Ponderações sobre uma boa causa

Alunas do Colégio Anchieta em Porto Alegre lançaram um movimento intitulado #vaitershortinhosim. O movimento chamou a atenção do brasileiro porque aconteceu em um colégio gerenciado pela Igreja e porque foi de iniciativa das alunas.

Pessoas com preguiça e desonestidade intelectual dizem que a intenção é um contrassenso porque o colégio tem regras. Convenhamos que não é um argumento forte, afinal, regras podem e são mudadas constantemente na nossa sociedade e é inegável que o código normativo é impositivo. Espantosamente o Colégio Anchieta chegou a um consenso com seu corpo discente, a despeito de ser um colégio de padres.

Ainda assim eu gostaria de explorar o seguinte trecho do manifesto:

“Ao invés de humilhar meninas por usar shorts em climas quentes, ensine estudantes e professores homens a não sexualizar partes normais do corpo feminino. Nós somos adolescentes de 13-17 anos de idade. Se você está sexualizando o nosso corpo, você é o problema.”

Para contrapor este argumento, eu cito o seguinte texto:

“Apesar de amplamente difundidas, as idéias de Freud sobre sexualidade infantil ainda são muito pouco compreendidas e, muitas vezes, são concebidas de forma equivocada e parcial. Desde o século XIX, com ênfase para a publicação de “Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade”, Freud atentou para a existência da sexualidade infantil, para o desejo que a criança sente em possuir a mãe, em torná-la objeto de seu desejo. A criança possui zonas erógenas, sente prazer com seu próprio corpo e a sexualidade faz parte de todo o desenvolvimento humano, desde o nascimento, a amamentação, a adolescência, até a morte. Para a época, a teoria de Freud sobre sexualidade infantil foi considerada imoral e desrespeitosa, o que, atualmente, parece um grande absurdo.

A questão é que a sexualidade existe em todas as etapas da vida, e não possui nenhuma relação com inocência (ou falta de) – cá entre nós, a associação entre sexualidade e culpa, ou falta de inocência é algo que, infelizmente, nós mesmos é que incutimos nas cabeças de nossas crianças e, “graças” a isso, geramos adultos insatisfeitos ou obcecados pela sexualidade em suas diversas expressões, como, por exemplo, a forma física – cultuada e exigida mesmo na mais tenra infância. Aliás, a sexualização (e NÃO sexualidade) que, muitas vezes, é apresentada de formas tão “inocentes” como concursos de beleza infantil, e a forma como os padrões de “certo” e “errado” sobre o que é ser bonito – e aceito – em nossa sociedade, é que gera efeitos de grandes proporções na personalidade da criança, na forma com que essa se relaciona com os demais e com sua própria sexualidade.”

Então eu vejo ainda certo ranço de moralismo hipócrita cristão quando as alunas apontam que existe problema na sexualização do corpo. Todo ser vivo nasce com uma sexualidade e seu corpo expressa tal sexualidade em seus traços anatômicos os quais, graças aos Deuses, fazem com que pessoas sintam atração por outras pessoas e propaguem a espécie. Sexualizar é parte da sexualidade, pois possuímos atributos que dão caráter sexual , dão conotação erótica ao corpo do ser vivente. O problema, portanto, não está na sexualização, mas na objetificação, no fetichismo, na sujeição da mulher.

O discurso de nossa sociedade é dúbio e parcial. Os códigos de condutas são rígidos para a mulher, mas são liberais para o homem. Enquanto a educação cultural impõem valores e virtudes para a mulher, a mesma educação cultural considera normal que o homem tenha mais flexibilidade diante destes mesmos valores e virtudes. Esse padrão dúbio é demonstrado nas regras sobre vestimentas. Notavelmente um homem pode se vestir como quiser sem sofrer qualquer tipo de restrição, coerção ou assédio. Uma mulher tem sua índole e reputação definidas conforme as roupas que veste. Este é o cerne do que as alunas protestam.

Existe uma diferença de discurso, quando a sexualização é feita mediante a objetificação da mulher, conforme a supremacia masculina determina e espera que a mulher seja sujeita e obediente ao homem. Quando a sexualização muda de objetificação para empoderamento, a mulher reconquista seu inegável direito sobre sua vida, seu corpo, seu desejo, seu prazer e sobre seus relacionamentos. Aqui a mulher é a protagonista, não a submissa. Aquilo que ela veste deixa de ter o sentido socialmente imposto que isto é sinal de que é uma mulher disposta, disponível e convidando o homem para uma abordagem sexual. Este é o objetivo do movimento das alunas.

Eu aplaudo a iniciativa das alunas e estimo que em breve sejamos uma sociedade evoluída, onde todos tem o direito e a liberdade de amar quem quiser, quantos quiser.

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3 ideias sobre “Ponderações sobre uma boa causa

  1. Sexo

    Sexualização é algo natural e o maior responsável é a puberdade. Não se trata de sexualidade infantil, mas adulta.
    Sexualidade infantil é antes dos 9 anos de idade, antes da puberdade.

    Resposta
    1. betoquintas Autor do post

      o interessante e importante a se frisar: sexualidade infantil. as pessoas ditas adultas creditam que sexualidade é apenas penetração. ah, o dito adulto desperdiça tantos sabores… };)

      Resposta

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