Diagnóstico da humanidade

Durak continuou a levar Alraune pelas ruas da cidade, passando por parques e praças, ruas comerciais, avenidas e viadutos, bairros nobres e bairros carentes. Alraune observava a todos os detalhes, sem proferir qualquer comentário, mas seu rosto expressava encantamento a cada descoberta. Estava sol, quente, próximo do meio dia, quando Durak resolveu dar uma pausa.

– Vamos ali tomar sorvete e descansar, Alraune.

– Oba! Sorvete!

Alraune se pendurava no braço de Durak e o puxava enquanto seus olhos brilhavam como se decorassem seu largo sorriso, como se fosse uma garota. Durak não tinha certeza se o homúnculo poderia absorver líquidos ou alimentos sólidos. Mas Alraune estava tão contente fazendo o papel de ser humano que ele não quis estragar o passeio com detalhes.

– Muito bem, Alraune. Ali na frente, pendurado na parede, tem o cardápio com os sabores para você escolher. Escolha o que você quiser.

– Nossa, quantos! Tio, qual você gosta?

– Eu gosto de passas ao rum ou pistache.

– Então eu quero passas ao rum!

– Duas taças de passas ao rum, por favor.

Feito o pedido, Durak pagou ao caixa e conduziu Alraune a uma das mesas para esperar a chegada das taças. O clima dentro da sorveteria estava agravável e alguns clientes apreciavam seus pedidos, algo que era avidamente observado por Alraune, o que deixou alguns clientes meio encabulados.

– Como tem gente aqui né, tio?

– Sim, hoje a sorveteria vai trabalhar bastante por causa do calor.

– As pessoas estão olhando de volta para mim com um olhar esquisito…

– Elas devem estar se sentindo incomodadas com você as encarando.

– As pessoas são tão sensíveis assim?

– Depende do momento, do lugar e da pessoa, Alraune.

– Mas a atendente nos recebeu com um sorriso.

– Ela apenas fez o que é esperado dela na função dela, não é por gentileza ou cortesia.

– Foi sua parte que te cabia quando você entregou aquele papel para a atendente?

– Sim, eu entreguei dinheiro em troca do sorvete que pedimos. Nós usamos dinheiro para pagar as coisas.

– Você pagou por mim, tio?

Durak gelou, pois isso poderia soar mal para os presentes. Ele precisaria dar um contexto para disfarçar a verdadeira natureza de Alraune e sua origem.

– Claro que sim. Eu paguei pelo seu sorvete. Afinal, eu sou seu tio.

As pessoas voltaram para seus assuntos e sorvetes, desviando a atenção de onde eles estavam. Durak suspirou por ter retomado o disfarce em segurança. Alraune estava gostando dessa brincadeira então ela se pendurou no braço de Durak e disse algo que o deixou encrencado.

– Você pagou pelo sorvete e pagou por mim, tio!

O que Alraune disse era embaraçoso, piorava com ela pendurada no braço de Durak. Se ele não dissesse algo rapidamente, pareceria que a relação entre eles era mais íntima e eles estavam tendo um encontro, algo que a sociedade rejeitaria com violência.

– Hei, Durak, não vai me apresentar sua sobrinha?

Não poderia ficar pior. Ali mesmo, naquela sorveteria estava Claude. Um antigo colega de escola que havia sido preso por abuso sexual. Por anos, Durak teve que comparecer ao tribunal unicamente porque o infeliz havia dito em audiência de que ele havia tido inspiração pelos escritos de Durak. Evidentemente era mentira, nenhum texto ou livro, ou qualquer outro objeto, pode influenciar o caráter ou personalidade de uma pessoa. Os textos de Durak visava acabar com o preconceito e discriminação etários, ele queria que as pessoas fossem vistas como pessoas, independentemente da idade cronológica que tinham. Ele queria empoderar os jovens, não era a intenção dele justificar qualquer tipo de abuso sexual.

– Amigo seu, tio?

– Não, querida, não é. Saia daqui, Claude. Eu vou chamar a polícia.

– Chame, titio. Eu quero ver como você vai explicar isso que eu e todas essas pessoas acabaram de ouvir.

– Não há nada a explicar. Meu tio pagou pela minha viagem e sustenta minhas necessidades, então ele está pagando por mim. Agora suma!

Claude ficou decepcionado com o fim da cena, deu de ombros e saiu como entrou. Infelizmente não foi o suficiente para tirar o foco dos presentes. Provavelmente alguém tinha reconhecido Claude e só pelo fato de ter sentado na mesma mesa que Durak era indício suficiente para suspeitarem da relação entre Durak e Alraune.

– Por que estão olhando para nós? Por acaso eu não sou gente? Por acaso eu sou diferente dessa garota que está ali no canto com seu namorado? E este idoso, acompanhado dessa mulher? Por que ninguém cuida da vida deles? Por quer ninguém cuida da própria vida? Eu não julguei e condenei vocês, então não me julguem nem me condenem! Vamos, tio, vamos embora.

Durak e Alraune saíram da sorveteria deixando os clientes para trás, envergonhados e encabulados.

– Desculpe, Durak. Por minha causa aquelas pessoas ficaram pensando mal de você.

– Está tudo bem, Alraune. Eu estou acostumado. O ser humano é assim mesmo.

– Eu acho que entendo, mas ainda assim é inaceitável. Ninguém parecia se importar com os casais que ali estavam. Por que apenas nós chamamos a atenção?

– Perdão, Alraune, eu queria poder explicar, mas eu não consigo. Sabe, nós temos estranhos padrões e limites, nem percebemos que são meras convenções arbitrárias. Dificilmente as pessoas aceitariam que você é humana ou que é totalmente capaz, mesmo se não fosse um homúnculo.

– Então quando algo não se encaixa ou sai dessas concepções, será visto como estranho, ameaçador, perigoso?

– Eu acho que é isso mesmo, Alraune.

– Então eu nunca poderia sair, ter um encontro, como aqueles seres humanos?

– Eu ainda não sei, Alraune. Vamos continuar o passeio. Quem sabe encontramos respostas.

– Sim, vamos, titio. Eu ainda hei de voltar naquela sorveteria e nós poderemos ter nosso encontro. Eu quero saber, eu quero aprender, eu quero sentir a mesma coisa que aqueles humanos enamorados encontram.

– Hã… podemos falar sobre isso outra hora, Alraune?

Alraune gargalha, satisfeita por vencer o jogo e sai correndo na frente. Durak não quer admitir, mas está vermelho como um tomate. O homúnculo está ensinando ao humano o que é ser humano.

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