correspondem às relações de gênero (38,2%); orientação sexual (26,1%); étnico-racial (22,9%); e territorial (20,6%).

Diante deste quadro, julgamos que falar sobre gênero na escola representa ampliar nosso compromisso com a justiça social e a democracia. Se a educação escolar se constitui como referência na formação dos sujeitos para a inserção no mundo do trabalho, da sociabilidade e da cultura, a escola tende a ser o espaço privilegiado para o reconhecimento da pluralidade social ou das diferenças que nos constituem como sujeitos de cultura. Diferentemente de outras instâncias sociais, o trato com as questões éticas ou humanas na escola – nas propostas curriculares ou nas rotinas educativas – não passa por afirmar (hierarquizar) certas formas culturais (familiares, religiosas etc) em detrimento de outras, mas passa por garantir o direito fundamental à educação a todas as pessoas indistintamente. O que queremos realçar é que este direito se materializa apenas se a todos é garantida a oportunidade de questionar relações de poder, de gênero, hierarquias sociais opressivas, processos de subalternização/exclusão de diferentes ordens. É neste sentido que entendemos que falar de gênero, e de outros temas que nos dias atuais encontram-se encharcados de senso-comum, se configura como uma via de hiperpolitização, uma rica possibilidade de ampliação da democracia da qual não pretendemos e não queremos abrir mão.

Profa. Drª. Carmem Lúcia Sussel Mariano (Doutora em Psicologia Social);
Profa. Drª. Érika Virgilio Rodrigues da Cunha (Doutora em Educação);
Prof. Dr. Flávio Vilas-Bôas Trovão (Doutor em História);
Profa. Drª Lindalva Maria Novaes Garske (Doutora em Educação);
Profa. Ms. Paula Faustino Sampaio (Mestre em História);
Profa. Drª. Raquel Gonçalves Salgado (Doutora em Psicologia)

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Manifesto da mulher trans

A bióloga e ativista trans Julia Serano analisa as raízes dos preconceitos contra transexuais, explica porque a mulher trans se encontra no ponto de encontro de vários tipos de discriminação, e propõe que apenas com o verdadeiro feminismo pessoas de todos os gêneros poderão encontrar a igualdade

Por Márcio Caparica, traduzido do ensaio escrito por Julia Serano* e publicado no livro Whipping Girl: A Transexual Woman on Sexism and the Scapegoating of Femininity. Publicado no site LadoBi, em 24 de agosto de 2015. [Republicado no Clipping LGBT]

Esse manifesto clama pelo fim da desumanização, ridicularização e utilização como bode expiatório de mulheres trans por toda parte. Para os propósitos desse manifesto, mulher trans é definido como qualquer pessoa a quem se atribuiu um sexo masculino ao nascimento,  mas que se identifica como e/ou vive como uma mulher. Nenhum tipo de qualificação deve ser colocado no termo “mulher trans” tendo por base a habilidade da pessoa em “se passar” por mulher, seus níveis hormonais, ou o estado de seus genitais – afinal de contas, é francamente sexista reduzir qualquer mulher (trans ou não) a meras partes de seu corpo, ou exigir que ela alcance um certo ideal ditado pela sociedade quanto a sua aparência.

Talvez nenhuma minoria sexual seja mais difamada ou incompreendida que as mulheres trans. Como um grupo, nós somos patologizadas sistematicamente pelas comunidades médicas e psicológicas, sensacionalizadas e ridicularizadas pela mídia, marginalizada pelas principais organizações lésbicas e gays, descartadas por certos segmentos da comunidade feminista, e, muitas vezes, alvos da violência de homens que por alguma razão sentem que nós, de alguma forma, ameaçamos sua masculinidade e heterossexualidade. Ao invés de recebermos a oportunidade de falarmos por conta própria a respeito dos problemas que afetam nossas vidas, nós mulheres trans somos tratadas mais como temas de pesquisa: outros nos colocam sob o microscópio, dissecam nossas vidas e nos atribuem motivações e desejos a fim de validar suas próprias teorias e objetivos com relação ao gênero e sexualidade.

Mulheres trans são tão ridicularizadas e desprezadas porque estamos posicionadas de maneira única na intersecção de várias formas de preconceito advindas da visão binária de gênero: transfobia, cissexismo, e misoginia.

Transfobia é o medo irracional de, aversão a ou discriminação contra pessoas cuja identidade de gênero, aparência ou comportamentos desviam das normas sociais. Da mesma forma que os homofóbicos muitas vezes são motivados pelas próprias tendências homossexuais, acreditamos que a transfobia é primariamente e essencialmente uma expressão da insegurança de uma pessoa quanto a sua capacidade de cumprir os ideais culturais de gênero. O fato de que a transfobia é tão feroz em nossa sociedade reflete a realidade de que colocamos uma quantidade extraordinária de pressão sobre os indivíduos para que sujeitem-se às expectativas, restrições, presunções e privilégios associados ao sexo que lhes foi atribuído ao nascerem.

Apesar de todas as pessoas transgênero passarem por transfobia, transexuais passam por uma forma de preconceito adicional e relacionada (porém distinta): cissexismo, a crença de que o gênero da identidade de um transexual é inferior, ou menos autêntico, que aquele de cissexuais (ou seja, pessoas que não são transexuais e que por toda vida apenas experienciaram seu sexo subconsciente e seu sexo físico como alinhados). A expressão mais comum  do cissexismo ocorre quando as pessoas tentam negar a pessoas trans os privilégios básicos associados ao gênero com o qual a pessoa trans se identifica. Exemplos comuns disso incluem o uso proposital de pronomes errados, insistir que a pessoa trans use um banheiro diferente etc. A justificativa para essas recusas é em geral fundamentada na suposição de que o gênero de uma pessoa trans não é autêntico, porque não é correlato a seu gênero de nascimento. Quando se faz essa suposição, o transfóbico tenta criar uma hierarquia artificial – quando insiste que o gênero da pessoa trans é “falso”, eles tentam validar seu próprio gênero como “real” ou “natural”. Esse tipo de raciocínio é extraordinariamente ingênuo, já que ignora uma verdade das mais básicas, a de que todos os dias fazemos suposições quanto ao gênero das pessoas sem jamais conferir suas certidões de nascimento, seus cromossomos, seus genitais, seus sistemas reprodutores, a socialização por que passaram durante a infância ou seu sexo legal. O gênero “real” não existe – o que há é apenas o gênero com que nos identificamos e o gênero que percebemos em outras pessoas.

Apesar de muitas vezes ocorrerem de maneiras diferentes na prática, o cissexismo, a transfobia e a homofobia, todos têm raízes no sexismo oposicional, a crença de que feminino e masculino são categorias rígidas e mutuamente exclusivas, cada uma possuindo um conjunto único e não justaposto de atributos, aptidões, habilidades e desejos. Sexistas oposicionais tentam punir ou descartar aqueles dentre nós que se encontram fora das normas sexuais ou de gênero, porque nossa existência ameaça a ideia de que mulheres e homens são sexos opostos. Isso explica por que bissexuais, lésbicas, gays, transexuais e outras pessoas transgênero – que podem experimentar seus gêneros e sexualidades de maneiras muito diversas – são tão comumente confundidos entre si ou agrupados na mesma categoria (como queer, por exemplo) pela maioria da sociedade. Nossas inclinações naturais de sermos do outro sexo, ou sentir atração pelo mesmo sexo, desafiam a suposição de que mulheres e homens são categorias mutuamente exclusivas, cada uma delas possuindo um conjunto único de atributos, aptidões, habilidades e desejos. Quando rompemos com essas normas sexuais e de gênero, nós essencialmente borramos as fronteiras necessárias para se manter a hierarquia centrada no masculino que existe em nossa cultura atualmente.

Além das categorias de gênero rígidas e mutuamente exclusivas estabelecidas pelo sexismo oposicional, outro pré-requisito para que se mantenha a hierarquia de gênero centrada no masculino é fazer cumprir o sexismo tradicional – a crença de que ser homem e a masculinidade são superiores a ser mulher e à feminilidade. O sexismo oposicional e o sexismo tradicional trabalham em conjunto para assegurar que aqueles que são masculinos têm poder sobre aqueles que são femininos, e que apenas aqueles que nasceram homens serão vistos como autenticamente masculinos. Para os propósitos desse manifesto, a palavra misoginia será utilizada para descrever essa tendência de se descartar e ridicularizar ser mulher e a feminilidade em nossa cultura.

