A Ordem de Gash

Em plena Nova Iorque, o Congresso de Editoras e Escritores reunia milhares de pessoas que trabalham ou gostam de livros. Muitos lançamentos, promoções, celebridades e eventos disputavam a atenção do público. Não faltavam filas e cosplayers.

Entretanto a massa congelou e calou enquanto surgia, vindo da entrada de expositores, um grupo de pessoas que pareciam sacerdotes, vestidos com roupas de couro e enfeites metálicos. Dentre a comitiva, sobressaía a figura de uma mulher que devia ser a chefe deles, mas as pessoas queriam saber do que se tratava, se eram alguma atração extra, outro tipo de cosplayers ou é simplesmente um golpe de marketing para algum lançamento.

Com toda pompa e cerimonia, a mulher misteriosa e seus asseclas ocupam a parte central da feira, onde havia um enorme estande. Não penduraram cartazes nem dispuseram livros nas prateleiras, mas colocaram uma decoração com couro e metal pelo estande e começaram a fazer suas arengas por celulares, tablets e readers, propagandeando que aqueles aparelhos teriam mais títulos do que toda a Biblioteca de Alexandria em seus anos dourados. Com empáfia e drama, a mulher misteriosa, enfim, declarou quem eram e o que vieram fazer.

– Mortais, pobres mortais, que ainda necessitam de papel e tinta para fazer um livro, que precisam de uma editora, escritor e livro, vinde a nós. Libertem-se de sua dependência de intermediários e farsantes. Adquirindo os nossos aparelhos, qualquer pessoa terá todo e irrestrito acesso, a qualquer obra, texto ou enciclopédia que existiu ou virá a existir. Mediante a vontade de nossos clientes, o usuário poderá dispensar de editoras, escritores e livros, cada um poderá vivenciar lividamente suas mais ocultas e inconfessas fantasias, sem censura, sem limite. Venham a nós e que cada um seja o autor e ator de sua própria saga!

A maioria deu de ombros e seguiu com seus passeios, mas um pequeno grupo curioso não resistiu e adquiriu ao menos um dos aparelhos. O pobre e desconhecido escritor observa os aparelhos, com interesse e desconfiança. Com certa astúcia e arte, consegue se aproximar da mulher misteriosa e lhe lança algumas perguntas.

– Diga-me, senhora, por acaso as minhas obras também são parte do acervo de sua organização?

– Sem dúvida, Profeta do Profano! Eu devo dizer que o senhor é um de meus favoritos.

– Oh! Mas isso… isso é impossível!

– Talvez para o método tradicional e tendencioso do mercado editorial, mas nós viemos revolucionar tudo isso. Eu não diria que nossos aparelhos possuem todas as obras existentes se a sua estivesse ausente. Eu diria mesmo que seus escritos vieram em bom tempo, quando eu estava ainda em dúvida de anunciar minha empresa ao público. O senhor é tão… incomum e ousado, que deu-me ânimo em meu empreendimento.

– Eu fico lisonjeado, mas creio que a senhora não disse o nome de sua empresa.

– Ordem de Gash.

– Como a ordem fictícia citada na obra de Clive Barker?

– Sim, mas nós não somos fictícios, como pode ver. Nossa organização foi fundada em 1648 na Inglaterra, como resultado da conjugação das guildas dos mestres de mecânica e dos mestres de prótese. Fazer caixinhas ou relógios ficou fácil e banal demais. Com tantas guerras em andamento, os reinos tinham necessidade de máquinas mais específicas e nós nos especializamos em equipamentos tanto de destruição quanto de cura. Isso parece um tanto imoral, mas Marte tanto é a lança quanto a enxada, tudo depende do usuário.

– Por acaso Philip Lemarchand também era real?

– Sem duvida, ele foi real, mas ele não foi um mero construtor de caixas de música, ele foi um dos primeiros que construiu aparelhos que criavam uma realidade virtual. Infelizmente Clive Barker ficou mais interessado em explorar a paranoia humana diante da tecnologia. Minha antecessora chegou a pensar em processar o autor, mas naquela época não era objetivo da nossa organização ser conhecida do público.

– O que mudou para que a senhora viesse em um evento tão populoso para, digamos, sair do armário?

– O Pós-Moderno. O ser humano começou a perceber que, digamos, sua humanidade é mais conceitual do que concreta. O ser humano descobriu que aquilo que faz do homem ser homem não está apenas em seu corpo físico, que o próprio conceito de corpo não se restringe a elementos orgânicos, que mesmo “organismo” pode significar um conjunto de tecidos ou máquinas, que o ser humano é uma máquina desejante. Aos poucos, mesmo o conceito e divisão entre real e virtual se desfez com a chegada de novas tecnologias, então eu percebi que era o momento certo de nos anunciarmos publicamente.

– Eu conheço a obra de Derrida, Deleuze e Guattari, eu acompanho com interesse a desconstrução de conceitos arraigados sobre o gênero, mas eu não vejo como sua apresentação de hoje possa conjugar com mecânica e próteses.

– Então me permita esclarecer. Uma vez que a tecnologia pode remover, copiar e substituir com eficiência qualquer parte do corpo humano, a mesma tecnologia pode remover, copiar e substituir com eficiência qualquer parte da realidade humana. Os equipamentos que hoje nós expusemos e vendemos é o primeiro passo. Em breve, pretendemos criar todo um universo, um mundo e uma humanidade singulares em si próprias, nem artificiais, nem orgânicas, nem reais, nem virtuais, nem carnais, nem espirituais. Nós tornaremos possível a humanidade multiversa.

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