Além da sociedade cisgênera

Texto de Daniela Andrade.

Original em Blogueiras Feministas.

Outro dia, vi uma mulher cisgênera dizendo que era um absurdo eu dizer que não tinha nascido homem ou mulher, que isso dava força para os fanáticos religiosos que falam criminosamente em ideologia de gênero, como se estivéssemos impondo aos outros quais seus gêneros. Que eu não poderia negar a realidade objetiva.

O que não entra na cabeça dessas pessoas cisgêneras é que: sexo/gênero não são dados postos, entregues à humanidade por alguma entidade mítica, mas descritos por uma sciencia sexualis criada e gerida por humanos, diga-se de passagem, humanos cisgêneros, que foram quem desde sempre tiveram acesso ao saber e fazer acadêmico-científico. As pessoas trans desde sempre estão alijadas desses espaços.

E, se formos ler Thomas Laqueur, por exemplo, vamos verificar que a divisão do mundo em absolutamente dois sexos não é algo imemorial. Laqueur debruçando-se sobre a história da sexualidade humana, como Foucault em sua trilogia, dão conta que o mundo até então era tido como tendo apenas um sexo, em que a mulher seria uma deformação do masculino, ou o sexo masculino não desenvolvido. Daí sua inferioridade considerada dentro do patriarcado.

Pois bem, vejam que se inclusive as pessoas cisgêneras modificaram a concepção de sexo-gênero, por que eu, pessoa trans, tenho que engolir as teorias de sexo-gênero, ou ante isso, a imposição do sistema sexo-gênero sobre a minha pessoa, de forma acrítica?

O corpo é meu, eu ressignifico o meu corpo como me cabe. Não estou dizendo como ninguém tem que ver o próprio corpo, não estou impondo como as pessoas precisam simbolizar e significar o próprio genital por exemplo, de forma que não quero que façam o mesmo comigo.

Quero que parem de se intrometer no meu corpo e na forma como eu vislumbro meu corpo, isso só compete a mim. E aí que reside a leviandade e a mentira desses fanáticos religiosos. Não estou impondo nada, ao contrário do que as pessoas cisgêneras desde sempre fizeram, estou propondo às pessoas trans outras formas de significarem e simbolizarem os próprios corpos, em detrimento das pressões e imposições sociais.

Se eu quero ou necessito mudar o meu corpo, o meu genital, isso deveria dizer respeito apenas a mim. Isso não muda o mundo, isso não muda a vida de ninguém, apenas a minha. Não estou ditando que genital cada um deve ter, que corpo cada um deve ter, estou dizendo que não sou obrigada a acatar imposições que legitimam corpos cisgêneros e a identidade cisgênera como corretos, “de verdade”, “normais”, o que deve ser perseguido pelas pessoas trans. Inclusive porque as pessoas trans podem ter os mesmos corpos das pessoas cisgêneras, sem modificar absolutamente nada. Pois a identidade de gênero não é algo do aparato anatômico, mas do psíquico.

Se as pessoas cisgêneras impõem que meu genital é masculino ou feminino, eu pergunto: preciso realmente acatar o que a ciência cisgênera determinou para mim? Por conta do quê? A ciência, ou melhor, os cientistas cisgêneros ao longo da história já determinaram cada coisa absurda, por exemplo que as pessoas negras eram menos inteligentes, e diziam comprovar com estudos; que só me leva a crer que deveríamos deixar de falar em ciência como dogma ou religião.

Aliás, para além do que diz a biologia, que só pode descrever partes anatômicas dos corpos, eu não sou apenas um ser biológico, mas também um ser social e que possui subjetividade. Ou seja, não é porque alguém determinou que corpo eu tenho, que genital eu tenho, qual é meu gênero, que eu devo acatar. Estamos falando de mim, não de você.

Meu corpo pode ser simbolizado e ressignificado para além do que a sociedade cisgênera me impõe, o nome disso é resistência, é dizer não à colonização das pessoas cisgêneras sobre nossos corpos, nossas identidades, nossas subjetivações.

Meu gênero nunca esteve instalado no meu genital e na minha anatomia, e meu genital, por exemplo, só terá sentido pra mim se eu assim simbolizá-lo como uma parte de mim com significações benéficas. Sou mulher independente do meu genital, inclusive porque não saio mostrando ele por aí, as pessoas se relacionam com a Daniela e não com o genital da Daniela.

A forma como a Daniela vê o próprio corpo não deveria dizer respeito a você, mas à Daniela. Assim como a forma que você vê seu corpo não diz respeito à Daniela. Mas para além disso, tanto a Daniela precisa respeitar como você se vê e quer ser tratado ou tratada, quanto vice-versa.

Refuto as imposições do que deve ser meu corpo, do que deve ser meu genital e do que deve ser a pessoa que eu sou. É preciso respeitar as individualidades e singularidades de cada pessoa pois não somos robôs, cópias perfeitas uns dos outros.

A forma como você enxerga o mundo, enxerga seu corpo e enxerga o sistema sexo-gênero, pode não ser a forma como eu faço a mesma coisa. E daí? Qual o enorme problema na sua vida? Muda o que nos seus planos se eu vejo o mundo, meu corpo e meu genital de forma diferente da sua?

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