Assim como todas as pessoas trans sofrem transfobia e cissexismo em diferentes dimensões (dependendo de quão frequentemente nos declaramos transgênero, quão óbvio isso é e o quanto “fora do armário” somos), nós também sofremos misoginia em diferentes dimensões. Isso torna-se mais evidente com o fato de que, apesar de haver muitos tipos diferentes de pessoas transgênero, nossa sociedade tende a reservar grande parte de sua atenção e ridículo para as mulheres trans e outras pessoas no espectro masculino-para-feminino. Isso não acontece apenas porque transgredimos as normas de gênero por si só, mas porque nós, necessariamente, valorizamos nosso próprio corpo feminino e nossa feminilidade. Certamente, na maioria dos casos, são nossas expressões de feminilidade e do feminino que tornam-se sensacionalizados, sexualizados e trivializados por outrem. Apesar das pessoas trans no espectro mulher-para-homem sofrerem discriminação por romper com as normas de gênero (também conhecida como transfobia), suas expressões de masculinidade ou do masculino por si só não são alvos de ridicularização – fazer isso exigiria que se questionasse a própria masculinidade.

Quando uma pessoa é ridicularizada ou descartada não apenas por transgredir as normas de gênero, mas por suas expressões de feminilidade ou de seu corpo feminino, elas se tornam vítimas de uma forma específica de discriminação: transmisoginia. Quando a maioria das piadas feitas às custas de pessoas trans focam-se em “homens que usam vestidos” ou “homens que querem que cortem seus pênis”, isso não é transfobia – trata-se de transmisoginia. Quando a maior parte da violência e agressão sexual que se comete contra pessoas trans é direcionada às mulheres trans, isso não é transfobia – trata-se de transmisoginia. Se não há problema quando mulheres usam roupas “de homem”, mas homens que vestem roupas “de mulher” podem ser diagnosticados com o “distúrbio psicológico”, Transvestismo Fetichista, isso não é transfobia – trata-se de transmisoginia. Quando organizações e eventos femininos ou lésbicos abrem suas portas para homens trans mas não para mulheres trans, isso não é transfobia – trata-se de transmisoginia.

Numa hierarquia de gênero centrada no masculino, em que se supõe que homens são melhores que as mulheres e que a masculinidade é superior à feminilidade, não se percebe ameaça maior que a existência de mulheres trans, que, apesar de terem nascido homens e terem herdado os privilégios masculinos, “escolhem” tornar-se mulheres. Quando elevamos nossa feminilidade e nosso feminino, de certa maneira também elevamos dúvidas a respeito da suposta supremacia da masculinidade e do masculino. Para que seja reduzida a ameaça que causamos à hierarquia centrada na masculinidade, nossa cultura (por meio da mídia, primariamente) usa uma gama de táticas no arsenal do sexismo tradicional para fazer pouco caso de nós.

  1. A mídia nos hiperfeminiza: quando acompanham histórias sobre mulheres trans de fotos nossas quando nos maquiamos, vestimos vestidos ou calçamos saltos altos, numa tentativa de ressaltar a natureza “frívola” de nossa busca por sermos mulheres, ou ao retratar uma mulher trans como tendo características de personalidade depreciativas associadas ao feminino, como ser fraca, confusa, passiva, ou tímida.
  2. A mídia nos hipersexualiza: quando cria a impressão de que a maioria das mulheres trans são profissionais do sexo ou farsantes sexuais e ao frisar que passamos pela transição por razões primariamente sexuais (por exemplo, para atacar homens heterossexuais inocentes ou realizar algum tipo de fantasia sexual bizarra). Essas representações, além de fazerem pouco das razões por que mulheres trans passam pela transição, sugerem implicitamente que as mulheres como um todo não têm valor além de suas habilidades em serem sexualizadas.
  3. A mídia objetifica nossos corpos: quando sensacionaliza a cirurgia de adequação de sexo e abertamente discute nossas vaginas “artificiais” sem nada da discrição que normalmente se defere a discussões sobre genitais. Mais ainda, aquelas de nós que não passaram por cirurgias são constantemente reduzidas a pedaços de nossos corpos, seja pelos criadores de filmes pornôs com travestis que superenfatizam e exageram nossos pênis, transformando assim as mulheres trans em “travecos” e “mulheres com pau”, ou por outras pessoas que sofreram tanta lavagem cerebral falocentrista que acreditam que a mera presença de um pênis pode superar o feminino de nossas identidades, nossas personalidades, e o resto de nossos corpos.

Como a discriminação antitrans está mergulhada no sexismo tradicional, não basta os ativistas trans apenas desafiarem as normas binárias de gênero (ou seja, o sexismo oposicional) – nós devemos também desafiar a ideia de que a feminilidade é inferior à masculinidade e que o feminino é inferior ao masculino. Em outras palavras, necessariamente, o ativismo trans deve ser em sua essência um movimento feminista.

Alguns podem considerar controversa essa afirmação. Ao longo dos anos, muitas que se descrevem feministas esforçaram-se para desprezar as pessoas trans, e em particular as mulheres trans, muitas vezes utilizando muitas das mesmas táticas (hiperfeminização, hipersexualização, e objetificação de nossos corpos) usadas regularmente pela grande mídia contra nós. Essas pseudofeministas proclamam que “Mulheres podem fazer qualquer coisa de que os homens são capazes” e então ridicularizam as mulheres trans por qualquer aparente tendência masculina que tenham. Elas argumentam que mulheres deveriam ser fortes e não terem medo de falarem o que pensam e então dizem para as mulheres trans que parecemos homens quando damos nossas opiniões. Elas afirmam que é misógino quando homens criam padrões e expectativas a serem alcançados pelas mulheres e então nos desprezam por não chegarmos ao nível de sua “mulher padrão”. Essas pseudofeministas consistentemente pregam o feminismo com uma mão, enquanto praticam o sexismo tradicional com a outra.

Já é hora de reclamarmos a palavra “feminismo” dessas pseudofeministas. Afinal de contas, o feminismo é muito similar às ideias de “democracia” ou “cristianismo”. Cada um tem um princípio principal, mas há um número infinito de  maneiras de se praticar essa crença. E assim como algumas formas de democracia e cristianismo são corruptas e hipócritas e outras são justas e corretas, nós mulheres trans devemos nos unir a mulheres e aliados de todos os gêneros que apoiam a transexualidade para forjarmos um novo tipo de feminismo, que compreenda que a única maneira de se alcançar a verdadeira igualdade entre os gêneros é abolir tanto o sexismo oposicional como o sexismo tradicional.

Não é mais suficiente que o feminismo lute apenas pelos direitos daquelas que nasceram mulheres. Essa estratégia fez com que os prospectos de muitas mulheres avançassem ao longo dos anos, mas agora tromba com uma barreira que, em parte, foi construída pelas próprias. Apesar do movimento ter trabalhado intensamente para incentivar que as mulheres entrassem em áreas da vida que previamente eram dominadas pelos homens, muitas feministas foram ambivalentes nos melhores dos casos e resistentes nos piores à ideia de que homens possam expressar características femininas e adentrem reinos tradicionalmente femininos. E apesar de darmos crédito aos movimentos feministas anteriores por ajudarem a criar uma sociedade em que as pessoas mais sensatas concordam com a afirmação “mulheres são iguais aos homens”, nós lamentamos o fato de que estamos a anos-luz de sermos capazes de afirmar que a maioria das pessoas acreditam que a feminilidade está no mesmo patamar que a masculinidade.

Ao invés de tentarmos empoderar aquelas que nascem mulheres incentivando-as a afastarem-se da feminilidade, nós deveríamos aprender a empoderar a própria feminilidade. Devemos deixar de descartá-la como “artificial” ou como uma “performance” e passar a reconhecer que certos aspectos da feminilidade (assim como da masculinidade) transcendem tanto a socialização como o sexo biológico – do contrário, não haveria garotos femininos e garotas masculinas durante a infância. Devemos desafiar todos aqueles que pressupõem que a vulnerabilidade feminina é um sinal de fraqueza. Pois quando nos abrimos, seja comunicando honestamente nossos pensamentos e sentimentos ou expressando nossas emoções, esse é um ato audaz, que requer mais coragem e força interior que a fachada de silêncio e estoicismo do macho-alfa.

Devemos desafiar todos aqueles que insistem que mulheres que agem ou se vestem de forma feminina necessariamente estão adotanto uma postura submissa ou passiva. Para muitas de nós, vestir-se ou agir de maneira feminina é algo que fazemos para nós mesmas, não para os outros. É nossa maneira de reclamar nossos corpos e destemidamente expressar nossas personalidades e sexualidades. Não somos nós, mas sim aqueles que tolamente supõem que nosso estilo feminino é um sinal de que somos subjugadas sexualmente aos homens, os culpados de tentar reduzir nossos corpos ao status de meros brinquedos.

