A construção da identidade de gênero e da orientação sexual

Texto de Daniela Andrade.

Original em Blogueiras Femininas.

No meu entendimento, a construção tanto da identidade de gênero quanto da orientação sexual perpassam um constructo biopsicosocial, de forma que não há de se secundarizar nem as contribuições hormonais, genéticas, cerebrais, psicológicas e sociais para entender a construção da sua identidade de gênero e do seu afeto e desejo, o que não se dá quando falamos de etnia.

Até onde eu saiba, negros nascem negros, brancos nascem brancos, amarelos nascem amarelos, há aí claramente e definitivamente apenas um componente genético. Não há nenhum componente psíquico em relação à etnia que não seja aceitar que não existe etnia pior ou melhor que a outra, recuperar a própria autoestima quando se vive num mundo que diz que pessoas da sua etnia são inferiores que pessoas de outra.

Se eu for acreditar que a identidade de gênero é meramente uma construção anatômica e genética, então, por exemplo, pessoas que se reconhecem mulheres mas nascem sem útero, ovário e canal vaginal, porém com combinação cromossômica XX, como se dá com algumas pessoas com agenesia vaginal, nesse caso ela seria menos mulher que as outras? Uma mulher de segunda categoria?

Se gênero fosse meramente uma construção anatômica, assim que eu extirpasse o aparelho reprodutor de uma pessoa, ela imediatamente se identificaria como alguém de outro gênero.

Sem falar nas pessoas que nascem com outra combinação cromossômica que não as XX e XY, nesse caso, devo imaginar que sendo a identidade de gênero algo puramente genético, não devem se identificar nem como homem e nem como mulher.

Sem falar que há infinitas socializações e respostas à tentativa de se socializar um ser humano desse ou daquele gênero. Aliás, se socialização definisse tudo, David Reimer, o menino criado como menina após a amputação do seu pênis ainda bebê, supervisionado pelo psicólogo John Money, teria realmente se identificado como menina. Herculine Barbin, clássico caso de pessoa intersexo descrito por Foucault, não teria se suicidado.

Enfim, é muita leviandade ver feminista cisativista fazendo comparação entre uma mulher que inventou uma farsa, mentindo sobre fatos da sua vida que não aconteceram para se dizer negra, com pessoas trans.

Se bem que, nada novo debaixo do sol, a vida dessas cisativistas é perseguir mulheres trans. Elas só estão bem quando as mulheres trans estão perdendo, estão sendo discriminadas ou agredidas. Elas só se sentem melhor quando estão deslegitimando mulheres trans, quando estão verificando que as algemas das mulheres trans estão bem atadas para em seguida mentirem que isso se chama luta de mulheres. Se bem que, pode até ser, luta de mulheres ativistas do ódio.

Parecem os fundamentalistas religiosos, que esperam qualquer fio de cabelo fora do lugar de algum gay, pra dizerem que o homossexualismo (sic) é uma perversão que vai destruir o mundo. Eu nem perco meu tempo debatendo com essas cisativistas, pois afinal de contas, argumentar com quem resolveu renunciar ao uso da razão é como dar remédio a um cadáver e esperar que ele melhore, diria Paine. É como falar com as paredes.

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