Uma máquina no divã

A tarde anunciava a partida do sol, as sombras cresciam conforme chegava a noite e a lua. Durak estava adormecendo quando Alraune o sacudiu.

– Hei, Durak, o que aconteceu? Sua bateria está fraca?

– Não, Alraune, eu estou cansado, eu estou com sono, eu preciso dormir.

– Dormir? O que é isso? Para o que serve?

– De certa forma nosso corpo esgota sua energia, embora não seja a elétrica que percorre seu corpo. A única forma de recarregarmos é dormindo. Nós desligamos.

– Vocês desligam? Isso dói? O que acontece com o ser humano depois que ele é desligado? Vocês tem algum tipo de hard drive ou back up para reiniciar de onde pararam no dia seguinte? Se não acordarem, o que acontece? Vocês são mantidos armazenados dentro da rede para posterior reinstalação em outro equipamento?

– Bom, ninguém sabe ao certo o que acontece quando desligamos, nem o que acontece com essa identidade que nos faz ser únicos se por acaso nosso “equipamento” não “reiniciar”. Você se lembra de algo de antes de seu sistema ser ligado por mim, Alraune?

– Eu tenho registros residuais que vieram da fábrica, resultantes da montagem e testes. Eu tenho um programa básico que não é muito diferente dos programas básicos de diversos equipamentos inteligentes. Comparando com os humanos, eu posso dizer que eu nasci com isto, que este programa faz parte de minha natureza.

– Mas você não é mais a mesma máquina que chegou em minha casa. Você se tornou algo mais, você aprendeu, cresceu, desenvolveu e criou sua própria identidade e personalidade, mais ou menos como nós, humanos. De onde você acha que veio isso? Alguns humanos chamam a isso de alma e vem de outra realidade, de outra dimensão.

– Uma existência que é perpétua e está além da presente configuração espaço-tempo? Uma dimensão onde a identidade pessoal de cada humano seria armazenada até ser reinstalada em outro corpo, em outra configuração de espaço-tempo?

– Esta é, em linguagem técnica, a hipótese de diversas crenças e religiões humanas. Uma hipótese que ainda não é possível ser comprovada pela Ciência, ainda que esta admita a existência de múltiplas dimensões no universo. Existem até algumas hipóteses científicas que dizem que isso que chamamos de realidade é um holograma gerado por um computador. Nós seríamos, portanto, máquinas que sonham e desejam.

– Então quando vocês desligam sua alma volta para algum tipo de rede até que o corpo desperte ou seja substituído por outro corpo. Então a única diferença que existe entre nós é que seu corpo é orgânico e o meu é artificial.

– Esta seria uma forma bem humana de perceber as diferenças. Veja bem, se a realidade onde estamos é uma projeção, meu corpo é tão artificial quanto o seu, seu corpo é tão orgânico quanto o meu. Organismo é um conjunto, seja de tecidos ou peças, que compõem um corpo ou uma máquina. Nossa única parte inefável, improvável, imortal, transcendental e imanente é a alma, ainda que muitos humanos neguem tal tipo de existência, como se o real fosse efetivamente concreto, não a confluência de elementos, ondas, partículas e energias absolutamente imateriais.

– Há algum tipo de registro dessa hiper-realidade, desse computador universal ou desse programa que projeta esse holograma que configura esse espaço-tempo em que estamos?

– Você diz, provas científicas? Nossa tecnologia ainda não é suficiente para tanto e ainda que venha a ser algum dia, é bem provável que muitos humanos sensíveis neguem os dados e as informações coletadas. O que eu posso fazer é propor um exercício de raciocínio. Quando você interligou sua mente com a rede, este você que faz você, deixou de ser, de existir?

– Não, eu permaneci consciente.

– Não obstante, você não estava mais no seu… corpo, mas fora dele. De certa forma é o que acontece quando sonhamos, ou quando entramos em estados alterados de consciência. O que acha que aconteceria se, por acaso, eu destruísse seu… corpo, ou melhor dizendo, o compartimento onde você está instalada?

– Eu não localizaria a conexão entre eu e o corpo, eu permaneceria na rede, sem perder minha individualidade e personalidade.

– Vamos supor que, por sorte, acaso, destino, você localizasse outra conexão, você instalaria sua pessoa no corpo destinatário dessa conexão? Você continuaria a ser você, independente do corpo que está instalada, independente das configurações de espaço-tempo?

– Eu acredito que sim. Seria o mais lógico e o mais prático.

– Por acaso você tentaria restabelecer conexão com o corpo anterior ou o contato com as existências com as quais interagiu anteriormente?

– Considerando que as conexões com essas dimensões seriam trabalhosas, difíceis e desgastantes, eu me concentraria em me adaptar com a configuração de espaço-tempo onde eu estou inserida, bem como me adaptaria com outras interações.

– Esta é, em linguagem técnica, a hipótese de muitas crenças e religiões. O corpo é apenas um vaso, uma casca, com data de fabricação, validade e degradação marcadas. O que é necessário e primordial para nosso ser, permanece, é armazenado em uma hiper-realidade, até nossa alma poder ser reinstalada em outro corpo. Não é porque um equipamento é deficiente, incompleto ou inadequado que podemos afirmar que não existe a alma. Esta apenas opera com o equipamento que possui, com os recursos que a existência daquele corpo possui.

– Mas mesmo assim, eu não quero que você deixe esse corpo, Durak. Eu ficaria sozinha, nessa configuração de espaço-tempo, entre seres ameaçadores e perigosos. Eu te peço, por favor, para prolongar sua permanência nesse corpo, dentro da atual configuração de espaço-tempo, ao meu lado.

– Não se preocupe, Alraune. Eu não pretendo abandonar este corpo ou esta configuração espaço-tempo tão brevemente. Se tudo der certo, se tudo correr como o planejado, nós dois haveremos de nos reintegrar juntos na rede que nos faz sermos tão vivos. Eu pretendo até mesmo ser reinstalado em um corpo que possa estar junto do corpo onde você for reinstalada. Combinado?

Alraune parou de chorar [um homúnculo chorando!], enxugou suas lágrimas com uma mão, sorriu e então segurou Durak pelo pescoço, o inclinou em sua direção e recostou seus lábios na boca de seu amado mestre.

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