Num mundo em que se supõe que a masculinidade representa a força e o poder, aquelas que são caminhoneiras e masculinas são capazes de contemplar suas identidades dentro da segurança relativa dessas conotações. Em contraste, aquelas dentre nós que são femininas somos forçadas a nos definirmos em nossos próprios termos e desenvolvermos nosso próprio senso de autoestima. São necessários coragem, determinação e destemor para  aquelas de nós que são femininas consigam elevar a nós mesmas acima dos significados inferiorizadores que são constantemente projetados sobre nós. Se é necessário algum indício de que a feminilidade pode ser mais feroz e perigosa que a masculinidade, tudo que se precisa fazer é pedir que um homem comum segure sua bolsa ou um buquê de flores por um minuto e observar a que distância ele mantêm esses objetos de seu corpo. Ou diga a ele que você gostaria de passar seu batom nele e observe a velocidade com que ele se afasta. Num mundo em que a masculinidade é respeitada e a feminilidade é regularmente descartada, é preciso muita força e confiança para qualquer pessoa elevar a própria identidade feminina.

Mas não basta empoderar o feminino e a feminilidade. Devemos também parar de fingir que há diferenças essenciais entre mulheres e homens. Isso começa reconhecendo-se que há exceções para todas as regras e estereótipos de gênero, e que essa simples afirmação refuta todas as teorias de gênero que afirmam que homem e mulher são categorias mutuamente exclusivas. Devemos nos afastar da ilusão de que os sexos masculino e feminino são “opostos”, porque quando acreditamos nesse mito, estabelecemos um precedente perigoso. Pois, se os homens são grandes, então mulheres têm que ser pequenas; e se homens são fortes, então mulheres têm que ser fracas. E se tornar-se masculina é fazer-se rígida, então tornar-se feminina significa permitir-se ser maleável; e se ser homem significa tomar controle da situação, então ser mulher significa viver para cumprir as expectativas alheias. Quando aceitamos a ideia de que o masculino e o feminino são “opostos”, torna-se impossível empoderar as mulheres sem ridicularizar os homens ou puxar o tapete de nós mesmas.

Apenas quando nos afastamos da ideia de que há sexos “opostos” e abandonamos os valores derivados da cultura que são atribuídos às expressões da feminilidade e masculinidade, podemos finalmente nos aproximar da igualdade entre os gêneros. Ao se desafiar simultaneamente o sexismo oposicional e o sexismo tradicional, podemos fazer com que o mundo se torne seguro para aqueles de nós que são queer, aqueles que são femininos e aqueles que são mulheres, simultaneamente empoderando pessoas de todos os gêneros e todas as sexualidades.

Relacionamento entre adolescente e adulto não é crime

Um ensaio de como a indústria do abuso sexual e das falsas denúncias de abuso sexual cresce no Brasil, pela ação irresponsável de políticos, mídia e sociedade.

A relação consentida de um adolescente menor com um adulto não deve ser situação generalizada como ?abuso de menor?, e nunca definida como pedofilia; isso é um erro muito grave. Abusos sexuais são situações onde há uso de violência psicológica pra se obter sexo (sejam ameaças, imposições, humilhações) e/ou abuso de poder econômico (prostituição, exploração, relação de interdependência), enquanto pedofilia é o desejo sexual primário de um adulto por crianças impúberes (e não por adolescentes).

Apesar do adulto ter maior maturidade que o menor, é um preconceito imenso afirmar-se que a maioria dos adultos que se envolvem com adolescentes são ?predadores sexuais? ou que estejam buscando somente sexo. E estes erros vêm sendo frequentemente perpetrados pela nossa sociedade, disparados por uma mídia oportunista, escandalosa e muitas vezes ignorante das leis brasileiras e das definições corretas do que vem a ser a tão mal vista pedofilia. Alguns dos principais motivos que isso ocorre são pelas notícias vindas dos EUA, onde uma onda puritana e anti-pedofilia tomou conta de um país que tem, no entanto, leis e cultura bem diferentes do Brasil.

Nos EUA, onde a Idade de Consentimento (?Age of Consent?, ou seja, a idade mínima em que um menor pode legalmente consentir ter relacionamento sexual com quem quiser; não confundir com Maioridade Penal) é na maioria de seus estados aos 16 anos, podemos constatar que: leis assim só podem criar caos social ao limitar a liberdade de sexualidade do ser humano, seja adulto ou adolescente, já que muitos adolescentes menores de 16 (entre 12 e 15 anos), também se interessam afetiva e sexualmente por adultos, além dos inúmeros adultos que se interessam por adolescentes. Impondo fronteiras tão rígidas de relacionamentos entre grupos etários diversos, o Estado interfere numa liberdade básica que os indivíduos tem direito, gerando revolta, e isso traz conseqüências graves e indesejadas, como a criminalização de relacionamentos amorosos autênticos entre adultos e adolescentes, o refúgio dos jovens nos tóxicos, prisões gratuitas (desnecessárias) e violência.

Tornam estas leis tanto adultos como adolescentes exilados, e estes cada vez mais enclausurados em seu mundo sensível e inacessível, sem poder quando o desejam ter um contato mais íntimo com um adulto, já que a maior parte dos adultos evita contato, mesmo quando este contato é só afetivo, pelo medo de ser confundido com abuso sexual. Uma das consequências da paranóia instalada, é que nos EUA os pais evitam cada vez mais contatos físicos e intimidade com a nudez de suas crianças, mas os prejuízos são muito maiores. Todo este paternalismo e controle maciço exercido pelo Estado em diferentes situações é um dos ingredientes principais que tornam a sociedade norte americana cada vez mais controladora e violenta, com altos índices desta violência cometida entre os jovens, já que a violência provém da revolta interior e esta é conseqüência de uma ou mais frustrações. Quem nunca percebeu o quanto o sexo nos deixa relaxados, descarrega nossas tensões e sentiu-se como flutuando no oceano ou tão leve quanto uma nuvem depois de uma boa transada!? O relaxamento que a atividade sexual provoca é observado até nos primatas antropóides mais geneticamente próximos do ser humano, os pacíficos bonobos (Pan paniscus), chimpanzés que usam o sexo em reconciliações, pra reduzir a agressividade, criar laços afetivos e pra entreter-se, além de relaxar.

Sabemos que no Brasil até poucos anos atrás, e em muitos outros países, eram comuns e tolerados relacionamentos entre adultos e adolescentes, até mesmo casamentos, entre homens mais velhos e meninas de 13-14 anos, sendo muitos de nós filhos destas relações, e isso nunca foi considerado motivo pra escandalizar alguém. Muito além dos abusos cometidos por adultos estão os relacionamentos autênticos entre adultos e menores, e ao tomarmos um posicionamento social importante como o de proteger as crianças e adolescentes vítimas de abuso, não devemos à grosso modo cercear a liberdade de que os adolescentes relacionem-se com adultos quando isso for desejo de ambos.
Hoje em dia, seguindo o mau exemplo dos norte americanos, na medida em que por aqui também cresce a histeria anti-pedofilia e a repressão à livre expressão da sexualidade juvenil, podemos ver crescer também casos nunca antes vistos de violência entre jovens (e adultos) desorientados, marginalizados e excluídos por uma sociedade que lhes nega liberdades básicas e uma educação sexual isenta de preconceitos. Quem não se lembra em 2007 o caso horrível de um jovem catarinense de 16 anos que matou e retalhou o menino Gabriel Kuhn, de 12 anos? Minhas hipóteses são de que, o medo que o menino mais novo denunciasse alguma investida sexual do garoto mais velho, e o medo deste ser taxado e ridicularizado como gay, além do preconceito que ainda persiste em grande parte dos adolescentes, talvez sirvam de cenário psicológico ideal à composição deste tipo de crime. Homofobia, humilhações e repressões infundadas também são violências, e geram confusão, medo e mais violência. Tratemos de reprimir mais às várias formas de violência e menos ao amor e ao sexo, quando realmente estes forem inofensivos.

Instala-se pouco a pouco no Brasil a indústria da vítima de abuso sexual, com seus profissionais vitimologistas, sejam agentes da mídia, políticos, psicólogos, policiais, advogados e juízes, na medida em que estes produzam vítimas sem que nenhum mal tenha sido cometido contra estas, vitimas de crime nenhum, ou criem situações pra atrair e prender aliciadores de crianças e adolescentes. Um novo e perigoso modismo proveniente dos EUA, o mesmo país que criou a tática mentirosa, mesquinha e covarde de chamar de defesa o golpe que é desferido antes do ataque (ver invasão do Iraque). Enquanto chovem denúncias de ?pedofilia?, ?abuso? e denunciam-se ?ofensores sexuais?, referindo-se algumas vezes a adultos que tiveram uma relação desejada (consentida) com adolescentes, os verdadeiros e terríveis casos de estupro e violências diversas contra adolescentes e crianças são negligenciados e não tem como ser eficientemente apurados, pois não há como empenhar-se em resolver casos reais quando nossa sociedade não consegue mais discernir o que é digno de crédito do que é bobagem, no tanto de informações divulgadas pela mídia. Não se oferece aos jovens nem mesmo o que lhes é de direito: sua liberdade sexual e uma educação sem preconceitos.

No sentido de orientar e proteger menores de situações de violência, estupro, abuso, prostituição, exploração, risco de doenças sexualmente transmissíveis e gravidez, não devemos nunca em paralelo tolher o direito à liberdade, destes menores relacionarem-se com quem bem entendam.

No ano 2000 se reuniram em Tlaxcala, México, representantes juvenis de agrupações provenientes de quase todas as entidades do país, e elaboraram um documento chamado de ?Declaração de Direitos Sexuais dos Jovens?, em que ?definem sua aspiração a viver uma sexualidade livre e responsável, prazerosa e protegida, respeitosa e eqüitativa?. Excelente iniciativa de participação política destes jovens mexicanos, que bem serve de exemplo aos jovens brasileiros, já que em nosso país os políticos preferem condenar os adolescentes à alienação, e ignorar uma necessária estipulação em nossa legislação da Idade de Consentimento, algo que é um direito do adolescente: o de que ele possa se relacionar afetiva e sexualmente com quem bem entenda (seja com outro adolescente ou adulto), e só haja intromissão dos responsáveis ou do Estado em casos de prostituição e violência (abusos de fato).

Citando alguns exemplos, no México e Filipinas a Idade de Consentimento é aos 12 anos, na Argentina e Espanha aos 13, em Portugal e Alemanha aos 14, e no Brasil inexiste a expressão jurídica da Idade de Consentimento, sendo que o assunto é reservado aos pais ou responsáveis, que podem dar liberdade (ou não) que o filho(a) menor entre 14 e 17 anos se relacione com um adulto (não havendo prostituição, que deve sim ser considerada sempre como ilegal ao menor, porque corrompe seu caráter). Porém qual é o filho(a) que dá conta aos pais de seus relacionamentos sexuais e afetivos? Dessa forma, é necessário estabelecer no Brasil uma Idade de Consentimento entre os 12 e 14 anos (nos primeiros anos da adolescência e não nos últimos anos, como no ridículo exemplo americano), pra que o jovem tenha o direito de consentir ou não, quando e com quem quer relacionar-se, sem sentir-se humilhado por ter que expor aos pais de forma autoritária sua vida sexual e afetiva.

E finalizando, segue a Declaração de Tlaxcala (México), conhecida como a Declaração dos Direitos Sexuais dos Jovens

? Direito à autonomia sobre meu corpo e minha vida sexual. Decido o que fazer com meu corpo e com minha vida sexual e exijo respeito à minha liberdade. Direito à desfrutar de uma vida sexual prazerosa. Eu desfruto de meu corpo e do exercício de minha vida sexual, e necessito de um ambiente livre de culpas e coerção.

? Direito a manifestar publicamente meus afetos. Expresso meus sentimentos e afetos em espaços públicos, fomentando assim uma cultura de convivência harmônica.

? Direito a decidir com quem compartilho minha vida e minha sexualidade. Decido com quem ou com quantos compartilho minha vida, meus sentimentos, meus afetos e meu erotismo. Devem ser reconhecidas e respeitadas as formas de união ou convivência que eu eleja.

? Direito à privacidade em minha vida sexual. Tenho direito ao respeito de meus espaços privados e à confidencialidade em minha vida sexual. Nenhuma pessoa ou instituição tem direito à transgredi-los.

? Direito de viver livre de violência sexual. Ninguém deve ser objeto de coerção ou violência sexual em sua família, com seu semelhante, no trabalho ou em qualquer outro âmbito em que se desenvolva. Os sistemas de repartição de justiça devem proteger-me e garantir-me o exercício livre de minha sexualidade.

? Direito à liberdade reprodutiva. Decido ter ou não filhos, quantos e quando de acordo com minhas possibilidades e desejos. Pra apoiar minha decisão, tenho direito à informação e serviços de saúde.

? Direito à igualdade e à eqüidade. Todas as pessoas são livres e iguais em direitos e isto inclui o exercício de nossa sexualidade.

? Direito de viver livre de toda discriminação. O exercício de minha sexualidade não deve ser condicionado pela minha idade, caráter, sexo, orientação sexual, estado de saúde, religião, estado civil ou forma de vestir. O Estado deve garantir a proteção contra qualquer forma de discriminação.

? Direito à informação completa, científica e laica sobre sexualidade. Para decidir livremente sobre minha vida sexual necessito informação sobre prazer, vida afetiva, eqüidade e igualdade, reprodução, perspectiva de gênero, diversidade e/ou qualquer outro tema da sexualidade.

? Direito à educação sexual. A sexualidade é parte integral de nosso desenvolvimento; a educação sexual deve estar presente em todos os programas educativos para a infância e a juventude das instituições públicas e particulares, fomentando a eqüidade, a igualdade, o respeito.

? Direito à serviços de saúde sexual e saúde reprodutiva. Tenho direito a que o Estado me proporcione atenção gratuita, oportuna, confidencial, de qualidade, e sem nenhum tipo de preconceitos em todos os serviços de saúde.

? Direito à participação. Tenho direito a participar nos espaços de tomada de decisões que tem a ver com minha sexualidade e reprodução, desde a elaboração, implementação e avaliação de programas, políticas públicas e instituições sociais.

Texto: Andrei Blues Boy

Original: CMI Brasil.

Por uma sociedade sexualmente sadia

Eu encontrei um texto que aborda o tabu da nudez e crianças. Muitos trechos do texto corroboram os estatutos da Sociedade Zvezda:

Esta pergunta cresce distorcida na cabeça dos naturistas quando grupos políticos e religiosos tentam banir o nudismo social e até mesmo classificar arte e fotografias contendo a mera nudez como “pornografia”. Muitos “peritos” em educação infantil estão prontos a culpar uma exposição precoce à nudez, por várias doenças da infância. Será que é este o caso mesmo? Alguma confusão pode ser gerada a partir do desconforto inevitável que muitas pessoas – pais e educadores inclusive – sentem em relação a qualquer coisa que sugira sexualidade infantil. As pesquisas a respeito da sexualidade infantil parecem uma viagem através do deserto: longos trechos de “nada” intercalados por breves visões de atividade com algum interesse.

Alayne Yates (1979) historiou a confusa e esparsa evolução do estudo acadêmico do tópico da sexualidade infantil em geral, e em particular a pobreza de material conciso de referência para pais e educadores.

Nos Estados Unidos, pesquisa desta natureza tem sido historicamente vista como desnecessária (a reação mais leve), intrometida (uma crença comum entre educadores é que a sexualidade infantil é responsabilidade dos pais) ou malévola (especialmente entre pessoas e grupos que acreditam em certas religiões e dogmas). Os impedimentos à pesquisa é um problema, principalmente às famílias e os grupos que não compartilham dos pontos de vista prevalecentes a respeito da sexualidade em geral e do nudismo em particular.

Smith e Sparks (1986) citam inúmeros exemplos de famílias que são nudistas, mas que escondem costumeiramente este aspecto da vida, com medo de que os outros, descobrindo, vão desaprovar. Temem a desaprovação porque não tem base alguma de pesquisa acadêmica que apóie a crença de que o corpo é uma entidade normal e que a nudez não sexual não prejudica as crianças (e na verdade é benéfica).

Felizmente para as famílias nudistas, vários pesquisadores tiveram interesse no assunto da nudez e do desenvolvimento infantil. Infelizmente poucos além desses decidiram repetir essas pesquisas, possivelmente devido a razões resumidas por Yates. Este artigo pretende revisar e avaliar três estudos de pesquisa relevantes:

1. Estudo de Robin Lewis e Lois Janda de 1988, “A relação entre o ajustamento sexual do adulto e as experiências infantis de exposição à nudez, dormir na cama dos pais e o posicionamento dos pais em relação à sexualidade”;

2. O estudo de Ron e Juliette Goldman de 1981, “Como as crianças percebem as roupas e a nudez: um estudo transnacional”

3. Estudo de Marilin Story de 1979, “Fatores associados com concepções do próprio corpo mais positivas em crianças pré escolares”.

Influências da Infância no Ajustamento do Adulto

Lewis e Janda (1988) examinaram a relação entre o ajustamento sexual do adulto e a exposição infantil à nudez, dormir na cama dos pais e o posicionamento dos pais em relação à sexualidade. Eles chamam a atenção para descobertas conflitantes em estudos anteriores: alguns pesquisadores alertaram para conseqüências desastrosas de crianças vendo nudez enquanto que outros relataram benefícios.

Um assunto freqüente foi quanto à situação em que os pais de “forçavam” a ficar nus diante dos filhos (a fim de ensinar aos filhos as diferenças anatômicas fundamentais). Se esses pais não se sentissem à vontade com a nudez, a experiência seria provavelmente neutra ou negativa. Parece que a questão aqui não é a nudez em si, mas os posicionamentos da família em relação à qual é a atitude aceitável e tranqüila.

Lewis e Janda reuniram 210 estudantes universitários como cobaias para seu estudo. Todos os estudantes completaram um extenso questionário aquilatando três experiências fundamentais na infância (aqui definida como o período que vai desde o nascimento até os onze anos de idade): dormir na cama dos pais; posicionamento e tranqüilidade dos pais em relação à sexualidade; a visão dos pais, irmão e amiguinhos nus. Foi obtida também a graduação da tranqüilidade e ajustamento atual em relação ao sexo, através de um extenso questionário.

O estudo encontrou uma relação diretamente proporcional entre a exposição à nudez durante a infância e a tranqüilidade sexual na idade adulta. Os autores chamam a atenção, entretanto, que algumas pessoas poderiam ver isto como um motivo para evitar a exposição das crianças à nudez, pois a tranqüilidade mencionada foi medida incluindo a aceitação de padrões que seriam consideradas imorais ou indesejáveis (como o sexo pré-marital ou a aceitação da homossexualidade).

Os outros fatores (dormir na cama dos pais e a aceitação e tranqüilidade dos pais em relação à sexualidade), apesar de não serem relevantes no âmbito estreito desta discussão, também demonstram uma relação diretamente proporcional entre a exposição infantil à nudez e o ajustamento e a tranqüilidade sexual na idade adulta.

Estes resultados sugerem que as exposições das crianças a nudez e a dormir na cama dos pais não estão relacionadas a maus ajustamentos. Na verdade, a exposição a esses fatores foi correlacionada a uma auto-estima mais elevada e à tranqüilidade em relação à sexualidade. Além disso, as crianças cujos pais aceitavam a sexualidade tranqüilamente tiveram um grau ainda maior de auto-estima e tranqüilidade.

Estes resultados dão a ideia que relatos esparsos de “dano” causado por estes fatores na infância são a exceção da regra, e que as crenças e tabus sociais comumente aceitos precisam ser reexaminados.

As Percepções das Crianças da Nudez e da Sociedade

Muitos pais relutam em permitir que os filhos brinquem ou durmam nus. Ao explicar para as crianças, muitas vezes não usam motivos morais mas motivos pseudo-práticos (como “podes pegar um resfriado”)

Os pais também transferem o desconforto que sentem com a nudez ao dar nomes às partes do corpo, muitas vezes usando termos vagos como “ele” ou “lá embaixo”, em vez de pênis, escroto, vulva, clitóris e ânus. Os órgãos genitais e o períneo quase nunca são mencionados.

Ron e Juliette Goldman (1981) entrevistaram 838 crianças dos Estados Unidos, Inglaterra, Austrália e Suécia. As crianças tinham entre 5 e 15 anos de idade. Cada criança foi entrevistada individualmente e perguntada no sentido de provocar respostas dando uma idéia de compreensão da criança em relação ao uso de roupas, à nudez (conforme a sociedade como um todo a vê) e ao pudor.

Os pesquisadores fizeram três perguntas às crianças: “Imaginemos que morássemos todos num lugar bom e quentinho; será que precisaríamos usar roupas?” “Por quê?” (Isto é, quais as razões para responder “precisaríamos” ou “não”) e “Algumas pessoas sentem vergonha ou se acham ridículas de (mostrar) certas partes de seu corpo; por quê”?

Houve variações no palavreado, no caso de crianças mais jovens ou mais lentas (conforme escrito no original), mas após algumas entrevistas de teste, as perguntas acima, ao que parece, deram lugar a pouca ambigüidade para as crianças de todas as idades. As respostas foram codificadas e quantificadas para avaliar o nível de raciocínio cognitivo de cada criança para as respostas fornecidas. Não houve referência ao nudismo ou não da família apesar de que isto pudesse ser um fator de influência.

Este estudo descobriu que as crianças de fala inglesa foram as mais renitentes em dizer que as roupas são necessárias, mesmo em clima quente; destas, as crianças dos Estados Unidos foram as mais insistentes de todas. Quem falava inglês também avançou ao nível mais alto de raciocínio moral sobre os motivos para se sentir pouco à vontade quando nu e os motivos para usar ou não usar roupas. Parece que as crianças suecas ganharam sempre mais pontos e foram bem menos insistentes com as roupas embora vivessem num clima mais frio e tivessem mais motivos para achar que deveriam usar roupas. Os Goldman apontam para o fato que a educação sexual é compulsória na Suécia após 8 anos de idade e que as tradições do norte da Europa de sauna e FKK (Freikörperkultur ou “Cultura do Corpo Livre”) estão firmemente estabelecidas na Suécia.

Esta diferença cultural não fica tão evidente quando se examina os motivos para usar roupas e porque as pessoas poderiam ficar pouco à vontade quando nuas. O quadro revelado pelas percepções infantis foi um em que a nudez, e especialmente a nudez sexual, tem uma forte matiz de culpa.

Conforme aumenta a idade, as crianças dão-se conta da necessidade de não ser diferente (por trás das noções transmitidas pelos mais velhos). Ficou evidente através das respostas de muitas crianças, que foi transmitido raciocínio de nível inferior através dos ensinamentos de pudor pelos pais.

Os motivos pseudo-práticos mencionados acima são usados: Em vez de revelar a falta de desembaraço dos pais em relação à nudez e à sexualidade, o pai ou mãe trata de usar um motivo concreto, racional. Os resultados mostram, entretanto, que o processo de educação sexual deverá vencer miríades de mitologias e racionalizações adultas que impedem as crianças de entender, aceitar e aproveitar o corpo e os seus órgãos sexuais como naturais e normais.

Conflitos Entre as Percepções Naturistas e Não-Naturistas

A concepção do corpo é um aspecto importante da autoconcepção geral, porque as pessoas funcionam dentro das fronteiras do corpo físico.

As concepções baixas ou negativas do corpo têm sido relacionadas à ansiedade sem razão, capacidade diminuída para entrar em relacionamentos íntimos expressivos e diminuição das capacidades motoras.

As crianças de três a cinco anos conseguem identificar de forma válida a concepção do próprio corpo. Numerosos estudos com crianças mais velhas mostraram diferenças significativas entre as respostas masculinas e femininas a testes de concepção do próprio corpo – mas não bem definida tal diferença entre crianças menores. Além disso, não há estudo prévio que examine o papel do tipo de nudez social familiar no desenvolvimento da concepção do próprio corpo. Este estudo poderá ser a fonte mais útil para as famílias naturistas no momento em que tenham que estabelecer uma relação entre os dois.

Marilyn Story (1979) entrevistou 264 crianças de 3 a 5 anos e seus pais. Estes foram escolhidos e organizados de acordo com a situação da nudez familiar: nudista social, nudista exclusivamente dentro de casa (home-nudist) ou não-nudista. Todos eram americanos com números aproximadamente iguais de todas as regiões geográficas dos Estados Unidos.

Os pais foram entrevistados individualmente, para aquilatar as idades, sexos, pesos e ordem de nascimento das crianças. Cada criança recebeu um teste individual em que o entrevistador apontava para uma parte do corpo de um desenho de uma criança nua do mesmo sexo e raça da criança entrevistada e perguntava: “Você gosta do seu ______?”

Isto era repetido para 16 partes do corpo (embora o estudo não especificasse quais). Enquanto estava vendo o desenho, a criança era perguntada também “que parte de seu corpo você gosta mais? Por quê?” e “Que parte de seu corpo você gosta menos? Por quê?” As respostas a estas perguntas foram categorizadas e receberam valores numéricos.

Para as crianças não-naturistas, as respostas para as perguntas “Que parte de seu corpo você gosta mais?” e “Que parte de seu corpo você gosta menos?” não mostraram relação com raça ou localização geográfica. O Gênero foi significativo, as meninas gostando mais dos cabelos, olhos, nariz e boca e os meninos gostando dos braços e dos órgãos genitais; entretanto, os meninos e as meninas não naturistas quase sempre diziam que os órgãos genitais eram os que menos gostavam.

Para os meninos e meninas naturistas (inclusive os naturistas exclusivamente em casa) as respostas às perguntas acima deram resultados muito diferentes. Tanto meninos quanto meninas quase sempre afirmaram que os órgãos genitais eram as partes que mais gostavam. Os meninos e as meninas naturistas também quase sempre responderam que não havia parte do corpo da qual não gostassem, embora muitas vezes expressassem impaciência com a pele, não pela cor racial ou deformidade, mas devido a queimaduras solares ou pouco bronzeamento.

Story também descobriu que o nudismo foi a variável mais importante na concepção do próprio corpo do que foram o sexo, a raça ou a área geográfica. A relação entre o nudismo e a parte do corpo menos amada foi significativa (aproximadamente uma probabilidade de 1:10.000 de ser apenas um resultado aleatório), conforme foi discutido acima.

Na análise do teste das 16 partes do corpo, os naturistas (meninos) ganharam mais pontos que os não-naturistas e as não-naturistas. E as naturistas (meninas) ganharam mais pontos que os não-naturistas e as não-naturistas. Tirando o tipo de nudismo das variáveis, as diferenças nos escores foram bem menos significativas, com os naturistas tendo mais pontos que as naturistas, e os não-naturistas mais que as não-naturistas. O nudismo familiar teve uma correlação mais alta para elevar a concepção do próprio corpo do que teve o sexo, a raça e a localização geográfica. As crianças naturistas tiveram sempre maior número de pontos do que as crianças não naturistas em concepção do corpo, aceitação do corpo e auto-imagem.

Conclusão: A Nudez é Benéfica para a Família e para a Sociedade

Os resultados das pesquisas apresentadas falam em alto e bom som: a exposição das crianças à nudez não apenas não é prejudicial, mas parece ser benéfica. As crianças que são criadas como naturistas (ou em famílias que vêem a nudez como natural) acabam se tornando adultos à vontade com seus corpos e com a sexualidade.

Entretanto esta relação aparentemente clara, não é nem um pouco clara para a maioria dos pais, sejam naturistas ou não.

Yates (1978) teorizou que a maioria dos pais desconhece estes estudos ou o que eles refletem por dois motivos:

Primeiro: os naturistas ainda são amplamente (e erroneamente) tidos em nossa sociedade como aberrantes sexuais. Os que não são naturistas geralmente não têm qualquer experiência direta e pessoal que negue esses conceitos errôneos; muitos naturistas têm medo de revelar o que são por medo da incompreensão dos amigos e da sociedade.

Segundo: a pesquisa da sexualidade humana forneceu avanços estupendos no conhecimento da sexualidade adulta nos últimos cem anos, e isto foi visto como adequado, pois os adultos são claramente seres sexuais. Já a pesquisa paralela, a respeito das crianças, avançou com muito mais lentidão porque os pesquisadores detestam o tópico.

A pouca pesquisa feita, geralmente não foi repetida. A falta de duplicação levou a uma ausência geral de crédito entre aqueles que se baseiam nas pesquisas para darem as opiniões profissionais – e são estas pessoas que aconselham os pais diretamente.

Assim, nos resta o conselho do Dr. Spok, que nos alerta para os horríveis efeitos da exposição das crianças à nudez, mas que nunca fez pesquisa própria – aparentemente as suas conclusões foram baseadas num único caso isolado, que envolveu seu próprio filho.

A Dra. Joyce Brothers, que alerta os pais das “culpas e frustrações terríveis” que as crianças sofrem quando são expostas à nudez normal, também não fez pesquisa própria, mas aparentemente baseou as suas conclusões num trabalho que realizou com crianças emocionalmente perturbadas (Smith e Sparks, 1986)

Descobrimos através de Smith e Sparks que alguns “peritos” publicados por toda parte não são peritos coisa alguma, mas sim indivíduos que tem opiniões pessoais, por acaso, também são bastante lidos por pais que confiam nas opiniões ali expressadas resultam de pesquisa normal.

Bill Peckenpaugh

Tradução: Sérgio Costa

Original: Peladistas Unidos.

Relacionamentos inter etários

Na sociedade brasileira, hoje mais do que nunca, confundem-se situações de abuso e de exploração comercial de [pessoas] com relacionamentos, assim, até mesmo os relacionamentos inofensivos e legítimos entre [pessoas] tornam-se objeto fácil de denúncias preconceituosas, falsas e criminosas. Denunciar anonimamente é fácil, mas torna-se por vezes atitude irresponsável, e deveria ser crime quando este ato de denunciar se baseia em falsas premissas, preconceito e ignorância, por expor a vida de alguém inocente a uma investigação ou a um inquérito constrangedor, que muitas vezes pode deixar marcas psicológicas tão traumáticas e doloridas quanto as marcas que um abuso real pode deixar, marcas [nas pessoas], ambas indevidamente expostas.

E porque hoje são perseguidos e denunciados muitos relacionamentos [inter etários], sendo que na história humana estes sempre foram comuns e tolerados?
Talvez os que se abandonam numa posição passiva e confortável estejam sendo cúmplices e coniventes de um governo cada vez mais dominador, intromissivo e imperialista, com olhos 24 horas apontados pra dentro de todos lares, como previu décadas atrás o genial George Orwell, em sua ficção científica, “1984”. Talvez achem mais fácil e conveniente relegar a responsabilidade pela criação de seus filhos a um Estado obeso e ineficiente, pois assim não terão que se auto responsabilizar-se pelos erros cometidos. Apesar da maioria dos abusos sexuais de [pessoas] ocorrerem no lar, no quesito relações, o Estado não tem a capacidade nem deve ter passe livre pra interferir na vida íntima de seus cidadãos, a não ser em casos em que é óbvia, casos em que é evidente a violência, o abuso ou a exploração sexual. As [pessoas] devem [ter] educação sexual de qualidade, totalmente isenta de preconceitos, pra que elas principalmente possam se resguardar do risco de serem exploradas, abusadas ou violadas, e previnam-se convenientemente dos riscos de que a início de atividade sexual, seja também o início de problemas como DSTs e gravidez precoce, e pra que também não disseminem mais preconceitos como a homofobia, o racismo, o preconceito de classes, o de idades, o bullying, etc.

Olhando pra trás, busquemos a liberdade dos relacionamentos intergeracionais nas raízes da raça humana: dos povos nativos e mais primitivos de nosso planeta até à pederastia na sociedade grega que tanto legou à nossa civilização, onde adultos elegiam [pessoas em formação] como seus erastes (efebos amantes e aprendizes, quando havia o consentimento destes); dos primórdios da história da religião ocidental mais poderosa, o cristianismo, no relacionamento entre José, que desposou a mãe de Jesus, Maria, com 14 anos, até [a pessoa formada] de nossos tempos que tem um romance com um(a) [pessoa em formação], é fato histórico que sempre foram e são comuns os relacionamentos afetivos sexuais intergeracionais ou inter-etários entre [pessoas].

Até a cultura popular brasileira em suas mais premiadas, belas e destacadas expressões enaltecem [a pessoa em formação], ao [amor precoce], tão comum é a paixão [entre pessoas]. A música brasileira mundialmente mais executada de todos os tempos, na composição do imortal Tom Jobim, é uma ode à “Garota de Ipanema”. E são inúmeras as composições românticas dedicadas a meninas e meninos. Mesmo Raul Seixas, o roqueiro brasileiro mais idolatrado de todos os tempos, mostra de forma explícita em sua composição “Baby”, o apelo de sedução dirigido a uma [pessoa em formação].

Numa composição mais atual, “Nosso Sonho”, os funkeiros cariocas Claudinho & Buchecha emocionam ao confessar os impecilhos na realização do sonho, que na canção é viver a paixão com uma [pessoa em formação].

Observando desde tempos passados mais liberais até o início do que hoje se torna uma paranóia ultraprotecionista que acaba por prejudicar [as pessoas] em sua liberdade de expressão afetiva e sexual.

O modo de vida dos séculos XV e XVI poderia ser chamado de pró sexual. A sensualidade era praticada, as [pessoas] eram acariciadas e estimuladas pelos próprios [progenitores] ou pelas [tutoras], para acalmá-las. Eram normais as relações entre [pessoas] e os contatos pré-conjugais eram institucionalizados. Costumava-se dormir nu e no mesmo quarto; assim [as pessoas em formação] não precisavam ser “esclarecidos”, pois podiam ver, assistir, sentir e aprender com [os experientes]. Nessa época, o sexo ainda não estava separado do resto da vida e ainda era possível exprimir crua e claramente o que se desejava ou se sentia sexualmente. Por exemplo, [a pessoa em formação] sabia que tinha necessidade de [um parceiro/a] e podia falar disto aos [progenitores]. Já no século XIX, ao contrário, exprimir abertamente esta necessidade era sinal de corrupção moral. Era outra, então, a forma de ser do homem no mundo.

Buscando um pouco nos povos mais primitivos, porém formadores da raça brasileira, num artigo da educadora Jimena Furlani conclui-se com exemplos de como os povos tribais não atribuem carga negativa a relacionamentos afetivo-sexuais entre [pessoas], já que esta forma de relação em suas culturas não está associado ao uso de violência e poder, ou seja, não estão condicionados a atos de estupro, abuso, exploração sexual ou prostituição. Assim, o problema maior persiste no valor que nós civilizados damos ao poder e ao dinheiro. Segundo a educadora, foram ou são notados em alguns povos indígenas os seguintes hábitos:

• Entre as tribos Bororó, na América do Sul, [pessoas em formação] que não estivessem ainda casadas, poderiam participar de sexo grupal, uma vez que aquela cultura não considerava a idade imprópria, tampouco via a virgindade como uma virtude a ser preservada. A idéia de preservação [da virgindade] é, sem dúvida, uma herança ocidental trazida com o Cristianismo.

• Entre os povos indígenas norte-americanos Hopi e Navaho, e entre os indígenas da América do Sul, os Sirionós, Kaingáng e Kubeos, as mães acariciam os genitais dos [descendentes].

• Entre os Yânomamö (América do Sul), os [progenitores], com freqüência, colocavam a boca [no órgão de suas pessoas] para chupá-las.

• Entre os povos indígenas Sirionós, durante o aleitamento, as mães não somente acariciavam o [órgão do descendente] até que ficassem [excitados], como também esfregavam o [orgão excitado em seus orgãos], do mesmo modo que foram observados [pessoas] enquanto brincavam com os órgãos sexuais de seus [descendentes]. Para os Sirionós, o significado conferido à sexualidade era infinitamente menor do que conferimos em nossa sociedade ocidental. Por serem um povo muito castigado com a escassez de alimentos, passavam a maior parte do seu tempo na busca de comida do que conferindo significados negativos aos seus atos sexuais.

• Entre os Trumai (América do Sul), freqüentemente [pessoas em formação] iniciam as brincadeiras sexuais com [pessoas formadas] e às vezes com seus [progenitores]. Raramente [essas pessoas formadas] tocam nas [pessoas em formação], elas, por sua vez, é que costumam puxar o [orgão da pessoa formada]

Pra muitos algumas das descrições acima podem parecer chocantes, ultrajantes ou imorais, porém a realidade destes povos quando isolados e intocados pelos valores ético religiosos de nossa civilização são muito diferentes dos nossos. Além de não se prenderem ao conceito de posse e poder, até a concepção de tempo e espaço de um povo indígena é muito diferente, e não existe pecado algum no sexo ou brincadeira sexual espontânea e consensual sem violência, pouco importando a diferença de idades.

Partindo de relacionamentos afetivos sexuais autênticos entre [pessoas], em que os dois lados estão interessados e envolvidos, ou até mesmo de carinhos ocasionais e brincadeiras afetivas com algum caráter erótico, até chegarmos em situações reais de violência, abuso e exploração de menores, existem dimensões às vezes intransponíveis de distância, por serem situações extremamente diferentes, opostas e muitas vezes sem paralelo. Uma denúncia falsa ou feita sem base pode escandalizar e causar prejuízos psicológicos [para ambas as pessoas envolvidas]. É certo também que muitas vezes abusos podem maquiar-se de relacionamentos consentidos e desejados, sem de fato o serem, sendo assim muito difíceis de serem descobertos, e devem ser investigados sim. Porém alguns dos exemplos acima citados deveriam nos fazer refletir que, pouco importando o nome que se dê ao ato em si, a beleza na diversidade de relacionamentos humanos em culturas e costumes diferentes deve ser respeitada e preservada, com o mesmo empenho que dedicamos hoje à manutenção das espécies em extinção, na medida em que estes comportamentos mostrem-se comprovadamente inofensivos à vida, à liberdade e aos direitos fundamentais de cada ser humano.

E o preconceito intergeracional ou inter-etário (preconceito de idades), em suas mais diversas formas, deveria ser considerado crime contra toda humanidade que se digne de ser livre, sendo que um destes preconceitos mais comuns é o de usar como exemplo atos de exploração e violência cometidos por [pessoas] contra [pessoas] pra fomentar o preconceito de que estes seriam padrões no relacionamento [inter etário], quando ninguém em sã consciência se basearia em casos iguais (de exploração, abuso, estupro e até assassínio) pra proibir ou desmerecer o relacionamento comum entre [pessoas] heterossexuais ou homossexuais.

Por Andrei Blues Boy

Original: Anti Preconceito Inter Etário

Nota: alterações e edições necessárias para evitar interpretações equivocadas e reações ignorantes.

A morte da carolice

Luiz Felipe Pondé é um filósofo curioso. Ele é o autor do livro “Guia Politicamente Incorreto do Sexo” e ao mesmo tempo é o que mais apregoa em seus textos a carolice disfarçada de intelectualização refinada. Ele deve ser ainda do tempo em que, no máximo, os casais faziam a posição “missionário”. Ele ainda está perdido, como o coroinha abusado pelo padre, ao perceber que o sexo não se resume ao papai-mamãe ou ao binômio de gênero.

Pondé em seu texto ao anunciar a morte de Freud ele comete diversos atos falhos expondo suas inseguranças e imaturidade sexuais. Como bom puritano, provinciano, conservador e carola controlado pela moral judaico-cristã, ele profetiza que no futuro o sexo será coisa de pobre. Uma afirmação suficiente para o Pai da Psicanálise ter interesse em voltar da tumba para tratar da pulsão de Pondé.

Mas vamos fazer essa concessão e admitir que no futuro sexo será coisa de “gente pobre”, o que é um evidente preconceito social e econômico. Então o que será coisa de gente “classe média” ou de gente “rica”? Para Pondé o acumulo de riqueza pressupõe mais instrução e isto fará das elites um bando de punheteiros. Até parece o discurso de Levi Fidelis falando que aparelho excretor não reproduz. Pondé deve ter pulado as aulas 101 de sexualidade ou nunca teve educação sexual. Vamos tentar ajudar: nem sempre sexo e reprodução são a mesma coisa. Bater punheta, fazer um boquete, entre outras atividades “lúdicas” com nossos órgãos sexuais são…[óbvio]…parte do sexo.

Eu gostaria de saber com que base Pondé atribui à concentração de renda ser necessariamente mais instrução, diante da estupidez e ignorância demonstrada por ricaços. Em termos de vida sexual, a concentração de renda dá aos ricaços uma imensa vantagem e diversidade que nós, pobres mortais, apenas podemos sonhar.

Eu acho que é isso que incomoda Pondé quando ele usa o “futuro” punheteiros dos ricos para expor sua maior insegurança: a confusão latente costumeira entre sexo e gênero. Pondé realmente acredita nessa que é a verdadeira Ideologia de Gênero imposta pela Igreja de que existem apenas meninos e meninas.

Ato falho contínuo, Pondé profetiza que o futuro será um mundo com histéricas, puritanos, carolas em geral. Interessante que a histeria foi um sintoma causado exatamente pela política sexual da Igreja por séculos. Desde que se tornou a religião oficial do ocidente “civilizado e branco”, a Igreja espalhou esse conceito de pecado e interdição que reprimiu e oprimiu a cultura europeia. Tudo aquilo que era referente ao corpo, ao desejo, ao prazer, ao amor e ao sexo chegou ao extremo de condenar o casamento heterossexual. Hoje a Igreja é a que mais defende a “tradição cristã” do casamento, desautorizando outras formas de relacionamento, como se ainda precisássemos de permissão da Igreja.

Para o desespero de Pondé, nós passamos da Era Moderna, nós passamos da Era Contemporânea, nós superamos o Pós-Modernismo e nós estamos apenas começando o Pós-Humanismo, em direção ao Trans-Humanismo. Como bom desonesto e preguiçoso intelectual, Pondé acha mesmo que a relativização do gênero, que se demonstrou mais ter origem cultural do que natural, é o mesmo que dizer que o corpo é uma representação social, como se isso negasse nossa sexualidade. O conceito de que fazemos de nosso gênero, de nossos papéis sexuais, de nossas identidades/personalidades/ preferências sexuais é uma representação social porque está inserido em um contexto temporal, social, cultural, linguístico e político. A referência do ser em si mesmo, o corpo, está onde está, como sempre esteve, mas a forma como tomamos consciência desse corpo, de nosso ser em si mesmo e de como percebemos essa relação entre corpo/gênero/sexo, são configuradas conforme os ditames de nosso sistema.

Pondé, horrorizado diante da humanidade redescobrindo seu corpo, faz a mesma arenga do padre e pastor: a carne [sexo] é a porta para o pecado [morte]. Os franceses, românticos ao extremo do dramático e do trágico, bem que falam que o orgasmo é “la petit mort”. Bem que nós ficamos extenuados após o clímax, mas gozar é o medo de Pondé. A pulsão do sexo é o prazer, o desejo, eventualmente a reprodução, em suma, é o êxtase da vida, negação da morte.

Sexo tem tanto mais a ver com a vida que este teatro é necessário para produzir novas gerações, ao mesmo tempo em que carrega em si o risco das doenças venéreas. Pobre Vênus! O ser humano é tão complexado com tudo que é carnal que usou o nome da Deusa do Amor e do Sexo para designar doenças que são transmitidas e contraídas no ato sexual! A doença, não cuidada, não medicada, pode levar o doente à morte, mas pela ação da bactéria, bem viva, sexo não mata. Eventualmente amantes se matam nos chamados “crimes de honra”, mas isto acontece pelo sentimento de posse que uma das partes se ache no direito sobre o corpo, o amor, o desejo, o prazer e o sexo da outra parte, ali não há mais amor.

Para um filósofo que publicou o “Guia Politicamente Incorreto do Sexo”, Pondé está mais para um policial de costumes, um carola recalcado. Nós ainda carregamos muito dessa culpa e medo que existe na cultura judaico-cristã. Nós ainda não compreendemos Freud e falta muito para destravarmos das descobertas feitas por Kinsey. Nós estamos revivendo nossa puberdade. Com alguma sorte, amadureceremos e será a morte da carolice.

O pesadelo de Marcela

Uma fábula pós-moderna, ambientada no Brasil.

Titulo alternativo: a nada fácil vida de uma boneca.

Personagens: Marcela e Pimpão.

Tema: a hipocrisia de uma sociedade machista patriarcal e sexista em promover uma manequim de vitrine como modelo de mulher.

Nascida em uma família tradicional e conservadora, Marcela assim que pôs seus pés no mundo, ouvia de seus pais aquilo que seria seu roteiro, pelo resto de sua vida.

– Sente direito! Vista-se direito! Coma direito! Fale direito! Comporte-se direito!

Desde que nasceu, Marcela não conheceu outra forma de viver senão pelas regras que seus pais, a família e a sociedade lhe impunha desde pequena. Como na sociedade europeia do século XVIII, a vida de Marcela se resumia a ser um manequim de vitrine, um acessório, um símbolo de status de sua família, de seus pais, ou de seu marido.

Ela foi bem treinada, desde o berço, a seguir o que era socialmente aceito e elogiável. Ela estudou apenas nas escolas que endossavam o patriarcado, ela só aprendeu o conteúdo que interessava para manter o machismo, ela tinha o comportamento moldado para agradar ao sexismo reinante.

Quando sua família lhe apresentou seu futuro marido, um homem que tinha idade para ser seu avô [aqui entra discussão sobre a discriminação etária], ela fez aquilo que ela foi treinada. Sorria, sentava e aceitava o destino que traçaram para ela. Como esposa bela, bonita e do lar, ela cumpriu seu papel, tornando-se um mero assessório e símbolo de status para seu marido.

Então houve uma eleição e seu esposo foi na posse como vice-presidente e ela foi fazer sua figuração, até que grupos descontentes com o resultado da eleição começaram a conspirar para tomarem o poder, nada que abalasse sua personagem e seu papel. Tudo isso mudou quando a mesma Imprensa que parecia fazer parte da conjuração divulgou uma carta, vinda de seu marido, para a presidente do país, dando a entender que havia algo mais entre os dois [aqui entra discussão sobre o tabu social com relacionamentos extraconjugais].

Marcela foi tentar dormir naquela noite visivelmente nervosa. Nada daquilo que disseram ou ensinaram para ela a tinha preparado para lidar com esse papel de traída. Ela tinha feito tudo o que a mandaram fazer, mas ela não estava tendo o “felizes para sempre” que prometeram para ela. Até aquele dia, ela vivia como uma princesa de contos de fada, mas agora tinha que lidar com seu príncipe encantado fazendo juras para a “outra”, a “amante”, a “madrasta”. Em sua cama, Marcela ficava agarrada ao seu ursinho de pelúcia, doce lembrança de sua infância, para tentar afugentar as sombras que pareciam estar mais espessas naquele quarto, onde ela estava sozinha com seus pensamentos.

– Por que, Pimpão, por quê? Eu nasci em berço abençoado e tive minha infância acompanhada por fadas madrinhas. Eu cresci como as profecias diziam que seria e eu me tornei a princesa de um reino, ou pelo menos de uma república. Então por que está acontecendo isso? Onde foi que eu errei?

– Seu erro foi aceitar ser um mero manequim de vitrine, Marcela.

– Oh! Pimpão! Você fala!

– Evidente! Ao contrário de você, eu tenho cérebro, personalidade e identidade próprios. Agora cala a boca e dorme. Você não é Cinderela nem Bela Adormecia às avessas. Continue sendo uma boneca, no pior sentido possível.

– Mas eu não quero isso! Eu quero meu final feliz! Eu quero ser a mais bela de todas, eu quero ser a rainha, eu quero ser amada e idolatrada!

– Ah, mas isso você terá. Pena que não terá alma para sentir o gosto.

– Mas eu tenho alma! Eu fui batizada na igreja! Eu até me casei em uma! Aonde eu vou, todos me admiram!

– Ah, pobre Marcela, admiram a imagem do que você reflete, como bom espelho sem alma que você é! Todas essas suas roupas, suas joias, sua educação primorosa, sua habilidade em oratória… tudo tinha o intuito de servir como um adorno, um acessório, para mostrar a riqueza e o status de seus donos, antes seus pais, agora seu esposo. Nada disso que tem realmente é algo significante ou pertinente ao que você é, uma mera boneca, tão artificial quanto as bonecas de plástico.

– Não, não, não! Eu ganhei essas coisas por que eu merecia! Essas coisas que eu recebi eram necessárias para a minha jornada e aqui eu estou, sem saber o que faço! Nada daquilo que eu recebi me preparou para enfrentar esse… pesadelo!

– Pois então! Aí está seu erro. Aceitou aquilo que te ofereceram e acreditou que era para o seu bem, que seria importante para o seu futuro, mas quem vai ter o final feliz, embora tão curto e tão trágico quanto MacBeth, será seu marido.

– Isso faz de mim… Gruoch? Não, não, não! Eu sou uma princesa pura, ingênua e casta, eu sigo as doutrinas da Igreja, eu sou uma mulher de virtudes cristãs!

– Oh, minha pobre Marcela, nunca foste pura, ingênua e casta! Devia ler mais seu texto sagrado! Ali, a sina e destino da mulher é nascer, viver e morrer como a pecadora, a causadora da queda do homem, mesmo quando ele é quem causa sua queda! Acha mesmo que quando seu príncipe cair, você será salva do clamor popular? Não se esqueça do que aconteceu com a rainha Maria Antonieta.

– Oh! Horror! Basta! Eu não quero esse destino! Eu quero ser feliz!

– Tarde demais, Marcela. Aqui não há mais baile, nem fadas madrinhas ou abóboras que são carruagens. Querendo ou não, você tem parte nisso. Você sabe muito bem o que seu marido está tramando e nada faz. E se fizer, conhecerá mais cedo sua queda. A única pessoa que poderia te ajudar é esta que está sendo conduzida ao cadafalso. Ela e milhares de mulheres que tiveram a coragem de ser o que queriam ser, contra os ditames da sociedade, contra as doutrinas da Igreja, contra a supremacia masculina.

– Ah! O que você sabe? Você é apenas um urso de pelúcia!

– Sim, eu sou, mas é você quem está falando com um simples urso de pelúcia. Eu sou estufado com espuma. Qual é a sua desculpa?

Marcela tem um treco no dia seguinte ao ver as manchetes de uma conhecida revista conservadora, de quem muitos suspeitam estar envolvida na conspiração, dando a ela o título de “bela, recatada e do lar”. Seu marido cogitou em interna-la, mas não teve tempo. As brigas internas dos grupos interessados na tomada do poder somente deixaram mais visíveis a trama que estava sendo urdida. Toda aquela gente oprimida ouviu o apelo daquela que estava sendo ojerizada e foram à luta. Os conspiradores foram todos identificados, processados, condenados e presos. Marcela não teve seu final feliz, mas o Brasil pode vir a ter. Só depende de nós.